Edição 44
Novembro/2013

Carro-chefe: Aqui Ijaz

Mansoor Ijaz surge como o líder de um grupo de investimento sui generis que pretende salvar a Lotus de uma dívida milionária. Caso se confirme a aliança, um mergulho na vida e obra do empresário aponta que a equipe vem para matar ou morrer

VICTOR MARTINS, de São Paulo
Ao lado de Bill Clinton, Mansoor Ijaz posa como o homem que ajuda o presidente a se eleger e que recebeu um cargo de confiança. (Foto: Divulgação)
homem que toca uma empresa recém-surgida e que já saiu cobrando de uma equipe de F1 o piloto de sua preferência sem ter efetivamente virado acionista – apesar de garantir ter aplicado o dinheiro que dele se esperava – tem sido visto como a salvação de um grupo à beira da bancarrota. Mansoor Ijaz, 52, é a principal figura da Quantum Motorsports, a investidora que, ao que se propaga – incluso o próprio –, vai ser uma injeção de sossego à vida de Éric Boullier e seus colegas e de um líquido azul na conta bancária de Lotus.

A bela viola do currículo de Ijaz abre bocas: família abastada, formação nas maiores universidades americanas, aparições nos principais meios de comunicação do mundo, acesso livre, direto e atuante com os presidentes, alianças com gentes de poder e recursos. Mas ao levantar o pano, o pão bolorento abre olhos.

Passado e presente se fundem e misturam como recheio a ficha corrida de Ijaz com a demora de quase nove meses para concretização de um negócio que vem mexendo com outras vidas e o cenário de uma categoria para 2014. Os céticos – e nestes estão inclusos membros da própria Lotus – creem que o produto final dos ingredientes vai pendendo para a quase-certeza de que o negócio em algum momento vai estacionar.

Abaixo da originária da Quantum, a Infinity, existe um acúmulo de poeira em tapetes paquistaneses e da Casa Branca. Aquele que vem cobrando tem sido cobrado de muitas coisas há muito tempo. Sem comparar as personagens em nenhum patamar, o seu lado pede Nico Hülkenberg com a insistência e teimosia peculiares de sua formação; o outro se esquiva das respostas ainda no ar de como deixou escapar Osama bin Laden.
Ijaz foi um dos grandes financiadores da campanha à presidência de Bill Clinton contra George W. Bush

Musawer em vários atos

Mujaddid Ahmed Ijaz ainda era novo quando resolveu deixar Lahore, no Paquistão, para estudar na Universidade de Florida State em 1960. A caminho de sua graduação de mestre em Ciências, teve com Lubna Razia bin Nazir seu primeiro filho um ano depois na capital daquele estado, Talahassee. Foi num ambiente de mudanças para Ohio e Virginia que Musawer – como é chamado pela família – cresceu e adquiriu gosto pelo assunto. Herdou do pai a teimosia e a ambição, e não foi estranho quando aos 22 se viu formado em Física. Dois anos depois, concluiu mestrado em Engenharia Mecânica no MIT – Instituto de Tecnologia de Massachusetts, tido como o mais importante do mundo –, concomitante ao treinamento como neuroengenheiro em Harvard. Não era pouca coisa.

Seu conhecimento acabou sendo aplicado nos ramos da Economia e da Administração. Em 1990, abriu a Crescent Investiment Management, uma empresa de gerenciamento de portfólios nas áreas de tecnologia, telecomunicações, infraestrutura, setor imobiliário e petrolífero. O investimento na Crescent vinha de governos do Oriente Médio e foi avaliado à época em US$ 2,7 bilhões. Um de seus sócios foi o general James Alan Abrahamson, que fez parte da administração do governo de Ronald Reagan (1981-1989).

A vistosa inteligência somada ao sucesso nos negócios escancararam a Ijaz as portas dos grandes jornais. Ganhou colunas e espaço em ‘Financial Times’, ‘The Wall Street Journal’, ‘The New York Times’, ‘Los Angeles Times’, ‘The Washington Post’, ‘The International Herald Tribune’, ‘USA Today’, ’Newsweek’ e no ‘Times of India’, que naturalmente o levaram à TV. O empresário começou a aparecer nas principais redes americanas, como CNN, ABC e NBC, e em emissoras fora dos EUA, tipo a inglesa BBC, a alemã ARD e a japonesa NHK.

