Edição 41
Agosto/2013

Superfinal: O fôlego da moto

Tem quem acredite que o esporte a motor morreu no Brasil, mas a Superbike Series está aí para mostrar que é possível ter público, pilotos e montadoras nas pistas

JULIANA TESSER, de São Paulo
Honda e Kawasaki estão entre as montadoras presentes na Superbike Series (Foto: Felipe Tesser)
esporte a motor vive uma séria crise no crise no Brasil. Com quase todos os autódromos destruídos e uma base praticamente inexistente, a chance de pilotos brasileiros chegarem às principais divisões do esporte mundial míngua dia após dia.

Apesar desse cenário difícil, ainda existem algumas evidências de vida. Uma delas, aliás, vem das arquibancadas de Interlagos. Mesmo com a tradição do circuito paulistano, não são todas as categorias que conseguem atrair uma multidão ao autódromo.

A Superbike Series, entretanto, não tem essa dificuldade. Todas as etapas da categoria contam com a torcida presente em peso. Esse sucesso tem uma explicação: além da competição empolgante, os ingressos de arquibancada são gratuitos, e com apenas R$ 10, as pessoas podem ter acesso aos boxes.

Em entrevista à REVISTA WARM UP, o organizador do campeonato, Bruno Corano, explica o sucesso da categoria, que levou 30 mil pessoas ao circuito paulistano em abril deste ano.

“Eu acho que é uma mistura de ingredientes”, afirma. “O barulho não é incômodo, ele é até estimulante, tem muita ultrapassagem, anda todo mundo embolado, sempre tem muito pega, vira de um lado para o outro, joelho no chão e, consequentemente, tombos. Seria hipocrisia minha dizer que as pessoas não gostam de ver. Elas adoram ver os tombos”, comenta.

“E essa é uma tendência não só no Brasil”, aponta o piloto do time oficial da Kawasaki. “Mundialmente, o público em arena de duas rodas está crescendo e o público em arena de quatro rodas, decaindo”, continua.

Se no automobilismo a fuga das montadoras é um problema, na Superbike Series elas fazem parte do show. “Elas patrocinam, elas criaram equipes oficiais e elas usam as revendas para atrair público, porque entendem que o que acontece no fim de semana é uma vitrine para o produto delas”, conta Bruno.

“Elas funcionam como uma fonte captadora de pessoas, de divulgação, e também se beneficiam disso. Não é só pôr dinheiro, não é também só ajudar e não pôr dinheiro. É um tripé: ativar, estar presente comprovando o seu equipamento e patrocinando”, completa.

Uma das fabricantes presentes no campeonato é a Kawasaki. O braço brasileiro da empresa nipônica não só tem uma equipe oficial no campeonato, como também criou a categoria Copa Ninja.
Além de organizador, Bruno Corano é piloto do time oficial da Kawasaki (Foto: Felipe Tesser)
Gerente de planejamento da montadora no Brasil, Ricardo Suzuki conta à WUp que a marca chegou ao país em um momento conturbado, não só pela crise econômica que abalou o mundo, mas também pelos problemas de má gestão na CBM (Confederação Brasileira de Motociclismo).

“Nós produzimos motocicletas de competição, especificamente para a motovelocidade, então é importantíssimo estar presente nas corridas”, ressalta. “A empresa foi fundada em 2009, e foi um ano no meio de uma turbulência. A CBM estava em crise, com a diretoria sendo questionada”, lembra, citando que sequer existiu um campeonato brasileiro homologado em 2010.

“Nós tínhamos a opção de começar com esse campeonato novo, que ninguém tinha ouvido falar”, comenta. “Era um risco, mas arriscamos, julgamos que era algo possível de a gente correr. Não fosse isso, não haveria nem campeonato e nem a nossa marca presente. Então, desde 2010, que foi o primeiro ano do Superbike Series, nós somos parceiros deste evento”, acrescenta.

