Edição 44
Novembro/2013

Grandes Entrevistas: Randy Bernard

“O que eu sei é que toda a manhã, quando olho o meu rosto no espelho, eu posso dizer que dei tudo de mim, 100%, e é isso que realmente me importa”

EVELYN GUIMARÃES, de Curitiba
Randy Bernard deixou o mundo dos rodeios para lidar com pilotos e equipes da Indy. Encontrou outro tipo de feras que não conseguiu domar. (Foto: Getty Images)
andy Bernard foi o homem que comandou as principais mudanças da história recente da Indy. Contratado em março de 2010 para assumir o posto de comando da categoria norte-americana, o executivo chegou com pompa, depois de uma trajetória de sucesso à frente da PBR (Professional Bull Riders), empresa que promove competições internacionais de rodeios. A opção pelo dirigente foi uma forma de a Indy dizer ao mundo que procurava por renovação. E o mais rápido possível.

Sem qualquer experiência com automobilismo, Bernard ganhou a chance no campeonato pelas habilidades comerciais, contatos e trânsito livre nas negociações com televisões e patrocinadores diversos nos EUA. Tudo fruto do trabalho bem-sucedido à frente dos touros, modalidade que revolucionou em meados da década de 90 e onde permaneceu por 15 anos.

Como diretor-executivo da Indy, "assumindo o trabalho mais difícil da carreira", Randy implantou uma gestão voltada para os fãs, depois de "horas e horas de estudos" sobre o esporte que sequer acompanhava. O norte-americano de 46 anos também queria uma Indy mais internacional, moderna, equilibrada em etapas em circuitos mistos, de rua e ovais. O executivo também foi fundamental para o projeto Iconic, que selecionou um novo motor e um novo chassi, incluindo kits aerodinâmicos. Tudo em nome da inovação, com o objetivo de resgatar a popularidade e credibilidade.

Foi pelas mãos de Bernard que o público viu a aparição do DW12, o chassi desenvolvido pela Dallara e que estreou em 2012. Por meio do executivo a série também retomou a guerra de motores, com a entrada da Chevrolet e da Lotus ― embora esta última não tenha apresentado a competitividade esperada. O administrador, entretanto, também viveu períodos sombrios no comando da categoria, que acabaram por culminar na saída. Com clara intenção de melhorar o espetáculo para os torcedores, em 2011, o dirigente criou a festiva e decisiva prova em Las Vegas.

O que era para encerrar uma temporada vitoriosa e até bem-sucedida se transformou em um pesadelo depois do trágico acidente envolvendo 15 carros e que resultou na morte do inglês Dan Wheldon, piloto que curiosamente era o responsável pelos testes com o então novo chassi.

A Indy sofreu um revés sem proporções com a perda de Wheldon e demorou a se recuperar. Dessa forma, o ano seguinte foi mais para juntar os cacos do que propriamente para avançar nos projetos de aumentar a participação no mercado internacional, um dos planos de Bernard. O movimento ficou evidente com a montagem do calendário, com menos provas em ovais e com uma clara dificuldade da série em convencer novas praças a integrar o campeonato.
Ao lado de Dario Franchitti, Randy deu a cara a bater em várias situações, sobretudo a mais difícil: a morte de Dan Wheldon. (Foto: Getty Images)
A intenção de se implantar os kits aerodinâmicos também foi revogada, e as queixas por parte das equipes ficaram cada vez maiores, especialmente com relação aos custos de peças sobressalentes do carro recém-lançado.

Assim, Bernard se viu em uma posição de pressão por resultados que custavam a vir. E, ao final do campeonato de 2012, o cargo foi colocado em dúvida. Depois de uma reunião convocada às pressas, o conselho do Indianapolis Motor Sport Corporation decidiu pela saída do dirigente.

Bernard, porém, não ficou muito tempo fora do mercado. O trabalho na Indy e o currículo de sucesso na PBR foram suficientes para colocá-lo de volta aos trilhos. Em dezembro de 2012, assumiu o cargo de diretor-executivo da RFD TV, de propriedade do Rural Media Group. De certa forma, Randy voltou ao seu mundo.

