Edição 43
Outubro/2013

Stop & Go: Pipo Derani

"É quase 100% que a minha carreira será direcionada para a Indy. Até porque, hoje em dia na F1 não se tem mais talento chegando, se tem dinheiro chegando"

HUGO BECKER, de Guarulhos
Pipo Derani disputa a F3 Européia em 2013 (Foto: Getty Images)
esde 2009 competindo no automobilismo de base europeu, Luis Felipe Derani, o 'Pipo', ocupa atualmente a nona posição na classificação geral da F3 Europeia e continua sonhando com a F1. No entanto, o bom desempenho em um inesperado teste na Indy Lights, pela equipe Sam Schmidt, pode mudar o rumo da carreira para a América. Apesar de ainda manter em mente o antigo sonho europeu, a Indy passou a ser vista com bons olhos pelo jovem brasileiro.

Revista Warm Up: Você estreou na F3 Europeia em 2012, mas disputou apenas algumas rodadas e estava focado na F3 Inglesa. A temporada 2013 é a primeira na íntegra no campeonato europeu. Há muita disparidade entre o nível técnico das duas categorias?

Pipo Derani: A diferença é muito grande. A gente nunca pode tirar o mérito do campeão da F3 Inglesa, porque o cara foi lá e ganhou o título, e este é o Jordan King, que está entre os seis, sete primeiros do europeu. Mas se você levar em conta o cara que chegou em segundo no campeonato inglês, Antonio Giovinazzi, ele mal fez cinco pontos no europeu neste ano. Então, você vê que a diferença é muito grande. A F3 Inglesa sempre foi um campeonato muito forte, todo mundo sempre soube disso, só que neste ano teve muitos problemas, muitas questões políticas, e a F3 Europeia 'ganhou'. Estamos com 32 carros na Europeia e 14, 13, na Inglesa.

WUp: Mas você vê essa superioridade da F3 Europeia como algo circunstancial, por causa da questão política que minou a F3 Inglesa em 2013, ou pensa que esse novo quadro é algo que tende a se manter ao longo dos próximos anos?

PD: Não, acho que foi circunstancial, neste ano, neste momento, neste contexto. Ano que vem vai ser diferente, o campeonato inglês já volta a ter sete etapas e não quatro como neste ano. Mas acho que o campeonato do momento, hoje, é a F3 Europeia. Na minha opinião, veio para ficar.

WUp: Que pilotos da F3 Europeia você considera com potencial para brilhar no futuro em outras categorias?

PD: Sem dúvida, o Raffaele Marciello e o Felix Rosenqvist. Além deles, acho que o Lucas Auer é um piloto muito bom. Ele é um pouco lunático, mas... (risos) Fui companheiro de equipe dele lá na Toyota Series neste ano. Eu acho que ele é um cara doidão, mas tem muita velocidade. Só precisa cuidar da cabeça.

WUp: Estamos próximos do GP de Macau da F3. Em 2012, você foi bem e fechou a prova em sexto. A corrida é tradicional e a pista é muito veloz, mas também muito perigosa, já que acidentes graves são frequentes por lá. Como piloto, você também considera o traçado perigoso ou vê estes acidentes como acasos?

PD: Macau é realmente a pista mais perigosa. É uma pista que tem curvas onde normalmente nós teríamos que andar com pressão aerodinâmica no máximo, mas, por causa das retas, acabamos andando com a pressão no mínimo. Isso torna tudo muito perigoso, e perder o carro no miolo é muito fácil. É uma pista onde você tem que ter atenção redobrada, não pode desconcentrar em nenhum momento, porque perdeu a atenção, é muro na certa. Mas não é algo que a gente tem que pensar. Tem que pensar em fazer o melhor.
“Saí do kart e não tinha para onde ir. Ir para a F3 era um passo muito grande para mim. Então tive que sair do Brasil”
WUp: Mudando um pouco de assunto, o automobilismo brasileiro está às moscas. Você enfrentou muitas dificuldades no início da carreira, como falta de apoio e de estrutura?

GPD: Senti. Saí do kart e não tinha para onde ir. Ir para a F3 era um passo muito grande para mim. Então tive que sair do Brasil e procurar um lugar que tivesse categorias menores para começar. Só que é muito difícil o cara chegar sem experiência nenhuma e já ter que lutar contra os melhores pilotos do mundo, que estão no segundo ou terceiro ano no campeonato. Então, foi difícil para mim, porque eu tive que batalhar para a minha adaptação ser mais rápida. No começo, perdi um tempo em que eu poderia ter resultados melhores, mais expressivos, mas não tive oportunidade de andar aqui no Brasil, de aprender aqui no Brasil, que é o que acontece até hoje. É uma pena, no meu ponto de vista. Acho que falta vontade, faltam pessoas que possam fazer isso, porque isso pode ser feito. Não é difícil ajudar o automobilismo brasileiro.

