Edição 44
Novembro/2013

Estepe: Russian Time

As chegadas de Sergey Sirotkin e de Daniil Kvyat, além do GP da Rússia, são as indicações mais claras da participação cada vez mais crescente do país europeu na F1. Mas a participação do país na modalidade vai muito além. Pode ser questão de tempo para acontecer o ‘russian time’, a vez da Rússia criar um megaimpério automobilístico

FELIPE GIACOMELLI, de São Paulo
O inglês Sam Bird, piloto de testes da Mercedes, fez da Russian Time uma das principais equipes da GP2 neste ano. (Foto: GP2/Divulgação)
uando a tradicional equipe inglesa iSport fechou as portas antes do início da temporada 2013 da GP2, pouca gente notou que se tratava de uma passagem de bastão no cenário internacional do automobilismo. Afinal, quem comprou o espólio da escuderia foi o empresário Igor Mazepa, que rapidamente a renomeou para Russian Time.

O novo nome não foi por acaso. Em inglês, significa ‘o momento da Rússia’ no esporte a motor. Algo de certa forma exagerado para um país que só em 2009 conseguiu ter um piloto na F1, quando Vitaly Petrov assinou com a Renault para ser companheiro de Robert Kubica naquele ano. E o próprio competidor não estava muito satisfeito com o que via no país de origem. Tendo feito carreira na Itália e na Espanha, Petrov sempre afirmou que o automobilismo era pouco conhecido na terra natal.

Entre a estreia de Petrov na F1 e a chegada da Russian Time muita coisa mudou. É verdade que a Rússia não era uma terra arrasada como o piloto pregava, mas estava longe de se tornar uma superpotência. Só que, nesse período, é justamente isso o que vem acontecendo. Sem poupar investimentos, tanto privados quanto estatais, o país do leste da Europeu vem ganhando espaço em praticamente todas as categorias do mundo e se colocando em posição de formar um megaimpério no esporte, que deixaria até mesmo os dirigentes da antiga União Soviética espantados.

E os primeiros resultados já começaram a surgir. Em 2014, a Rússia volta a ter um piloto na F1. É Daniil Kvyat, de apenas 19 anos, que desbancou o favorito António Félix da Costa e será o substituto de Daniel Ricciardo na Toro Rosso. Assim como Petrov, o garoto também precisou deixar o país natal para se dedicar ao esporte a motor. Desde pequeno, ele se mudou para a Itália – coração do kartismo mundial – para ter chance na modalidade.

A tática deu resultado. Kvyat se destacou em diversas competições europeias e mundiais a ponto de garantir o apoio da Red Bull para a carreira. A estreia nos monopostos aconteceu em 2010, na antiga F-BMW Europeia, ao ser promovido pela marca de energéticos – ao lado de Carlos Sainz Jr. – ao carro da Eurointernational, escuderia que havia sido campeã no ano anterior com Felipe Nasr.

Porém, esse primeiro passo no esporte foi deveras trepidante. Em 16 corridas disputadas, o russo subiu apenas uma vez ao pódio, justamente na última corrida do ano, em Monza. O fraco desempenho ligou o sinal de alerta na Red Bull, que o colocou em diversos campeonatos para dar mais quilometragem. Foram outras 28 provas entre F-BMW do Pacífico, F-Renault e Toyota Series, tudo para que o piloto pudesse se preparar para as exigências do ano seguinte. Nesse tour, Kvyat conquistou três vitórias, quatro poles e subiu ao pódio em 13 oportunidades.

Depois, foram dois anos de F-Renault. Em 68 corridas disputadas, o garoto somou 23 vitórias, 11 poles e 38 idas ao pódio, além do título da F-Renault Alps no passado e o vice-campeonato do Europeu. A promoção à F3 e a GP3 em 2013 contrastou com um momento em que Sainz não conseguia fazer a carreira decolar. Tendo, assim, mais atenção da Red Bull, Daniil não decepcionou: título da GP3 com três vitórias, além de bom desempenho na F3, onde não marcava pontos por causa do regulamento. Essa ascensão meteórica foi o suficiente para cativar Helmut Marko, responsável pelo programa de piloto da rubro-taurino, e alça-lo à Toro Rosso.

