Edição 43
Outubro/2013

Carro-chefe: Será que ele nunca vai ser campeão?

O sucesso que Helio Castroneves teve três vezes nas 500 Milhas de Indianápolis contrasta com as seis chances em que ficou perto de conquistar o título da Indy. A derrota na mais recente batalha contra Scott Dixon deixa a pergunta no ar: está o brasileiro fadado a nunca ser campeão?

RENAN DO COUTO, de São Paulo
 
elio Castroneves quase se colocou na história do automobilismo como campeão da Indy em 2013. Piloto mais experiente da atual geração, o brasileiro usou e abusou de toda a bagagem que adquiriu em 16 temporadas na elite do esporte a motor norte-americano em cada uma das corridas que disputou neste ano, liderando a maior parte do campeonato, sem cometer erros, e tendo a consistência como maior aliada. Até que, em um fim de semana desastroso em Houston, todo o trabalho das 16 primeiras provas foi por água abaixo. De um dia para o outro, os 49 pontos de vantagem que tinha sobre o maior adversário, Scott Dixon, viraram uma desvantagem de 25, e o cenário não foi revertido na decisão de Fontana.

Mais uma vez, Castroneves chegou perto de ser campeão, mas não conseguiu. Assim como já havia acontecido em 2002, 2003, 2006, 2008 e 2012. É bem verdade que glórias maiores foram conquistadas – como as três vitórias nas 500 Milhas de Indianápolis – mas o campeonato também tem peso, e essa lista de 'quases' leva à inevitável pergunta: será que ele nunca vai ser campeão?

"A partir do momento em que eu pensar assim, é que não tem mais motivo para estar correndo", responde o piloto da Penske, sem pestanejar, em entrevista exclusiva à REVISTA WARM UP, dois dias depois de amargar o terceiro vice da carreira na Indy.

Mesmo após a nova derrota, o brasileiro não demonstra estar extremamente frustrado com a perda do título. Aparenta até tranquilidade e muita confiança de que, em 2014, terá uma nova chance. Também não vê motivos para ficar se lamentando. Tem a consciência de que fez tudo o que podia neste ano.

À WUp, o piloto refletiu sobre os acontecimentos dos últimos meses, contou detalhes da temporada 2013, explicou as razões que o fazem terminar o campeonato satisfeito, apesar do vice, e garantiu: continuará fazendo tudo para alcançar o tão almejado título da Indy.
Essa foi a quinta vez que Castroneves chegou à etapa decisiva da Indy com chances de ser campeão.

A temporada

Quando a Indy chegou à Flórida para a disputa da primeira etapa do campeonato, em São Petersburgo, o brasileiro não era cotado a brigar pela taça. Então com 37 anos – completou 38 em 10 de maio – e superado que foi por Will Power nas temporadas anteriores, Helio era visto como um piloto que eventualmente poderia vencer corridas, mas não desafiar Power, Ryan Hunter-Reay, Dario Franchitti e Dixon pelo título.

Apesar da desconfiança, Castroneves apareceu em posição de vencer a etapa de abertura. Contudo, uma escorregada na última relargada custou a vitória. Mesmo assim, ele subiu ao pódio, assim como no GP do Alabama. Ficou entre os dez melhores no GP de Long Beach, em Indianápolis e na rodada dupla de Detroit. O resultado adverso veio no meio do caminho, na corrida em casa, em São Paulo, quando terminou em 13º.

"O que a gente quer nesse ano não é só ser constante, é ser constante mais na frente, terminar mais entre os três primeiros, entre os cinco primeiros, para ter mais oportunidades de vencer corridas", disse Helio em entrevista ao GRANDE PRÊMIO em São Petersburgo, em março.

Enquanto Castroneves ia seguindo a meta e somando bons pontos a cada etapa, as corridas foram se mostrando atípicas, com os favoritos enfrentando os mais diversos problemas. No Texas, o brasileiro finalmente conquistou a vitória e ainda terminou no top-10 nas oito provas seguintes, de Milwaukee a Baltimore, quatro delas entre os cinco primeiros.

