Edição 41
Agosto/2013

Stop & Go: Galid Osman

“Sempre que eu estiver correndo, o jogo vai ficar em segundo plano, mas eu senti mais emoção jogando pôquer do que correndo na Stock Car”

VICTOR MARTINS, de São Paulo
Galid é engenheiro civil, piloto e jogador de pôquer. Não necessariamente nesta ordem. (Foto: Arquivo Pessoal)
íder do campeonato do Brasileiro de Marcas e um dos pilotos de ponta da Stock Car, Galid Osman viu seu nome explodir em 2013 não por conta das corridas, mas pelo jogo de pôquer. O piloto foi terceiro colocado na etapa de São Paulo do BSOP - Brazilian Series of Poker - em agosto e faturou uma premiação muito maior que teria recebido vencendo nas pistas.

Revista Warm Up: Dizer que você segue os passos do seu companheiro de RCM, Thiago Camilo, pode ser uma meia-verdade. Ele já participa há algum tempo de campeonatos, mas você não começou agora a jogar pôquer, certo?

Galid Osman: Não, eu jogo pôquer há sete anos, mas nunca tinha participado de torneio muito grande. Agora que me envolvi, estou tendo resultados muito bons. Na verdade, eu participei de duas etapas do BSOP, e como eu fui bem, vou separar uma grana e vou jogar todas as etapas. No próximo 7 de setembro, eu vou para Caldas Novas – o campeonato é muito forte –, e no ano que vem, eu vou voltar para Las Vegas. Vou planejar e me preparar.

WUp: Quanto é que você ganhou nesta etapa e quanto custa a inscrição para participar?

GO: O torneio que eu joguei agora foi R$ 2.200, mas lá fora, a maioria está entre US$ 1.000 e 1.500, os do WSOP – World Series of Poker –, e tem o ‘main event’, que é o principal e, portanto, o mais caro, tem 6 mil jogadores, o vencedor leva US$ 7 milhões e a inscrição custa US$ 10 mil. É meio fora dos meus padrões, mas eu posso participar de uns torneios menores para ganhar uma premiação que me banque neste evento maior. É assim que muita gente faz.

WUp: Você ficou em terceiro lugar dentre quantos jogadores?

GO: Eram 990.

WUp: E a premiação foi qual?

GO: R$ 168 mil. O primeiro colocado ganhava R$ 377 mil. Mas neste campeonato, por exemplo, começaram os 990 jogadores no primeiro dia. No segundo, tinha 500. Passaram 72 para o terceiro. E para o quarto, foram os nove finalistas. Do total, 10% já levam premiação, no caso de R$ 4.500.
“Sou engenheiro civil, meu pai trabalha no ramo, então se eu parar de correr, vou seguir minha profissão, tenho minha faculdade, coisa que 98% do grid não tem. O que vier é lucro. O pôquer já é”
WUp: De qualquer forma, então, você faz um capital de giro.

GO: Já fiz, já. Na verdade, eu já estava um pouco mais pra frente neste ano no sentido de que estava mais ganhando do que perdendo. Eu já estava tendo um controle. É tudo muito certo. Destes R$ 168 mil, pelo menos R$ 30 mil eu separei e vou usar para os torneios de pôquer.

WUp: Mais do que um jogo, o pôquer aqui no Brasil virou uma profissão e uma plataforma de negócios muito grande.

GO: Muito. Aqui está crescendo muito. Eu estava lendo na revista Flop que, em 2005, estimavam que havia 200 jogadores no Brasil, contando profissionais e amadores – que era meu caso até um tempo atrás –, e hoje em dia são 5 milhões. Hoje o país é o sétimo no ranking mundial.

WUp: Não tem muito tempo, André Akkari escreveu em seu Twitter que estava indo a uma universidade para dar aula de pôquer...

GO: Na Unicamp. É um curso de pôquer. E já tem em Harvard. Tem matérias lá que já falam de pôquer. O pôquer é probabilidade, é concentração, é leitura do comportamento do rival. Eu joguei com um cara na mesa final que era diretor comercial da Cyrela. Eu sou um cara que está acostumado com emoção e adrenalina da classificação, da volta rápida, da largada. O cara caiu de balão lá, conseguiu ir bem, mas nunca tinha feito esporte nenhum. Se você soubesse o que ele tremia quando pegava a ficha... Ele não conseguia esconder. Quando ele estava blefando, engolia seco, e dava para ver nitidamente. Havia um preconceito com o pôquer porque se achava um jogo de azar, mas em 2010 isso mudou porque foi reconhecido pela Associação Internacional de Esportes da Mente (IMSA). A partir daí, mudou muito, até mesmo em casa.

WUp: Seus pais chegaram a proibi-lo de jogar?

GO: Eu tinha de jogar escondido deles. Foi uma briga imensa. Eles achavam que eu iria ficar viciado, que ia perder tudo no jogo, e aí eu consegui mudar a imagem. Hoje eu vou jogar umas duas vezes por semana numa boa, meus pais me apoiam, foram assistir ao torneio. Eu consegui mostrar que é um jogo que depende de 20% de sorte, do mesmo jeito que acontece nas corridas. Lá depende de outros fatores: o carro pode quebrar, pode chover, um concorrente pode bater em você, em qualquer lugar a gente tem de contar com a sorte. A parte restante requer preparação e estudo. Neste mês, eu já li dois livros de pôquer. Eu sempre gostei de ler. Eu tento evoluir e aprender. É um negócio que vem crescendo muito e, na hora que der o ‘boom’, eu vou estar dois passos à frente dos demais. Eu vejo um certo futuro. Não é minha profissão e não quero que seja. Eu sou piloto, mas uma hora meu corpo não vai aguentar mais.
Atualmente 15º colocado na classificação geral da Stock (foto), Galid é líder do Brasileiro de Marcas. (Foto: Felipe Tesser/Grande Prêmio)
“A transmissão do pôquer no site da TV Poker Pro é melhor que a da Stock Car. Eles fazem muito barulho”
WUp: Então é possível garantir que, já num futuro a curto prazo, enquanto você não estiver nas pistas, vai estar sobre as mesas?

