Edição 40
Julho/2013

Grandes Entrevistas: Felipe Nasr

“Quero ganhar o título da GP2 e acho que ainda não está na hora de pensar na F1. É algo que eu quero deixar de lado, focando apenas neste ano para fazer um bom trabalho”

FERNANDO SILVA, de Sumaré
FELIPE GIACOMELLI, de São Paulo
Felipe deixa claro que ainda um longo caminho a percorrer: “Acho que a cada ano aprendo um pouco mais de tudo”. (Foto: Paolo Pellegrini/Divulgação)
m uma época em que os pilotos brasileiros estão deixando a F1 ao invés de chegar à categoria, nada mais natural do que voltar as atenções aos campeonatos de base e ver quem poderá representar o país no principal certame do automobilismo mundial. E na GP2, categoria de acesso à F1, está Felipe Nasr. O brasileiro que conta com os títulos da F-BMW Europeia e da F3 Inglesa pode colocar mais uma taça no currículo.

Após a primeira metade do campeonato, Nasr ocupa a segunda colocação na tabela de pontos e está em uma luta acirrada com o experiente Stefano Coletti valendo o título de 2013. Se dentro da pista o embate entre os dois pilotos está emocionante, fora dela o brasiliense vive uma boa fase na carreira, onde já tem os resultados alcançados reconhecidos tanto por torcedores quanto por patrocinadores, uma situação muito diferente daquela encontrada após a taça da F3 Inglesa, quando competiu praticamente sem nenhum apoio em um carro verde e amarelo.

“Tudo o que mudou nos últimos anos foi para melhor. As coisas começaram a aumentar: o interesse da mídia, dos patrocinadores, tudo isso teve uma mudança meio que radical, mas me adaptei muito bem. Acho que a cada ano aprendo um pouco mais de tudo, não só o aspecto de dentro do carro, mas também como trabalhar fora da pista. E isso é muito importante porque tem gente que não dá muita atenção para isso.”

E bota aprendizado nisso. Após vencer o campeonato inglês, Nasr cogitou correr na World Series como um degrau intermediário, mas o interesse de alguns patrocinadores fizeram-no optar pela GP2. Dando um passo tão grande, o brasileiro precisou tirar o primeiro ano na categoria para descobrir tudo o que estava acontecendo antes de lutar por resultados.

“Foram poucos os pilotos que pularam da F3 direto para a GP2 porque é um salto muito grande. Você está saindo de um carro de 220 cavalos para um de 630. É uma mudança muito grande na parte técnica, e demorei a me acostumar com a categoria também. Isso porque não estava nos planos competir na GP2. Eu já tinha feito um treino de World Series, como prêmio por ter ganhado a F3 Inglesa, e tinha andado muito bem. Tinha em mente competir na World Series no ano de 2012. Mas aí vieram outros interesses de patrocinadores, e a gente acabou ficando com a GP2.”
Sem poder participar de todos os treinos da pré-temporada, o ano de estreia de Nasr na GP2 acabou sendo um pouco mais difícil. (Foto: Divulgação)
Como a decisão veio aos 45 do segundo tempo, o trabalho de adaptação à principal categoria de acesso da F1 ficou prejudicado.

“A gente não tinha tantas opções de equipe na World Series, porque as coisas foram tardias, e apareceu a oportunidade de fazer a GP2, mas eu não consegui participar de todos os treinos da pré-temporada. Então fui meio despreparado para meu primeiro ano, mas aprendi bastante.”

Na estreia, Nasr correu pela Dams, que havia conquistado o título do ano anterior com Romain Grosjean. Entretanto, ele não era favorito absoluto em 2012. Este posto pertencia a Davide Valsecchi, que já estava correndo na GP2 quando o brasileiro fez a troca pelos carros de fórmula, há cinco anos. E isso se tornou uma espécie de maldição para Felipe, pois a equipe estava focada em garantir o bicampeonato.

