Edição 41
Agosto/2013

Americo Teixeira Jr:
Ou se reinventa ou vira pó

O automobilismo pode ser um mundo de ilusões, mas é bem real na hora de pagar suas diversas contas

AMERICO TEIXEIRA JR, de Vinhedo
automobilismo brasileiro é um forte sobrevivente diante de tantas adversidades e desmandos. Mas também é um doente com sinais claros de debilidade: administração amadora e cartorial, poucas ilhas de prosperidade em meio a carências gerais, viciado em se salvaguardar junto ao poder público e ignorante quanto ao seu próprio futuro. A boa notícia é que tudo isso tem cura, bastando um choque de gestão para colocar as coisas nos trilhos.

A prova mais cabal de que o automobilismo não avançou enquanto gestão é o fato de nossos autódromos estarem acabando. Se o esporte por aqui fosse efetivamente profissional como um todo, a ausência de praças esportivas adequadas seria mais sentida. Se niveladas por baixo, categorias e locais destinados à prática do esporte, o que está aí até que dá para o gasto. Certo? Errado!

Errado porque a visão míope conduz ao abismo do desemprego, da falta de investimento e do sucateamento. Independentemente de o cidadão acelerar um carro de corrida como profissional ou amador, a engrenagem desse setor da economia chamado Automobilismo Brasileiro continua girando. Seja o Cacá Bueno – para citar um dos pilotos mais laureados de nossas pistas atualmente –, seja aquele senhor que só teve acesso financeiro ao esporte na vida adulta e se delicia pilotando um carro clássico em Interlagos, todo o resto tem de ser profissional, começando pela gestão. O piloto pode ser até amador, curtindo o seu domingo na pista porque na segunda estará ralando no seu negócio principal, mas o amadorismo acaba aí.

Some-se a isso o fato de termos inúmeras pistas nas mãos de prefeituras, o que coloca em risco de morte autódromos e kartódromos espalhados pelo país. Não adianta nada uma prefeitura gastar dinheiro com uma pista de corrida para um grupo específico chamar de “sua”, se ocorrem meia dúzia de corridas por ano e sem gerenciamento que garanta receita mínima para a manutenção de suas das instalações. Aí, na primeira oportunidade, bota-se abaixo porque não é importante sob o ponto de vista econômico.

Será mesmo que Jacarepaguá teria virado pó se fosse um local bem administrado, utilizado para fins esportivos, sociais e educacionais, com geração de recursos, empregos em abundância e reforço para a economia? Por que em Interlagos isso não acontece? Já imaginaram quando prédios de apartamentos populares caberiam naquele milhão de metros quadrados na Zona Sul paulistana? Vamos fazer as contas: se fossem construídas dez torres, 30 andares cada e oito apartamentos por andar, seria o lar para mais ou menos 10.000 pessoas. Aposto que tem construtor salivando por conta disso...

Só que a prefeitura de São Paulo, desde os tempos de Luiza Erundina, tratou de transformar tudo aquilo em uma das molas propulsoras da economia da cidade. Claro que, se não fosse a F1, a coisa poderia ser outra, mas o fato é que Interlagos ganhou tanta importância que é muito mais do que um mero departamento municipal. Isso para dizer que aquilo que já está nas mãos do poder público, paciência, fica lá e que seus mantenedores assumam as responsabilidades. Mas pensar em novas pistas no mesmo formato é ignorar as necessidades primárias da população. Pista tem de ser privada para que seus gestores contribuam para o crescimento do esporte.

O automobilismo brasileiro é um gigante que perde forças, gerando menos empregos, divisas e visibilidade. Claro que há exceções, mas elas não são fortes o bastante para reverter o quadro de queda. Num país que possui uma única pista que comporta qualquer evento (ou quase), apenas duas categorias de sucesso e um formato federativo que em pleno século 21 está longe de funcionar como uma empresa moderna e de olho no futuro, o que se vê é um cenário vulnerável e propenso ao caos. Há uma crise instalada que não pode ser ignorada, e isso reflete em todos os cantos. Mesmo as nossas principais categorias vivem seus momentos de dificuldades.

A própria Stock Car, que até certo ponto com razão se autodenomina “a principal categoria do automobilismo brasileiro”, tem dependência do pacote promocional oferecido pela parceria com a Rede Globo. Desnecessários elencá-los porque é visível que alguns dos principais patrocinadores do país estão na categoria. Uma pergunta óbvia é se os investimentos seriam os mesmos sem a emissora de âmbito internacional sediada no Rio de Janeiro. É tão clara essa situação que muito se fala, nos bastidores, sobre o que seria da Stock sem a Globo. E ninguém quer sequer imaginar esse quadro. Talvez a realidade fosse outra e menos glamorosa. Mas o fato é que a Stock Car vem se defendendo desde 1979, quando foi criada, e sobreviveu a diversos panoramas adversos.

A F-Truck escolheu outro caminho. Sua opção foi se tornar popular e firmar parcerias com grandes montadoras do setor. Assim, diferentemente da Stock, muitos fabricantes de caminhões, motores, peças e ferramentas estão participando da categoria não apenas com seus departamento de marketing, mas também com suas áreas de engenharia. A Band, sabidamente mais modesta em termos de audiência, une-se nesse processo como parceria importante, mas sem gerar dependência.

Independentemente da característica de cada uma, fato é que as categorias hoje capitaneadas, respectivamente, por Maurício Slaviero e Neusa Navarro Félix, crescem em velocidade maior do que o todo do nosso automobilismo, razão pela qual seus eventos já não cabem mais nas pistas brasileiras. A exceção é Interlagos, única pista que atende todas as necessidades das categorias nacionais. A gente precisa parar de se enganar com os títulos de Emerson, Nelson e Ayrton. Esses oito títulos mundiais de F1 não foram decorrência do “grande automobilismo brasileiro”. Pelo contrário, foram três “malucos” que se lançaram numa aventura e ganharam glória, fama e fortuna porque souberam driblar as dificuldades e se destacar num “mundo para poucos”.

O automobilismo pode ser um mundo de ilusões, mas é bem real na hora de pagar suas diversas contas. Assim, todos nós temos responsabilidade nisso, e há muito o que fazer para que tudo isso não vire pó.
Foto: Rodrigo Berton
 

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