Nesse meio tempo, porém, a Ganassi reagiu. Grande rival da Penske na última década, o time de Chip começou mal, reclamando bastante da Honda. Mas Dixon iniciou a recuperação triunfando em Pocono, e emendando outras duas vitórias na rodada dupla de Toronto. Mesmo assim, encarou alguns percalços, ao se envolver em incidentes com Will Power em Sonoma e em Baltimore.

O cenário como um todo deixou Castroneves bem confiante. Cauteloso para "não colocar a carroça à frente dos bois", ele viajou otimista para a terceira rodada dupla do ano. "O ponto alto foi antes da corrida de Houston. Eu acredito que foi onde a gente teve o maior momento de liderança. O campeonato foi muito bem calculado, construído de uma maneira fria. Foi tudo pensado. O automobilismo é um esporte de equipe, a gente não pode contar com uma situação que a gente não sabe qual vai ser", reflete.

A importância de não depender de fatores que fogem ao controle ficou evidenciada no circuito montado no Reliant Park. "O ponto baixo foi Houston mesmo. Perdemos quase 70 pontos em um fim de semana, e essa foi, praticamente, a decisão do campeonato", avalia. Os dois problemas de câmbio em duas corridas consecutivas custaram caro demais.
 
Sem jogar a toalha, Castroneves foi para Fontana determinado a lutar. Registrou a segunda média de velocidade mais alta na tomada de tempos, mostrou que tinha um carro bom ao ganhar posições com facilidade no início da corrida – largou de trás por ter trocado o motor – e passou a maior parte das 500 milhas andando na frente.

Desestabilizar Dixon também fez parte da estratégia. "Nós conversamos e brincamos muito. Eu tentei ao máximo entrar na cabeça do meu competidor para ver se teria alguma possibilidade de um erro ou alguma coisa precipitada. Mas eu sabia que a Ganassi é uma equipe muito boa, muito forte, e o Scott também é um cara muito competente", elogia.

Mas as chances começaram a ir por água abaixo quando um leve toque com Charlie Kimball danificou o aerofólio dianteiro do #3. Helio saiu da volta do líder. Um suspiro de esperança veio quando Dixon parou com problemas de superaquecimento. O neozelandês também estava prestes a perder uma volta, mas, aí, Sébastien Bourdais encheu o muro e provocou a bandeira amarela que o salvou. Foi nesse instante que a Penske reconheceu a derrota.

"Depois do acidente do Bourdais, que eu tinha somente três carros na minha frente, pensei: 'Vou conseguir recuperar a minha volta e vai dar'. Mas quando faltavam dez voltas para acabar, eles me mandaram fazer um drive-through e eu caí lá para trás novamente. O Roger começou a falar 'valeu por tudo, pelo campeonato', ali eu percebi que o pessoal já estava no 'bring it home, termine a corrida, termine a corrida'. Acho que faltavam sete voltas quando deu a relargada, e o Will foi embora. Nesse momento, meio que perceberam que não tinha mais jeito. Eu lutei até o fim, pensando que podia acontecer algum acidente, alguém rodar, alguém bater. Depois que eu percebi que havia poucos carros. Faltando dez, sete voltas, vi que o nosso campeonato tinha chegado ao fim."

De volta aos boxes, Castroneves se deparou com o 'Capitão' Roger Penske, uma cena mostrada pela transmissão da TV. "Foi muito gratificante a conversa com o Roger. Eu o vi muito contente, como poucas vezes em uma situação dessas, com a gente não vencendo, com relação à disputa, à competitividade. E eu já ouvi isso do Roger uma vez. Independentemente do resultado final, a gente quer ser competitivo", fala.

"Eu fiquei muito emocionado com o apoio dele, porque, realmente, eu dei tudo. Não vou voltar para casa pensando que podia ter feito isso ou aquilo. Acredito que ele viu isso também", completa.

