Edição 41
Agosto/2013

Grandes Entrevistas: Stéphane Peterhansel

“Prefiro o off-road, porque simplesmente me sinto mais livre. Acho que essa liberdade é o que apaixona nesse esporte”

EVELYN GUIMARÃES, de Goiânia
Lenda do rali, Stéphane Peterhansel esteve no Brasil para disputar o Rali dos Sertões e conversou com a Revista Warm Up. (Foto: Victor Eleutério/Fotoarena)
inguém tem tantos títulos no mais difícil e desafiador rali do planeta. Ninguém conquistou tantas vitórias nas duas principais categorias da maior competição cross-country no mundo. E ninguém parece tão ávido por novos triunfos quanto ele. Aos 48 anos, Stéphane Peterhansel é uma lenda do Dakar e dono de nada menos que 11 títulos entre motos e carros no mais célebre dos ralis.

O maior de todos os tempos nas competições off-road deu os primeiros passos na carreira esportiva ainda muito cedo. Enquanto andava de skate, o francês conheceu a “maior paixão da vida” com apenas oito anos de idade, quando o pai, também piloto de rali pelo mundo afora, comprou e o ensinou a andar em uma minimoto.

As primeiras voltas já serviram para mostrar o caminho que levaria Peterhansel ao maior dos desertos e a conquistas impressionantes. Apesar de acompanhar desde criança diversas modalidades do esporte a motor pela TV, como a F1 e as corridas de motovelocidade, foram as provas na terra que chamaram mais a atenção. E não demorou muito para o então Paris-Dakar se tornar um sonho, uma meta.

“O esporte a motor entrou na minha vida por causa do meu pai. Ele era um piloto de rali, mas também corria em vários campeonatos de moto. Quando eu tinha oito anos, mais ou menos, ele comprou para mim uma pequena moto e me ensinou como pilotar. Eu andei e me apaixonei pela primeira vez. Dei minhas primeiras voltas e nunca mais larguei essa paixão.”

E até por isso as motos sempre exerceram um fascínio muito grande no piloto. Esse amor pels duas rodas facilmente faz brilhar os olhos deste francês carismático e de simpatia ímpar. Foi debaixo da tenda improvisada da equipe Mini, ainda no parque de apoio do Rali dos Sertões, em Goiânia, que Peterhansel conversou com a REVISTA WARM UP.

“Na época, eu acompanhava tudo pela TV, todos os campeonatos, F1, as corridas de motovelocidade e os ralis. Via absolutamente tudo. Mas desde sempre o meu grande amor foram as motos. Sempre fui mais interessado nesse tipo de competição. Mas, para mim, as melhores provas eram na terra, como motocross, e, principalmente, o off-road. Sempre vou preferir as motos aos carros.”
Neste ano, Peterhansel disputou o Rali dos Sertões pela segunda vez e conquistou o bicampeonato com alguma facilidade. (Foto: Victor Eleutério/Fotoarena)
O rali, especialmente o de velocidade, também é visto por Peterhansel por outro ângulo. O piloto preza a liberdade, o prazer de enfrentar algo pela primeira vez e a surpresa de um novo obstáculo.

“Prefiro o off-road, porque simplesmente me sinto mais livre. Acho que é essa liberdade que apaixona nesse esporte. Além disso, é um tipo de coisa em que você descobre novas paisagens, admira, é sempre tudo diferente e desafiador. É incrível.”

“Agora, se você pilota em um circuito, como as pistas de F1 ou MotoGP, é sempre a mesma coisa. Você roda em círculos... Aí passa rapidamente a conhecer todas as curvas, todos os pontos de maior perigo. Para mim, isso não é o bastante, não é animador e não me atrai muito. Eu prefiro percorrer um longo caminho, em diferentes lugares, com paisagens distintas e muitos desafios.”

Nascido na pequenina Échenoz-la-Méline, Peterhansel iniciou a carreira no motociclismo em 1980, correndo em pequenos campeonatos off-road. Mais tarde, passou a competir em ralis maiores na Europa e na África, até que finalmente a estreia no Dakar aconteceu em 1988, quando tinha apenas 22 anos.