A criação do certame foi o primeiro passo, a porta de entrada da marca nas competições nacionais. “A Copa Ninja é um evento amador destinado aos nossos clientes”, relata Suzuki. “É claro, ela tem essa função de abrir o espaço, permitir uma oportunidade para iniciantes na motovelocidade experimentarem pela primeira vez como é uma competição dentro de um autódromo, mas também tem a função comercial de atender aos clientes da companhia.”

As fábricas de motos, entretanto, não são as únicas envolvidas na competição. “A gente tem a Pirelli desde o início. O evento começou baseado em um almoço entre eu e o pessoal da Pirelli”, revela Corano. “Eles que me incentivaram.”

Na visão do organizador, a presença da fábrica italiana é importante tanto pela performance das motos como para a visibilidade da categoria.

“Tem um efeito que é desempenho puro, que é cronômetro, e que agrada os atletas por terem um produto tão seguro e com tanta performance. E tem o efeito comercial do apoio da maior fábrica de pneus do mundo”, indica. “Agrega porque ela é o principal fornecedor de todas as fábricas de moto instaladas no Brasil. Eu não vou saber dizer com certeza absoluta, mas acho que 80% das motos Honda que saem de fábrica, saem com Pirelli. É estratégico você unir empresas que já são parceiras entre si”, considera.

Com fábricas e público, o que falta para um crescimento ainda maior é uma praça adequada. Das dez etapas do calendário, sete delas são disputadas em Interlagos, com as demais acontecendo em Santa Cruz do Sul e Cascavel.
Mundialmente, o público em arena de duas rodas está crescendo e o público em arena de quatro rodas, decaindo
Ducati também marca presença nas pistas com a Panigale 1199 (Foto: Felipe Tesser)
Questionado pela WARM UP se o predomínio do traçado paulistano é uma escolha ou uma falta de opção da organização, Corano foi claro: “As duas coisas. 90% dos pilotos são da região sudeste. Quando a gente define outras pistas, encarece o orçamento. E São Paulo é a maior cidade do país, a vitrine está aqui, aqui tem a maior concentração financeira, movimentação econômica e, para completar, a gente não tem muitas pistas para correr”, lembra.

“Basicamente, o mundo da moto está se resumindo a Interlagos e Santa Cruz. Em Campo Grande, o asfalto está podre, Brasília tem muro, Londrina tem muro, Cascavel, a gente ainda vai insistir lá esse ano. Estamos conversando com a prefeitura, porque precisa de melhorias para moto”, ressalta. “Ou seja, Rio acabou, Curitiba estão dizendo que no ano que vem vai ser vendido o terreno, então acabou tudo. Para moto, sobraram duas pistas boas mesmo”, resume.

No entender do piloto, o futuro passa cada vez mais pela criação de grupos privados, tirando o esporte das mãos das confederações. “Os lugares em que os eventos vêm dando certo, são privados. Eles têm alguém que bate na mesa e fala: ‘É meu’. Entre erros e acertos, se eu acertar mais do que errar, o negócio vai para frente”, declara.

“Vou dar só um exemplo: o AMA, o campeonato americano, foi uma dissidência. Os pilotos mandaram a confederação para o inferno, se uniram, criaram a associação dos pilotos – que é igual o Superbike, regido pela APM (Associação dos Pilotos da Motovelocidade) – e aí eles fizeram dar certo”, comenta.

A melhoria na infraestrutura local, aliás, além de ajudar no crescimento do esporte brasileiro, é uma porta de entrada para a realização de etapas dos principais campeonatos mundiais. A Dorna, empresa espanhola que promove os Mundiais de Motovelocidade e Superbike, não esconde o interesse no mercado nacional e aguarda uma pista adequada para, junto com Emerson Fittipaldi, trazer a MotoGP de volta ao Brasil.

Também promovido pela empresa chefiada por Carmelo Ezpeleta, o Mundial de Superbike também teria chances de correr deste lado do Atlântico.

