Edição 41
Agosto/2013

Estepe: O novo mapa dos Sertões

Depois de competir apenas em dois estados em 2013, Rali dos Sertões projeta prova menor no próximo ano, não abandona Goiás, mas estuda etapas no Espírito Santo, Minas e Rio de Janeiro

EVELYN GUIMARÃES, de Goiânia
Goiânia recebeu tanto a largada quanto a chegada do Rali dos Sertões em 2013. (Foto: Gustavo Epifanio/Fotoarena)
Rali dos Sertões 2013 viveu uma prova atípica na 21ª edição, disputada entre os dias 25 de julho e 3 de agosto. É que pela primeira vez, a maior competição cross-country do país foi realizada em apenas dois estados. Desta vez, os 4.115 km do trajeto percorreram nove cidades entre Goiás e Tocantins, em 2.488 km de trechos cronometrados. Foi uma das maiores porcentagens de especiais da história do rali, algo em torno de 60,4%. E, assim como acontecera em 2005, a largada e a chegada também foram realizadas em Goiânia.

O roteiro precisou ser ajustado de última hora neste ano, evidenciando uma clara necessidade de reduzir custos. Originalmente, a prova sairia de São Luis, no Maranhão, mas a perda do apoio do estado acabou inviabilizando os planos e tirando a competição do nordeste brasileiro, região que sempre foi uma das maiores características da corrida.

E foi aí que a Dunas Race, a empresa que organiza e promove o rali, precisou agir rápido e buscar alternativas, e isso quando já começava a fazer o levantamento das possíveis etapas no Maranhão. O revés atrasou e alterou todo o planejamento e fez a empresa se voltar para o estado de Goiás, velho parceiro do rali. Daí a opção por iniciar e finalizar a corrida na capital goiana, que recebeu o evento pela 11ª na história.

“Para nós foi um ano um pouco atípico, porque tivemos de mudar a largada do rali, que era para ter sido em São Luis”, diz o diretor-presidente da Dunas Race, Marcos Moraes, em entrevista à REVISTA WARM UP, logo após o término da edição deste ano dos Sertões.

“Mas aí tivemos de fazer alguns ajustes para poder dar a largada em Goiânia, que também acabou recebendo a chegada, fomos nos adaptando à nova situação. Com isso, todos nós acabamos perdendo alguns dias de trabalho porque já tínhamos começado a fazer o levantamento do roteiro partindo de São Luis”, completa.
“Uma das coisas mais interessantes neste ano para nós foram as equipes estrangeiras, que trouxeram os pilotos oficiais de fábrica”
Marcos Moraes, diretor-presidente da Dunas Race
Para 2014, a ideia é continuar o processo de internacionalização da prova. (Foto: Eric Schroeder/Fotoarena)
Apesar da mudança, Moraes faz uma boa avaliação do roteiro final. “Conseguimos aperfeiçoar a nossa agenda, e foi possível montar tudo dentro do prazo. Com relação ao trajeto, eu acho que foi realmente seletivo e proporcionou boas especiais, com poucos deslocamentos. Além disso, os trechos ficaram mais fáceis até em termos de resgate dentro das trilhas e de descolamentos para as equipes, algo que já era um pedido deles”, acrescenta.

As dificuldades econômicas, assim como a busca por redução nos gastos, também foram sentidas em outras esferas da competição. O Prólogo, etapa inicial da prova e que formou a ordem de largada para o segundo dia, não teve grande público, apesar do entusiasmo dos fãs que compareçam à pista montada em Goiânia. Não havia arquibancadas, e as corridas foram disputadas durante o dia, perdendo um pouco do brilho e do glamour de anos anteriores, quando acontecia sob luzes artificiais à noite.

Mas nem tudo foram dificuldades. No campo da competição, especificamente, pode-se dizer que o baque inicial foi recompensado pelos pilotos e equipes que fizeram parte da prova deste ano. Mesmo diante de condições mais complicadas de orçamento, a corrida conseguiu atrair participantes de peso em 2013, sobretudo entre as motos, talvez a categoria de maior charme de qualquer prova off-road do mundo.

O que valorizou a prova deste ano foi o retorno ao Mundial de Cross-Country da FIM, a Federação Internacional de Motociclismo. Por causa da extensão e das dificuldades, a entidade máxima das duas rodas decidiu ainda considerar a corrida brasileira como peso 2 na pontuação do campeonato. Com isso, o evento ganhou ares de Dakar, com nomes como Marc Coma, Cyril Després, Paulo Gonçalves e Ruben Faria, além de Jean Azevedo, puxando a equipe de fábrica da Honda, que ainda levou mais quatro importantes nomes da modalidade no Brasil.

