Edição 42
Setembro/2013

Americo Teixeira Jr:
Uma ousadia de seis rodas

Como o Tyrrell P34 surpreendeu a F1 nos anos 70

AMERICO TEIXEIRA JR, de Vinhedo
engenheiro inglês Derek Gardner morreu em janeiro de 2011, poucos meses antes de completar 80 anos. Pelo nome, talvez a nova geração não identifique o criador à sua obra, mas se mencionarmos em particular o Tyrrell P34, revolucionário carro de seis rodas da equipe inglesa fundada por Ken Tyrrell, certamente os aficionados se lembrarão de imediato do modelo que deixou sua marca nas temporadas de 1976 e 1977.

De tão revolucionário e secreto, o oitavo carro projetado por Gardner na Tyrrell recebeu um apelido e passou a ser chamado internamente de P34: P de PROJECT, 3 de três eixos e quatro identificando o número das rodas na dianteira do 008. Mas de onde terá vindo essa ideia maluca de Derek Gardner de fazer um carro com seis rodas?

A resposta começa a ser conhecida na base de sua formação como engenheiro, a aeronáutica. Pelo menos quatro anos antes de colocar o Project 34 na pista, ele já trabalhava com esse conceito não necessariamente para gerar mais tração, mas fundamentalmente diminuir a resistência do ar. Isso significa dizer que colocar quatro rodas na dianteira - e distribuídas em dois eixos – não foi o propósito primeiro, mas, sim, um estudo aerodinâmico no qual as rodas não mais representassem dois “paredões” à eficiência do sistema, mas inseridas nele.

Os pneus dianteiros tradicionais, de 13", eram grandes demais para que alguma coisa pudesse ser feita visando a diminuição da resistência aerodinâmica, muito menos para que fosse eliminada, como era essa espécie de desafio imposto a si mesmo por Gardner. Então, a única maneira de posicionar as rodas totalmente atrás da asa dianteira era diminuir seu diâmetro.

Isso só foi possível porque o regulamento técnico que regia a Fórmula 1 em meados dos anos 70 estabelecia limites para as dimensões do bico e os spoilers, mas não proibia diâmetros diferentes para os pneus, nem dizia qualquer coisa sobre ser forçosamente obrigatória a utilização de quatro rodas.

Foi preciso que Ken Tyrrell, ao mesmo tempo em que Gardner se envolvia por completo no até então secreto projeto 34, observasse cada item do regulamento e tivesse certeza de que todo o esforço não seria impugnado por obstáculos regulamentares. Em paralelo, o dono da equipe conseguiu que a Goodyear construísse um lote nas medidas exigidas para a construção de Gardner, de 10”.

Chegando na F1

Funcionário de uma empresa responsável por sistemas de tração e transmissão, Gardner teve uma passagem muito rápida em 1969 pela Matra, com a qual esteve envolvido em razão de uma parceria técnica entre seu empregador e o time francês. O curto período na categoria foi o bastante para que, no mesmo ano, fosse contratado por Tyrrell, que já se preparava para um salto na sua carreira como chefe de equipe. Se naquela temporada de 1969 ele conquistara o Mundial de Pilotos com o escocês Jackie Stewart e também o de Construtores com o modelo Matra MS80, Tyrrell lançaria a sua própria equipe já no ano seguinte e entregou nas mãos de Gardner a responsabilidade de projetar a série iniciada com o 001, de 1970.

Desde a estréia do 001 no GP do Canadá de 1970 e até o final da temporada de 1977, quando se retirou da F1 para voltar às suas origens na engenharia industrial, Gardner assinou nada menos do que oito modelos que marcaram o melhor período da Tyrrell. Em nenhum outro momento na F1 a equipe teve tanto sucesso, fazendo sair de suas instalações desde modelos convencionais até o radical Project 34.

Ao todo, os carros construídos a partir dos desenhos de Derek Gardner conquistaram 20 vitórias, largaram 14 vezes na pole, cruzaram a linha de chegada em 28 ocasiões em segundo e, por fim, fecharam o pódio, em terceiro, em 12 oportunidades. Já o carro de seis rodas foi responsável por uma vitória, uma pole e mais 15 pódios, sendo dez deles com segundos lugares. Não obstante, representou um capítulo tão especial em termos de ousadia tecnologia é alvo de admiração e discussão até hoje, mesmo passados quase 40 anos desde a sua última participação oficial no Mundial.

No papel vegetal

Gardner era de um tempo em que o termo ‘projetista de F1’ não significava uma força de expressão, como nos dias de hoje. Diferentemente do que ocorre na chamada F1 moderna, onde projetar significa comandar uma equipe com centenas de engenheiros especializados nisso ou naquilo, ainda nos anos 70 era exatamente assim que funcionava: o cidadão se sentava diante de uma prancheta e, munido de canetas nanquim, aplicava todos os seus conhecimentos e maluquices, de modo muitas vezes solitário, em enormes folhas de papel vegetal. O resultado eram rolos e rolos com desenhos técnicos, verdadeiras relíquias se comparadas aos modernos sistemas computadorizados atuais.

Foi dessa forma que Gardner teve uma passagem relativamente curta na categoria, mas seus quase dez anos de F1 foram suficientes para que ele se notabilizasse com um de seus grandes projetistas, deixando uma marca que quase virou uma tendência. Isso porque algumas equipes também voltaram suas atenções para um modelo de seis rodas. Ferrari, Williams, March e até mesmo a Copersucar-Fittipaldi se lançaram pelo mesmo caminho, mas nenhuma delas chegou tão longe.

O time de Wilson e Emerson Fittipaldi chegou a ter um projeto pronto, mas não executado. A Ferrari e a March mostraram suas versões, sendo que essa última, segundo afirmou Alex Dias Ribeiro em seu livro “Mais que Vencedor”, não passava de um golpe publicitário de Max Mosley, um dos donos do time inglês, para atrair patrocinadores. Já a Williams testou um modelo com quatro rodas traseiras com o australiano Alan Jones. Na prática, porém, somente o P34 competiu e fez história.

Ken Tyrrell foi o responsável por bancar a ousadia saída da cabeça de Gardner e de causar alvoroço no mundo da F1 ao inscrever o P34 no GP da Espanha de 1976 com Patrick Depailler e, mais ainda, embaralhar as mentes dos céticos ao vencer corrida o GP da Suécia daquele ano com Jody Scheckter, além de outros bons resultados de Depailler (1976 e 1977) e Ronnie Peterson (1977).

Mas a revelação daquele conceito que num dado momento parecia ter chegado para ficar, perdeu relevância em apenas dois anos. Com quatro feios a disco, o sistema era pesado e tinha um crônico problema de aquecimento. Ao final de 1977, o P34 foi abandonado porque não era economicamente viável para a indústria pneumática a produção de pneus de tamanhos diferenciados. E justamente pela falta de desenvolvimento, o modelo perdeu aquela vantagem inicial proporcionada pela melhor eficiência aerodinâmica.

Hoje, o P34 ainda roda. Alguns dos carros sete chassis construídos foram comprados por colecionadores e rodam nas pistas europeias em competições de F1 clássicos. Isso só acontece porque a Avon Tyres, fabricante de pneus de na Inglaterra, topou reviver a história com a produção limitada de pneus de 10”.
Foto: Getty Images
 

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