Edição 36
Março/2013

Pilotos pagantes, mais estreantes

Valtteri Bottas, Esteban Gutiérrez, Giedo van der Garde, Jules Bianchi e Max Chilton formam a geração que chega à F1 com combustível financeiro, mas disposta a mostrar que têm qualidade

FELIPE GIACOMELLI, de São Paulo
O quinteto que poderia até lembrar a nova formação de uma boy-band vem com o carimbo de pagante. Mas já é sabedor de que nem todo o dinheiro do mundo é garantia de futuro. (Fotos: Getty Images, Divulgação Caterham, Divulgação Marussia)
F1 já foi conhecida, em outras épocas, pela volatilidade do grid, com as equipes optando por trocar os pilotos praticamente após cada temporada. Nos últimos anos, no entanto, as escuderias entenderam que a manutenção dos pilotos por alguns campeonatos e um planejamento em longo prazo são fundamentais para a conquista de bons resultados em uma categoria deveras competitiva.

Por causa disso, ter um mercado de pilotos agitado se tornou algo cada vez menos comum. Além disso, com a proibição de testes durante a temporada, os times passaram a apostar cada vez mais em atletas mais experientes e que podem contribuir com o desenvolvimento do carro, ao invés de dar chances a novatos.

A última vez que a categoria se viu cheia de novas caras foi em 2010, quando cinco pilotos — Nico Hülkenberg, Vitaly Petrov, Lucas Di Grassi, Bruno Senna e Karun Chandhok — estrearam no Mundial. Desde então, 2011 teve três novatos, enquanto no ano passado foram apenas dois.

Agora, a situação mudou, e o mercado mais uma vez ficou agitado, com cinco jovens pilotos se juntando à categoria. O curioso desse dado é que se em 2010 o aumento do número de estreantes foi consequência da expansão do grid, com a chegada de HRT, Marussia (Virgin) e Caterham (Lotus), dessa vez o número de escuderias diminuiu (graças ao fim do time espanhol), mas mesmo assim houve uma grande rotatividade entre as vagas.

Mas uma coisa não deixa de estar relacionada com a outra. Quando essas três equipes estrearam na F1, elas receberam incentivos econômicos para que pudessem permanecer no campeonato, como a isenção de algumas taxas e bônus na premiação — cerca da US$ 10 milhões, mesmo que não fizessem nada na pista.
A Caterham reformulou o plantel, mandando
embora os experientes Heikki Kovalainen
e Vitaly Petrov para trazer Charles Pic
e Giedo Van Der Garde, ambos
vindos de famílias ricas
Bianchi tem em mente que está diante do próximo passo da curva de aprendizado para que possa brigar por um lugar mais competitivo no próximo ano. (Foto: Divulgação/Marussia)
O prazo desse bônus era de três anos e acabou no fim de 2012. Por isso, as equipes menores perceberam que a única forma de se manterem vivas e continuarem na F1 era substituir os pilotos experientes por novatos endinheirados. A Caterham, que ainda recebe os benefícios pelo décimo lugar no Mundial de Construtores do ano passado, reformulou totalmente o plantel, mandando embora os experientes Heikki Kovalainen e Vitaly Petrov para trazer Charles Pic e o novato Giedo Van Der Garde, ambos vindos de famílias ricas.

Com a Marussia não foi diferente. Além de perder Pic, no fim do mês de janeiro o time abriu mão do contrato que tinha com Timo Glock, cujo salário de £ 2 milhões (ou R$ 5,89 milhões) passou a ser considerado um luxo desnecessário pela equipe. Com a ida do alemão para a BMW no DTM, a ideia do time era trazer um estreante que pudesse pagar por volta de £ 6 milhões (R$ 17,6 mi), o que daria à equipe um respiro de £ 8 milhões (ou R$ 23,55 milhões) no fim das contas.

Sem esconder que buscava um piloto com recursos, a Marussia fechou com Luiz Razia, que chegava com o vice-campeonato da GP2. Entretanto, o brasileiro se envolveu em um longo imbróglio envolvendo o não-pagamento de uma das parcelas combinadas com o time russo e, exatos 23 dias e 10 horas depois, acabou sacado. Quem entrou na vaga foi outro novato, Jules Bianchi, que chega à F1 por ser a principal revelação da Academia de Pilotos da Ferrari.

