Edição 40
Julho/2013

Estepe: Més que una regió

A Espanha vive uma fase mágica no esporte, e o a motor não é diferente. Mas se a Catalunha fosse independente, parte da glória seria bem dividida. Como a posição dos pilotos sobre a separação

RENAN DO COUTO, de São Paulo
EVELYN GUIMARÃES, de Curitiba
Foto: Xavi Bonilla
á décadas que, com maior ou menor intensidade, o debate sobre o papel da Catalunha dentro da Espanha faz parte do cotidiano daquele povo. Em tempos de crise, como os atuais, os catalães aumentam o tom de voz para reforçar sua identidade e seus direitos junto ao governo de Madri. Alguns chegam até mesmo a defender a independência da região, argumentando que a Catalunha é oprimida pelos espanhóis, sendo capaz de caminhar com as próprias pernas.

No esporte, a disputa entre madrilenhos e catalães tem seu ponto alto quando ‘El Clasico’ é disputado por Real Madrid e Barcelona. A maior rivalidade entre clubes do futebol mundial atual carrega ingredientes das divergências entre as regiões da Espanha. No esporte a motor, em que os pilotos disputam campeonatos internacionais carregando a bandeira nacional, a ligação com essa disputa política fica escondida. Mas olhando mais atentamente, nota-se que a Catalunha é o grande celeiro de automobilistas e motociclistas na península ibérica.

Exceto por algumas poucas exceções, como o asturiano Fernando Alonso — o principal nome do automobilismo no país — e o madrilenho Carlos Sainz, a maioria dos espanhóis que chegaram aos principais estágios do esporte a motor no mundo é formada por catalães: Jaime Alguersuari, Pedro de la Rosa, Marc Gené, Oriol Servià, Dani Pedrosa, os irmãos Pol e Aleix Espargaró e nomes da nova geração, como Miguel Molina, Roberto Merhi, Daniel Juncadella e Marc Márquez.

Procurando entender os motivos que tornam a velocidade tão atraente na região de Barcelona, a REVISTA WARM UP procurou pilotos oriundos da província mais oriental da Espanha e ouviu o que eles tinham a dizer. Na visão deles, trata-se de uma questão cultural: o incentivo e o interesse tornam a Catalunha o grande centro da modalidade na Espanha. Contudo, as posições políticas dos entrevistados são opostas: há os que defendem o separatismo e os que não conseguem separar o ‘ser catalão’ do ‘ser espanhol’.
“Se a Catalunha fosse um país, teria muitos campeões do mundo!”, brinca Oriol Servià, piloto da Panther na Indy
Servià carrega a bandeira da Catalunha no topo de seu capacete. (Foto: Jonathan Ferrey/Getty Images)

De pare a fill

O primeiro GP da Espanha válido pelo Mundial de F1 foi disputado em 1951, no circuito de rua de Pedralbes, em Barcelona. O traçado voltou a receber a categoria três anos depois, mas foi só a partir de 1969 que a Espanha passou a ser parada obrigatória para pilotos e equipes, em um revezamento entre Jarama, Madri e Montjuïc, também em Barcelona.

Circuito urbano sinuoso e perigoso, Montjuïc recebeu quatro GPs até 1975. Neste ano, um grave acidente envolvendo o alemão Rolf Stommelen resultou na morte de cinco espectadores. O fim de semana já havia iniciado de maneira controversa, com os pilotos protestando contra a falta de segurança da pista. Não deu outra: nunca mais a F1 passou por ali. Mas a história ficou para ser contada.

“Monjuïc é a base de tudo”, define à WUp Marc Gené, 39, reserva da Ferrari na F1, piloto da Audi no Mundial de Endurance e comentarista de TV. “Há mais tradição aqui [na Catalunha]. Gostamos muito de automobilismo, mais do que em qualquer outra região da Espanha, e talvez tudo tenha começado com este GP. Os avós e os pais sempre mantiveram isso, meu pai sempre me falava sobre, e por aí vai. Os mais velhos lembram muito bem de Montjuïc e os mais novos continuam com essa tradição.”

Jaime Alguersuari, 23, pensa de maneira semelhante. “Isso vem de muitos anos. A Catalunha já tem o GP de F1,as corridas de moto, a MotoGP e tudo mais. A paixão por este esporte tem sido interminável e há muitos aficionados, por isso acho que há tantos pilotos aqui”, explica o ex-Toro Rosso à WUp.

Com o fim das corridas em Montjuïc, o GP da Espanha continuou sendo realizado em Jarama anualmente até 1981 e, após um hiato de cinco anos, mudou-se para Jerez de la Frontera. Em 1991, com a inauguração do Circuito da Catalunha, a prova ganhou uma nova casa, a mesma até os dias de hoje.

