Edição 42
Setembro/2013

Estepe: O novo poderoso chefão

No comando da divisão esportiva da Mercedes desde o início de 2013, o austríaco Toto Wolff relata os passos que a montadora deu à frente na atual temporada da F1 e a força no DTM

RENAN DO COUTO, de Norisring
No topo: Toto considera liderar a Mercedes “o melhor trabalho do mundo”. (Foto: Vladimir Rys/Getty Images)
nome de Torger Christian Wolff, ou simplesmente Toto Wolff, passou a ser conhecido no mundo da F1 em 2009. Ele ganhou as manchetes como o investidor austríaco que comprou parte das ações da equipe Williams, outrora uma potência da categoria, mas que não luta por um título desde 2003.

Aos poucos, a participação de Wolff na escuderia foi crescendo, até que, em 2012, o empresário foi nomeado diretor-executivo da esquadra. No mesmo ano, o time voltou a colher resultados um pouco mais decentes e comemorou uma vitória, com Pastor Maldonado no GP da Espanha – a seca perdurava desde o triunfo de Juan Pablo Montoya no GP do Brasil de 2004.

Mas não demorou muito para que Toto passasse a integrar a lista de dirigentes que abandonaram a fábrica de Grove nos últimos anos. Ao contrário de Patrick Head e de Adam Parr, o austríaco não se afastou da F1: saiu da Williams para assumir o comando da Mercedes, uma das escuderias mais abastadas do grid, com a missão de levar as flechas prateadas ao caminho das vitórias.

O trabalho, até o momento, tem dado certo. O time ganhou reforços e já fez mais em 2013 do que havia feito nas últimas três temporadas. Ganhou corridas com Lewis Hamilton e Nico Rosberg, marcou várias poles e já pode sonhar em terminar o Mundial de Construtores na segunda posição.

Esses resultados deixam Wolff bastante empolgado com o que considera “o melhor trabalho do mundo”. Em entrevista exclusiva à REVISTA WARM UP, o dirigente falou das conquistas de 2013 e de sua participação na F1 como um todo, incluindo a relação com o brasileiro Bruno Senna, com quem conviveu em 2012, na Williams.
“É um privilégio estar no comando do programa esportivo da Mercedes e estar no comando da equipe de F1”
Wolff celebra com Lewis Hamilton a pole position obtida no GP da Hungria (Foto: Peter J Fox/Getty Images)

Preenchendo um grande vazio

Norbert Haug foi por 22 anos o homem-forte da Mercedes no esporte a motor. Era ele quem mandava prender e soltar em Stuttgart. O alemão liderou o retorno da marca às competições após um hiato de quase quatro décadas – a estrela de três pontas não era vista nas pistas desde a tragédia das 24 Horas de Le Mans de 1955 – e levou a Mercedes de volta ao topo do Mundial de F1 junto da McLaren.

Só que a montadora germânica queria mais do que ser apenas parceira da McLaren, onde mal conseguia escolher pilotos. Em 2009, a fábrica forneceu motores para a Brawn. Em seu único ano de vida, o time dominou o campeonato e comemorou os títulos de Pilotos, com Jenson Button, e Construtores. Semanas depois da festa, no GP do Brasil, a Mercedes anunciou a compra do espólio, mudando sua base de operações na Inglaterra de Woking para Brackley.

Contudo, apesar do investimento pesado na estrutura campeã da Brawn e da reedição da parceria entre Michael Schumacher e Ross Brawn, o projeto não deu certo. Dentro do que se esperava, dá para dizer que foi um fiasco. Em três temporadas, apenas uma vitória foi conquistada, em 2012, com Nico Rosberg. Schumacher foi ao pódio só uma vez. De primeira força do grid no fim de 2009, o time passou a ser a quinta ao término da temporada 2012.

Isso bastou para Haug. Sentindo-se culpado pelo fracasso, ele pediu demissão em dezembro do ano passado, surpreendendo a todos. Pouco mais de um mês depois, Wolff comprou parte das ações do time de F1 e assumiu o posto que pertencia ao alemão. “Norbert Haug deixou um grande vazio para ser preenchido. 22 anos de sucesso no esporte a motor não é uma tarefa fácil, mas estou tentando fazer o meu melhor para seguir os passos dele”, afirma Toto.

“Tem sido um período muito empolgante e muito bom. É um privilégio estar no comando do programa esportivo da Mercedes e estar no comando da equipe de F1. Meu trabalho é o melhor trabalho do mundo. A Mercedes é uma das melhores marcas de carros no mundo e poder expor os produtos dela na vitrine dos finais de semana de corrida é fantástico”, exalta.


