Edição 43
Outubro/2013

Superfinal: Viva a sociedade alternativa

Com a F1 com cada vez menos vagas, o Mundial de Endurance (WEC) tem aparecido como alternativa para quem quer se profissionalizar no automobilismo

RENAN DO COUTO, de São Paulo
ouco a pouco, cresce o número de pilotos com passagem pelo Mundial de F1 que compete regularmente no endurance. Do ano passado para cá, Bruno Senna e Kamui Kobayashi deixaram a categoria de monopostos para correr em tempo integral no WEC. No ano que vem, Mark Webber seguirá os mesmos passos e trocará a melhor equipe da F1 pela Porsche, que retorna a inscrever protótipos em corridas de longa duração, na disputa da classe LMP1.

As saídas desses três pilotos da F1 foram sentidas, cada uma de forma diferente. Para a tristeza dos fãs, o japonês, extremamente talentoso e carismático, acabou não conseguindo se manter no grid após ser preterido na Sauber. Senna, brasileiro e que tinha certa quantia em patrocínio, não pôde continuar o legado do tio, Ayrton, já que a Williams optou por Valtteri Bottas. Os lugares competitivos se fecharam, e os dois tiveram de buscar alternativas para continuar a competir.

Webber é um caso diferente. Aos 38 anos, é o piloto mais velho da turma de 2013 da F1, e, já satisfeito com a carreira de 12 temporadas que construiu na categoria, decidiu respirar novos ares. Cansou também das brigas internas da Red Bull e, de maneira interessante, disse que sairia da categoria antes que saíssem com ele. O anúncio unilateral foi feito no fim de semana do GP da Inglaterra, pegando a própria equipe rubro-taurina de surpresa.

Um dos sinais do descontentamento de Webber com a F1 foram as críticas feitas por ele à qualidade dos pilotos. "Quando eu estava no fim do grid com a Minardi, você tinha Eddie Irvine, Mika Salo, todos esses caras que estiveram no pódio. O grid estava cheio de caras que ganharam na F3000, venceram corridas impressionantes. Agora, há muitos pilotos talentosos, mas muitos estão ficando de fora. Robin Frijns é um fenômeno, mas não tem dinheiro", disse o veterano recentemente.

O australiano estava se referindo ao primeiro ano no Mundial de F1, em 2002. O piloto havia estreado pela Minardi em casa, no GP da Austrália, e surpreendeu ao terminar a prova na quinta posição. Os organizadores da corrida até deixaram-no subir ao pódio para comemorar diante dos compatriotas.
 
Lucas Di Grassi, outro que deixou a F1 e agora encontrou um novo rumo para a carreira na Audi, concorda com Webber. "Hoje em dia tem muito mais gente bem preparada do que há 20 anos, sem dúvida. Mas a média do grid tem piorado", disse o brasileiro, que correu na F1 em 2010 pela Virgin – hoje Marussia.

Além dos já citados Kobayashi, Senna e Di Grassi, a lista de ex-pilotos da F1 que correm em boa parte da temporada do WEC ainda tem Allan McNish, Anthony Davidson, Stéphane Sarrazin, Sébastien Buemi, Marc Gené, Alexander Wurz, Kazuki Nakajima, Gianmaria Bruni, Giancarlo Fisichella, Nick Heidfeld e Olivier Beretta.

"Há 22 vagas na F1, mas, provavelmente, apenas oito ou dez pilotos sendo pagos para fazer o trabalho deles. Os outros estão levando patrocínios", diz o escocês Allan McNish à WARM UP. "Se você não está em uma posição para levar milhões de dólares em patrocínios, as chances de arranjar um lugar são muito pequenas. Lucas Di Grassi esteve lá, na Marussia, mas, para continuar ou para ir para outro time, tinha de levar muito dinheiro. Isso não é talento do piloto, é uma simples questão econômica para os times."

Na hora de comentar sobre o leque de opções que o Mundial de Endurance oferece para quem não quer continuar comprando vaga na F1, os pilotos entrevistados pela WUp destacaram dois fatores: a existência de um campeonato forte e, principalmente, a presença de montadoras.

"Você tem de estar nos campeonatos onde tem construtores, onde tem montadoras, que são quem contrata, quem decide e eleva o nível do ponto de vista tecnológico", comenta Di Grassi.

Sébastien Buemi, que defendeu a Toro Rosso por três temporadas na F1 e hoje corre pela Toyota no WEC, também afirma à WARM UP que é muito importante ter um campeonato mundial. "Isso pode atrair outras montadoras, e eu estou olhando para a frente, pois acho que isso será o futuro", diz.

O suíço acredita que a decisão de Webber mostra que o WEC "é um campeonato concorrido, com boas montadoras e um bom nível", além da "incrível corrida de 24 Horas de Le Mans."