WUp: Diante disso, qual poderia ser o primeiro passo para começar a melhorar o automobilismo daqui?

PD: Antes de mais nada, a gente tem que pegar profissionais que estejam dispostos a fazer um trabalho bem feito, porque muitas vezes, aqui no Brasil, aparece o cara que diz o 'salvador da pátria', mas aí ele traz carros que não funcionam, organiza mal a categoria... Tem que ser alguém que esteja disposto a fazer um negócio profissional. Mas tudo isso começa não só com o criador do evento, mas com a CBA. Você vê quantos acidentes acontecem, as pistas estão precárias... tem que começar da base. Tem que ter menos gente corrupta. Precisamos de gente séria, que queira fazer o negócio realmente para ajudar.

WUp: Falando agora sobre futuro, qual é o seu próximo passo em 2014?

PD: A intenção é dar um passo acima, seja ele World Series, GP2 ou Indy Lights. Mas isso depende do financeiro, de empresas que patrocinem, o que não é fácil. Ir para a América é um custo mais baixo, mas está difícil também.

WUp: Você fez dois dias de testes com um carro da Indy Lights pela Sam Schmidt e chamou a atenção por ter batido o recorde da pista, que era do Charlie Kimball. Há muitas diferenças entre um Indy Lights e o carro da F3 Europeia?

PD: Era uma experiência nova para mim, porque eu estava andando com um carro totalmente novo e mais forte. O F3 tem 220cv, aproximadamente, e um Indy Lights tem 480cv, com motor V8. É um pouco diferente em termos de asa, mas a pressão aerodinâmica é muito grande. Eu não estava esperando que fosse tanta, mas o carro é realmente 'pregado' no chão. Testei com os pneus Firestone, mas não serão estes os pneus do ano que vem, eles terão os Cooper. O teste realmente foi muito bom. Fui 0s3 mais rápido que o recorde do Kimball, o que realmente foi inesperado. Achei que, estando em um carro novo, mais potente do que o que eu estou acostumado, fosse levar mais tempo para me adaptar, mas não. Depois de 30 voltas, eu já estava bem adaptado. Foi bacana, fiquei contente com o resultado.
Pipo conquistou três pódios em 2013. (Foto: Getty Images)
“A intenção é dar um passo acima, seja ele World Series, GP2 ou Indy Lights. Mas isso depende do financeiro, de empresas que patrocinem, o que não é fácil”
WUp: O bom desempenho neste teste pode ajudar a definir o futuro nos EUA?

Ajuda muito a negociar com qualquer equipe, mas não é nada que garanta, até porque eu estou em uma categoria de base, não tenho os mesmos patrocinadores e a audiência que tem uma Indy ou uma F1.

WUp: Anteriormente, você mencionou a Indy Lights como uma das opções para o futuro. Chegar à Indy seria um 'plano B' ou você já pensa em direcionar o rumo da carreira para lá?

PD: É quase 100% que a minha carreira será direcionada para isso. Até porque, hoje em dia na F1 não se tem mais talento chegando, se tem dinheiro chegando. Isso é um problema. Então é bem provável que dentro de um ou dois meses, se eu não conseguir nada na World Series ou na GP2, este seja o meu foco principal. E uma vez sendo, não volto atrás. Mas ainda não há nenhum acordo com nenhuma equipe. Gostaria muito de ter alguma coisa, de continuar na Europa, já que ir para a F1 é o sonho de qualquer piloto. E vendo essa situação do Felipe Massa podendo sair, e a gente não tendo piloto brasileiro para entrar, estar onde estou pode ser bom, porque estou na F3, daria mais um passo, mais um ano, e estaria ali na porta para entrar. Mas tudo isso não depende só de mim, depende de outros fatores.

WUp: Você fez toda a carreira em circuitos mistos, e os ovais são uma particularidade do automobilismo norte-americano. Você acha que pode se adaptar rapidamente a este tipo de traçado?

PD: Acho que sim. Acho que em tudo você tem de ir com a mentalidade de aprender. Tem muitos pilotos que saem da Europa e chegam lá achando que são bons o suficiente, vão com a mente fechada, aquela coisa de 'eu sou o melhor'. E acabam não tendo bom desempenho, porque, nos EUA, os pilotos são tão bons quanto na Europa. É tudo questão de aprender como funciona. O oval é um tipo de circuito onde você depende muito mais da cabeça do que realmente do lado técnico. Não tem freada, tem o jeito certo de acelerar, de fazer a curva, é pé embaixo a volta inteira. Mas para tirar aquele milésimo de segundo é que é muito difícil. Vai muito da cabeça do cara, do jeito que ele ouve. É muito mais saber fazer do que propriamente ser agressivo. É tudo muito sutil. Um piloto que é menos agressivo é o que se adapta mais rápido ao oval.
 

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