Edição 40
Julho/2013

Americo Teixeira Jr: Marcus Zamponi

O Zampa era areia demais para o caminhãozinho do automobilismo brasileiro

AMERICO TEIXEIRA JR, de Vinhedo
ada é mais importante na coluna dessa edição 40 da REVISTA WARM UP do que falar de um amigo que se foi. O leitor dessa publicação, agora chefiada pelo Felipe Giacomelli – depois que o Fernandão Silva foi buscar desafios novos em novas paragens; felicidades ao amigo editor que vai e ao amigo editor que chega –, sabe bem de quem estou falando ao citar o nome de Marcus Zamponi. Os mais lindos sentimentos a respeito desse grande jornalista, a começar pelo Flavio Gomes, foram revelados em textos emocionantes desde a noite do dia 16 de julho, quando Zampinha faleceu em São José do Rio Preto, vítima de um câncer. Apesar de ser dois de mim em termos de tamanho, tratávamo-nos pelos diminutivos. Era Ameriquinho pra cá, Zampinha pra lá...

Que era brilhante e divertidíssimo, todo mundo que conviveu com ele sabe e, portanto, seria repetir – e certamente sem a mesma maestria – as homenagens que ele já recebeu de tanta gente importante do nosso automobilismo, principalmente do pessoal de imprensa. Mas a verdade é que o pai do Ugo e do Bruno – ele sempre brincava que o Ugo dele, com U, era mais chique do que o meu, com H – é areia demais para o caminhãozinho do automobilismo brasileiro. Imaginem que não houve uma ação efetivamente decisiva que resultasse na publicação de seus livros, que chegaram a ser muito bem organizados por ele.

O texto que segue, eu escrevi em setembro de 2000. Na época eu era editor da ‘Racing’, para onde fui levado pelo Zampinha (“Vai tomar no cu, Ameriquinho, você não é esse bosta que você pensa, não. Pensa que é mole ser editor da ‘Racing’, fica aí, seu doente!”), foi mais ou menos assim que ele me estimulou a ficar na revista, quando decidiu sair). Naquela edição, a de número 52, já havíamos fechado tudo – Thalita Nadry, Venício Zambeli e eu –, e aquela página ficou para o fim. Naquele dia, como nesses atuais, estava com dificuldades para escrever, mas saiu isso:

Silêncio no Kart: Cecílio se foi

O jornalista Cecílio Favoretto, o maior especialista do kartismo brasileiro e colaborador da RACING, parte aos 55 anos deixando mais de 30 anos de carreira marcada pela seriedade e competência

Quando eu era moleque em Santo André, região da Grande São Paulo, já sonhando com o automobilismo e alimentando o desejo de ser um jornalista especializado em esporte a motor, eu tinha os meus ídolos. Nas pistas, todo o carinho era para Emerson Fittipaldi. Mas como desde aquele momento eu já me dedicava a ser jornalista, ia admirando algumas pessoas que estavam diariamente nas páginas dos jornais e revistas. Nesse sentido, sempre tive três ídolos no jornalismo: Cecílio Favoretto, Lito Cavalcanti e Marcus Zamponi. Eu queria ser como eles e devorava cada linha do que eles escreviam, mesmo quando criticavam o Emerson e a experiência do carro brasileiro de Fórmula 1.

O tempo foi passando e aos poucos fui convivendo com cada um deles. Mais adiante, pelas mãos do Zampa, passei a trabalhar na Racing e para a revista já colaborava o Lito. Mas faltava o Cecílio. Creiam que foi uma alegria enorme, já como editor chefe, incorporar o Cecílio ao grupo de colaboradores da Racing. Quer dizer, passei a ter todos os meus ídolos do jornalismo como colaboradores/colunistas aqui na Racing. Eu acho que nunca tinha contato isso para ninguém, mar ter esse trio nas páginas da “minha” revista sempre me deixou feliz.

O Cecílio da Racing sempre foi o do kart. Razão tem o Sergio Quintanilha quando afirma que o Cecílio era muito mais profissional do que o kartismo necessitava. Tipo o primeiro a chegar e último a sair, ele cobria o kart com a competência e dedicação com as quais marcou suas coberturas de Fórmula 1. Na Folha, Gazeta Esportiva e Rádio Globo, Cecílio acumulou mais de 200 GPs de Fórmula 1. Apesar de toda essa experiência de mais de 30 anos, ele gostava mesmo do kart e ia para as pistas com um entusiasmo juvenil. Dizia que enquanto pudesse “empurrar minha barriga pela pista”, não deixaria de cobrir as provas de kart, qualquer que fosse o local.

Aos 55 anos, cobriu para a Racing os Brasileiros de Campo Grande e Florianópolis. Depois da competição na capital catarinense, Cecílio voltou rápido porque, além de precisar escrever a matéria do Brasileiro (publicada na edição 51) e a dos preparadores (nesta), tinha viagem marcada para a Europa, onde cobriria em Portugal o Mundial deste ano. A cobertura de Florianópolis foi a última, da mesma forma que a matéria dos preparadores. No começo de agosto, um problema cardíaco o levou para o centro cirúrgico do Instituto do Coração. Foram quase dois meses de UTI e, na manhã de quarta, 21, ele nos deixou. Foi uma tristeza enorme. Perdi um amigo, um conselheiro, um mestre. No mesmo dia, ao chegar ao velório encontrei o Lito e o Zampa. Novamente estava com meus três ídolos unidos, só que da maneira mais triste possível.

Claro que eu sabia que um dia, mais cedo ou mais tarde, eu teria meio que atualizar esse texto original de 13 anos. Mas, puta que o pariu, como dói. Zampinha, lindinho, te amo!
Foto: Vinícius Nunes
 

Comentários

Matéria anterior

A reforma do século
Para permanecer na F1 depois de 2014, Interlagos precisa passar pela maior reforma desde o início da década de 1990
por Juliana Tesser, Evelyn Guimarães e Renan do Couto
Próxima matéria

10+: Circuitos que deixaram saudades
Com Interlagos e Monza correndo risco de ficar fora da F1, listamos dez circuitos clássicos que fazem falta na categoria
por Renan do Couto