Quem também pode estrear na F1 no ano que vem é Sergey Sirotkin. Outro com carreira extremamente rápida, o garoto 18 anos de idade já foi dado como certo na Sauber, mas depende da chegada do dinheiro russo para garantir o posto de titular. A carreira dele, aliás, também foi semelhante à do compatriota rubro-taurino. Dono de bons resultados, Sergey encontrou a boa fase quando passou a disputar mais de uma categoria ao mesmo tempo.

Depois de fazer a transição do kartismo, o garoto disputou a F-Abarth, em 2011, quando garantiu o título europeu da categoria, mesmo sendo um novato, tendo somado cinco vitórias em 14 provas. No italiano, terminou com o vice. No ano seguinte, o piloto se dividiu entre F3 Italiana e Auto GP, tendo conquistado os melhores resultados nesta última. Foram apenas duas vitórias, é verdade, mas o russo se colocou como principal adversário de Adrian Quaife-Hobbs na luta pela taça. Já em 2013, Sirotkin passou pela World Series, sendo nome constante na zona de pontos, mas não indo além da nona colocação na classificação final.
O GP da Rússia está no centro da empreitada do país na F1.
Não fosse a corrida do ano que vem, possivelmente Sirotkin e Kvyat poderiam não ter uma promoção tão rápida ao campeonato
Daniil Kvyat é a maior expressão do mundo russo no automobilismo: aos 19, desembarca na Toro Rosso em 2014. (Foto: Divulgação/Red Bull)

GP da Rússia

Enquanto Kvyat e Sirotkin avançavam pelas categorias menores, a Rússia dava início a grandes planos para o esporte como um todo. É que em 2014 o país europeu não só vai receber as Olimpíadas de Inverno, no começo do ano, mas também sediará a primeira corrida de F1, no mesmo parque olímpico, localizado em Sochi, um balneário na região sudoeste do território.

O GP da Rússia, aliás, está no centro da nova empreitada do país na F1. Se não fosse a corrida do ano que vem, possivelmente Sirotkin e até mesmo Kvyat poderiam não ter uma promoção tão rápida ao campeonato. No entanto, a participação russa no esporte a motor vai muito além da corrida inaugural do ano que vem.

Talvez inspirada pelo ideal soviético de mostrar a superioridade do leste europeu, a empreitada pelo automobilismo começou antes do acerto de Petrov com a Renault e era uma forma de fazer publicidade do país para o mundo. Embora nas últimas décadas alguns pilotos já tentassem a sorte dispersados pelo mundo, a primeira vez que a força do chamado mundo russo surgiu para valer no automobilismo internacional foi em 2003, com a estreia de Mikhail Aleshin na F-Renault.

Então com 15 anos de idade, o piloto acertou para disputar a versão alemã da modalidade. E para poder fazer a transição do kartismo para os monopostos, o piloto contava com o apoio da petroleira Lukoil. A empresa, fundada em 1997, criou um programa de talentos similar ao da Red Bull e sabia que apoiar diversos jovens no automobilismo era a chance de entrar no mercado mundial.

“A Lukoil Racing Team foi a primeira equipe a participar no trabalho de desenvolvimento de pilotos estrangeiros, engenheiros e mecânicos junto com atletas e especialistas russos. Isso permitiu que a equipe, já nos primeiros anos, se tornasse uma líder no automobilismo e conquistasse vitórias em todas as competições que participou”, disse a empresa por meio do site oficial.

E, de fato, os resultados não demoraram a aparecer. Em 2004, Aleshin foi o campeão da F-Renault Italiana e levou o vice-campeonato da Alemã no seguinte. Depois, o garoto ainda ficou por três anos na World Series e mais um na F2, sempre contando com o apoio da Lukoil – e curiosamente também da Red Bull – para tentar dar os próximos passos da carreira.

A parceria só foi desfeita em 2009, quando a empresa decidiu investir em Kvyat nos dois primeiros anos da carreira do garoto. Depois do novo titular da Toro Rosso, quem recebeu o dinheiro da petroleira foi Sirotkin, com mais dois anos de vínculo. Se Aleshin não conseguiu chegar à F1, no que depender dos outros dois garotos, a empresa russa pode se dizer satisfeita com o trabalho que fez nas categorias de base.