A presença maciça nos meios de comunicação aproximou Mansoor da política americana. Ijaz foi um dos grandes financiadores da campanha à presidência de Bill Clinton contra George W. Bush. A vitória no fim de 1992 do então governador do Arkansas conferiu um alto status àquele que havia desembolsado mais de US$ 1 milhão aos democratas.
 

Estilo PMDB

Clinton retribuiu o apoio estrondoso de Ijaz com um cargo não oficial de negociador diplomático de seu governo em 1996. Pela ascendência árabe, o presidente americano o colocou para se sentar com o presidente do Sudão, país que havia entrado para a lista negra dos EUA por ser considerado patrocinador do terrorismo de operações como a Jihad Islâmica, o libanês Hezbollah e o palestino Hamas. Depois das muitas conversas diretas com o presidente Omar al-Bashir, Ijaz aconselhou os EUA a fazer um “laço construtivo” com o Sudão para que de lá fosse extraditado o pouco mundialmente conhecido suspeito Osama bin Laden. Mas a proposta de se aliar a um país que supostamente financiava ações extremistas não foi muito bem digerida por Washington.

Mansoor foi intimado a comparecer ante ao Congresso e explicou que era necessário apoiar o movimento islâmico sudanês para ajudar na luta contra o terrorismo global, além de tornar a ressaltar o avanço das relações do Sudão com Irã, Arábia Saudita, Argélia, Afeganistão e outras nações que julgava serem vitais para os interesses econômicos dos EUA. Por trás da cortina de combate ao terror estava a verve empresarial sagaz de Ijaz: o perigoso Sudão abrigava extremistas em meio a reservas de quase 4 bilhões de barris de petróleo. O laço construtivo era necessário: Ijaz queria controlar os negócios de Cartum.

As negociatas de Mansoor com Al-Bashir levaram quase três anos e culminaram na saída de Bin Laden do território sudanês. Osama acabou sendo expulso, mas não voltou para a Arábia, seu berço, indo parar no Afeganistão. As terríveis consequências foram vistas naquele 11 de setembro de 2001.

Três meses após o ataque aéreo às torres gêmeas do World Trade Center que vitimaram mais de 4 mil pessoas, Ijaz, em sua defesa, culpou a omissão do presidente em um artigo cujo título era “Clinton deixou Bin Laden escapar e formar metástase”. Naquelas linhas, contou que um país árabe, não identificado, havia se oferecido para asilá-lo – de onde seria extraditado para os EUA –, e que houve várias oportunidades para capturar e matar Osama. Segundo Mansoor, a inércia do governante e seus asseclas permitiram a fuga que resultou no desastre em Nova York. A resposta veio via Sandy Berger, conselheiro da hoje famigerada NSA (Agência Nacional de Segurança dos EUA), que classificou as palavras de Ijaz como “ridículas e irresponsáveis”.

Ali ficava claro que Clinton, recém-saído da presidência, e Mansoor já não conviviam amistosa e profissionalmente.

Posteriormente em um relatório investigativo, entretanto, a Comissão Nacional de Ataques Terroristas (Comission 9/11) indicou que o Ministro da Defesa do Sudão, Fatih Erwa, chegou a oferecer Osama direto para os EUA e que o veto teria partido de Mansoor. Nenhuma acusação foi à frente contra o empresário/diplomata por falta de provas.

Após o 11/9, o antes neo-conservador Ijaz passou à direita como um profundo defensor da guerra contra Iraque e Afeganistão, dando suporte à estratégia de quem lhe era rival político, George W. Bush, o sucessor de Clinton. A guinada à direita – ou a manutenção como governista – fez de Mansoor o novo contratado da Fox News, onde passou a alertar para a existência de bombas atômicas no Irã e para uma eventual invasão ao país.

Perguntado sobre sua posição política, Ijaz diz à REVISTA WARM UP ser “pragmático”. “Sou um socialista liberal. Fiscalizador conservador. Eu apoiei a maioria dos candidatos democratas dos EUA, mas trabalhei bem de perto com as administrações republicanas nas questões de segurança nacional”, explica. “Eu hesito em me rotular isso ou aquilo porque não pertenço e nunca pertenci a qualquer partido político e não entrei no mundo da política pelos motivos tradicionais – eu queria fazer meu país entender como o mundo muçulmano pensa e o que poderia fazer para juntá-los. Em algumas áreas, eu tive sucesso; em outras, não”, reconhece.

