Edição 36
Março/2013

Análise: Só sei que nada sei

Incerteza dos testes e homogeneidade do bolo deixam cenário da F1 parecido com o de 2012. Assim, retrospecto se torna fator-chave e põe Vettel como favorito

VICTOR MARTINS, de São Paulo
Vettel: “Nunca tivemos um teste de inverno tão inconclusivo como este”. (Foto: Paul Gilham/Getty Images/Red Bull)
A maior certeza que se tira dos 12 dias de pré-temporada da F1 é a incerteza, bem representada nas palavras de Sebastian Vettel: “Nunca tivemos um teste de inverno tão inconclusivo como este”. Digamos que todo ano seja assim, mas nunca foi tão assim — até porque, se for para tirar algo, a Mercedes é quem aparece na crista da onda e a própria Red Bull do tricampeão surge como candidata a fiasco.

São premissas difíceis de acontecer. A tese, então, é inválida.

Mas dá para pescar uma série de indícios combinada com as informações aqui e ali. A chegada de Lewis Hamilton mudou a Mercedes como um todo, principalmente na questão de seu staff. Paddy Lowe está por vir, Toto Wolff largou a Williams — mas não suas ações —, Ross Brawn ainda segue, e o carro é rápido. Mas é rápido em duas pistas de média velocidade e nas condições que o disfarce dos treinos impõe. A parceria com Nico Rosberg transforma a dupla na mais parelha do grid — subestima-se muito a capacidade do alemão, que é ótimo piloto. A dúvida que recai sobre a flecha prateada é nas longas distâncias, e aí tudo depende dos Pirelli.

O diretor-esportivo Paul Hembery prometeu que as gomas desmanchariam muito mais do que as do ano passado. Chamo o tricampeão e profeta Vettel de novo para sua avaliação em pílula: “Os pneus duravam, no máximo, uma volta”. Se parece um exagero, o discurso sobre os pneus foi recorrente e similar em todos os níveis de equipes. Lá na irmã da Red Bull, a Toro Rosso, Laurent Mekies, diretor de performance, expressou sua preocupação. “Ter um entendimento de como funcionam estes pneus vai levar muito mais tempo do que a gente esperava”.

A Red Bull tinha outros pontos para cuidar além dos pneus. O RB9 sofreu com problemas de confiabilidade, e quando quis ir à pista para verificar se havia solucionado tudo, o mau tempo em Barcelona atrapalhou. Muitos até acham que se trata de um esconde-esconde dos atuais campeões – o que não seria de se estranhar; Felipe Massa, por exemplo, vê que é o carro mais rápido do grid. Mas se o assunto é falha, ninguém superou a Lotus.

Os dois pilotos, de personalidades bem diferentes, têm discursos alinhados. Kimi Räikkönen, que teve um piriri – usando de um eufemismo – no penúltimo dia de teste, disse que o carro estava igual quando o guiou no dia seguinte – usando de uma hipérbole. Romain Grosjean admitiu que o time não chega 100% a Melbourne e que o time está em nível similar ao do ano passado, “entre os quatro ou cinco primeiros”. Pelo menos, a avaliação é de que o E21 é veloz.

Aí tem a McLaren. Esquisita, essa equipe. Porque começou com o melhor carro de 2012. Terminou com o melhor carro. Não disputou o título. Perdeu gente, como Hamilton, mas manteve a mesma base. Ficou Jenson Button, o excelente Button, e trouxe Sergio Pérez, um talento com asterisco. O negócio lá com o MP4-28 é o seguinte: só sei que nada sei.
Esquisita, a McLaren. Começou com o melhor carro de 2012. Terminou com o melhor carro. Mas não disputou o título
A “200 vezes melhor” Ferrari também representa um ponto de interrogação. Porque não foi assim que o próprio Fernando Alonso avaliou de prima, quando disse algo como “estamos onde terminamos no ano passado”. Massa também disse que se trata de uma evolução, mas não foi muito convincente. Depois, o brasileiro afirmou que não vê a equipe como uma das mais rápidas. De fato, seria surpresa ver os carros vermelhos na ponta. Até porque usam o mesmo túnel de vento da McLaren socrática.