No entanto, enquanto os dois adolescentes começam a dar o primeiro passo na principal categoria do automobilismo mundial, a Lukoil resolveu mudar de ares. A empresa já estava envolvida no WTCC nos últimos anos e passou a expandir a participação no Mundial em 2013, tirando o dinheiro destinado às promessas do esporte para colocar em Yvan Muller – da Chevrolet – e na Lada. Mais uma vez, o plano deu certo, e o piloto francês conquistou o título da categoria. Outro que também conta com o apoio da empresa é Sergey Afanasiev, que disputa corridas de carros GT.
 

Os pilares russos

Embora tenha acertado ao apoiar Kvyat e Sirotkin, a Lukoil hoje detém uma mínima participação no automobilismo mundial. Quem surge como força-motriz do esporte russo é o próprio governo local, o banco SMP e a própria Russian Time. Começando pela equipe da GP2, ela foi criada pelo empresário Igor Mazepa. Dono de uma boa fortuna, o russo sempre foi um aficionado pelo esporte a motor, inclusive já tendo sido funcionário de uma antiga escuderia de Le Mans Series. Assim, quando surgiu a oportunidade de comprar o que sobrou da iSport, ele não pensou duas vezes.

Por não ser alguém de fora do automobilismo, Mazepa soube erguer o novo time do zero. Primeiro, ele pediu apoio à iSport para os primeiros treinos coletivos, como uma forma de transferir o expertise acumulado. Depois, o dirigente contratou a escuderia alemã Motorpark – que já contava com o piloto russo Artem Markelov na F3 Alemã – para ser a responsável para operar o time. Faltava apenas definir os pilotos. O empresário então trouxe o promissor francês Tom Dillmann, que havia se destacado nos treinos de antes do campeonato, mas a cereja do bolo veio apenas na semana da primeira corrida, na Malásia, ao conseguir a liberação do veterano Sam Bird, reserva da Mercedes.

“Nós sabemos que será um desafio ser tão rápido quanto os outros times, mas nós montamos um grupo de pessoas cuja experiência na GP2 será extremamente valiosa e estamos muito confiantes de que podemos fazer um bom trabalho desde o começo. Estamos ansiosos para essa primeira temporada e espero ter muito mais pela frente”, disse Mazepa pouco antes do início do campeonato.

E o otimismo do dirigente foi recompensado no fim da temporada. Enquanto Bird terminou com o vice-campeonato, ficando 20 pontos atrás de Fabio Leimer, a Russian Time conquistou o título entre as equipes, mesmo, em tese, não deixando de ser uma novata no certame. Satisfeita com 2013, a equipe já comprou a vaga da Bamboo Engineering na GP3 e planeja criar um caminho para garotos russos – e também estrangeiros – dentro do esporte a motor. A ideia é que eles comecem a carreira na F-Adac, equivalente à F-Renault na Alemanha – correndo pela Motorpark – e sigam no time também na F3 Alemã. Depois, GP3 e GP2, antes da chegada à F1.

Nesse ano de estreia no campeonato de acesso, diversas vezes a Russian Time foi patrocinada pelos Jogos de Sochi, além do GP da Rússia, mostrando claramente que havia investimento estatal na jogada. Apesar disso, o maior financiamento do país ao esporte foi anunciado no dia 15 de julho de 2013, quando a Sauber fechou um contrato com diversas empresas russas para saldar as dívidas e continuar competindo.

“Nós estamos animados em anunciar um acordo entre o Fundo Internacional de Investimento Corporativo, o Fundo Estadual de Desenvolvimento do Noroeste da Federação Russa e o Instituto Nacional de Tecnologia da Aviação com a Sauber, incorporando também a promoção da F1 na Rússia e o desenvolvimento de soluções de alta tecnologia”, disse a equipe em um comunicado. Além de ter do orçamento necessário para se manter na F1, a escuderia suíça também poderá usar a tecnologia disponível na Rússia para melhorar o desempenho dos carros na pista. Um discurso muito parecido com o da Lukoil, na criação do programa de desenvolvimento de pilotos.
O último pilar do avanço russo no esporte é o banco SMP, uma empresa criada em 2001 e que aparece entre as maiores
da Rússia no setor
“Com o Instituto Nacional de Tecnologia da Aviação, uma das instituições líderes em pesquisa científica na Rússia, a equipe Sauber vai se beneficiar do avançado know-how dos cientistas e engenheiros russos”, acrescentou o time. “Essa cooperação extensiva vai mostrar as inovações russas na principal categoria do automobilismo mundial. Ao mesmo tempo, a Sauber terá uma fundação sólida pra aumentar a competitividade a longo prazo”, completou o comunicado.