Simpático, o executivo conversou por telefone, durante uma viagem de negócios pela Califórnia, com a REVISTA WARM UP e falou um pouco da nova vida e da experiência de comandar a principal divisão de monopostos dos EUA. O dirigente é casado com Kneuer Cameo, uma especialista em Fitness, e possui três filhos: Priscilla, Ryan e Alexandria. Mudou-se para Omaha, a cidade mais populosa do estado de Nebraska e onde fica a sede da TV que dirige. Volte e meia é visto também em Nashville, no Tennessee, onde fica o quartel general do RMG.

"Realmente estou amando isso aqui. É uma rotina em que estive envolvido a maior parte da vida. É um projeto ainda muito verde em que estou trabalhando agora. Mas estou muito orgulhoso de fazer parte dele. Desde os primeiros dias, foi muito interessante e é algo que está crescendo muito neste momento."

"É uma rede ainda muito jovem e independente. Então, estamos tentando entender o que é tudo isso. Estamos tentando mostrar às pessoas do que essa TV realmente trata, apresentando as nossas marcas e lideranças. E isso precisa chegar até mais e mais casas em todo o país, até que consigamos alcançar o grande público."

O trabalho em si não é lá muito diferente do que fazia na PBR, mas consegue Bernard traçar algumas distinções com relação à Indy.

"É muito diferente do trabalho na Indy e também na PBR de certa forma, porque eu sempre estive do outro lado do balcão nos momentos de negociação com as televisões. Então, agora estou do lado de cá do balcão. Mas há também muitas semelhanças com o que eu exercia na PBR, porque trabalhamos reunindo quase o mesmo público, o mesmo estilo de vida em diversas partes do país e o mesmo mercado cultural.”

"Também há algumas coisas parecidas entre a Indy e a RFDTV. Na Indy, eu tive de aprender tudo desde o início, e isso foi positivo. Porque se eu tivesse algo prévio, eu não veria as coisas de maneira tão objetiva, e acho que isso foi algo realmente importante para mim naquele momento"
“Eu era um pouco ingênuo com relação a certas coisas. Mas, ao mesmo tempo, foi algo positivo, porque senão não teria investido em algumas delas”
Bernard sequer havia estado em uma pista antes de assumir a Indy. Não era fã de corridas de automóveis, não acompanhava o campeonato. Também nunca foi um entusiasta de outros esportes tradicionalmente norte-americanos, como beisebol ou o futebol.

"Na verdade, eu sou uma pessoa bastante focada. Então, como trabalhava no PBR, a minha atenção era totalmente voltada para eles. Por isso, não via a NFL ou beisebol, nada disso. Eu assistia apenas a um jogo ou outro e somente como fã. Não havia um interesse maior nisso. Não era algo que me chamava atenção. Dito isso, posso falar que a Indy ou a Nascar não eram prioridades para mim naquela época em que eu estava na PBR."

Randy, então, conta que precisou aprender tudo, desde o básico, para entender o mundo que estava para conhecer. "Na Indy, eu percorri uma grande curva de aprendizado. E passei muito tempo, horas após horas, tentando entender e conhecer tudo aquilo", revela.

Até por isso, o dirigente admite que foi um pouco ingênuo em algumas situações vividas no comando do campeonato. O executivo, entretanto, afirma que todas as decisões que tomou à frente da categoria foram pensando no público.

"Olhando o passado, sobre os meus primeiros momentos na Indy, eu posso dizer que era um pouco ingênuo com relação a certas coisas. Mas, ao mesmo tempo, foi algo positivo, porque senão não teria investido em algumas delas, como o desenvolvimento do carro. Eu realmente era muito objetivo naquela época. Eu não tinha nenhuma relação próxima com o esporte, então eu tomei todas as decisões baseado naquilo que eu imaginava que seria interesse para os fãs. E acho que isso foi bastante acertado."

Perguntado se poderia fazer uma avaliação do período em que foi o rosto da Indy, Bernard se recusa. "Realmente eu não gosto de olhar para trás, principalmente para fazer avaliações. Eu sempre vou preferir olhar para frente", fala.

"Mesmo quando estava na PBR, eu nunca gostei de ficar pensando naquilo que já havia passado. Nunca fiz nada disso na minha vida. Talvez em algum momento no futuro eu pare e reflita sobre tudo isso, sobre as decisões e rumos que as coisas tomaram. Mas neste momento eu estou completamente focado no meu trabalho."

