Edição 44
Novembro/2013

Americo Teixeira Jr:
Interlagos depende totalmente da F1

Numa análise puramente técnica, Interlagos está aquém das exigências desde há algum tempo. Então, por que a pista continua no calendário?

AMERICO TEIXEIRA JR, de Vinhedo
or mais transtornos que a F1 cause aos usuários do circuito localizado no bairro paulistano de Interlagos, a verdade é uma só: o Autódromo Municipal José Carlos Pace, palco de tantos momentos históricos do automobilismo brasileiro e mundial, só continua de pé em razão de o GP do Brasil estar no calendário oficial da categoria desde 1973 e de forma quase ininterrupta em Interlagos.

Nessas 33 corridas da categoria em São Paulo – incluindo a primeira, em 1972, em caráter extra-oficial e a do dia 24 de novembro deste ano –, foram poucas as oportunidades em que a pista se apresentou em condições plenas de receber a F1. Na maioria delas, sob a ótica da FIA, sempre faltou algo.

Em certos momentos foi pura hipocrisia do pessoal da FIA. Muito fácil reclamar de tanta coisa por aqui enquanto, na Europa, alguns autódromos se encontravam em situação similar ou pior. Em outros, porém, os dirigentes estiveram cobertos de razão. A evolução da F1 sempre foi muito mais rápida do que a capacidade de adequação dos autódromos, e Interlagos fez parte dessa montanha russa por diversas vezes.

Se a análise for puramente técnica, Interlagos já está aquém das exigências desde há algum tempo. Então, por que a pista continua no calendário? A resposta passa por várias frentes, menos aquela simplista de que “o Bernie Ecclestone gosta do Brasil”.

Muito bem, ele até pode gostar do Brasil. Mas o inglês é um homem de negócios pragmático e objetivo. Sem espaço na sua agenda para sentimentalismo. O GP do Brasil continua no calendário porque é uma prova lucrativa e a prefeitura de São Paulo faz o possível para atender pelo menos em parte o que é solicitado, além de fato de o público comparecer.

Nesse quesito, como a capacidade de público é pequena – algo em torno de 70 mil lugares entre arquibancadas e áreas de hospitalidade –, não é tarefa das mais difíceis lotar as dependências do circuito no final de semana de automobilismo top, como é o caso da F1. Além disso, o perfil do torcedor que vai a Interlagos ver a F1 é daquele apaixonado por automobilismo, pelo esporte em si. Já aquele que gosta das corridas somente quando há um brasileiro vencendo faz-se presente em menor número.

Depois que a categoria vai embora, o que sobra é um autódromo impecável para as necessidades do automobilismo brasileiro. Interlagos é a única praça automobilística brasileira que recebe os eventos completos de eventos como a F-Truck e Stock Car, sobrando ainda espaço.

São as duas grandes ocasiões passíveis de algum paralelo com a F1 em termos de agitação e público. Nenhum outro evento do automobilismo brasileiro lota Interlagos e, por certo, administração municipal alguma teria interesse em investir anualmente no circuito para manter intacta a praça para o minguado automobilismo brasileiro.

Como toda essa engrenagem funciona em razão da F1, se um dia Interlagos deixar de sediar em definitivo a etapa brasileira, estarão encerrados os motivos para continuar investindo nas reformas. O resultado no médio ou talvez longo prazos será o sucateamento do circuito, o colapso de suas estruturas e o sinal verdade para que aquele milhão de metros quadrados se transforme em condomínio popular. Alguém está disposto a pagar para ver?
Foto: Mark Thompson/Getty Images
 

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