"Eu tive um companheiro bastante experiente, o Valsecchi, competi pela Dams, uma equipe francesa, e essa para mim foi a parte mais difícil porque eles não conseguiam conciliar os dois carros. A atenção estava muito voltada para o Valsecchi e a qualidade de serviço que eu recebi foi horrível. Mas logo na minha primeira corrida, na Malásia, eu fiz um pódio, então não era questão de não ter aprendido andar no carro, foi de a equipe acreditar em mim, o que demorou muito para acontecer. E eles estavam esperando que apenas em um segundo ano que eu iria mostrar o meu trabalho.”
“A atenção estava muito voltada para o Valsecchi e a qualidade
de serviço que eu recebi foi horrível”
Desapontado com o tratamento recebido na Dams, Nasr resolver mudar de equipe para 2013. A escolha acabou sendo a Carlin, escuderia com a qual venceu a F3 Inglesa e terminou com a segunda colocação no tradicional GP de Macau.

“Aqui eu me sinto bem mais confortável e bem mais à vontade de trabalhar porque é uma equipe que eu conheço desde 2011, onde fui campeão com eles na F3 Inglesa. Claro que é uma turma diferente na GP2, mas mesmo assim já conhecia alguns, e sei o método de trabalho deles e a filosofia. É uma equipe que quer vencer, então tanto a minha vontade de vencer quanto a deles é grande, e isso foi fundamental.

É uma equipe que quer ensinar as coisas para mim e tem aquela vontade de vencer junto, então isso é uma coisa importantíssima em qualquer time que você entra. Não adianta ir para uma equipe, e você falar A e eles falarem B. Daí nada se encaixa, ninguém fica satisfeito, e os resultados não chegam.”

Além do bom ambiente na equipe, outra vantagem de Nasr em 2013 é já conhecer o campeonato. Poucas coisas são novidade neste ano na GP2.

“Qualquer categoria em que você volta para um segundo ano, você já tem noção das pistas, e isso tudo ajuda bastante. Você entra no campeonato com outra cabeça, já sabe o que esperar, já sabe os pontos importantes, onde se deve aproveitar e onde deve evitar os erros, então tudo isso vem ajudando para que o meu segundo ano seja melhor. E a gente teve um começo bem positivo, pontuando em todas as corridas, então eu acho que define bem o aprendizado que eu tive no ano passado. Mas eu ainda estou aprendendo.”


A única vez que o brasileiro deixou de pontuar até agora foi na corrida principal de Silverstone, quando acabou tocado por Marcus Ericsson na disputa pela liderança da prova. O acidente, porém, aconteceu após a entrevista à WARM UP.

Para não dizer que nada é novo para Felipe neste ano, os pneus da GP2 também sofreram modificações. Assim como acontece na F1, a Pirelli colocou um composto com uma degradação ainda maior. Entretanto, isso beneficiou o brasileiro, que conseguiu fazer boas provas no início do ano apostando na economia da borracha.

“Os pneus são diferentes do ano passado e estão tendo um desgaste ainda maior, então precisamos mudar um pouco as coisas no carro, na parte de acerto para certas pistas, e a estratégia está contando muito nas corridas. Como o desgaste é grande, então o posicionamento é importantíssimo. São vários fatores que ajudam no segundo ano. Mas tem pilotos como o Coletti, que já está ali há quatro anos e é muito experiente e que já conhece todas as pistas, e tenho certeza de que ele está conseguindo usar isso daí bem.”
Atual vice-líder do campeonato, Nasr já tem quatro pódios na temporada 2013. (Foto: Paolo Pellegrini/Divulgação)
 
A experiência de Coletti, aliás, o tem ajudado a se manter na luta pelo título. O piloto não vem tendo um desempenho espetacular nos treinos classificatórios nem nas corridas longas, mas tem compensado essa fraqueza ao dominar as provas do domingo, tendo já conquistado três vitórias no ano.

“Por enquanto, o Coletti tem se aproveitado do grid invertido, então é uma coisa que não dá para a gente controlar. E normalmente com o grid invertido você acaba pegando pilotos não muito rápidos pela frente, e fica mais fácil ganhar essas posições no começo da corrida. Ele tem se aproveitado disso e abriu uma vantagem no campeonato. Mas uma vitória são 25 pontos, e a qualquer hora o campeonato pode mudar.”