"O que eu sei é que toda a manhã, quando olho o meu rosto no espelho, eu posso dizer que dei tudo de mim, 100%, e é isso que realmente me importa. Eu acredito que fiz tudo que podia. E realmente não tem nenhum arrependimento. Isso vale também para o trabalho na PBR e agora na TV. Portanto, o meu foco está sempre naquilo que está à minha frente e nunca naquilo que já passou."

Mas aí Randy lembra o período mais tenso que atravessou na Indy. E que marcou não só a sua história, mas também a da categoria. Aliás, pode-se dizer que a morte de Wheldon assombrou e ainda assombra a Indy e que foi difícil Bernard se livrar dos efeitos dela em 2012. "Foi, com certeza, um dos piores momentos da minha vida", diz o executivo sem pestanejar.

"Para ser honesto com você, não há maneira de descrever aquele dia, aquele momento. Para mim, os seis meses seguintes foram muito difíceis. Foi muito difícil ir ao trabalho. E foi uma época bem sombria para mim também. Sendo bastante sincero, esse período mais complicado durou uns três meses. E era uma época em que tínhamos muito trabalho, muitos projetos em que estávamos envolvidos. Mas, sem dúvida, foi a parte mais triste da minha vida."
“Não tenho nenhuma mágoa. Não posso falar nada negativo.
Eu entendo que foi como um divórcio. Mas eles
foram muito respeitosos”
Bernard ficou apenas dois dos cinco anos do contrato: a Indy o podou. (Foto: Getty Images)
Bernard entende que a tragédia com o piloto britânico deixou marcas profundas em todos os envolvidos e que o acidente acabou provocando um retrocesso no esporte, mas que isso não foi necessariamente ruim, porque serviu como uma forma de reflexão.

"O acidente realmente foi uma experiência terrível para todos que estavam envolvidos. Para os pilotos, para as equipes, patrocinadores e para os fãs. E para toda a administração da Indy. Quando algo como aquilo acontece, o esporte dá um passo para trás. Mas não penso nisso, não digo isso de um modo negativo, acho que serve como reflexão. Quando você perde alguém com tanto carisma, reverenciado e que as pessoas amam tanto, tira o chão de todos. E é sempre um momento muito difícil. Como eu falei, foi o pior dia."

A morte de Wheldon aconteceu em um momento em que a categoria vivia a expectativa de uma grande mudança para 2012. O plano de trocar os velhos chassis pelos recém-projetados pela Dallara acabou acontecendo sem o mesmo brilho. A celebrada chegada da Chevrolet também. Junto a isso, veio um calendário curto e de poucas opções. A desistência da etapa da China acabou sendo um grande revés para Bernard, além da reclamação constante das equipes quantos aos custos. Quer dizer, a principal intenção do executivo em tornar a Indy um esporte internacional e modernizar a parte técnica acabou resfriada.

Questionado pela REVISTA WARM UP sobre por que é tão difícil impor mudanças na categoria, Bernard foi enfático: "Essa realmente uma boa pergunta".

"Mike Miles [atual CEO da Indy] tem agora uma grande e difícil missão pela frente, porque essas corridas são realmente muito caras de se fazer. Quando estava lá, eu queria ter uma marca com esse carro, nós tínhamos uma diferença, nós tínhamos de dizer por que éramos diferentes da F1, por que éramos diferentes da Nascar e de qualquer outra fórmula no mundo. Nós havíamos determinado que éramos os mais rápidos dos mundo, que tínhamos os pilotos mais rápidos, porque estávamos preocupados em correr em ovais, pistas de rua e mistos, há tantas condições, como chuva e sol, e o carro tinha de ser versátil. E isso era algo muito importante para mim. Apesar disso, alguns disseram que eu estava sonhando, que nunca conseguiria alcançar aquela meta, mas eu continuei insistindo e nem todas compartilhavam com isso."