O salto de qualidade da Mercedes em 2013

Os resultados bastam para mostrar o quanto a Mercedes cresceu em 2013. A chegada de Lewis Hamilton – articulada ainda em 2012, por Haug e por Niki Lauda, que ocupa o cargo de presidente não-executivo do time – serviu de impulso, mas também ocorreram algumas mudanças internas, tanto na reorganização dos recursos humanos como, por exemplo, a melhora do túnel de vento, que passou de uma escala de 50% para 60%.

“O time cresceu em uma direção certa. No ano passado, as decisões corretas foram tomadas em termos de contratar os pilotos certos. Não, esqueça. Os pilotos eram bons no ano passado. Mas a contratação de novos engenheiros, recalibrar o túnel de vento para 60%, tendo a infraestrutura correta, tudo isso foi feito e está dando certo”, destaca.

Em termos de contratações, Wolff também fez uma aquisição importante no início deste ano. Tirou Paddy Lowe da McLaren. O inglês já começou a trabalhar em Brackley e deve assumir, no futuro, a chefia da equipe, no momento em que Ross Brawn decidir se afastar novamente da F1.

Wolff rejeita, porém, os méritos pelo salto de qualidade dado neste ano. “Nada nunca pode ser feito por um indivíduo. É uma equipe e é por isso que todos têm parte dos méritos, todos são parte do quebra-cabeça e não penso que a minha posição é mais importante”, diz.

Ele ressalta, também, a importância que a dupla de pilotos do time tem nos louros. “Lewis e Nico têm dois estilos bem diferentes e, no final, o mesmo tempo de volta. É disso que o time precisa para continuar se estimulando e crescendo”, elogia.
 

Williams x Mercedes

O modus operandi das chamadas garagistas sempre foi um tanto diferente em relação ao das equipes geridas por montadoras. E é de estar junto com uma montadora que Wolff gosta mais.

“Eu gostei muito de trabalhar com a Williams, das pessoas de lá. Foi uma experiência brilhante, mas, agora, controlar os recursos e as ferramentas de uma companhia tão importante está sendo muito empolgante”, opina.

A burocracia interfere um pouco, mas nada que chegue a incomodar o austríaco. “É muito diferente de quando você está em uma pequena empresa familiar. Mas a Mercedes está dando muita liberdade para tomarmos as decisões e isso está nos dando muito apoio. É uma situação confortável essa em que nos encontramos”, fala Toto.
 

O encantador Senna

Em entrevista à REVISTA WARM UP em abril deste ano, Bruno Senna falou sobre a relação com Toto Wolff durante a temporada 2012, quando os dois trabalharam juntos na equipe Williams. O brasileiro não mostrou mágoas com relação ao lado pessoal, mas disse que não era preciso ser nenhum gênio para saber que Wolff queria colocar seu piloto, Valtteri Bottas, como titular em 2013.

Senna assinou um contrato para 2012 que previa a não-participação em 15 sessões de treinos livres ao longo do ano. O pouco tempo de pista acabou prejudicando bastante o desempenho de Bruno, especialmente em ritmo de classificação.

Perguntado sobre a afirmação do hoje piloto da Aston Martin, Wolff discordou. “Não concordo. Eu gosto muito de Bruno, ele é um cara encantador. Mas havia muito mais por trás de tudo. É claro que perder os treinos livres não foi bom, mas ele sabia disso quando entrou na equipe. O contrato do Valtteri foi assinado meio ano antes”, revela.

“Ele é um bom piloto. Começou a correr tarde e, considerando que não andou de kart, ele está sendo brilhante. Vi que ele venceu uma corrida no WEC, gostei de vê-lo andando em Le Mans e vou acompanhar o que ele fizer”, ressalta.

A força no turismo

Na função de diretor da Mercedes, Toto Wolff também responde pelo programa da montadora no DTM. A principal diferença é que, na F1, ele exerce uma função mais operacional, ao passo que, no campeonato alemão, é ele quem responde por todo o lado esportivo.

Assim como com a F1, Wolff está contente pelo o que a Mercedes vem fazendo na temporada 2013 do DTM. No início do ano, a marca de Stuttgart resolveu diminuir sua operação de oito para seis carros, dispensar as equipes-clientes Mucke e Persson e apostar em jovens pilotos. Uma decisão que Toto considera mais do que acertada.

“Temos seis pilotos e seis carros em um bom nível. No último ano, havia um degrau entre os carros de fábrica e as equipes-clientes. Neste ano, temos seis carros de fábrica e provavelmente teremos oito no próximo”, revela.

“Eu sei que fomos criticados por apostar em pilotos tão jovens, mas queríamos fazer uma experiência. Minha meta era construir o melhor time de pilotos do DTM para os dois próximos anos e temos mostrado que a estratégia está dando certo. Os pilotos estão crescendo e, em dois anos, será um time muito forte”, acrescenta.
 

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