Edição 39
Junho/2013

50 anos de silêncio

Christian Heins foi um dos pilotos mais importantes do automobilismo brasileiro. Bino, como era chamado, morreu aos 28 anos, quando liderava as 24 Horas de Le Mans

HUGO BECKER, de Guarulhos
RENAN DO COUTO, de São Paulo
Colaboração: NOBRES DO GRID
Bino guiando um Fórmula Jr de motor Porsche em Interlagos. (Foto: Arquivo da família Heins/Nobres do Grid)
dia 15 de junho é uma das datas mais importantes para o automobilismo brasileiro, mas pouca gente se dá conta disso. Há 50 anos, morria um dos pioneiros do esporte a motor. Um nome histórico, mas que infelizmente, segue quase anônimo nos tempos atuais. Trata-se de Christian ‘Bino’ Heins, um dos maiores e mais bem-sucedidos pilotos nacionais em todos os tempos.

Nascido em 16 de janeiro de 1935, no bairro do Brooklin, em São Paulo (SP), Heins foi um dos primeiros expoentes do esporte a motor no Brasil. No entanto, o paulistano morreu muito jovem, aos 28 anos, quando disputava pela segunda vez as 24 Horas de Le Mans, em 1963. Ao lado de José Rosinski, o brasileiro era o terceiro colocado na classificação geral e líder na classe 700 a 1000cc quando seu Alpine derrapou no óleo deixado na pista pelo Aston Martin de Bruce McLaren e Innes Ireland, capotou e se chocou contra um poste, explodindo em seguida. A morte foi quase que instantânea e causou comoção.

Antes da tragédia de Sarthe, no entanto, o piloto, apelidado de 'Bino' — redução de ‘Bambino’ — por seus colegas, acumulou excelentes resultados nas provas disputadas pelo Brasil e, mais importante do que isso, contribuiu para a evolução do esporte a motor no país, antenado que era para o que acontecia na Europa. De quebra, conquistou o respeito e uma enorme admiração de seus adversários e colegas de pista.
À esquerda, Bino em Interlagos (Foto: Quadro Rodas/Nobres do Grid). No alto e abaixo, à direita, em ação com o Renault Alpine M63 com o qual perderia a vida em Le Mans. (Fotos: ACO - França/Nobres do Grid)
A paixão de Bino pelo automobilismo começou cedo, influenciado que foi por toda a família. Seu pai, o alemão Carl Heinrich, casado com a italiana Giuliana de Fiori, era um grande entusiasta das corridas, e já na infância o menino Christian passou a ter contato com carros. A estreia foi precoce, já aos 19 anos, em Interlagos, e, dois anos depois, ele foi um dos pilotos que alinharam no grid da primeira edição das Mil Milhas Brasileiras.

Ao mesmo tempo, estudou na Escola Técnica de Nível Superior de Stuttgart, na Alemanha, e fez estágio na Mercedes-Benz antes de trabalhar na Porsche, onde ficou até 1960. Na Europa, também participou de provas de subida de montanha e conheceu Maria Waultraud, com quem viria a se casar e ter uma filha, Betina, que nasceu em 1962.

Quando retornou ao Brasil, Christian teve a oportunidade de dividir um carro da Fábrica Nacional de Motores — popularmente conhecida como FNM — com Chico Landi para a edição de 1960 das Mil Milhas. O plano inicial era correr ao lado de Eugênio Martins, mas foi abortado após uma discussão de Bino com Jorge Lettry, chefe da equipe Serva Ribeiro. O plano B acabou sendo melhor que o A: Landi e Christian ficaram com a vitória.

“Meu pai sempre gostou de pilotar, minha mãe também adorava dirigir, então todos acompanhavam e incentivavam”, conta Ornella Heins, irmã do piloto, à WUp. “Desde pequenininho, a paixão dele era o automóvel. Ele, com quatro, cinco anos, já estava dentro do carro do meu pai e, quando trocava as marchas, fazia o som das trocas”, lembra ela, hoje com 76 anos.

Ornella trabalhou como enfermeira da Cruz Vermelha, profissão essa que escolheu justamente para tomar conta do irmão. “Tinha muito acidente. Naquele tempo, não tinham os uniformes que têm hoje, anti-fogo, a bota, a luva... Não tinha nada disso. O pessoal corria com uma calça comprida, uma camiseta, uma luva qualquer, um quepe qualquer”, diz.

Cheia de orgulho, Ornella não tem dúvida: “Ele corria muito bem.”

Depoimentos de outras pessoas que conviveram com Christian nos anos 50 e 60 confirmam a impressão que a irmã tinha dele.

"Ele era um líder, era o que andava mais rápido, na época. Andava rápido, mesmo", relembra Miguel Crispim, mecânico da Vemag na época, em entrevista à WARM UP. "A molecada da Willys não andava como ele, não. Ninguém. E tinha gente boa, lá, que guiava pra cacete, mas ele metia tempo na molecada toda. Ele era muito bom, um craque. E isso ensina", destaca.

"Era uma época muito boa. Naquela época, inclusive, o automóvel escorregava, então se você não faz a tomada da curva no lugar certinho e escorrega muito, você perde tempo. Essa técnica, de você fazer a curva escorregando e rápido, é um negócio meio complicado, e o Christian era mestre nisso e ensinou essa molecada. O cara tinha muito conhecimento."