“No off-road, especialmente no rali, você passa apenas uma vez no mesmo lugar, então é impossível conhecer todas as curvas, todos os obstáculos. Portanto, você precisa ter um senso de antecipação, entender mais ou menos o que esperar do caminho que está seguindo. Eu acho que esse poder, o de conseguir antecipar, é a chave para a velocidade, para conseguir tantos resultados e sucesso no rali.”

Mesmo diante da descrença de parte da cúpula da Indy, Randy não sente mágoas. E diz não ter inimigos na antiga casa. De longe, a gestão de Bernard foi uma das mais próximas dos fãs. A notícia da saída não foi vista com bons olhos pelos torcedores. "Nós temos muitos contratos de confidencialidade que me impedem de falar muito sobre isso", explica o executivo.

"Mas o que posso dizer é que não tenho nenhuma mágoa. Nenhum inimigo. Não posso falar nada negativo. Eu entendo que foi como um divórcio. Foi um período muito tenso. Mas eles foram muito respeitosos. Na verdade, isso foi de ambos os lados. Eu tenho 100% de respeito pela maneira como tudo foi conduzido."
 
Apesar da saída precoce ― o contrato era de cinco anos com a Indy ―, Bernard não perde nenhuma corrida. Mostra entusiasmo ao falar do campeonato, da batalha final entre Helio Castroneves e Scott Dixon, além da vitória de Tony Kanaan nas 500 Milhas de Indianápolis. Aliás, Randy teve certo papel no triufo do brasileiro, de quem é muito amigo.

"Eu vejo todas as corridas. Vi todas as provas deste ano. A Indy 500 foi fantástica. Tony (Kanaan) foi incrível. Eu jantei com ele na sexta-feira antes da corrida. Eu disse que tinha a impressão de que ele ganharia e ele apenas riu. Mas foi uma benção. Eu acho que foi a primeira corrida em que pude torcer por alguém, porque quando você é um executivo não pode ter preferências. Foi incrível. Eu tenho ainda bons amigos na Indy, mas um relacionamento incrível e especial com Tony."

Bernard também reservou palavras para outro brasileiro.

"Quando olho para a minha passagem na Indy, a vinda de Rubens Barrichello foi um dos pontos altos, com certeza. Rubens é um das caras mais legais que já conheci no esporte. Um grande embaixador do automobilismo do Brasil. Além disso, ele é uma pessoa muito fácil de trabalhar. Um cavalheiro. Sempre quando havia um problema, ele vinha com perguntas e soluções, sempre muito discreto e disposto a ajudar."

Falando em sucessos e, embora não goste, Randy não resiste e acaba listando os outros pontos altos de sua gestão na Indy. A chegada da Chevrolet foi eleita o momento de maior prestígio e orgulho de sua trajetória à frente da categoria norte-americana.

"O dia em anunciamos o novo carro foi um grande momento, porque muita gente achava que isso não iria acontecer nunca. Mas acho que o ponto mais alto foi quando fomos capazes de trazer a GM, Chevrolet, de volta ao campeonato."

Bem-humorado e feliz por "estar de volta ao seu mundo", o dirigente não se vê mais trabalhando com automobilismo. "A experiência mais desafiadora da carreira" deixou marcas, mas também muitas lições. Randy não se arrepende de nada.

"Provavelmente não voltarei. Eu te digo com toda a certeza que aproveitei muito essa experiência. Foi o trabalho mais difícil da minha vida, porque eu tive de aprender muito. Também foi desafiador e muito compensador. Eu sinto que fiz muitas coisas boas pelo esporte e não tenho absolutamente nenhum arrependimento. Nada."

"Mas foi realmente uma experiência intensa e fenomenal. Eu aprendi coisas de uma vida inteira nesse tempo em que estive na Indy. Continuo usando a filosofia de que sempre temos de procurar trabalhar com aquilo que amamos de verdade. E isso não tem nada a ver com dinheiro. É preciso trabalhar com paixão. E eu coloquei toda a minha paixão naquele trabalho, fui bem sucedido e ajudei o esporte. Por isso, não tenho arrependimentos. Nunca me vi também exercendo a posição de comando lá por muitos e muitos anos. Nunca pensei nisso. Sempre pensei em voltar um dia ao meu antigo modo vida, que é onde estou agora. Amo fazer o que eu faço. Estou de volta ao meu mundo."
 

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