Edição 36
Março/2013

O desafio da mudança

Ex-menino de ouro da McLaren, Lewis Hamilton toma rédeas da própria vida e assume o maior risco da carreira: o de erguer a Mercedes e fazer dela uma equipe verdadeiramente grande

EVELYN GUIMARÃES, de São Paulo
Contratação mais badalada dos últimos tempos, Hamilton começa uma nova fase – e com o bolso cheio de dinheiro: fala-se em um acordo de US$ 100 milhões com a marca da estrela de três pontas. (Foto: Mark Thompson/Getty Images)
Tudo começou após o intervalo das férias de verão na Europa, mas mais precisamente entre os GPs da Bélgica e da Itália, no início de setembro. O primeiro a falar no assunto foi Eddie Jordan, o ex-proprietário da equipe na F1 e que hoje é um simpático comentarista da rede britânica BBC. O irlandês, sem muita frescura, cravou: “Lewis Hamilton acertou com a Mercedes e vai deixar a McLaren em 2013”. A notícia repercutiu, evidentemente, e ganhou força às vésperas da corrida em Monza. Apesar do muxoxo de Lewis na bancada da entrevista coletiva da FIA na pista italiana, quando questionado sobre as especulações, a faísca já havia virado um incêndio de grandes proporções.

Hamilton e a McLaren vinham em uma novela de meses e meses de negociações para a renovação de contrato. Confiante, a escuderia britânica, que criou e cuidou do piloto desde a infância, praticamente, e o levou à F1 e que lhe deu condições de faturar o primeiro título, sequer cogitava um eventual insucesso com relação ao novo vínculo. O acordo final, portanto, era encarado como uma questão de tempo. Porém, as negociações se tornaram mais e mais difíceis, para surpresa do próprio time e dos fãs.

E a saída se tornou inevitável. Lewis queria mesmo deixar a nave-mãe, para, enfim, viver a própria vida, longe das rédeas curtas de Ron Dennis e companhia. O inglês já não demonstrava mais o mesmo entusiasmo de outrora e as poles e as vitórias também não eram mais tão comemoradas assim. A alegria deu lugar à impaciência e certa intolerância com os erros e os abandonos por problemas mecânicos. Foi em Spa mesmo que o exemplo maior do distanciamento entre piloto e equipe ficou evidente.

O companheiro Jenson Button obteve a pole e a vitória naquela corrida da Bélgica, e foi o escolhido para usar uma nova asa dianteira. A decisão da equipe irritou Lewis, que usou o Twitter para mostrar toda sua indignação. O piloto chegou a publicar dados de telemetria para justificar seus argumentos. A McLaren não gostou nadinha, mas também não deu muito pano para manga, como é de seu feitio. Apenas minimizou o episódio, mas, aos olhos da imprensa, a crise já estava instalada. Hamilton não se deu por satisfeito e sobrou até para Button.

Assim, a situação quase insustentável acabou culminando com o acerto de Lewis com a Mercedes, para assumir o lugar de Michael Schumacher e tentar devolver a marca da estrela de três pontas a um lugar de destaque no cenário da F1. A confirmação do acordo aconteceu logo depois do GP de Cingapura, prova que Lewis dominou até ter de deixar a disputa por conta de um problema mecânico. O vínculo com a equipe alemã também significou a aposentadoria de Schumacher, que decidira definitivamente deixar a F1.
Lewis acertou com a Mercedes para assumir o lugar de Michael Schumacher e tentar devolver a marca da estrela de três pontas a um lugar de destaque no cenário da F1
Como uma das contratações mais baladas dos últimos tempos no Mundial, o negócio saiu caro para a Mercedes. O time chefiado por Ross Brawn fechou um acordo de três temporadas com Hamilton pelo valor que beira os US$ 100 milhões. E a McLaren, apesar das tentativas de sensibilizar Lewis, não conseguiu convencê-lo, nem com ofertas mais generosas.

Daí para frente, o campeão de 2008 apenas tratou de cumprir tabela, já que a confiabilidade do carro da McLaren o traiu ainda mais uma vez, no GP de Abu Dhabi, o que encerrou suas chances de se manter na luta pelo título. Ainda assim, o britânico conseguiu dois resultados importantes ao volante do MP4-26: uma vitória categórica no retorno da F1 aos EUA, em Austin — subindo ao pódio com chapéu de cowboy texano no lugar do boné —, e a pole-position na derradeira prova do ano, em Interlagos.

Com o fim da temporada 2012, encerrou-se também um vínculo de 13 anos entre o inglês e a McLaren. E as atenções de Hamilton se voltaram para a Mercedes, agora em definitivo. O piloto, inclusive, ganhou o aval da antiga equipe para iniciar os trabalhos com o novo time. Estava finalizada aí a primeira parte da carreira de Hamilton na F1.

E a manobra foi arriscada e agressiva, bem ao próprio estilo de pilotagem de Hamilton. Para conseguir sair do ninho, Lewis teve de assumir riscos, mas não demonstrou medo diante da grande responsabilidade que terá pela frente. Isso porque é dele o papel de recolocar a Mercedes entre as favoritas, coisa que o heptacampeão Schumacher não conseguiu.

O primeiro contato com a Mercedes foi bem tímido e desengonçado. Foi ainda no início de janeiro que Lewis fez uma visita à fábrica da equipe alemã, em Brackley, na Inglaterra. As fotos sorridentes não conseguiram disfarçar um ar pouco à vontade na nova casa. Mas bastou o primeiro contato com o carro para o semblante mudar. Hamilton se mostrou rapidamente ambientado com o time de pista e com Nico Rosberg, um novo, mas nem tanto, companheiro.

Mas Hamilton também é esperto. O inglês evitou grandes entusiasmos e promessas e chegou com os pés no chão à equipe, jogando a pressão nos ombros dos adversários. Lewis não se coloca entre os favoritos e não se vê na disputa do título. O piloto projeta uma Mercedes realmente competitiva em 2014, quando terá se adaptado completamente aos boxes prateados.

Porém, se os resultados vistos na pré-temporada se repetirem durante o campeonato, Hamilton deve antecipar os prognósticos. O que representará um quinto elemento perigoso na distribuição de forças do Mundial. Afinal, Lewis sempre foi o cara que apimentou as disputas e que sempre esteve, de uma forma ou de outra, na ponta, no olho do furacão, quando o assunto é briga direta na pista. O único campeonato que possui, na verdade, esconde um pouco o piloto arrojado e de manobras certeiras que apaixonam torcedores.
Em um lado mais pessoal, a nova vida parece mais prazerosa para Lewis. Pelo Twitter, sua rede social preferida, Hamilton não escondeu a felicidade das férias com a namorada, a cantora Nicole Scherzinger. Frequentemente compartilhava imagens, incluindo os bastidores das gravações musicais que fez com ela e com outros rappers norte-americanos. Mas o maior sucesso de suas postagens foram as peripécias de seu cãozinho Roscoe, um simpático filhote de buldogue que o acompanhou nos testes da Espanha e que agora tem até uma credencial da organização da Fórmula 1.

De fato, Lewis parece ter encontrado um pouco de paz e liberdade, que talvez seja a coisa que mais tenha ansiado neste tempo todo de McLaren. E, de bem com a vida, são os adversários que podem ter uma vida bem menos tranquila.
 

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