E foi por meio de um programa do complexo dirigido por Salvador Servià, pai de Oriol, que, dentre outras promessas, surgiu Miguel Molina, 24, piloto da Audi no DTM. “Na Catalunha, existe uma tradição maior de automobilismo e de incentivo ao esporte, com programas de apoio a novos pilotos”, destaca Molina à WUp.

Molina faz parte de uma terceira geração de pilotos espanhóis que chegaram à elite do esporte. A primeira leva foi notada na segunda metade da década de 1990, com nomes como Gené e Pedro de la Rosa. Alguns anos depois, Alonso surgiu como um fenômeno. Agora, uma terceira leva chega tendo justamente o bicampeão como referência. “Alonso é um dos melhores, sem dúvida, e é uma inspiração para mim e outros pilotos. Houve um ‘boom’ desde que ele chegou na F1 e começou a vencer”, comenta.

A Alonsomania fez, inclusive, a preferência do público mudar um pouco. “Quando você compara as audiências de TV, vê que os carros estão muito melhores que a MotoGP. Duas vezes, mais ou menos. As pessoas gostam muito mais dos carros na Espanha hoje em dia”, cita Gené. Mesmo assim, a cultura do motociclismo continua forte. “A organização do Mundial de Motovelocidade é espanhola, portanto, há muitos pilotos nos campeonatos espanhóis e, principalmente, no Mundial, onde se encontram os competidores de mais alto nível”, ressalta Alguersuari.

O problema é que, devido à crise financeira que assola a Europa e deixa a Espanha em uma situação bastante delicada, faltam recursos para aqueles que tentam chegar ao topo. “O automobilismo está saudável. Será mais difícil para a próxima geração, por causa da crise, mas, no momento, está muito bem. Somos um dos principais países do mundo”, diz Gené. Mesmo assim, o futuro não o preocupa tanto: “Ainda, quando levo meus filhos à escola, noto que muitos jovens acompanham automobilismo. Então acho que haverá uma nova geração substituindo a atual.”
 

Política i separatisme

Servià reagiu com alguma surpresa quando questionado sobre a política catalã no encontro com a reportagem da WUp, em São Paulo, durante a SP Indy 300. “Por que me pergunta sobre isso?”, indagou com curiosidade. O veterano se soltou, começou a expor sua posição e deixou claro que prefere a Espanha unida. Mas o apreço maior que possui pela cultura catalã e sua autonomia é notável, tanto pelas declarações, quanto pelo visual: seu capacete, por exemplo, traz a bandeira da Catalunha em meio a pinturas do pintor surrealista Salvador Dalí.

“Creio que o único problema que a Catalunha teve nos últimos 40, 50, 300 anos, sempre ocorre quando a cultura espanhola oprime a cultura catalã. É aí que a gente catalã se revela. Tentam proibir o catalão nas escolas. Dizem: ‘Sua língua é o espanhol.’ Mas se penso em catalão, como pode dizer que minha língua não é o catalão?”, questiona.

Para piorar, o momento econômico negativo também influi no nacionalismo catalão. “Agora se fala mais do que nunca em independência”, continua Servià. “Quando a economia está bem, não acontece nada. Mas quando temos dificuldade para colocar o pão na mesa, quando a Catalunha paga muito mais impostos que o resto da Espanha e vê muito pouco investimento em infraestrutura da Espanha na Catalunha, e que nada que vai acaba voltando, tudo fica agitado.”

Diante da situação atual, Servià reluta, mas afirma que “seria melhor que estivessem separados”. “Olhando apenas para a parte financeira, seria muito melhor para a Catalunha estar independente.”

As divergências econômicas entre os governos de Madri e o de Barcelona também foram mencionadas por Gené. “Pagamos mais impostos. A Espanha quer nossa região porque é a mais rica, mas isso acontece em muitos países”, minimiza.

Pilotos ‘de centro’, Gené e Molina não conseguem desmembrar o ser catalão do ser espanhol. “Eu sou espanhol. Sou catalão e sou espanhol. Não acho que dá para separar. Seria um erro”, diz Marc. “No meu macacão, eu tenho as bandeiras dos dois, porque não quero separar as duas coisas. Sou catalão, vivo na Catalunha, mas também sou espanhol”, reforçou Miguel.

Gené admite que, no momento, há certa inquietação, mas nada de maiores proporções. “Está difícil agora, mas eu acho que não ser parte da Espanha seria um erro. Vivemos em um mundo global, precisamos olhar de uma maneira mais abrangente. Há um desconforto, mas nada tão severo, não há lutas, está mais entre os políticos.”
Jaime Alguersuari, posando com a bandeira espanhola, prefere se posicionar de forma mais unificadora: “Acho que a rivalidade entre a Catalunha e a Espanha é gratuita”, afirma. (Foto: Peter Fox/Getty Images)
Quem não gosta das discussões sobre a separação da Espanha é Alguersuari. “Não é algo positivo no meu ponto de vista”, avalia. Ele entende que a Catalunha “se sente como um país” e vê a região como uma “fonte muito importante para a Espanha”, mas é totalmente contrário à independência. “Acho que a rivalidade entre a Catalunha e a Espanha é gratuita. Para mim, não há rivalidade alguma. As pessoas que se enfrentam moralmente e não respeitam a Espanha são ignorantes, assim como aquelas que não respeitam a Catalunha.”