“Não duvido que exista nos bastidores essa movimentação. Acho natural, acho até que já está atrasado”, opina o dirigente da Kawasaki. “Como o mercado brasileiro de duas rodas é muito importante, é o quinto maior do mundo, com dois milhões de motocicletas por ano, é natural que venham para cá as principais competições. O Brasil já tem condições de receber uma etapa de um campeonato desses há muito tempo”, destaca.

Corano, por sua vez, revela que, caso o Mundial desembarque no Brasil, a categoria nacional deve dividir as pistas com os principais pilotos do mundo. “Já tem esse entendimento meu com a Dorna faz tempo. Mas a gente depende de autódromo”, lembra. No momento, entretanto, não há nenhuma negociação para trazer o campeonato mundial para o Brasil, como confirma a Dorna à REVISTA WARM UP.
 

Porta de entrada

A partir da temporada 2013, a Superbike Series ganhou uma nova categoria destinada aos iniciantes. Com apoio da gigante nipônica, Corano idealizou a Honda Júnior Cup, uma competição monomarca onde crianças entre oito e 16 anos podem ter seu primeiro contato com o esporte em cima de uma CG 150 Titan.

Bruno explica que a categoria de base é um sonho antigo, mas precisou esperar o fortalecimento do campeonato. “Acho que a gente ainda está muito no começo, somos pequenininhos, mas, pelo menos, a gente consegue prover o negócio”, comenta. “Não está sendo fácil, mas eu acredito que, em um ano, a gente vá ter algo em torno de 30 crianças correndo. Em dois anos, 50. E aí, sim, o negócio vai ganhar força.”

A Honda Júnior Cup já teve as primeiras etapas e avaliação da organização é extremamente positiva. “Foi excepcional”, avalia Corano. “A gente recebeu dez motos da Honda e teve um trabalho imenso de transformar uma CG original em uma moto de corrida”, conta.

“A gente percebeu quando colocava uma criança em cima da moto, como o tanque é enorme, ela não alcançava os guidões, as barras. Então precisávamos redesenhar o tanque”, explica. “Temos 17 crianças interessadas e, por enquanto, só seis estão correndo porque não conseguimos terminar ainda as outras motos.”

Para participar da categoria, não é necessário ter experiência prévia com motovelocidade. “Tem de ter de oito a 16, saber andar de bicicleta para ter equilíbrio. O resto a gente ensina tudo”, afirma Bruno.

Mas, como em todo esporte a motor, é preciso investir um bocado. “R$ 3 mil fixo por etapa e mais nada. Absolutamente nada. Tudo incluso. Moto, gasolina, pastilha, sala de aula, instrutor, inscrição, pneu, tudo. Tudo incluso”, diz,

A iniciativa da Honda já despertou o interesse de outras marcas, mas Corano entende que não faz sentido criar duas categorias similares apenas com fabricantes distintas. O piloto, entretanto, não descarta a criação de novas divisões que permitam a evolução dos pilotos.

“Isso deve acontecer. A gente vai redesenhar o campeonato para 2014 com o intuito de criar uma escadinha mais progressiva”, anuncia. “Hoje tem a Júnior, aí tem duas monomarcas, que é Honda 300 e Kawasaki 300, e depois já pula para 600cc. A gente pretende criar uma escada mais progressiva, e isso também abre espaço para outras fábricas ocuparem seu espaço”, comenta.

A própria Kawasaki, aliás, não descarta se envolver na formação de pilotos mirando as categorias internacionais. “Para 2014, é possível que a gente já consiga dar um próximo passo, mas ainda é um pouco cedo para afirmar. Claro que a gente gostaria de contribuir para que um piloto brasileiro consiga chegar às maiores competições do mundo, mas, sendo muito direto, a Kawasaki Motores do Brasil ainda está em um estágio incipiente”.
 

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