A RWUp procurou o ex-presidente Clinton, que preferiu não se manifestar sobre o assunto.
Ijaz acusou o governo paquistanês de ter acobertado Bin Laden durante anos em seu esconderijo, até sua morte

A novela do memorando

Um novo episódio com participação de protagonista envolveu Ijaz quando os EUA já eram administrados por Barack Obama. Mansoor escreveu um artigo no ‘Financial Times’ em 10 de outubro de 2011, intitulado “Hora de pegar os espiões jihadistas do Paquistão”, em que acusava o governo paquistanês de ter acobertado Bin Laden durante anos em seu esconderijo até sua morte em maio daquele ano em Abbottabad.

Mas a grita vinha com revelações. Mansoor trouxe à baila a existência de um memorando que relatava uma “significante deterioração na atmosfera política do Paquistão” em virtude da morte de Bin Laden e que o terrorista fora acobertado pela ISI – o Serviço de Inteligência do país – pelo exército e/ou pelo governo do presidente Asif Ali Zardari. O autor do documento era o embaixador paquistanês nos EUA, Husain Haqqani, amigo de Ijaz que, diante daqueles fatos, solicitava a ajuda das Forças Armadas de Washington para combater um provável golpe de estado.

No memorando, Haqqani acreditava que o apoio dos militares norte-americanos “reergueria o governo civil” e, ainda que com o uso de força, “trocaria o conselheiro nacional de segurança e outros oficiais nacionais por líderes civis e ex-militares bem vistos por Washington por seus longos e históricos laços com as comunidades militares, políticas e de inteligência americanas”.

Ainda, o documento confidencial continua o encadeamento dos procedimentos que deveriam ser adotados para a ação militar para “construir uma relação estrutural muito melhor na região com a Índia e o Afeganistão”, encerrando com a afirmação que o presidente Zardari apoiava o ato. Ali nascia o ‘Memogate’.
O documento que gerou o Memogate: falso ou não, colocou Ijaz novamente em evidência
A tensão interna entre a oposição e o governo recrudesceu consideravelmente no Paquistão, bem como a relação entre o país e os EUA. Haqqani negou qualquer envolvimento com o memorando, mas se viu na obrigação de renunciar ao cargo de embaixador e passou a viver numa prisão domiciliar. O presidente Zardari também refutou participação no documento.

Uma investigação foi aberta. O exército americano confirmou que o almirante Mike Mullen, um dos responsáveis pela administração das relações EUA-Paquistão, recebera o memorando em 10 de maio. A partir daí, todos os lados do caso tinham suas defesas: Ijaz afirmava que tinha linha direta com Mullen, que negou relação com Mansoor, que passou a dizer que Haqqani teve ajuda de dois outros membros do governo paquistanês para elaborar o memorando, cuja existência foi posta em dúvida por Zardari.

As testemunhas do caso serviram menos que os fatos quando foram pegas conversas via celular Blackberry entre Haqqani e Ijaz, entregando a origem do caso. O Memogate foi parar nas Justiças dos dois países.

No Paquistão, a Suprema Corte julgou em primeira instância que o memorando havia sido escrito por Haqqani e que nunca houve qualquer tentativa de golpe militar. A defesa do antigo embaixador entrou com recurso. Há quem jure, no entanto, que o documento foi produzido falsamente por Ijaz para provocar uma ruptura nas relações diplomáticas e, sobretudo, uma alteração política no Paquistão.

“Meu papel no Memogate terminou quando a Comissão Judicial da Suprema Corte do Paquistão verificou em seu relatório final que eu tinha contado a verdade apurada e completa sobre as origens, o propósito e a autenticidade do memorando”, defende-se Ijaz à RWUp. O relatório também viu que o embaixador Haqqani mentiu e que deveria ser levado à Suprema Corte para ser julgado por altos crimes contra o estado do Paquistão. Não tive mais envolvimento nisso, mas o embaixador ainda está em batalha judicial”, completa.

Autor de uma extensa reportagem na versão paquistanesa da ‘Newsweek’, o jornalista Abid Hussain explica que, ainda assim, Ijaz não foi considerado culpado pelo ‘Memogate’ nem tratado como traidor pelo governo local. “Ele acusou diretamente nosso embaixador nos EUA e se aliou ao grupo do Paquistão que queria puni-lo – e conseguiu se dar bem”, conta à RWUp. “Desde então, Mansoor desapareceu e não retornou ao Paquistão ou mostrou qualquer interesse ou envolvimento no país.”