Alguersuari adota um tom nacional de que “somos todos únicos”. “Eu sinto a Catalunha como a minha terra e a Espanha, o meu país. Sou muito catalão e muito espanhol”, afirma. “De qualquer forma, acho que, neste momento, todos nós somos afetados pela situação econômica do país. Só espero que possamos voltar a onde estávamos há seis anos”, completa.

Em todo caso, e se a independência realmente acontecesse, como ficaria o automobilismo? “A situação financeira está um pouco complicada no momento, mas eu acho que a Catalunha manteria esse número de pilotos, mesmo em caso de separação da Espanha”, opina Molina. “Seria ruim. Acho que os dois sofreriam, seria negativo para todos”, pensa Gené. “Ficaria interessante. Fernando Alonso seguiria sendo o número 1. Carlos Sainz é de Madri. Na parte catalã, há pilotos nas categorias de base, teríamos o Circuito da Catalunha, que é onde está o GP de F1, e Barcelona é uma grande cidade que sempre atrai turismo, eventos e outras coisas”, analisa Servià.

Oriol também acredita em uma convivência pacífica entre as duas nações no caso de uma eventual separação e faz uma comparação com um casamento. “20 anos de brigas. No momento que se separa... O processo é muito difícil, mas, se tem um filho, um interesse em comum, mantemos a boa relação porque queremos o filho”, compara. “O banco Santander, um banco espanhol muito importante, claro que não querem a Catalunha independente. Porém, no momento em que forem independentes, seguramente vão querer manter uma presença importante na Catalunha e todos os clientes que têm agora. Seria uma boa relação”, diz.
 

A visão de um jovem catalão

“As duas culturas são bastante diferentes. Cada região tem seus costumes, festas, idiomas e vive de maneira distinta. A Catalunha é a líder econômica da Espanha, é a que cria mais riqueza, mas isso não reflete em qualidade de vida na Catalunha. Do meu ponto de vista, é inviável para ela seguir convivendo da maneira que convive com a Espanha. Ela se vê atada às exigências de um país empobrecido que coleta grandes quantidades de dinheiro para puxar a economia. Se a Catalunha fosse independente, ainda que só economicamente, a qualidade de vida aumentaria em muitos pontos.

Quanto ao esporte, por ter uma alta qualidade de vida, os catalães investem mais em equipamentos esportivos e sociais. Isso, junto a uma grande tradição local de esportes, faz com que tenhamos muitos pilotos e esportistas do mais alto nível, nascidos ou crescidos na Catalunha. E as motos são mais populares que a F1 devido ao grande número de pilotos espanhóis no Mundial de Motovelocidade.

Sam Pendered, 19 anos, é filho de ingleses e vive na cidade catalã de Terrassa desde que nasceu.

Habla, Madrid

O madrilenho Carlos Sainz, 51, campeão mundial de rali em 1990 e 1992 e do Dakar em 2010, concorda que a Catalunha é um grande celeiro de pilotos, mas não a vê como a única fonte de talentos do automobilismo espanhol. “Há muita tradição, por isso muitos pilotos são de lá, mas tenho certeza que há bons corredores em outros lugares”, diz à WUp.

“O automobilismo é um dos maiores esportes na Espanha e temos sorte que somos competitivos em várias áreas diferentes. Claro que a F1, com Fernando Alonso, e o rali, são muito populares, mas não podemos esquecer que temos grandes campeões também, então não podemos reclamar”, fala Sainz.

‘El Matador’ vê com bons olhos a chegada da nova geração, embora entenda que não vai ser fácil pintar outro Alonso. “Ele é tão bom que será muito difícil encontrar alguém melhor. O tempo vai provar se eles serão melhores ou não”, avalia. Sainz só se absteve de palpitar sobre a política espanhola e as disputas com a Catalunha. “Não é algo com que me preocupo. Sou mais um cara do esporte do que um político”.
 

Comentários

Matéria anterior

Jacques Villeneuve:
“No momento em que uma equipe passa
a ter pilotos pagantes, está acabado”
por Renan do Couto
Próxima matéria

Felipe Nasr:
“Quero ganhar o título da GP2 e acho que ainda
não está na hora de pensar na F1”
por Fernando Silva e Felipe Giacomelli