O francês começou a vitoriosa trajetória em cima de uma Yamaha. Na primeira participação, completou a mais difícil das provas em 18°, depois de ter ficado perdido no deserto e com pouco combustível. No ano seguinte, o desempenho foi muito melhor. Stéphane terminou a corrida no Senegal em uma boa quarta posição.

O primeiro revés aconteceu em 1990, quando não pôde finalizar o rali. Mas a decepção foi compensada por uma atuação firme e constante na edição seguinte, em 1991, quando a prova partiu de Paris, fez uma parada estratégica em Trípoli e chegou a Dacar. Naquele ano, o francês venceu o primeiro dos seis títulos entre as motos na competição criada por Thierry Sabine.

“Já era um sonho fazer o Dakar, agora vencer era algo muito maior. Um sonho que eu nem sonhava. E ser capaz de alcançar isso pouco tempo depois de começar a competir é a melhor lembrança que tenho. A primeira vitória foi e ainda é o maior momento da minha carreira, sem dúvida.”
“As motos são mais complicadas.
É tudo muito perigoso, mais do que qualquer outra coisa”
Peterhansel conquistaria mais cinco vezes o Rali Dakar em cima de uma Yamaha nas edições de 1992, 1993, 1995, 1997 e 1998. E foi aí que o francês decidiu trocar as duas pelas quatro rodas. O fato de nunca ter se machucado com gravidade e passado ileso por acidentes sérios, especialmente no deserto, fez com que a mudança fosse algo até natural. A curiosidade com relação à competição nos carros também ajudou a tornar a transição mais fácil.

“Eu já havia feito dez edições do Rali Dakar entre as motos. Venci seis vezes, sem nenhum grande acidente, sem nenhuma grande lesão, nada, nada. Então, decidi que era hora de deixar as motos antes que acontecesse algo sério. Além disso, na época, eu estava muito motivado e interessado em saber como era a competição entre os carros. E não queria mais correr tantos riscos.”

Agora já sentado na mesinha de refeição da equipe e beliscando os gominhos de uma laranja, Stéphane resolve traçar as principais diferenças entre as duas maiores categorias do rali. Para o francês, as motos, mesmo com toda a tecnologia disponível de navegação e de proteção ao piloto, continuam sendo muito arriscadas, “é a mais difícil e perigosa categoria de um rali”.

“As motos são mais complicadas. Você precisa estar sempre em boas condições físicas. Além disso, é tudo muito perigoso. Mais do que qualquer outra coisa. Porém, você se sente muito mais livre. No carro, as coisas são bem diferentes. Você consegue dividir tudo com o navegador. É menos perigoso, mas, ainda assim, é uma grande sensação.”

Ainda com relação às motos, Peterhansel faz uma ressalva. Embora entenda que se trata de uma das competições mais arriscadas do esporte a motor, ainda mais pelas trilhas de um rali, o gaulês acha que os pilotos convivem com situações mais seguras atualmente.

“Hoje em dia, a vida não é tão fácil assim para os pilotos de moto, mas penso que as condições são mais seguras. Mesmo assim, tudo é mais arriscado, porque quando se comete um erro, você cai e pode se machucar feio. No meu tempo, correr de moto certamente era ainda mais perigoso, porque elas eram maiores, os motores também, e não havia todos esses sistemas de navegação que existem agora. Os freios também eram diferentes. E não eram tão eficientes.”

Falando em riscos em diferentes épocas, o francês admite que já sentiu medo em cima da moto, “especialmente no início no Dakar”, mas reconhece que é difícil apontar o que é melhor: a vida, hoje, dentro do carro, ou as aventuras nas duas rodas.