Falando em grandes fabricantes, a classe também presenciou um embate interessante entre a Yamaha, agora nas mãos do pentacampeão do Dakar – Després –, e a KTM de Coma. Entre os carros, a estrela novamente foi o francês Stéphane Peterhansel, multicampeão do Dakar. O piloto chegou até mesmo a utilizar a prova como um grande campo de testes para a nova versão do Mini. Entre os brasileiros, Guilherme Spinelli de novo liderou o pelotão atrás do gaulês, mas a vida foi dura no bloco intermediário, com nomes fortes do rali nacional aparecendo bem, como Klever Kolberg, Joao Franciosi e Marcos Cassol.

O rali continuou apostando na competição de quadriciclos, categoria que também trouxe representantes importantes por conta do Mundial, como o polonês Rafal Sonik e Julián Villarrubia. Os UTVs ganharam mais competidores e seguem o caminho do desenvolvimento. O destaque negativo foi a categoria caminhões. Na última hora, também reflexo do mau momento econômico, houve desistências e, dos seis veículos que participariam da corrida, apenas dois confirmaram presença: Edu Piano e Guido Salvini.
 
Moraes reconhece que a vinda dos estrangeiros foi o ponto alto do rali, mas reitera que ainda há muito trabalho a ser feito. A ideia é continuar o processo de internacionalização da prova, também buscando um equilíbrio com relação aos gastos.

“Uma das coisas mais interessantes neste ano para nós foram as equipes estrangeiras, que trouxeram os pilotos oficiais de fábrica”, afirma. “Pela primeira vez, na categoria motos, tivemos três times de fábricas. Nos carros, além de Peterhansel e o Guiga, nós vimos diversas equipes com grande estrutura neste ano, com carros bastante competitivos. Então, eu acho que foi uma grande prova neste aspecto. É o que tentamos fazer e acho que conseguimos completar tudo que planejamos. E a ideia é atrair ainda mais estrangeiros”, completa.

O lado financeiro, evidentemente, preocupa o organizador do Rali dos Sertões. O projeto para a próxima edição é continuar a baratear os custos e promover um equilíbrio entre a vontade de tornar o rali viável economicamente para os competidores locais e o desejo de atrair os grandes nomes internacionais. Para isso, Moraes entende que é preciso também investir em competições fora do Brasil. E é esse o primeiro passo para a promoção dos Sertões 2014.

“Para o ano que vem, nós esperamos voltar a fazer eventos fora do país, para também atrair outros competidores estrangeiros para os Sertões. E com isso ter um volume maior de participantes”, diz. “Além disso, estamos já trabalhando para tentar novamente fazer parte do calendário do Mundial, como neste ano. É um caminho”

A outra alternativa é reduzir a competição e investir em novos estados brasileiros. O plano para o próximo ano é deixar o Nordeste de vez e apostar em cidades e estados que nunca receberam a prova. “Nós estamos estudando tudo”, afirma o empresário. “E na medida em que o mercado em si está um pouco restrito, também pensamos em diminuir o número de dias para tentar uma prova mais barata para todo mundo”, completa Marcos, afirmando que a competição em 2014 terá “oito dias em vez de dez”. “Na verdade, nós estamos pensando em largar de Goiânia de novo, essa é certeza, e focar em outros estados que ainda não receberam o Rali dos Sertões, como o Espírito Santo, o Rio de Janeiro e tentar fazer algumas etapas em Minas Gerais”, acrescenta.

A primeira vez é inesquecível

Neste ano, duas cidades goianas – Uruaçu e Goianésia – sediaram etapas do evento pela primeira vez. Os dois municípios viveram intensamente a chegada do rali, com grande público circulando pelo parque de apoio durante a noite e com shows e apresentações para atrair a população local e criar uma identidade com o evento.

Nas duas cidades, o parque de apoio foi montado em lugares amplos e de fácil acesso ao público. Não houve cobrança de ingressos, e as pessoas tiveram a chance de acompanhar de muito perto o trabalho de pilotos e equipes nas áreas improvisadas de boxes.

No caso de Uruaçu, que vive basicamente do agronegócio e do turismo em função de possuir o segundo maior lago artificial da America Latina, o investimento foi grande para ter os Sertões. De acordo com o secretário de turismo do município, Rubens Alencar, a cidade “há tempos já estava querendo receber o rali, porque é um grande evento, e os investimentos foram grandes, como algumas pavimentações de ruas, hotéis e restaurantes”.
 

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