Empresariado por Nicolas Todt, o mesmo responsável pelas carreiras de Felipe Massa e Pastor Maldonado, Bianchi inicialmente disputava com Adrian Sutil uma vaga na Force India. O time de Silverstone, porém, optou pela experiência do alemão.

Mesmo sem a vaga, Bianchi e Todt continuaram a crer que estava na hora de o jovem francês assumir a vaga de titular de alguma equipe da F1. Mas como não havia outro cockpit competitivo no grid, restou a Marussia, ‘o que dava’.

Embora a equipe russa seja das piores da categoria, Bianchi tem em mente que está diante do próximo passo da curva de aprendizado, se acostumando ao cotidiano da F1, além de todos os artifícios — como Kers e asa traseira móvel — para que possa brigar por um lugar mais competitivo no próximo ano, talvez até na sonhada Ferrari.

Em termos de desempenho, Bianchi terá como principal desafio superar o companheiro de equipe, Max Chilton, outro que estreia em 2013. O britânico chega à principal categoria do automobilismo mundial depois de disputar a GP2 nos últimos três anos, mas só na temporada passada se mostrou competitivo. Foram duas vitórias e outros dois pódios.

Mas foi nos treinos classificatórios que o piloto inglês brilhou. Nas classificações, Chilton obteve duas poles, além de diversas outras largadas entre os dez primeiros, o que o levou à quarta colocação na tabela de pontos. Por isso, não será uma surpresa se Chilton deixar Bianchi facilmente para trás no duelo em classificações, mas pene para manter o mesmo ritmo durante as corridas.
Muita gente liga a preferência da Sauber por Gutiérrez ao dinheiro da Telmex. Mas ele chegou à equipe via BMW, muito antes do time suíço estreitar laços com a telefônica mexicana
Os outros dois estreantes chegam à F1 com objetivos um pouco maiores do que superar o companheiro de equipe. Depois de participar de 15 treinos livres no lugar de Bruno Senna em 2012, Valtteri Bottas foi confirmado pela Williams como parceiro de Pastor Maldonado, se tornando o primeiro piloto a pular direto da GP3 à categoria principal.

Com uma carreira cheia de títulos — como o bi do Masters de F3, a F-Renault e a GP3 — e bons resultados nos treinos da F1, é bastante injusto pensar que o nórdico só chegou à F1 pelo dinheiro de empresas finlandesas e pelo apadrinhamento político de Toto Wolff, acionista da Williams. Até é verdade que houve pressão do dirigente para a chegada de Bottas, mas o garoto já provou que tem, sim, a qualidade necessária para correr no certame.

Quem também lida com a desconfiança da chegada ao campeonato por causa dos patrocinadores é Esteban Gutiérrez, da Sauber. Assim como Bottas, de quem já foi companheiro de equipe no início da carreira, o mexicano foi campeão da GP3 antes de chegar à F1. No entanto, ao contrário do piloto da Williams, ele passou dois anos na GP2, onde terminou com a terceira colocação no campeonato no ano passado.

Por ter os mesmos patrocinadores de Sergio Pérez, muita gente liga a contratação de Gutiérrez ao dinheiro da Telmex. Mas ele chegou à Sauber via BMW, muito antes da equipe pensar em trazer Pérez. Além disso, o próprio apoio das empresas de Carlos Slim só veio após o título da F-BMW Europeia, em 2008.

Entre os novatos, é inegável que Bottas e Gutiérrez têm melhores condições de terminar 2013 na frente. E com favoritismo para o piloto da Williams. Embora o carro da Sauber teoricamente seja melhor, o finlandês parece ser o mais promissor dessa geração.
Valtteri Bottas foi o primeiro piloto a pular direto da GP3 para a F1 e parece ser o mais promissor desta geração. (Foto: Paul Gilham/Getty Images)
 

Comentários

Matéria anterior

A nada mole vida dos coadjuvantes
Webber, Massa, Pérez, Grosjean e Rosberg terão mais uma chance de mostrar serviço, mas podem esbarrar nos companheiros
por Fagner Morais
Próxima matéria

O equilíbrio do ‘Lado B’
Sauber, Force India, Williams e Toro Rosso indicam disputa acirrada e até eventuais vitórias
por Fagner Morais