Ijaz defende e não se arrepende das atitudes. “Minha vida adulta inteira de relação de negócios sempre se dedicou em dar voz aos muçulmanos abandonados para que eles não ficassem desesperados. Seja combatendo a corrupção no Paquistão ou lutando contra os líderes políticos de meu próprio país para definir a melhor maneira de unir as nações islâmicas, eu pus minha vida, minhas mãos e todos os recursos à minha disposição para evitar a colisão entre as culturas e as identidades religiosas que estamos testemunhando hoje”, fala. “Minha contribuição principal em negociar particularmente pelo benefício da infraestrutura política e da segurança nacional do meu país foi a capacidade de desenvolver confiança entre aqueles que desconfiaram dos motivos e objetivos da América.”

Ao menos, reconhece um erro. “Minha falha foi tentar lidar no mesmo patamar com líderes quando não tinha todas as informações como as que eles tinham na manga. Eu acabei negando meus próprios esforços criando inimigos políticos onde não precisava”, reflete.
 

Ensinando Eike

Nos negócios, Mansoor tentou se aventurar no mundo da construção de hotéis subaquáticos em Mônaco e outras cinco cidades através da criação de um braço de sua principal empresa, a Crescent Hydropolis, com base na Ilha de Man para conseguir angariar dinheiro. Em 2006, a ideia era iniciar com um resort em Dubai em um projeto de US$ 344 milhões. O hotel jamais saiu do papel. Nunca sequer houve um website. A companhia que mal nasceu morreu.

No ano seguinte, a Crescent apresentava um lucro anual de US$ 450 mil, com salários de US$ 50 mil por ano. Para uma empresa que apresentava Ijaz como líder e quatro outros acionistas, significava que cada um estava ganhando por mês a módica quantia de US$ 833 mensais. Não à toa, o nome de Ijaz passou a ser identificado pelas iniciais IMM em sua outrora edificante companhia – invertendo seu nome completo, Ijaz Mansoor Musawer.

A vida de Ijaz começou a sofrer uma devassa também pela origem de seu patrimônio e pelos débitos que acumulou em um banco de San Marino. A história começou em 2007, quando o empresário pediu um empréstimo à Banca Sammarinese Di Investimento (BSI) de cerca de € 1,5 milhão e alegou que tinha o apoio de um negócio de uma família X influente na política da Índia como uma espécie de fiador – assegurando um patrimônio desta de US$ 50 milhões, além dos seus supostos mais de 40 apartamentos em um condomínio em Las Vegas. A quantia nunca foi paga, e o BSI entrou com uma ação contra Mansoor na Suprema Corte de Nova York em 2010 alegando fraude.
Ijaz pediu um empréstimo num banco de San Marino que até agora não pagou, apesar da condenação inicial
Os pormenores começaram a vazar e puseram definitivamente em xeque a fortuna e a lisura de Ijaz. O jornal ‘The Hindu Times’ revelou que o empresário declarou ao banco que possuía uma resguarda de US$ 15 milhões, sendo US$ 11,8 milhões oriundos de ações da Crescent e de uma empresa chamada EcoDrive, que teria aliança com a montadora Tata. De acordo com documentos entregues por Mansoor, a EcoDrive era tocada pela tal família indiana e injetou US$ 10 milhões na companhia. Uma investigação apurou que a EcoDrive nunca produziu uma única peça. A Tata, por sua vez, negou qualquer ligação com a EcoDrive e com Ijaz.

O jornal concluiu que o único bem de Ijaz consiste em um apartamento em Nova York avaliado hoje em menos de US$ 4 milhões.

O BSI confirma à RWUp a história e revela que o empréstimo foi solicitado pelo braço da empresa de Mansoor que tentou construir hoteis na água. “Mr. Ijaz está devendo para nosso banco uma quantia superior a € 1,8 milhão em decorrência de empréstimos solicitados pessoalmente e/ou em home das companhias que o cliente deu como garantia. Os empréstimos foram depositados na conta da Crescent Hydropolis Resorts PLC”, diz a assessoria do banco samarinês.

