Edição 36
Março/2013

A nada mole vida dos coadjuvantes

Mark Webber, Felipe Massa, Sergio Pérez, Romain Grosjean e Nico Rosberg terão mais uma chance de mostrar serviço, mas podem esbarrar mais uma vez no poderio dos companheiros

FAGNER MORAIS, de São Paulo
Sebastian Vettel, Fernando Alonso, Jenson Button, Kimi Raikkonen e Lewis Hamilton têm escudeiros de luxo que sempre precisam mostrar algo a mais além da condição de entrar na briga por vitórias. (Fotos: Mark Thompson, Manuel Queimadelos e Paul Gilham/Getty Images)
uando se olha para as duplas de pilotos das cinco principais equipes da F1 na atualidade, é nítida a distinção entre os números 1 e 2. Analisando resultados, retrospecto e até mesmo a influência dentro de cada time, é possível determinar Sebastian Vettel muitos passos à frente de Mark Webber na Red Bull, assim como Fernando Alonso em relação a Felipe Massa na Ferrari.

A distância é ainda maior quando se menciona a dupla da McLaren, com o experientíssimo Jenson Button como primeiro piloto, escoltado pelo jovem Sergio Pérez. Da mesma forma, a Lotus traz o gelado Kimi Räikkönen e o inconstante Romain Grosjean. Embora seja, em teoria, a dupla mais homogênea entre as equipes tops da F1, a Mercedes também tem sua distinção, uma vez que Lewis Hamilton foi contratado a peso de ouro para liderar o time e finalmente coloca-lo no caminho das vitórias, ainda que do outro lado dos boxes esteja o competente e subestimado Nico Rosberg.

Destas cinco equipes, é possível formar dois grupos: os protagonistas, com um poderoso elenco composto por Vettel, Alonso, Button, Räikkönen e Hamilton, sempre apontados como favoritos ao título na F1; e dos coadjuvantes de luxo, com Webber, Massa, Pérez, Grosjean e Rosberg. Nesta última lista, teoricamente, todos podem surpreender e beliscar vitórias aqui e ali, mas será que todos têm cacife suficiente para endurecer a disputa com seus poderosos pares?
Veteraníssimo, Webber terá um ano crucial: ou prova que é muito mais do que um segundo piloto ou pode iniciar seu adeus à F1
Com exceção do polêmico e falastrão Helmut Marko, a cúpula da Red Bull entende que sim, que é possível Webber ser tão eficiente e vencedor quanto o tricampeão Vettel. Defendido com fervor por Christian Horner e Didi Mateschitz, o oceânico tem prestígio de sobra em Milton Keynes, mas o que conta contra si é seu retrospecto de ‘nadar, nadar e morrer na praia’.

Aos 36 anos, o piloto mais experiente da F1 atual chegou a liderar a classificação do Mundial em 2010, “nada mal para um segundo piloto”, mas caiu de rendimento no fim daquele ano e teve de se conformar com a terceira posição. Pior ainda foi ver Vettel, então seu desafeto, no topo do mundo. 2011 foi um ano para ser esquecido pelo oceânico, que só venceu uma vez — no GP do Brasil — graças à misericórdia de Vettel e da Red Bull, embora todos ali neguem com veemência que tenha sido um presente.

Já no ano passado, Webber brilhou mais uma vez na primeira metade da temporada e novamente ensaiou um ataque ao título. Mas, de forma curiosa, nunca mais ganhou corrida depois que a Red Bull renovou seu contrato por mais um Mundial. Veteraníssimo, Mark garante que ainda tem muita lenha para queimar, mas com bons valores surgidos na ‘Escolinha do Professor Marko’ emergindo, como Daniel Ricciardo, Jean-Éric Vergne e António Félix da Costa, o australiano terá um ano crucial: ou prova que é muito mais do que um segundo piloto ou pode iniciar seu adeus à categoria.

De todas as equipes top da F1, a McLaren foi a que mais perdeu. A saída de Hamilton no fim de 2012 enfraqueceu muito o time e deixou boa parte da responsabilidade pelo sucesso – ou fracasso – neste ano nas costas de Button, o novo líder de Woking. Sem contar com nenhum piloto de peso dando sopa no mercado, Martin Whitmarsh teve de recorrer ao novato de maior potencial da F1 nos últimos dois anos: surpreendendo muita gente, a McLaren trouxe Sergio Pérez e sua tequila para apimentar a esquadra em 2013. Mas não é o bastante para suprir a ausência de Lewis.

Dez anos mais novo que Button, Pérez chega a Woking debaixo de pressão, ainda que esteja em seu primeiro ano na equipe. Ora, substituir um vencedor e ícone como Hamilton não será fácil, e ‘Checo’ terá de saber lidar com isso e corresponder em termos de performance e resultados. Caso o jovem de Guadalajara não consiga andar minimamente próximo do ritmo de Button, o chicote vai estralar por lá, já que a McLaren é dessas equipes que não tolera fracassos. É só lembrar de Heikki Kovalainen, que só durou dois anos no time.