Roger, aliás, teve um papel fundamental ao longo do ano. O dono da equipe assumiu, no início de 2013, como estrategista de Castroneves – faltou a algumas etapas, mas esteve presente na maioria. E, apesar de ser um tanto intimidador nas conversas pelo rádio, o chefão contribuiu bastante para o bom desempenho.

"Foi o máximo. O Roger é um decision-maker. Não sei como traduzir isso para o português, mas ele faz a coisa acontecer", afirma – talvez não exista tradução melhor. "Se o pessoal está debatendo 'vamos parar? não vamos parar?', ele não tem isso e faz com que todo mundo tenha a certeza de que estamos fazendo da maneira correta, mesmo que não esteja! E acaba dando certo. Em relação ao rádio, foi muito importante, pois eu não precisava ficar pensando muito sobre a estratégia e pude me concentrar no que tinha de fazer para melhorar dentro do carro."

24 horas depois da corrida, na cerimônia de premiação, em Hollywood, Helio tornou a conversar com Dixon e destaca a admiração mútua: "Ontem, ele falou 'puxa, cara, você realmente é um lutador, eu te respeito muito'. Eu vi que o respeito entre nós é muito grande, e por isso que foi gratificante. Você vê que não é só com os competidores, mas também é reconhecido fora. Não só para um piloto, para qualquer pessoa isso faz muito bem."
Castroneves sempre desafiou Dixon nos anos do tricampeonato do neozelandês. (Foto: Getty Images)
 

4 - 1 = 3

"Já passou pela cabeça, alguma vez, a ideia de que talvez você nunca seja campeão?", pergunta a WUp. "A partir do momento em que eu pensar assim é que não tem mais motivo para estar correndo", rejeita Castroneves. "E, graças a Deus, a minha vontade, a minha paixão é muito grande para pensar nesse sentido.

E eu acredito que todo mundo que está aí, independentemente do tempo, pensa dessa maneira: é o que a gente gosta de fazer. Independentemente do risco, das situações negativas, isso tudo faz parte de levantar no dia seguinte e ir para o trabalho, ir para a batalha. Estou pensando já em 2014. 14: quatro menos um, 3, pode ser o número da sorte", diz, e dá uma risada.

"Pessoalmente, o título é muito importante. Como piloto, quero atingir todas as minhas metas e, obviamente, uma delas é ganhar o campeonato. Um campeonato é uma maneira que o piloto tem de olhar para trás e dizer 'eu me lembro desse ano, foi um ano difícil, mas valeu a pena'. Hoje, valeu a pena o ano de 2013 para mim. Infelizmente, não levamos o caneco. É importante, mas, por não ter vencido, não vou ficar menos ou mais empolgado. Pelo contrário. Todo ano em que a gente passa por essa situação, pensa 'ano que vem vai dar'. Acredito que esse é um dos pontos mais fortes que eu tenho", acrescenta.

O brasileiro ainda se autoelogiou por ter mantido a calma e controlado a animação com a chance de ser campeão. "Não cheguei a pensar 'esse ano vai ser meu'. Eu sempre penso de uma maneira que 'esse ano é o ano'. Agora, indo para Houston, eu estava me policiando muito neste sentido, para não tentar colocar a carroça na frente dos bois. Fiquei contente por me comportar assim, achei que me instruí muito bem neste sentido."
 
Helio segue confiante em continuar brigando pelas primeiras posições na Indy. (Foto: Getty Images)

De olho em 2014

Essa foi a sexta derrota consecutiva da Penske na última corrida de um campeonato. O próprio Castroneves perdeu para o mesmo Dixon em 2008, Ryan Briscoe foi superado por Dario Franchitti em 2009 e Will Power permitiu as viradas de Franchitti, em 2010 e 2011, e de Ryan Hunter-Reay, em 2012. A maior equipe do automobilismo norte-americano ainda não conseguiu vencer na Indy unificada, após a mais recente fusão com a Champ Car.

Ao mesmo tempo, a Ganassi, com o sexto título em 11 temporadas, está se aproximando do total de conquistas da Penske e começa a ameaçar a hegemonia do time do 'Capitão'.