Ainda, o BSI afirma que o processo na Corte de Nova York está em andamento e, “por enquanto, Mr. Ijaz não pagou nada à Banca Sammarinese de Investimento”, além de revelar o que o imóvel “localizado na 100 United Nations Plaza New York” está sob execução promovida por credores antes de nós, com quem Ijaz acumula débitos de aproximadamente US$ 2,4 milhões.

Em meio ao julgamento do ‘Memogate’ e ainda sem pagar o que devia ao BSI, veio à tona no começo de 2012 a participação de Ijaz de um clipe em que duas modelos, Nasty Nacy e Double D, apareciam nuas lutando em um ringue. No vídeo de ‘Stupidisco’, do DJ Junior Jack, Mansoor atua como narrador da peleja feminina, aparecendo duas vezes na filmagem – de 2’47” a 2’50” e 2’55” a 2’57”. O clipe fora gravado em 2004 em Bruxelas e, segundo Ijaz, sua participação aconteceu a pedido do melhor amigo de sua mulher e só foi ‘revelado’ oito anos depois por uma provável vingança articulada por Haqqani. A reputação de Mansoor foi nivelada à sua condição financeira: baixa.
O irreverente Ijaz também emprestou sua imagem a um videoclipe de uma luta de modelos nuas. Não pegou muito bem.

Fazemos qualquer negócio

Faz cinco meses que a Lotus anunciou oficialmente a presença de um novo investidor para dar um “impulso ainda maior para alcançar o topo do grid da F1”. A Infinity Racing Partners Limited, doravante Infinity, passou a se tornar acionista do time comandado pelo Grupo Genii em 18 de junho, arrebatando 35% das ações.

A Infinity foi definida como “um consórcio de investimento cujo propósito especial é composto de investidores privados que incluem um empresário americano, um grupo de negócios multinacional de Abu Dhabi e interesses da família real de uma grande nação produtora de óleo”. Nas linhas do comunicado de imprensa, dois representantes da Infinity são identificados: o vice-diretor Suhail Al Dhaheri e o diretor Mansoor Ijaz.

Uma busca sobre a composição da empresa indica que 60% das ações pertencem à Universal Sports Group, que tem base em Brunei Darussalam, o país que jorra petróleo aos montes supramencionado cujo sultão, Hassanal Bolkiah, tem uma coleção próxima a 7 mil carros, sendo um deles o do campeonato de Alan Jones em 1980. 20% vêm da empresa Al Manhal International, comandada por Al Dharei para gerar energia na capital dos Emirados Árabes e que estaria ligada ao desenvolvimento do ERS (atual Kers) em 2014. Os outros 20% surgem da Crescent de Ijaz.

“Esportista toda a vida e investidor em tecnologia”, Ijaz resgata os feitos familiares para sua aproximação com a F1. “Investir em um esporte que funde minhas três paixões – tecnologia, carros rápidos e negócios (marketing esportivo e patrocínios) – é uma extensão lógica de meus interesses pessoais”, diz. “Dentro do largo escopo de nossas parcerias de investimento no mundo, temos um número de parceiros que também se sente apaixonado pelo esporte e pela tecnologia, mesmo se eles vêm de um dos maiores produtores de óleo. Então é possível dizer que a Quantum Motorsports é uma coleção de pessoas imbuídas que querem perseguir as várias disciplinas diferentes que compõem o modelo de negócios da F1.”
“Ele é uma máquina de mentir. É um vigarista de marca maior”
- Abid Hussain, repórter da revista ‘Newsweek’
Em outubro, a Infinity se viu obrigada mudar de nome para Quantum para evitar qualquer problema com a semelhança da montadora Infiniti, patrocinadora da Red Bull. A troca não mudou a forma de atuação do grupo, e o pires que a precária Lotus esticou continua vazio no meio de um novembro que mostra que a F1 está repleta de negócios nebulosos. Oficialmente, Ijaz explana que “os pagamentos estão nos estágios finais para serem creditados nas contas da Lotus e da Genii”. Mas é possível que ainda leve um tempo mais: envolve títulos do Tesouro Americano que precisam ser monetizados.