Sauber. Nico Hülkenberg. Mas tão com uma cara de que vão aprontar... aliás, o alemão disse a pessoas próximas logo depois de seus primeiros testes pela nova equipe em Jerez que o C32 é rápido pacas, não com essas palavras, claro, sorrindo de orelha a orelha. E desde o ano passado, a Sauber se tornou referência em alguns pontos, como o escape e a parte traseira como um todo. É ponto pacífico que o modelo, se não for o mais rápido, é um dos em curvas. Hülk é grande candidato a ser protagonista da temporada, enquanto o mexicano Esteban Gutiérrez, coitado, há de penar.

A atrasada Williams também parece ter dado um salto. Tem gente que fala que Pastor Maldonado vai conseguir uma nova vitória neste ano. Até pode ser. O raio do FW35 é rápido, diferente do antecessor, sobretudo com o escape de efeito Coanda, e o carro não deu dor de cabeça para os engenheiros e mecânicos. É que Pastor precisa dar uma mudada na cabeça, aproveitando que vai precisar adaptar um pouco do estilo por causa do novo bólido. Valtteri Bottas tem cara e jeito de coxinha, portanto não há o que esperar dele algo diferente de coxinhice.

A outra atrasada do grid, a Force India, só escolheu Adrian Sutil agora, e o rapaz, que ganha nova chance, vai ter de usar as primeiras provas para se reacostumar com essa coisa de brincar de F1. Isso ao lado de um Paul di Resta que levou um sabão de Hülkenberg do meio da temporada passada em diante e que se sentiu, oh!, todo ofendido por não ter sido chamado por McLaren ou Mercedes para suas vagas livres. O VJM06 é honesto e não quebrou, e como a dupla é igualmente honesta, tende a produzir resultados, digamos, honestos.

A Toro Rosso tá ali quietinha com seus molecotes Jean-Éric Vergne e Daniel Ricciardo, provavelmente vai ocupar ali os postos entre 13º e 16º, mas não aparenta ter feito um mau trabalho no STR8, o ‘straight’. Isso porque ainda não tem a mão na massa de James Key, que segue a cartilha de Adrian Newey e deve ser um destes novos magos da F1. Os rubrotaurinos da ala pobre se consideram um novo time com as mudanças técnicas e devem bater um pouco de cabeça neste começo de ano. A tendência é que a evolução seja evidente na metade da temporada.

A Caterham vai fazer de 2013 um rito de passagem para 2014, e isso é abertamente falado por seu novo comandante, Cyril Abiteboul. Charles Pic e Giedo van der Garde – e suas granas todas – choram. A Marussia fez um carro de pires na mão e teve de se preocupar também em ver quando Luiz Razia ia depositar a grana. A segunda parcela não caiu, e lá foram eles para cima de Jules Bianchi. Junto com Max Chilton, ambos hão de sumir ali no fundo do grid junto com os verde-amarelos do time rival.

2013 aponta começar como 2012, sobretudo pelo número de vencedores sortidos e situações inesperadas. Neste cenário em que ninguém sabe de si por completo, quanto mais do outro, é mais prudente apostar em Vettel pelo retrospecto. Em uma nova disputa com Alonso, claro. E, agora com um talvez entre parênteses, com Button e Räikkönen representando terceira e quarta vias. Qualquer Hamilton, Rosberg ou Hülkenberg – já pensou? – que aparecer por aí é bem-vindo, mas já não assombroso, nessa F1 democrática.
Felipe Massa afirmou que não vê a Ferrari como uma das equipes mais rápidas. De fato, seria surpresa ver os carros vermelhos na ponta. (Foto: Ferrari/Divulgação)
 

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