GO: A vida de piloto é anual. Hoje, qualquer piloto, o que anda na frente ou atrás, tem dificuldade para encontrar R$ 2 milhões para correr na Stock Car. Qualquer um corre o risco de parar de correr no ano seguinte. 90% dos contratos na Stock Car são anuais, então não tem ninguém fechado para 2015, não existe. Eu já fiz meu pé-de-meia: sou engenheiro civil, meu pai trabalha no ramo, então se eu parar de correr, vou seguir minha profissão, tenho minha faculdade, coisa que 98% do grid não tem. Eu me preparei para isso. O que vier é lucro. O pôquer já é.

WUp: E o que as corridas ajudaram você nos jogos de pôquer, e vice-versa?

GO: O pôquer exige muita disciplina. Eu joguei 37 horas de pôquer em quatro dias. Se na 25ª hora, eu fizesse uma aposta errada, uma besteira, eu iria perder tudo que eu tinha feito antes – o desgaste, o dinheiro em hotel, os R$ 2.200 em inscrição. E no fundo, é igual às corridas: eu posso jogar todo o fim de semana por água abaixo em um simples erro. Se você erra um pouquinho numa classificação na Stock Car e toma 0s3, são 15 posições a mais no grid de largada. Eu acabo mantendo a mesma postura no pôquer que eu mantenho em um carro de corrida, com concentração. E uma coisa que me ajudou muito na mesa final foi meu óculos escuro. Eu não expressava nenhuma reação, não tremia, mostrava transparência, e isso certamente tem a ver com as corridas, a adrenalina controlada. Para chegar onde eu cheguei, eu passei por pessoas só analisando a imagem dos demais. E vendo isso, pus o óculos para me blindar. Eu joguei contra profissionais, que passavam a olhar para mim e muito para meus olhos para ver como eu reagia às cartas. E isso me ajudou muito.

WUp: Sendo que você não teve o problema de mostrar aos demais suas reações, onde foi exatamente que você perdeu o campeonato?

GO: Não é sempre que vêm cartas boas. Eu cheguei a ficar 3 horas do torneio sem participar porque não vinha mão. Quando começaram a vir, eu soube aproveitar. Teve um momento que eu tive mais que o dobro de fichas do segundo, 11 milhões contra 5 milhões. Aí eu continuei tendo cartas boas, mas meus oponentes começaram a vir com cartas melhores ainda. O baralho não me ajudou na reta final. Teve uma jogada que eu perdi 5 milhões de fichas, por pura infelicidade. Foram aqueles 20% de sorte.
Galid Osman recebe o prêmio de 3º colocado no Brazilian Series of Poker. (Foto: Arquivo Pessoal)
WUp: Você escreveu em uma foto sua no Instagram que a repercussão de sua participação foi maior que as das corridas...

GO: Foi muito maior. Sem brincadeira, a transmissão do pôquer no site da TV Poker Pro é melhor que a da Stock Car. Eles fazem muito barulho. Se eles tivessem um canal de TV, certamente iria bombar. Eu ganhei 300 seguidores no Twitter por causa de jogadores de pôquer. Virou uma febre. Todos os pilotos mandaram mensagem, postaram foto...

WUp: E de certa forma, não é estranho que isso aconteça, um jogo de cartas transmitido online dar maior repercussão a um líder de um Brasileiro de Marcas e a um piloto de Stock Car, dois campeonatos que passam em TV aberta?

GO: Acho que uma coisa que contou muito foi o dinheiro envolvido. E tem a paixão que o pôquer tem causado, principalmente nos adolescentes, no pessoal mais da minha idade. Eu nunca ganhei uma corrida de Stock Car até hoje, mas ganhei do Marcas, e a repercussão realmente não foi a mesma. Até agora, dias depois do torneio, tem sido assim. Aí eu fico olhando meus amigos, e muitos deles largaram tudo para virarem profissionais. Eu não me coloco pressão alguma, eu jogo 100% por diversão, e tem sido uma diversão rentável – e sempre que eu estiver correndo, o pôquer vai ficar em segundo plano. Mas eu admito que senti mais emoção jogando pôquer do que correndo na Stock Car.

WUp: E para o ano que vem, nas pistas, como estão as coisas?

GO:A Ipiranga ainda não se manifestou, nem comigo nem com o Thiago (Camilo), mas a chance de continuar e de manter são bem grandes na Stock Car. É só meu primeiro ano com a Ipiranga, e o negócio deles é a longo prazo. Eles investem forte no automobilismo e sempre mantiveram a palavra comigo, então a chance de renovar é muito grande. E tem a BMC no Marcas, onde eu me achei. Estou em primeiro no campeonato, e esse é o ano para ser campeão, e sei que a cobrança no ano que vem vai ser muito maior. A tendência daquele campeonato é só crescer, e ter um título vai ser muito importante para a minha carreira, porque eu tenho impressão que o Cacá (Bueno) e outros pilotos top vão aparecer por lá no ano que vem, e chegar como o cara a defender o título vai me dar outro status.
 

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