Edição 36
Março/2013

O equilíbrio do ‘Lado B’

Sauber e Force India avançam, Williams promete passo largo e Toro Rosso se reforça com o novo mago da F1. Juntas, as quatro indicam disputa acirrada e até eventuais vitórias

FAGNER MORAIS, de São Paulo
A briga na segunda metade do grid promete. Toro Rosso e Force India se reforçaram e devem incomodar Sauber e Williams, que não terão vida fácil. (Foto: Mark Thompson/Getty Images)
quilíbrio. Eis a melhor palavra para definir o que foi a temporada 2012 do Mundial de F1. Não só pelos sete vencedores diferentes nas sete primeiras corridas do ano, mas também porque equipes outrora relegadas ao ‘lado B’ da F1 tiveram a chance de brilhar. Quem apostaria, por exemplo, que a Sauber fosse ao pódio quatro vezes no ano passado? Nem mesmo o fã mais entusiasmado da Force India sonharia em ver sua equipe lutando pelo topo, como aconteceu com Nico Hülkenberg no Brasil. E nem mesmo Frank Williams imaginaria que, depois de ver sua lendária escuderia somar míseros cinco pontos em 2011, poderia voltar ao topo do pódio.

Pois tudo isso aconteceu no surpreendente e interessante ano passado, que ficou marcado pelo salto de qualidade das equipes médias no grid, sobretudo as citadas Sauber, Force India e Williams. A escuderia de Hinwil, inclusive, chegou a ameaçar a quinta posição da abastada Mercedes.

Depois de uma temporada histórica, 2013 promete ser ainda mais acirrado. Isso porque a Toro Rosso investiu pesado para deixar de ser apenas uma eterna promessa de pré-temporada e quer entrar de sola para se consolidar como uma das melhores do pelotão intermediário, deixando os tempos de vacas magras para trás e tentar fazer tão bonito quanto a coirmã mais rica Red Bull.

Mas é inegável que a Sauber abre a temporada na frente. Os suíços vêm de um ano épico, alcançando duas vezes o segundo lugar com Sergio Pérez, nos GPs da Malásia e da Itália, melhores resultados da história — tirando aí os três anos em que a escuderia foi administrada pela BMW. A Sauber tinha bons recursos para ameaçar as equipes do topo: o principal deles foi o bem-nascido C31, além da jovem e consistente dupla de pilotos formada por ‘Checo’ e Kamui Kobayashi.

No geral, a Sauber foi grande, sobretudo na primeira metade do Mundial, mas pecou pela irregularidade ao deixar de pontuar em oito provas, e isso acabou sendo determinante para a perda do quinto lugar para a Mercedes e, por consequência, dos dólares a mais que receberia da F1 pela melhor colocação nos Construtores.

Se o quinto lugar quase foi possível em 2012, por que não tentá-lo novamente em 2013? Essa é a promessa de Peter Sauber e Monisha Kaltenborn, a nova comandante de Hinwil. Para isso, a escuderia suíça construiu o C32 dotado de linhas arrojadas e visual belo e inovador, adotando o ‘cinza HRT’ como predominante. A julgar pelo bom desempenho e pelo equilíbrio exibido nos treinos da pré-temporada, o simpático time helvético poderá surpreender novamente.
Hülkenberg-Gutiérrez é uma dupla bem heterogênea.
O mexicano chega verde à F1, mas Nico só cresce e está em uma
equipe com potencial maior que o da Force India
A segunda vaga da Force India foi preenchida por Adrian Sutil aos 45 do segundo tempo, mas mesmo assim a equipe tem de tudo para fazer um bom campeonato. (Foto: Paul Gilham/Getty Images)
Mas a Sauber foi quem sofreu a mudança mais drástica em sua dupla de pilotos. Destaque de 2012, Pérez foi contratado pela McLaren para substituir Lewis Hamilton e deixou em Hinwil uma cobiçada vaga. Numa jogada de mestre, a equipe trouxe Nico Hülkenberg para o lugar do mexicano. Brilhante nas categorias de base e quase vencedor do GP do Brasil de 2012, o talentoso alemão fez dois bons anos como titular, na Williams e Force India.

Mas era preciso garantir sobrevivência à equipe, e Kamui Kobayashi, por mais que fosse carismático e tivesse feito sua melhor temporada, tais qualidades não pagavam a conta. Sem saída, Monisha e Peter Sauber tiveram de dispensar o japonês para fechar com Esteban Gutiérrez e manter o polpudo patrocínio do bilionário Carlos Slim e sua gigante Telmex.

Hülkenberg-Gutiérrez é uma dupla bem heterogênea. O jovem de Monterrey chega bem verde à F1 e vai ter de aprender na marra como o negócio toca. Nico só cresce e está em uma equipe com potencial ligeiramente maior que o da Force India. Mas diferente das últimas temporadas, Hülkenberg será pela primeira vez o líder do time. Dependendo do seu sucesso na Sauber, portas em equipes maiores podem se abrir em 2014.

Se a Sauber abriu 2013 de maneira estruturada e bem organizada e planejada, no ritmo de um relógio suíço, do outro lado, mantendo a tradição, quem começou a temporada de maneira bem capenga foi a Force India. Isso porque o time chefiado por Vijay Mallya demorou uma enormidade para definir sua dupla de pilotos.

Paul di Resta, titular nos últimos dois anos, foi mantido. O escocês, no entanto, ainda não brilhou na F1, embora tivesse feito boas corridas vez ou outra. Mas nem de longe foi o cara apontado como futuro campeão mundial depois de ter levado a taça no DTM. Entretanto, Di Resta carrega o apoio da Mercedes, e tal fator acabou sendo determinante para manter os forceíndicos com um propulsor forte, mesmo que seu piloto não seja lá uma Brastemp.