Pérez é promissor e talentoso e mostrou isso pelo menos no seu primeiro ano e meio de F1. Só em 2012, quase venceu na Malásia, lidou bem com os pneus e beliscou um pódio em Montreal e chegou em segundo em Monza, templo sagrado do automobilismo mundial. Mas foi só assinar com a McLaren que tudo mudou e ‘Checo’, que parecia ser o novo príncipe da F1, virou sapo num passe de mágica. Não à toa, Sergio chegou a Woking debaixo de muita desconfiança. ‘Será que compraram gato por lebre?’, devem ter pensado. Mas Whitmarsh aposta muito no asteca não só para ser o companheiro de Button, como para disputar o título no futuro. Fica claro, porém, que Pérez precisa convencer — e, de preferência, vencer — se quiser ter vida longa na ex-equipe do ídolo Ayrton Senna.
Pérez é talentoso e mostrou isso em seu primeiro ano e meio de F1. Mas foi só assinar com a McLaren que tudo mudou e ‘Checo’, que parecia ser o novo príncipe da F1, virou sapo. Será que compraram gato por lebre? (Foto: Ker Robertson/Getty Images)
Grosjean ganhou uma rara segunda chance e renovou
com a Lotus. Poderá ser a última oportunidade
para se livrar da pecha de "maníaco da primeira volta"
e confirmar o talento que tem
Quem vive uma situação que vai além da vã filosofia é Romain Grosjean. Uma das boas revelações do automobilismo nos últimos anos, o jovem franco-suíço fez, num cômputo geral, um Mundial bastante razoável em 2012, sua primeira temporada completa na F1. Não ficou tão perto de vencer, como Pérez, mas beliscou três pódios e bons pontos aqui e ali. Mas Romain ficou marcado mesmo foi pelos muitos erros em largadas. O fundo do poço foi no GP da Bélgica, onde causou uma batida que levou consigo quatro pilotos e, indiretamente, foi responsável por tirar de Alonso o tri do ano passado. Suspenso do GP da Itália, Grosjean pareceu ter aprendido a lição, se dizendo mais centrado e determinado a ficar longe das tretas. Discurso pronto, nem poderia ser diferente.

Para 2013, o piloto ganhou uma rara segunda chance e renovou com a Lotus, que chegou a negociar até com Kamui Kobayashi e Luiz Razia para seu lugar, num claro indicativo que a cúpula de Enstone não estava nada satisfeita. Graças aos petrodólares da Total e do apoio do padrinho Éric Boullier, Grosjean acabou ficando, mas é outro que começará o ano sob grande pressão. 2013 poderá ser a derradeira oportunidade para Romain se livrar de vez da pecha de “maníaco da primeira volta”, confirmar o talento que tem e ajudar os aurinegros a alcançarem o topo da F1.
Nico Rosberg não terá mais a sombra de Michael Schumacher ao seu lado na Mercedes. Mas terá outro osso duríssimo, já que ganhou a companhia de Lewis Hamilton
Apagado desde 2010, Felipe Massa voltou a ser aquele piloto combativo que lutou com Hamilton pelo título de 2008 e começa o novo ano renovado e de bem com a vida. (Foto: Mark Thompson/Getty Images)
De todos os citados coadjuvantes, quem menos se encaixa nesta definição é Nico Rosberg. Afinal, o alemão conseguiu a proeza de colocar ninguém menos que Michael Schumacher no chinelo e fez do heptacampeão o verdadeiro coadjuvante nos últimos três anos de Mercedes. Enquanto Rosberg fez história e até conquistou pole e venceu corrida — no GP da China de 2012 —, Schumacher não passou de um pódio em Valência, também no ano passado.

Neste ano, Nico não terá mais a sombra de Michael ao seu lado nos boxes. Mas terá outro osso duríssimo dentro da Mercedes, já que ganhou a companhia do amigo e ex-parceiro dos tempos de kart, Lewis Hamilton. Atrevido, Rosberg já afirmou que não se intimida com o novo companheiro de equipe, assim como agiu quando teve Schumacher como parceiro nos últimos anos. E como prova de que tem muito potencial e pode sim surpreender, Nico foi simplesmente o mais rápido da pré-temporada em Barcelona, enfiando 0s4 no novo companheiro de equipe com o promissor W04. Eis um coadjuvante que tem todas as condições de se apresentar como protagonista em 2013.

Mas, de todos os considerados segundos pilotos, o que certamente terá a atenção, principalmente dos espectadores brasileiros, é Felipe Massa. Ofuscado, quase saiu de cena no ano passado, mas voltou das férias de verão de forma triunfal, brilhou e foi um dos atores principais do fim da temporada, protagonizando a cena do emocionante pódio em Interlagos.

Apagado desde a temporada 2010, coincidentemente quando Alonso se juntou ao time, Felipe voltou a ser aquele piloto combativo que lutou de igual para igual com Hamilton pelo título de 2008 e conquistou dois pódios nas etapas finais do Mundial passado, no Japão e no Brasil, e começa o novo ano renovado, cheio de energia e de bem com a vida. É verdade que ele tem no espanhol seu mais difícil adversário e companheiro de equipe. Matreiro, Alonso sabe como poucos capitalizar em torno de si as atenções da Ferrari, mas Massa tem muito prestígio em Maranello, principalmente com Stefano Domenicali e com o ‘capo’ Luca di Montezemolo.

Obviamente, Fernando abre 2013 como primeiro piloto. Afinal, é o bicampeão do mundo, ganha um salário astronômico e colocou a Ferrari na luta pelo título nos últimos anos. Mas não seria uma surpresa completa se Massa reeditasse seu histórico ano de 2008, quando deixou o então primeiro piloto Räikkönen comendo poeira e se tornou o protagonista em Maranello. O que é mais interessante nisso tudo é que Felipe, assim como no ano passado, abre a temporada sem ter a certeza sobre seu futuro, mas diferente do ano passado, não parece nem um pouco pressionado ou tenso. Sinal evidente de quem confia no próprio taco e acredita que poderá manter sua grande fase em 2013.
 

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