Edição 36
Março/2013

Solitário, mas de bem com a vida

De volta aos seus bons dias, Felipe Massa abre 2013 cheio de motivação e em condições de lutar para vencer uma corrida. O piloto abre o Mundial como único representante brasileiro no grid

FERNANDO SILVA, de Sumaré
Depois de pilotar a Ferrari nas ruas do Rio de Janeiro, Massa começa 2013 renovado e preocupado apenas em conseguir bons resultados (Foto: Divulgação/Ferrari)
elipe Massa viveu um ano marcante em 2012. Há tempos a F1 não via um piloto com tamanha capacidade de reação quanto a exibida pelo brasileiro, que finalmente deixou para trás o inferno astral que o perseguia desde o acidente sofrido em Hungaroring, em 2009, para voltar a ser aquele Massa que encheu os olhos do mundo e lutou cabeça a cabeça com Lewis Hamilton pelo título do Mundial de 2008 até o fim, no inesquecível e emocionante GP do Brasil daquele ano.

O piloto escapou por um fio de perder sua vaga na Ferrari no ano passado. Sua primeira metade da temporada 2012 foi desastrosa. Completamente perdido e desnorteado, Massa começou o ano de maneira estranha, irreconhecível e insegura. Foram somados apenas 25 pontos nas 11 primeiras corridas do ano. Fernando Alonso, seu companheiro de equipe, foi para as férias de verão com 164. Um abismo em relação ao parceiro.

Massa foi bombardeado pelos críticos, a ponto de a imprensa italiana, sempre exigente, chama-lo de ‘inútil’. Outro baque para o piloto foi quando Mark Webber, ao comentar a renovação de contrato com a Red Bull, revelou que a Ferrari o procurou, mas o veterano optou por ficar onde já estava. Em baixa, Felipe amanhecia lendo notícias sobre outros postulantes à sua vaga. Os nomes eram muitos: Sergio Pérez, Nico Hülkenberg, Paul di Resta. Mas aí veio a providencial pausa nas férias no verão europeu.

Daí por diante, tudo mudou para Felipe. Depois de ter revelado que recorreu à psicologia para dar a volta por cima, o brasileiro começou a colher os frutos da sua atitude. A partir do GP da Bélgica, na retomada da temporada, Massa somou pontos em todas as nove corridas. Com os resultados, veio novamente o sorriso no rosto e a felicidade por estar novamente no grupo dos melhores. Como prêmio pela reação histórica, a Ferrari enfim renovou seu contrato. Era o fim das chuvas e trovoadas na carreira do brasileiro. O sol voltava a brilhar.

O período também marcou seu retorno ao pódio com o segundo lugar do GP do Japão e um terceiro em Interlagos. Sebastian Vettel comemorou o título e Fernando Alonso lamentou a perda do tri, mas a cena daquele fim de corrida foi o choro de felicidade de Felipe diante de Nelsão Piquet após dar a volta por cima e quase ser demitido de Maranello.
No pódio do GP do Brasil, a emoção estampada no rosto era a mais perfeita tradução de uma volta por cima. (Foto: Clive Mason/Getty Images)
Assim, Massa terminou 2012 de bem com a vida, prometendo fazer de 2013 um ano diferente e mais positivo desde o início. E foi exatamente o que aconteceu. Seja em aparições públicas ou mesmo nas redes sociais, Felipe, que até dançou ‘O passinho do volante’, mostrou ao mundo neste começo de ano o quanto está feliz, e motivado pela nova chance na Ferrari e na F1. Sua satisfação a cada teste e evento representando a escuderia italiana é visível. Não é à toa.

Massa vai para sua oitava temporada como piloto da Ferrari. Jamais um brasileiro correu tanto tempo por uma mesma equipe na F1. O fato, por si só, já é histórico e comprova o tamanho do prestígio que Felipe tem em Maranello. Outro fato, ainda mais representativo, é que Massa será, em 2013, o único piloto brasileiro na principal categoria do automobilismo mundial. Situação que não acontece desde 1971. Naquele ano, Emerson Fittipaldi, que corria com a igualmente tradicional Lotus, foi o único brasileiro ao longo das dez corridas do campeonato.
Felipe Massa é, talvez, o último expoente de um Brasil que deu certo na F1
 
Felipe é, talvez, o último expoente de um Brasil que deu certo na F1. Não chegou a ser um ‘Novo Senna’, como apontou, com enorme pitada de exagero, a imprensa italiana no começo dos anos 2000, mas contou com o apoio da Ferrari desde o início, não precisando de qualquer outro patrocinador para levar dinheiro e correr na F1.

Sua situação confortável contrasta com outros conterrâneos e pilotos pagantes, como Bruno Senna, que nem de longe conseguiu chegar perto de ter a sua estabilidade e, mais recentemente, Luiz Razia, que fracassou em sua meta de entrar no grid mais cobiçado do mundo. Para Senna, a F1 foi um sonho que durou pouco mais de dois anos. Por sua vez, Razia ficou a pé antes mesmo da abertura do Mundial de 2013.

Ser o único brasileiro no grid da F1 representa pressão em dobro para Massa. Isso porque, a exemplo do que aconteceu no ano passado, Felipe abre a temporada com seu futuro em dúvida. Afinal, é o último ano do seu contrato com a Ferrari que, discretamente, colocou o pupilo Jules Bianchi como titular da Marussia justamente no lugar de Razia. Nas vezes em que testou o MR02, Bianchi estampou o logo da Ferrari no seu capacete.

Mas Felipe tem ao seu lado a confiança de Luca di Montezemolo, Stefano Domenicali e Fernando Alonso, amigo de Massa e grande apoiador da sua permanência em Maranello. O próprio presidente da Ferrari já deixou claro que prefere contar com pilotos mais experientes — razão esta que afastou Pérez da escuderia no ano passado, já que Montezemolo o considerava verde demais. Assim, se Massa conquistar os mesmos bons resultados e repetir a performance da segunda metade de 2012, lutar por vitórias e ajudar a Ferrari a brigar pelo título do Mundial de Construtores, a renovação do seu contrato para 2014 não será nenhuma surpresa. Confiança para isso, Felipe tem de sobra.
 

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