A F1 atual conta com somente três montadoras: Ferrari, Mercedes e Renault, enquanto a Honda vai retomar a parceria com a McLaren em 2015. No WEC o número é bem maior. Estão ativas em 2013 Audi, Toyota, Nissan, Honda, Aston Martin, Ferrari e Porsche. Esta última vai expandir a operação para a LMP1 no ano que vem, caminho que pode ser seguido pela Ferrari em 2015.

Mas a questão do envolvimento das grandes fábricas de carros de rua com o automobilismo e especialmente com a F1 sempre foi um bocado polêmica. O ex-presidente da FIA Max Mosley era um grande crítico da dominação das montadoras no grid. O argumento do britânico era que no primeiro momento de crise elas pulariam do barco, já que não dependem das corridas, e, sim, das vendas de carros.

Mosley estava certo. Estourou a crise econômica, e a Honda fechou a equipe de F1 na hora. Um ano depois, BMW, Toyota e Renault também reduziram o envolvimento. Só a Mercedes passou a investir mais. Há, também, uma razão técnica para a saída das fabricantes: os regulamentos cada vez mais restritivos da F1. O WEC, por outro lado, já é um laboratório bem melhor para pesquisas. "Uma opção melhor", opina McNish.

Mas parece haver um consenso: se a F1 contasse com mais montadoras, o número de pilotos pagantes – tão criticados – seria menor, como foi na década passada.

Apesar de os carros e as marcas serem a grande atração das provas de endurance, esse aumento no número de montadoras também representa mais oportunidades para os pilotos. "Daqui a pouco, você vai ter 20 protótipos. Se tiver 20 P1, vai ter de ter piloto bota também", fala o bicampeão mundial de F1 Emerson Fittipaldi à WARM UP. "Vai ter espaço para os pilotos, que hoje não tem. Todos os lugares da F1 estão tomados. Vai ser uma alternativa para quem gostaria de estar na F1 e não tem sorte, não tem patrocínio, não está no lugar certo na hora certa. É difícil chegar à F1", acrescenta.

"Tirando a F-E, que eu acho que vai começar com alguns ex-pilotos de F1, você tem WEC e DTM como opção para ser um piloto profissional. No WEC, tem umas 20 vagas, no DTM, também. Então você tem os pilotos saindo da F1, como Webber, eu, Bruno, e vindo para cá, ou o Timo Glock, entre outros, indo para o DTM. A Indy era uma opção, mas também tem muito piloto pagante, está na mesma situação da F1", analisa Di Grassi.

Faça o que tu queres, pois é tudo da lei

Embora tenha competido na F1, McNish construiu longa carreira no endurance e vê na modalidade não só características que sejam atraentes para a profissionalização, como também um caminho alternativo para quem sonha com a F1.

"Bruno Senna correu no endurance antes de ir para F1. Michael Schumacher desenvolveu o talento no endurance junto de Heinz-Harald Frentzen antes de ir para a F1. Há muita coisa que os pilotos podem aprender aqui. Se você está tentando chegar à F1, é claro que você tenta fazer a GP2, a maneira padrão, mas, do ponto de vista da pilotagem, temos mais downforce que a F1, mais aderência nos pneus, andamos no limite e temos grandes corridas", propõe.

Buemi ressalta que, "em termos técnicos, é a melhor categoria". "Você tem o DTM, que é uma boa alternativa, mas esse carro é mais rápido, tão rápido quanto um GP2 e, honestamente, é melhor estar aqui."

Isso sem falar naqueles que escolhem o endurance como objetivo de carreira. É o caso de Loïc Duval, francês que, em 2013, venceu pela primeira vez as 24 Horas de Le Mans com a Audi. "Não é apenas uma alternativa. Pode ser a meta para muitos pilotos", responde à pergunta da WUp.

"Podemos ver Mark Webber decidindo sair da F1 para vir para cá porque queria se divertir novamente. A F1 é um grande campeonato, tem grandes carros, anda no mundo todo, os pilotos estão ganhando muito dinheiro, é legal. Mas eu não tenho certeza se eles se divertem tanto quanto nós, se eles têm o mesmo espírito de equipe, isso é bom aqui no endurance", compara.

Essa questão da diversão e do ambiente bem mais tranquilo do WEC fica mais do que evidente no sorriso e nas falas de Bruno Senna desde a mudança para a Aston Martin. "O paddock é diferente. As pessoas são diferentes, o clima é bem diferente, bem aberto e bem amigável", afirma.

"A F1 não é uma questão de potencial de pilotos, são várias questões", continua Duval. "Talvez os melhores pilotos do mundo nunca andem de F1. É difícil dizer isso. Estar aqui no WEC, para mim, é um orgulho grande. Não me arrependo de não ter ido para a F1", garante.
 
 

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