Ijaz dá o acordo como consumado desde o fim de semana do GP de Abu Dhabi. A princípio, a Lotus silenciava; agora, já demonstra cansaço com a situação estabelecendo os próximos dias como prazo final. “Os anúncios que pretendíamos fazer já foram feitos”, dá de ombros Mansoor. “Não há necessidade de outros, a não serem aqueles que a equipe faça para anunciar mudanças de cargos e de acionistas”. Sobre piloto, é cláusula pétrea. “Também não tem necessidade de plano B”.

A defesa por Hülkenberg é maior até do que a do próprio chefe Boullier. “Eu não falo pela equipe e não me envolvo nos negócios do dia-a-dia, mas como investidores e, logo, novos acionistas da companhia, deixamos claro que Nico é nossa escolha”, torna a sublinhar, ignorando o acordo do time com Pastor Maldonado. “A respeito das outras opções, vou falar como atleta campeão que fui: astros do esporte devem ser pagos para mostrarem o seu melhor, não para estarem no mercado se oferecendo para pagar por uma vaga à mesa em um esporte em que o desempenho é medido em milésimos.”

Tapa com luva de pelica à parte, chama a atenção ali a parte do atleta Ijaz. Não bastassem as várias atuações supramencionadas, Mansoor cita uma ligação de mais de 30 anos com o esporte para construir sua nova aventura. “Fui campeão de levantamento de peso de 1980 a 1982, mantendo virtualmente todos os recordes estaduais das categorias Aberta e Adolescente de 52 kg, além de ter sido campeão nacional quando estava na Universidade da Virginia em 1982”, relata à RWUp, com direito a fotos. Ijaz até manda um diploma de comprovação do feito – ainda que mostre uma honra ao mérito por um quinto lugar na categoria de 56 kg.
A aventura de Ijaz no esporte não é de hoje: o empresário levantava peso - e ganhava - competições nos EUA. (Reprodução/Arquivo Pessoal)
Ijaz pretendia estar em Interlagos para acompanhar a última etapa do Mundial. “Será um prazer visitar o Brasil, onde eu passei muitas semanas da minha vida, seja no Rio, em São Paulo, Manaus, Foz do Iguaçu ou na Amazônia”, elogiando “o brilho, a industrialização e o trabalho duro do povo brasileiro para fazer de seu país um dos maiores do mundo”. Mas seu paradeiro foi incerto durante o fim de semana do GP do Brasil.

Nestes poucos meses, já foi possível para Mansoor sentir a política da F1, que julga ser bem diferente da vista em patamares governamentais. “As brigas políticas da F1 se concentram na alocação de recursos e lucros, no jogo de xadrez das mudanças pessoais, no nivelamento do grid para que as equipes mais fracas possam ter chance de vencer, e por aí vai”, comenta. “O espírito competitivo onde o resultado não é conhecido com antecedência é o que faz desse esporte legal de assistir – e não importa o resultado, quem vence batalhou muito. Tomar uma decisão em níveis presidenciais pode afetar milhares, até milhões de pessoas comuns, e os ciclos de deliberação e a quantidade de informações processadas até que se chegue a uma conclusão é bem diferente”, compara.

E Mansoor avisa desde já que seu papel na F1 vai se resumir ao de investidor e de “apaixonado pelo esporte”. “Eu amo a energia que a F1 leva para aqueles que têm a sorte de serem parte dela. Minha vida política acabou. Eu não tenho interesse algum em política de qualquer natureza em mais nenhum lugar do mundo”, admite. “Meu único interesse é fazer nossa equipe bem sucedida nas pistas e, talvez um dia no futuro, repatriar os componentes de alta tecnologia dos carros ao setor comercial para que os consumidores comuns se beneficiem”, finaliza.

Uma fonte da Lotus, sabedora do envolvimento de Ijaz no Memogate e do vídeo de telecatch, bem como dos pagamentos que não caíram na conta da equipe, expõe os fatos. “Não é segredo nenhum que Kimi Räikkönen foi para a Ferrari por causa do futuro incerto, assim como uma gama de bons engenheiros. Infelizmente, Enstone caiu na mão do Genii, que está na F1 para fazer negócios, custe o que custar”, fala à RWUp.

O jornalista Hussain é enfático ao definir Ijaz à RWUp. “Ele é uma máquina de mentir. Ele é excepcionalmente bom em pavimentar seu caminho entre grandes nomes sempre mentindo e se gabando. É um vigarista de marca maior”, ataca. “Fazer qualquer negócio com Ijaz é uma má ideia. Sempre evite.”
 

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