O estilo de pilotagem técnico e elegante de Heins era exaltado pelos contemporâneos e, nas palavras do ex-piloto Chiquinho Lameirão, ele se tornou uma referência para a brilhante geração de automobilistas que, dentre outros nomes, tinha os irmãos Wilson e Emerson Fittipaldi, Carlos Pace, Luiz Pereira Bueno e Bird Clemente.
“O Christian era mais velho, e esses garotos [Emerson Fittipaldi, Carlos Pace] aprenderam a guiar com ele, praticamente”
- Miguel Crispim, mecânico da Vemag na época
Crispim corrobora a impressão de Chiquinho: "O Christian era mais velho, e esses garotos aprenderam a guiar com ele, praticamente. No estilo de guiar, na forma de guiar, na técnica de guiar, eles aprenderam muito com o Bino. Muito, muito, muito.”

Durante o último ano de sua vida, Heins foi chefe do departamento de competições da Willys e trouxe um série de inovações tecnológicas para as competições brasileiras, o que amplia ainda mais seu legado. A maior delas foi a vinda da marca Alpine para o Brasil.

Lameirão trabalhou junto de ‘Bino’ exatamente nesse momento e recorda sua estreia na equipe Willys, nos 1000 km de Brasília de 1963. “Fiz parceria com Luiz Pereira Bueno e, no final da corrida, Christian quis guiar o carro. Chegamos até a pontear a corrida, mas fomos terceiros no geral, e quem recebeu a bandeirada foi o Christian. Para mim, foi uma grande honra, pois fiz uma parceria com dois fantásticos pilotos”, afirma.

Essa foi a última corrida disputada por Heins no Brasil. Semanas mais tarde ele morreria na França. Ornella, grávida de seu primeiro filho, soube da notícia através de uma vizinha, que foi quem recebeu o telefonema de Carl — era o pai que estava em Le Mans acompanhando as 24 Horas. “Uma bomba. Eu recebi muito mal a notícia. Nós éramos muito amigos, muito amigos. Foi muito difícil”, fala. “São Paulo parou. Foi uma coisa inesperada, triste...”

Envolvido com o automobilismo desde a década de 1950, Chico Rosa, ex-administrador do Autódromo de Interlagos, foi um dos primeiros que ficou sabendo da notícia da morte de Heins. Ele contou à WUp que tinha o hábito de ligar de hora em hora para a ‘France Press’ e pedir informações sobre o andamento das 24 Horas de Le Mans – rádios e TVs não transmitiam a corrida no Brasil e a internet era algo surreal na época.

"Como eu ficava ligando, eu fiquei sabendo da morte dele antes, mas o acidente foi rapidamente noticiado. Ele deu azar, porque bateu de costas, do lado de dentro da pista, no fim da reta. A notícia foi espalhada rapidamente via rádio. Era uma maneira muito rápida de as notícias aparecerem. A gente ficou muito chateado. O cara era considerado demais", lamenta.

Crispim corrobora as palavras de Chico e se emociona ao falar de Christian. "Ele estava em terceiro na geral e primeiro na categoria. Ele andava muito. Tinha um estilo mais técnico do que arrojado, era muito preciso na pilotagem. Morrer em um acidente quando liderava uma prova como Le Mans, é para eternizar o cara, mesmo."
 

A importância de Heins para o crescimento do automobilismo no Brasil

"Esse cara, na realidade, é o ponto da modernização do automobilismo brasileiro. Ele foi o cara responsável por isso. Era um cara moderno. Ele era o modelo, até no jeito de se vestir. Ele era um cara que estava sempre na Europa, que trazia as novidades. É o começo da nova geração brasileira. Esse cara é meio esquecido, mas tem um mérito danado”, avalia Chico Rosa.

Rosa diz isso por conta do alto conhecimento que Heins tinha do automobilismo europeu. As ligações com importantes equipes e fábricas da Europa e também do Brasil fizeram de Bino uma ponte para que as novidades cruzassem o Oceano Atlântico e chegassem ao país. Além disso, ele trazia também a experiência das competições, tinha consciência do que era importante para quem queria correr no Velho Continente e conversava sobre isso com os mais jovens.

Questionado, Lameirão concordou com a afirmação de Rosa. Ele mencionou o nome de Cláudio Daniel Rodrigues — o homem que trouxe o kart para o Brasil —, mas fez questão de dar grande importância a Heins. “Ele realmente era um piloto fantástico. Tinha uma noção de internacionalizar. No meu primeiro dia na Willys, fui apresentado ao Christian e ele me falou: ‘Se um dia você tiver a intenção de correr na Europa, além de ter que saber pilotar, é claro, tem de saber inglês e italiano. São as duas línguas do automobilismo mundial’. Isso demonstra que ele tinha uma noção, já naquela época, muito grande do que era o automobilismo no mundo”, comenta.

Heins foi um divisor de águas na história do automobilismo no Brasil. No entanto, passadas cinco décadas de sua morte, seu nome acabou sendo deixado de lado em meio à enorme concorrência de outros pilotos tão famosos de seu tempo. Para quem teve a honra de testemunhar e conviver com o piloto, a admiração é inabalável e viva, até hoje. Nas palavras de Crispim, "ele foi um herói, e morreu como um herói.”
 

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