Edição 42
Setembro/2013

Superfinal: Verde por mais tempo

Assim como a F1, o Mundial de Endurance terá mudanças no regulamento técnico em 2014 que levam cada vez mais a um automobilismo mais ecológico

GABRIEL CARVALHO e RENAN DO COUTO, de São Paulo
A partir do ano que vem, categorias terão motores mais eficientes e sistemas de recuperação de energia. (Foto: Rodrigo Berton/Warm Up)
m 2014, o regulamento técnico da F1 vai mudar significativamente, sobretudo no tocante aos motores, que vão deixar de ser V8 2,4 L aspirados e passar a ser V6 1,6 L turbo. Além disso, o sistema de recuperação de energia, hoje chamado de Kers, vai apresentar uma importância ainda maior na próxima temporada: dos atuais 6 segundos por volta, o sistema, que será chamado de ERS – Energy Recovery System –, vai poder ser usado por 33 segundos em cada volta. O objetivo, evidentemente, é alcançar um consumo menor de combustível, trocando pela ‘energia limpa’.

Outro campeonato que fará mudanças nesta área na próxima temporada é o Mundial de Endurance. Entre as equipes de fábrica da categoria LMP1 – a que conta com os protótipos de Audi e Toyota –, o uso de sistemas híbridos já é fato consumado. Mas assim como na F1, o WEC também está em busca do ‘ecologicamente correto’.

No caso do campeonato criado em 2012, as mudanças serão ainda mais significativas. O consumo de combustível por volta será controlado. Portanto, os sistemas híbridos serão cada vez mais os protagonistas da disputa. Durante as 6 Horas de São Paulo, a REVISTA WARM UP conversou com pilotos e dirigentes do WEC sobre o novo regulamento e ouviu uma posição unânime: as mudanças não só serão grandes, mas importantes para indústria automobilística.

E quem está chegando à LMP1 justamente neste momento de transição é a Porsche – que já corre na GTE Pro e na GTE Am. Harmut Kristen, chefe de operações da Porsche no WEC, destaca a relevância do novo regulamento, mencionando a transferência de tecnologia para os carros de rua.

“É importante que se faça uma mudança desse tamanho, especialmente na parte mecânica, que terá foco na eficiência. É um passo importante, especialmente para as fabricantes, já que este é um dos desafios que enfrentamos na produção de carros de rua”, diz o dirigente, que explica que esta condição foi importante para que a fabricante alemã ingressasse na categoria principal do WEC.

“Ao mesmo tempo, como uma marca de carros esportivos, temos que oferecer aos nossos clientes a melhor performance possível. É a combinação ideal, vendo deste ponto de vista. Por isso tomamos a decisão de competir na LPM1. Sem falar que desenvolver um carro novo sempre é um grande desafio”, completa.
“Será a maior mudança de regras que eu já vivi na carreira. Acredito que é algo bastante positivo”
- Allan McNish, piloto da Audi
Allan McNish, um dos pilotos da Audi para a temporada 2013 do WEC, acredita que está seja a alteração de regulamento mais significativa que ele já presenciou. “Será a maior mudança de regras que eu já vivi na carreira. Acredito que é algo bastante positivo. Olhar para a eficiência é importante para as fabricantes e não há melhor lugar para começar isso do que aqui. A Audi tem uma longa história no desenvolvimento de novas tecnologias”, comenta.

Pascal Vasselon, diretor-técnico da Toyota no Endurance, também crê que o novo regulamento vai fazer com que os engenheiros “quebrem a cabeça”. “Sempre que há grandes mudanças, há grandes desafios. O motor será muito diferente, mas não é só isso. Por isso é muito importante entender todas as mudanças no simulador primeiro, para depois aplicar o conhecimento adquirido em todo o projeto”, diz. “É provavelmente a maior mudança dos últimos anos. Tivemos algumas na F1 [em 2006 e 2009], mas essa é a maior, sem dúvida”, ratifica

Chrstopher Reinke, diretor de projetos da Audi no WEC, sublinha a transferência de tecnologia das pistas para a garagem dos clientes da fabricante. “Sempre tentamos desenvolver tecnologias na pista que, alguns anos depois, possam estar nos carros de rua da marca. Um dos nossos tópicos para nossos produtos é a eficiência, então é ótimo que o esporte a motor siga este caminho”, pondera.

