Edição 44
Novembro/2013

O Automobilismo não é Tudo:
Adeus, marginais

Este humilde colunista conseguiu, finalmente, abandonar o carro. Parece simples, mas isso demanda uma engenharia pessoal e familiar digna dos melhores projetos da NASA

FELIPE CORAZZA, de São Paulo
eço licença ao leitor e à chefia para tratar, pela primeira vez, de motores nesta coluna. Nada, no entanto, que desonre o título da seção. O assunto é o mais distante possível da velocidade sobre quatro rodas: o trânsito de São Paulo e o inferno que ele acarreta.

Ocorre, senhoras e senhores, que este humilde colunista conseguiu, finalmente, abandonar o carro. Parece simples, mas quem vive nessa cidade sabe que isso demanda uma engenharia pessoal e familiar digna do mais alto nível dos melhores projetos da NASA. É quase um gesto de guerrilha urbana, mas sem envolver armas.

Não tenho nada especialmente grave contra carros. Pelo contrário, adoro dirigir e há testemunhas disso. Infelizmente, quem usa as ruas de quase qualquer uma das capitais - falo sobre São Paulo, mas já encarei engarrafamentos monstruosos em Salvador, Rio e Recife - sabe que dirigir é o que menos se faz nesses percursos. Ouve-se muito rádio, fala-se com muitos vendedores de água e amendoim, telefona-se pra casa quando o semáforo fecha (desculpe, CET), enfim.

Durante dois anos e uns quebrados, passei 44 quilômetros e algumas horas ao dia atrás de um volante para cumprir os trajetos de ida e volta do trabalho. Sem direção hidráulica, sem ar condicionado e com um rádio ruim. No pior dos dias, levei um total de quatro horas e meia para rodar os últimos 12 quilômetros até minha casa, incluindo uma hora e meia - repito, uma hora e meia - batendo papo com outros motoristas enquanto um alagamento não baixava. Tudo isso na Marginal do Pinheiros. De pé. Do lado de fora do carro desligado. Sem nenhum vendedor de amendoim por perto. Não há sanidade mental que aguente.

Nos fins de tarde que passei contemplando o caos nas Marginais, vi muita gente mais criativa fazendo uma miríade de coisas, desde uma moça que tricotava até um sujeito que apoiava o laptop no painel do carro para trabalhar. Os casos são verídicos. Não riam, é triste. Mentira, podem rir. Eu gargalhei, apesar da raiva do trânsito. Quando dirigir vira só aquele detalhezinho entre uma buzinada, um xingamento e a compra de um pacote de pipoca doce a um real, fica chato. Muito chato. E cansativo pacas.

Joelhos, ombros, costas, cabeça... Daria para compor uma letra de axé music com as partes do meu corpo que acumularam dores intensas e permanentes com tanta embreagem, acelerador, câmbio e o maldito rádio ruim.

Conseguir deixar de guiar diariamente levou quase um ano de planejamento, graças a um sistema de transporte público tão eficaz quanto a economia da Grécia. Também merece crédito uma especulação imobiliária que só não arranca as calças do freguês porque, em público, seria contravenção.

Mudar de imóvel por aqui depende de alguns fatores: sorte, disposição pra morar na casa do cacete ou a vontade de adquirir uma dívida monstruosa por trinta anos. Depois de muito tempo, o primeiro fator me sorriu. Sem dívida e bem mais perto do trabalho, reativei o bilhete único, arrumei um guarda-chuva novo e o carro repousa sob uma árvore esperando o comprador vir buscar seu bravo motorzinho 1.0 com 110 mil quilômetros rodados. Que faça bom uso.

Carro, agora, só pra estrada e umas compras de vez em quando. Ah, sim, esqueci de mencionar: a insanidade urbana era tanta que a família precisava de DOIS carros. Um deles ainda vai ficar por aqui. Quanto às minhas dores (joelhos, ombros, costas, cabeça, o axé completo), sumiram todas depois de uma semana sem encostar na viatura. Preciso arranjar alguma outra coisa pro pessoal do convênio não achar que vai ganhar dinheiro no mole daqui para a frente.



Condenaram o Maluf. É o fim de uma era. Nunca mais ouviremos aquela voz anasalada dizendo seu “não provam nada”. Espero que a barraca de pastel que ele frequentava depois de sair do xilindró continue, pelo menos, dando aquela caprichada no recheio do sabor pizza.



Por falar em gente honesta e ilibada, o esculacho de propina que construtoras pagavam pra aliviar o ISS em São Paulo vai ficar só na prisão de peixe pequeno? Essa ideia de que o corruptor é uma vítima só se aplica... não, não se aplica a caso nenhum. Não tem desculpa.



E, já que é impossível fugir completamente do assunto, vamos falar sobre o tal Rei do Camarote que gasta 50 mil lascas em uma noite de “balada” em São Paulo: deixem o cara. Com tanta grana pra jogar fora e pelo nível de cretinice, é melhor que fique no camarote antes que comece a ter ideia de se lançar a deputado federal.



Para encerrar, sobre Eike Batista: eu já dava risada dele quando vocês ainda o levavam a sério. Mas não vai ficar pobre, não. E vai acabar rindo por último - da nossa cara, evidentemente, pelo chapéu no BNDES.
Foto: Getty Images
 

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