Em contrapartida do acerto, a Sauber tinha que inscrever Sirtokin na F1. Embora promissor, a escolha do garoto também não foi por acaso. Ele é filho de Oleg Sirotkin, diretor do Instituto Nacional de Tecnologia de Aviação. A estreia do piloto na principal categoria do automobilismo mundial, no entanto, ainda depende da confirmação do acordo e da chegada do dinheiro do leste europeu aos cofres de Hinwil.

O último pilar do avanço russo no esporte é o banco SMP, uma empresa criada em 2001 e que aparece entre as maiores da Rússia no setor e, de acordo com ela própria, está entre as 30 maiores do mundo em termos de volume de investimentos a partir de empréstimos. Embora já investisse no automobilismo, o SMP passou em 2013 a criar um programa de talentos parecido com o da Lukoil para permitir que os jovens russos tivessem chances no esporte internacional.

"Desde o início, nós, juntamente com a federação russa, procuramos criar um sistema de treinamento de pilotos passando do kart aos carros de fórmula, havendo um lugar para pilotos rápidos de qualquer idade, reunir todos os amantes do esporte e criar um sistema de coaching”, explicou o membro do conselho de administração do banco Boris Rotenberg. “Claro que, para entender melhor as especificidades do esporte, é útil às vezes ir para o início. A nossa prioridade principal e absoluta é trazer pilotos russos às competições do mais alto nível”, acrescentou.

A expansão foi rápida. Hoje o SMP é parceiro e principal patrocinador de diversos kartistas, além de equipes na F4 Francesa, F-Abarth, F-Renault Europeia, F-Renault Alps, World Series, GT Open, ETCC, Blancpain Endurance Series e European Le Mans Series. São 30 pilotos sob contrato, passando pelo nosso velho amigo Aleshin, além do próprio Rotenberg, por veteranos como Sergey Zlobin e garotos como Paul Diachkov, hoje no kart, e por Egor Orudhev, a próxima grande estrela ascendente do país. O banco ainda chegou a patrocinar Kvyat nas primeiras corridas que o piloto fez na F3, mas acabou caindo fora logo depois.

Mas não é apenas de russos que o SMP Racing é formado. Em praticamente todos esses campeonatos a estratégia do banco é a mesma. Colocar pilotos do país junto com atletas veteranos já consagrados. Eles não só servem como guia, mas também sabem lidar com a pressão exercida pela empresa para conquistar resultados desde o começo.
A Lada é marca presente no WTCC e apoia pilotos de seu país também entre os carros de turismo. (Foto: WTCC/Divulgação)

De olho na F1

Com um investimento tão grande no esporte a motor, não deixou de ser uma surpresa o SMP ter ficado de fora nos anúncios de Sirotkin e de Kvyat na F1. O banco sempre apareceu especulado como o investidor por trás da ida desses pilotos à principal categoria do automobilismo mundial, mas isso acabou não sendo comprovado, conforme os negócios foram destrinchados. Mesmo assim, não deixa de ser questão de tempo para que a empresa já mire participar do certame.

Enquanto isso, quem já chegou lá foi a Marussia. Apesar de não contar com tentáculos tão grandes dentro do próprio governo russo e das categorias de base, a equipe surgiu há duas temporadas, quando a montadora de mesmo nome comprou a Virgin. Aos trancos e barrancos, ela ainda não pontuou e está limitada à briga pelo penúltimo lugar no Mundial de Construtores com a Caterham. Ainda apoia alguns garotos na GP3, embora o foco não seja apenas pilotos da própria Rússia.

Levando em conta o investimento que os magnatas do país fazem no esporte mundial, como a compra da equipe de futebol do Chelsea por Roman Abramovich ou do time da NBA do Brooklyn Nets por Mikhail Prokhorov, parece questão de tempo para que esse tipo de negócio chegue à F1. Com ele já se orquestrando por diversas categorias menores, em breve poderemos estar vivendo o ‘russian time’, a vez da Rússia no automobilismo.
 

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