Para Wolfgang Ulrich, chefe da divisão esportiva da Audi, o novo regulamento se apresenta como desafiador, “mas não será tão diferente do que temos hoje”. “A diferença, basicamente, será a seguinte: hoje você tem de fazer um tanque de combustível durar o máximo possível e andar o mais rápido possível. No ano que vem, teremos um limite de combustível por volta, o que requer tecnologias e estratégias totalmente diferentes”, fala.

Com essa nova filosofia, os sistemas híbridos não vão auxiliar apenas para fornecer mais performance, como é hoje, mas serão fundamentais para a diminuição do consumo de combustível, bandeira que a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) tem levantado. A entidade tem feito grande esforço para impulsionar a F-E, categoria que vai estrear em 2014 exclusivamente empurrada por motores elétricos.

Reinke tem consciência de que as fabricantes vão reavaliar os conceitos da tecnologia híbrida no protótipo da próxima temporada. “Cada detalhe, cada componente, deve será revisto e tem de estar conectado às novas regras, baseadas na eficiência”, observa.

Os pilotos também estão acompanhando de perto o desenvolvimento do projeto para 2014. Sébastien Buemi, ex-F1 e piloto da Toyota no WEC, levanta à RWUp uma questão que certamente tem dividido opiniões de dirigentes, engenheiros e dos próprios pilotos.

“O carro será mais leve, então teremos um dilema: carro mais pesado com mais sistemas híbridos ou carro mais leve com menos sistemas híbridos? É algo que teremos que decidir”, argumenta o suíço. Sua visão é compartilhada pelo companheiro de equipe, o veterano Stéphane Sarrazin.

“O poder de escolha é algo que está, majoritariamente, na mão dos engenheiros. Mas nós estamos envolvidos no desenvolvimento e testamos bastante, então será interessante ver essas mudanças. As regras serão ótimas para as fabricantes mostrarem do que são capazes”, afirma.
“O carro será mais leve, então teremos um dilema:
carro mais pesado com mais sistemas híbridos ou
carro mais leve com menos sistemas híbridos?”
- Sébastien Buemi, piloto da Toyota
Wolfgang Ulrich: "Teremos um limite de combustível por volta, o que requer tecnologias e estratégias totalmente diferentes". (Foto: Rodrigo Berton/Warm Up)
Outro aspecto que divide as equipes, como também acontece neste ano na F1, é a divisão dos recursos entre a atual e a próxima temporada. Para a Audi, pelo que se vê na atual edição do Mundial de Endurance, o fato não tem sido um problema.

“Na época das 24 Horas de Le Mans, já tínhamos 60% do carro pronto. Estamos cuidando deste carro aqui [nas corridas da temporada 2013 do WEC], mas em Ingolstadt o pessoal está totalmente focado no novo projeto”, confirma Rencke.

Por sua vez, os pilotos não veem a hora de experimentar as novas criações dos engenheiros. “Estou bastante ansioso, para dizer a verdade”, comenta Buemi. “Temos que começar a testar o mais breve possível, já que vem aí um novo chassi, novas configurações aerodinâmicas e um novo motor. Ainda estamos construindo o monocoque, mas espero que no começo do ano que vem estejamos na pista”, completa.

Aparentemente, o projeto da Audi está mais adiantado que o da Toyota, segundo McNish. Mesmo assim, o escocês afirma que colocar o carro mais cedo na pista não pesa tanto no andamento do projeto.

“O carro está sendo desenvolvido ainda, e esperamos andar com ele no final do ano. Colocar um carro rápido na pista é relativamente fácil, o difícil é fazer um carro rápido e confiável. Este será o grande desafio para todos nós”, declara McNish. “Teremos de esperar até o começo da próxima temporada para ver o que cada um terá feito. Alguns terão acertado muito, outros terão errado feio”, aponta.

Já que pilotos e dirigentes mencionam a transferência de tecnologia das competições para as garagens das casas, surge a pergunta: o futuro da indústria automobilística será dos carros elétricos? Kristen ainda duvida.

“Acredito que será cada vez mais importante pensar em eficiência no esporte a motor. Mas eu não acredito que, daqui a dez anos, por exemplo, será possível sair dos centros urbanos com um carro totalmente elétrico. Se você vai daqui até ali, OK, é possível. Se você quiser ir mais longe, vai precisar de combustível. Creio que os híbridos serão o futuro”, encerra.
 

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