Falando em vitória, Nasr ainda não conseguiu conquistar a primeira no certame. Neste ano, o brasileiro já obteve três segundos lugares, sendo que em dois deles terminou menos de 1s atrás do vencedor. Embora exista uma pressão para de fato acabar com esse jejum, vencer se tornou questão de fazer tudo dar certo em uma corrida.

“Já bati na trave algumas vezes. Eu acho que, olhando de um lado, está sendo positivo. A gente tem mostrado que o carro é, sim, competitivo, brigando sempre por essa vitória, que está chegando perto, mas acho que são alguns fatores que não se encaixaram. Ou foi a largada que não foi muito boa, ou foi a estratégia que não foi correta, ou o posicionamento na pista na hora de sair dos boxes estava errado. Então, por enquanto, nada disso encaixou na hora certa. A vitória para mim é questão de momento. Mas mais importante é que a gente está com condições de estar brigando por isso o tempo todo.”

Se Nasr está colocando tudo o que aprendeu no primeiro ano no campeonato para lutar pela primeira vitória e pelo título, outros pilotos não podem dizer o mesmo. A temporada 2013 da GP2 tem sido marcada por diversos incidentes e punições aos competidores.

“Tem piloto que pode ficar mais cinco anos na GP2 e não vai aprender nunca esse lado de respeitar o adversário e entender que aquilo é coisa séria. Claro que não é a maioria, são algumas exceções que fazem essas besteiras na pista, mas o que eu posso falar é que depois de tantos anos são sempre as mesmas pessoas. Acho que a GP2 algumas vezes é muito fraca nessas punições, poderia haver algo maior, porque, se continuar assim, eles vão continuar fazendo. Se não houver nada mais pesado, eles vão achar que é normal, e isso pega mal para a GP2. A última categoria antes da F1 tem um peso grande na formação de pilotos, e você fica dando exemplos errados para muita gente.”
“Para mim e para meu empresário, é um plano
estar na F1 no ano que vem”
Nasr liderando o pelotão da GP2. (Foto: Paolo Pellegrini/Divulgação)
E por falar na F1, ela sempre está presente no imaginário de qualquer piloto da GP2. Afinal, eles estão lá para mostrar serviço e tentar arrumar algum contrato com as equipes da categoria de cima. Mas Nasr ainda não pensa assim.

“Para falar a verdade, eu quero ganhar esse título e acho que ainda não está na hora de pensar na F1. É algo que eu quero deixar de lado, focando apenas neste ano para fazer um bom trabalho na GP2, e tenho certeza de que esse resultado vai ajudar muito no futuro, para qualquer negociação quer vier a acontecer. Acho que é continuar a fazer o trabalho que estou fazendo.”

Mesmo assim, o brasileiro espera estar na principal categoria do mundo em 2014, seja como reserva, seja como titular.

“Para mim e para meu empresário, é um plano estar na F1 no ano que vem, mas a gente sabe que tem muitos aspectos para serem acertados para conseguir isso, então realmente não tem nada certo. Eu gostaria de estar envolvido no meio, esse é o plano, mas quero pensar nisso com mais calma depois que concluir o campeonato da GP2.”

Se a F1 ainda é um futuro distante para o piloto, a volta ao Brasil também é. Mas isso não significa que o piloto não saiba o que se passa por aqui. Vindo de uma família tradicional no automobilismo nacional, que revelou nomes como Helio Castroneves e Vitor Meira, o brasiliense sentiu na pela a falta de categorias de base no país, sendo obrigado a começar a carreira na Europa.

Por já saber todas as dificuldades que os jovens pilotos passam, Felipe revelou que tem vontade de um dia trabalhar para promover as categorias de base no Brasil e tentar devolver ao esporte tudo aquilo que já conquistou.

“Quando converso com minha família sobre as categorias de fórmula, elas estão em decadência. Não tem estrutura, não tem investimento, não tem muitas pessoas levando a sério. Acho que o maior exemplo são eles. Minha família saiu da F3 porque viram que não tinha como aproveitar a categoria. Não virou mais um negócio sério e veio a decisão de sair. Mas eu sempre converso com eles sobre criar alguma coisa, nem que seja na F3, para tentar ajudar nesse projeto. A gente tem as portas abertas para qualquer projeto que surja.”
 

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