Mas Castroneves não acredita que esse fator represente uma pressão extra para o próximo ano. A pressão, de um jeito ou de outro, já seria grande. "A Penske vai ter a mesma atitude, a de se preparar para ganhar, se possível, todas as corridas. O ideal é vencer em Indianápolis e no campeonato, que é a meta de todas as equipes, e não é diferente da nossa", diz.

"A Penske é uma das grandes equipes justamente nesse sentido. Não só pelo sucesso, mas por situações adversas. A situação negativa, de não vencer o campeonato, volta com muito mais força. Vamos trabalhar nos detalhes, vamos ter três carros novamente, três pilotos que já venceram provas, essa é a maneira de a gente pensar. Virar a página e não se dar por vencido", afirma.

"Sobre a Ganassi, a gente tem que dar o crédito. Para o Chip e para todos que você pergunta, o Roger é um ídolo. Se estão vencendo a Penske, estão vencendo o melhor. E, para nós, é importante ter competidores como a Ganassi. É por isso mesmo que a equipe acabou contratando o Juan Pablo Montoya, colocando um terceiro carro para ter uma chance maior ainda na disputa desse campeonato", explica.

Retomando as metas da carreira, Castroneves ressaltou que ele e a Penske continuam trabalhando para ter sucesso tanto no campeonato quanto em Indianápolis em 2014. E, embora trate o título com uma importância enorme, o brasileiro tem outra preferência. A resposta não é dada de bate-pronto, mas a chance de se colocar no mesmo patamar de lendas como Al Unser, Rick Mears e AJ Foyt pesa, e muito.

"A quarta vitória nas 500 Milhas de Indianápolis ou o primeiro título?", o repórter pergunta. "Estamos em um dilema aí, né?", fala Castroneves. "A resposta não é fácil?", reforça a WUp.

"Não, não é porque, como você mesmo colocou, em Indianápolis somente três pilotos conseguiram vencer quatro vezes, isso em mais de 100 anos de história. É difícil. Eu vejo Indianápolis, ainda, como uma meta maior."

Os vices de Castroneves

Antes de chegar à Indy, Helio Castroneves foi três vezes vice-campeão. Em 1993 e 1994, correndo pelo time de Amir Nasr, o brasileiro fechou o campeonato da F3 Sul-Americana em segundo lugar duas vezes seguidas. O desfecho de 1993 é, até hoje, um dos mais controversos da história do esporte. Uma rivalidade feroz entre brasileiros e argentinos, aumentada pelas decisões tomadas pelos organizadores durante o ano, culminou em uma armação sem precedentes na disputa decisiva.

Helio precisava vencer e contar com um resultado adverso de Fernando Croceri, que estava em quinto atrás de uma fila de argentinos. Os adversários se uniram. Quem estava à frente de Croceri abriu caminho e o colocou no segundo lugar, que garantiu o título. No ano seguinte, 1994, Castroneves perdeu para outro argentino, Gabriel Furlán, antes de deixar a América do Sul. Foi terceiro na F3 Inglesa, em 1996, e batido por Tony Kanaan por apenas quatro pontos na Indy Lights em 1997.

Já na elite do automobilismo dos Estados Unidos, Castroneves teve a primeira boa chance de ser campeão em 2002, mas perdeu na última corrida para Sam Hornish Jr., então na Panther. O norte-americano venceu na decisão, no Texas, e o brasileiro chegou em segundo. Hornish voltou a superar Helio em uma final em 2006, quando os dois já eram companheiros de Penske. O brasileiro entrou na derradeira etapa liderando, mas foi quarto na prova e terminou atrás também de Dan Wheldon.

Em 2008 e em 2012, o algoz foi Scott Dixon. Em ambos os atos, foi o neozelandês que largou em vantagem na última etapa. Na prova de Chicago, há cinco anos, Helio venceu, mas a Ganassi passou pela linha de chegada na segunda posição e garantiu a taça. O único título do currículo do piloto é o Brasileiro de Kart, em 1989.
 

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