Edição 42
Setembro/2013

O Automobilismo não é Tudo: Salvem a Estratégia!

Milhões de pessoas saíram às ruas para pedir milhões de coisas diferentes e, tirando os 20 centavos iniciais, ninguém conseguiu mais do que umas fotos maneiras pra colocar no Facebook

FELIPE CORAZZA, de São Paulo
lista das espécies em extinção no Brasil aumentou um pouco desde junho. Não houve campanha do Ibama, não há ONGs interessadas, ninguém organizou programa de televisão com artistas sorridentes e o Didi te pedindo dinheiro, mas o caso é grave. A novidade ameaçada e tratada com desdém por quase todo mundo precisa de alguma defesa e, assim sendo, é a hora de levantar a bandeira aqui nesta coluna: salvem a Estratégia!

O primeiro grande golpe recente contra essa bela e importante espécie foi dado em junho. Milhões de pessoas saíram às ruas para pedir milhões de coisas diferentes e, tirando os 20 centavos iniciais, ninguém conseguiu mais do que umas fotos maneiras pra colocar no Facebook e um rosto todo sujo de guache verde e amarelo pra limpar antes de dormir.

A Estratégia, coitada, ficou ali num canto, apanhando da polícia e sendo usada pela própria. Tentou se aproximar dos manifestantes algumas vezes, mas foi repelida aos gritos de “sem bandeira”, “sem partido”, “fora políticos” e outras bobagens do gênero. Tratada de forma fria pelos agentes da lei e desprezada pelos que protestavam, a pobrezinha voltou pra casa.

Quando o Congresso fez aquela sessão relâmpago pra rejeitar a PEC 37 e outras mumunhas, houve quem dissesse que, sim, a tática de fazer barulho sem pedido específico estava funcionando. Dilma convocou plebiscito, referendo, plano de mobilidade urbana e o escambau de manivela. Dias depois, tudo deu em nada, porque a pressão das ruas existe por si só enquanto está, bem, nas ruas.

Pouco depois, vieram os médicos. A Estratégia se animou. “Finalmente, gente esclarecida, estudada, dessa vez vão me usar direito”, pensou. Que nada. Foi uma chiadeira burra, mal organizada e com toques não pouco frequentes de preconceito de classe e desprezo pela vida que os tais doutores juraram proteger.

O ápice da coisa foi o presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais dizendo que orientaria seus médicos a não orientarem os colegas estrangeiros quando tivessem problemas para tratar um paciente. Ninguém é obrigado a saber de cor o juramento de Hipócrates para achar que há algo errado, para dizer o mínimo, nessa declaração.

Como cereja desse bolo, os ataques à imprensa. A imprensa não é intocável. A imprensa tem defeitos, e muitos, como os próprios jornalistas vão reconhecer se você estiver na mesa de bar certa. Mas atacar quem está ali trabalhando em paz é burrice da grossa - seja um repórter, seja um pipoqueiro. Agredir repórteres, além do mais, tem um “bônus” para quem está protestando: afasta quem está ali para retratar a manifestação e, por consequência óbvia, dar visibilidade à sua causa. Qualquer sindicalista de meia pataca sabe disso. Mas os sindicatos também foram repelidos das manifestações, então, o pessoal deve ter ido pedir conselho, sei lá, aos PMs.

Segue um singelo conselho aos que “odeiam política” e estão aí pelas ruas: quando termina o protesto, quando todo mundo já está com um monte de bolhas nos pés e não aguenta mais marchar, é a hora de transformar a pressão das ruas em política. É assim que a banda toca. Depois de um baita protesto, quando os alvos das manifestações estão morrendo de medo e esperando uma válvula de escape, você chega com representantes, papelada, exigências e um sorriso no rosto para consolidar as reivindicações. Você, como líder legítimo escolhido pelos que protestavam, oferece a solução para os problemas do alvo. E a solução é atender às suas demandas.

Funciona assim desde que o mundo é mundo. Mas o pessoal insiste em dizer que odeia política, não tem representante, não tem pauta específica, não tem nada além das ruas cheias. Maltratar espécies ameaçadas é um crime que tem suas punições. O caso da Estratégia não é exceção.



Por falar em Congresso, é nítida a falta que o nosso Legislativo sente do senador Mão Santa. O nível do humor involuntário caiu drasticamente desde que ele perdeu sua cadeira no Senado.



O julgamento do mensalão já tá mais chato e arrastado que O Senhor dos Anéis. Mais um pouco e vira filme iraniano.



E a Rússia, quem diria, conseguiu reeditar a Guerra Fria no caso da Síria e ainda por cima dar um baile, até o momento, na diplomacia americana. Obama precisa inventar uns novos mísseis de Moscou em Cuba pra virar esse jogo na biografia.



Por falar em desgraça, estou organizando uma caminhada até Aparecida para evitar o rebaixamento do São Paulo. Interessados na excursão devem fazer contato com a redação, por favor.
Foto: Mauricio Camargo/Brazil Photo Press
 

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