“Na verdade, é tudo muito diferente e é complicado mensurar se antes era melhor ou hoje é melhor. Não sei dizer. Mas continuo amando esse esporte.”
Peterhansel comemora em 2013 o eneacampeonato do Rali Dakar, sendo seu quinto título entre os carros. (Foto: Shaun Botterill/Getty Images)
“No off-road, você passa apenas uma vez no mesmo lugar, então é impossível conhecer todas as curvas, todos os obstáculos”
(Foto: Shaun Botterill/Getty Images)
O primeiro Dakar nos carros foi o de 1999, depois de algumas provas no gelo na Europa. A transição também marcou o início da parceria com o compatriota e navegador Jean-Paul Cottret, o “amigo para tudo”. No começo, Peterhansel dividiu com o compatriota um Nissan. Os dois terminaram aquele rali na sétima colocação. E o caminho até o primeiro triunfo foi duro e de muita aprendizagem. “Foi complicado no início, mas aprendemos muito. Fizemos muitos testes e participamos de outros ralis pelo mundo”, disse.

O título veio apenas em 2004, a bordo do Mitsubishi Pajero. O francês ainda levantaria as taças de campeão em 2005 e 2007, antes de acertar com a BMW para as edições de 2009 e 2010. Mas foi com o Mini de fábrica que o gaulês alcançou o número de títulos que agora o coloca entre os maiores de todos os tempos.

Em 2013, Peterhansel repetiu o desempenho do ano passado e conquistou o 11° título no Dakar, o quinto entre os carros. Com isso, o experiente piloto acabou por quebrar uma marca que já durava desde 1991. Até então o maior vencedor da categoria era o finlandês Ari Vatanen, tetracampeão da prova.

“Foi incrível vencer o Rali Dakar neste ano. Incrível. Não tivemos qualquer problema a prova toda. O carro se mostrou fantástico. E foi a melhor edição do Dakar desde que estamos na América do Sul.”

Ao falar da vitória histórica deste ano, Peterhansel chega até a se emocionar. Mas o francês logo muda de assunto para aquilo que também considera fundamental para se manter no topo no rali, seja nos carros ou nas motos: a antecipação. Para Stéphane, o poder de reação no tempo correto é que divide os pilotos de rali.

“Quando você está em um circuito, você precisa ser muito preciso. É necessário que se saiba frear sempre no mesmo ponto, acelerar e tudo mais. Por isso, é um mundo totalmente diferente. Você precisa encontrar uma trajetória sempre perfeita para se manter rápido, para se manter na frente.”

“No off-road, especialmente no rali, você passa apenas uma vez no mesmo lugar, então é impossível conhecer todas as curvas, todos os obstáculos. Portanto, você precisa ter um senso de antecipação, entender mais ou menos o que esperar do caminho que está seguindo. Eu acho que esse poder, o de conseguir antecipar, é a chave para a velocidade, para conseguir tantos resultados e sucesso no rali.”

Depois de revelar o segredo de uma das carreiras mais bem-sucedidas do esporte a motor, Peterhansel afirma que ainda não pensa em parar e se dá, a princípio, mais dois anos de Rali Dakar. “Já estou perto dos 50... Acho que talvez mais dois anos. Não sei, depende do que acontecer. Mas não penso muito nisso.”

E perguntado sobre um eventual sucessor, alguém que possa alcançar os mesmos números ou até superá-los, Peterhansel se diverte, ri e diz que acha difícil alguém ter a mesma carreira, mas aponta o compatriota Cyril Després como um nome forte. O francês da Yamaha já possui cinco vitórias no Dakar nas motos.

“Não sei se há alguém que possa fazer tudo o que fiz, porque corri muito tempo e fiz muitas coisas em cima da moto e agora também nos carros. E não será fácil para a nova geração repetir tudo isso. Na verdade, é algo muito difícil para os novos pilotos. Mas posso dizer que Cyril Després, ao menos nos números, é alguém que pode se aproximar muito de mim. Ele é muito forte, um grande piloto. Ele, com cinco títulos no Dakar, é o competidor em atividade que está mais perto de mim. Talvez seja ele mesmo o próximo Peterhansel.”
 

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