Restava definir quem seria o parceiro do escocês em 2013. Muitos nomes circularam pelas salas de reunião com Mallya e Bob Fernley: Bruno Senna, Luiz Razia, Kamui Kobayashi... houve quem falasse até em Heikki Kovalainen. Mas desde o fim do ano o cenário ficou mais claro para dois pilotos: o reserva Jules Bianchi e Adrian Sutil, de rica história na equipe, mas vindo de um ano sabático.

No fim das contas, depois de uma sessão de treinos coletivos com ares de duelo, valeu a opção pelo certo ao invés do duvidoso. Por isso, voltou o bom Sutil, que conquistou seu melhor resultado — nono lugar no Mundial de Pilotos — exatamente no mesmo ano da melhor performance da escuderia, sexta no Mundial de Construtores de 2011. O futuro parece promissor: o VJM06 parece bem-nascido e capaz de lutar de igual para igual com os outros times do pelotão do meio.
 
Mas Sauber e Force India terão um rival de peso. Peso, história e muita tradição. Em 2012, a Williams renasceu das cinzas, deixou para trás a pior temporada da sua história e voltou ao topo da F1 após quase oito anos. A vitória em Barcelona foi o despertar de um gigante adormecido. Mas o ano foi de muitos altos e baixos para o time de Grove. Maldonado alternou grandes performances em classificação com desempenhos irregulares — e, por vezes, até estabanados — em corridas. Já seu companheiro de equipe à época, Bruno Senna, conseguia somar pontos aqui e ali, mas em momento algum brilhou. Para piorar as coisas, o primeiro-sobrinho assinou um contrato que tinha como cláusula aceitar que Valtteri Bottas, jovem reserva finlandês, guiasse o FW34 durante 15 treinos livres de sexta-feira pré-GP. O fato é que Senna não fez o suficiente para merecer continuar na Williams e recebeu o bilhete azul no fim do ano.
 
Com Maldonado mais maduro e experiente, a Williams oficializou aquilo que já era esperado há tempos: Bottas foi promovido a titular. Diferente de todos os novatos do grid, o finlandês não vem da GP2, pulou direto da GP3 para a F1, mas ficou um ano sem correr, e essa falta de ritmo de corrida pode pesar contra si. Por outro lado, Pastor chega ao seu terceiro ano de F1 com a responsabilidade de ser o líder da Williams na pista.

Entretanto, com a morte do presidente da Venezuela e seu amigo e maior apoiador, Hugo Chávez, Maldonado tem sua carreira na Williams e na própria F1 ameaçada. Isso porque seu país-natal convocou novas eleições presidenciais. Caso seja eleito um candidato de oposição aos partidários de Chávez, Pastor pode perder o patrocínio da PDVSA, petrolífera estatal que bancou praticamente toda sua carreira no esporte a motor. Enquanto houver contrato, Maldonado fica. O novo carro só foi apresentado em 19 de fevereiro e perdeu a primeira semana da pré-temporada, testando apenas em Barcelona. O FW35 apresentou bom equilíbrio e agradou seus pilotos, a ponto de Pastor dizer que “é o melhor carro que já guiei na vida”.

Diferente das outras equipes, a última temporada da Toro Rosso foi péssima. Com apenas 26 pontos somados, 16 por Jean-Éric Vergne e dez de Daniel Ricciardo, os italianos ficaram à frente somente das equipes nanicas — Caterham, Marussia e HRT. Um vexame, levando em conta o dinheiro investido pela Red Bull, que trata sua equipe coirmã como última fase do desenvolvimento dos seus jovens pilotos, mas que, até o momento, só conseguiu brilhar com o tricampeão Sebastian Vettel.
Sem Chávez, a carreira de Maldonado corre risco. Caso o novo presidente da Venezuela seja de oposição, o piloto pode perder o patrocínio da PDVSA
A Toro Rosso tirou da Sauber o projetista James Key para tentar sair da lanterna do 'grupo B' da F1. O resultado foi um carro bonito e promissor. (Foto: Andrew Hone/Getty Images/Red Bull)
Antes mesmo do fim da temporada passada, Franz Tost e a cúpula da Red Bull arquitetaram mudanças estruturais pontuais: Giorgio Ascanelli foi defenestrado da esquadra de Faenza, que contratou o cobiçado James Key. Ex-Sauber, o engenheiro britânico assumiu o cargo de diretor-técnico e tem como principal missão ajudar a construir um carro tão bom como o C31, seu último e mais bem-sucedido projeto.

O STR8, com visual bonito e com design um pouco diferente do que foi usado no modelo da temporada passada, sem degrau no bico e com recursos estéticos menos duvidosos. Lá atrás, escapamentos para gerar o efeito Coanda foram projetados para finalmente levar a Toro Rosso a outro patamar. Assim, a expectativa é que finalmente prima pobre da Red Bull possa brilhar, repetindo o que aconteceu nos tempos de Vettel, em 2008.

Para isso, a Toro Rosso apostou na continuidade e deu mais um ano de oportunidade para sua dupla de pilotos. Ricciardo e Vergne, depois de um ano de duro aprendizado, entram com uma bagagem maior, mas também terão responsabilidades na mesma proporção. Quem for melhor sucedido em sua missão certamente vai conseguir chamar a atenção da Red Bull, caso a escuderia tricampeã do mundo decida não mais renovar o contrato de Mark Webber e trazer um dos dois para substituir o veterano em 2014. Do contrário, ambos correm não só o risco de perderem a sonhada vaga em Milton Keynes, como podem até mesmo serem passados para trás, como aconteceu em 2011 com Jaime Alguersuari e Sébastien Buemi.
 

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