Edição 40
Julho/2013

O Automobilismo não é tudo:
Senta, que o Gigante é manso

Um dos efeitos mais interessantes das manifestações de junho, apesar de previsível, foi o ânimo que um grupo pequeno de beócios ganhou para defender a volta dos militares ao poder

FELIPE CORAZZA, de São Paulo
inda é bem cedo para dizer quais são, efetivamente, os efeitos do “junho de fúria” que testemunhamos com gente nas ruas, quebra-quebra, invasões de casas legislativas e outros bichos. Os tais cinco pontos apresentados pela presidência da República parecem não se sustentar mesmo, o Congresso derrubou a PEC 37 e a “cura gay”, mas pelo jeito parou por aí, e o plano de reforma do Judiciário apresentado pelo Joaquim ‘Batman’ Barbosa vai ficar, aparentemente, só na ideia.

Mas um dos efeitos mais interessantes das manifestações, apesar de previsível, foi o ânimo que um grupo pequeno de beócios ganhou para ir às ruas defender a volta dos militares ao poder. Visto mais em fotos de Facebook do que outra coisa, eram poucos mesmo, ainda bem. É do jogo. Têm todo o direito de estarem ali falando as sandices que quiserem e mostrando os cartazes que desejarem. É triste, mas podem ter voz, sim, e devem poder sempre, ao contrário do que aconteceria no regime que eles mesmos defendem.

“Está louco? Acha legal defender a ditadura?”. Não, óbvio que não. Mas o efeito colateral realmente importante da coisa toda, esse não tão previsível assim, foi justamente a reação dos militares ao caos: nada. Mesmo quando os cretinos que clamam pelo regresso da ditadura começaram a botar as manguinhas de fora, os milicos não levantaram as sobrancelhas.

As Forças Armadas se limitaram a colocar tropas à disposição dos governadores para casos extremos - se não me falha a memória, nenhum Estado chegou a usá-las de fato. De resto, não houve pronunciamento dos comandantes, o Estado Maior ficou quieto e isso é muito bom.

Os militares de pijama, a turma do Clube Militar que sempre fala groselha por aí, esses fizeram “manifestos”, organizaram eventos e tentaram até uma “marcha pela família”. Mas essa é outra parte importante dos militares aposentados: eles estão aposentados. Falam, esbravejam, defendem a ditadura, pedem aumento nas aposentadorias, mas, felizmente, não mandam em absolutamente nada.

Os comandantes da ativa, que importam de fato, não parecem ter a menor vontade de se insurgir para tomar o poder das mãos dos civis. Em um país com a nossa história e num continente tão propenso a “revoluções redentoras” - ou simplesmente golpes de Estado, na denominação mais fiel à realidade -, isso é muito, muito importante, não canso de dizer.

No dia 17 de junho, aquela segunda-feira em que as coisas pareciam começar a fugir do controle, seria necessário pouco esforço para um golpe. Nos dias seguintes, idem. Com milhões nas ruas se muita causa específica, raiva e pancadarias para todos os lados, saques, governo federal silencioso e as primeiras mortes nos protestos, um grupo razoavelmente influente de milicos poderia ter tomado o poder sem dar muitos tiros - ou, talvez, sem nenhum.

Outro ponto bem interessante do “resumo da ópera” desses protestos é que continuamos com uma moçada que raciocina como se fosse ao banheiro. Entre os destaques dos cartazes, um particularmente enojante foi o da madame que exigia o fim do direito ao voto para os beneficiários do Bolsa-Família. Nota-se que a dita criatura nunca passou perrengue e nunca teve qualquer contato com a “gente diferenciada” - exceto, talvez, os esporros na empregada doméstica, que ela insiste em chamar de “ajudante” pra não pegar tão mal.

Deve ser um exemplar daquela camada muito esclarecida da nossa briosa sociedade que falava sobre pessoas que largaram seus empregos para viver de Bolsa-Família. Pelo valor em dinheiro dos benefícios sociais, o sujeito devia trabalhar em regime de semi-escravidão para conseguir trocar um pelo outro. Também foi muito às ruas aquela galera sadia que cisma em colocar a culpa da crise no “crédito pra pobre”. Deram dinheiro pra essa gente, eles saíram comprando geladeira, fogão, TV, veja você que absurdo. Pois é. Só que o crédito pra pobre, já sabia muito bem o Silvio Santos, é o único com inadimplência quase zero. O nome é tudo que o cara tem. Se for pro SPC, perdeu. Se ferra, trabalha em bico, dá um jeito, mas paga a dívida.

Mas a culpa de qualquer coisa, como todos sabem, SÓ PODE SER do pobre. Não pode ser, jamais, do rico que compra apartamento de 1,5 milhão a crédito. Não pode, nunca, ser do cidadão que ganha 8 mil por mês, mas compra um carro de 100 mil com parcelas a perder de vista. Não, de maneira alguma, sonhe em culpar um bilionário que criou um esquema de pirâmide petrolífera e tungou bilhões entre empréstimos do BNDES e ações vendidas para otários. Deviam tirar o direito ao voto, minha senhora, dos trouxas. Aí a coisa começaria a melhorar.



Por falar em Joaquim Barbosa, que beleza esse esquemão de viagens pela FAB Linhas Aéreas pra ver jogo de futebol em camarote, hein? Fico curioso pra saber qual foi o serviço de bordo.



A propósito de futebol, também, queria saber qual foi a mágica feita pela torcida do querido Bahia para conseguir tirar do poder o agora ex-presidente Marcelo Guimarães Filho. Se puderem me contar, agradeço. Tem um clube aqui em São Paulo, ali pelos lados do Morumbi, precisando muito.



A grande maravilha do sistema de vigilância online americano atingir o Brasil é que posso dizer que o Obama lê minha coluna. Um abraço, presidente. Vê se fecha logo aquela porcaria de Guantánamo e, da próxima vez que vier ver a Dilma, traz uma lente 50mm da Canon. Tá o olho da cara aqui em Sucupira. Me avisa quando chegar que te pago na área de desembarque.
Foto: Rafael S. Fabres/Getty Images
 

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