Edição 44
Novembro/2013

Superfinal: Quem trabalha, acha

Após anos desaparecido do automobilismo internacional, Christian Fittipaldi voltou a ter uma posição de destaque em 2013, ao brigar pelo título da Grand-Am até a última etapa

GABRIEL CARVALHO, de São Paulo
Christian foi parceiro de João Barbosa na Grand-Am neste ano: falando a mesma língua, o brasileiro disputou o título da temporada. (Foto: Divulgação/Grand-Am)
hristian Fittipaldi, 42 anos, tem uma carreira longa no automobilismo, com passagens por categorias como F1, Indy e Nascar, além do título conquistado na extinta F3000, em 1991. Nos últimos anos, o incansável piloto seguia na ativa no Brasil – correndo pela Stock Car, pelo finado Trofeo Linea e participando de etapas da F-Truck –, mas sem resultados que lhe colocassem na mesma posição de destaque do início da carreira.

Em 2013, no entanto, o cenário mudou. Tendo disputado a temporada completa da Grand-Am pela equipe Action Express, o brasileiro lutou pelo título até a última etapa do campeonato, em Lime Rock, mas terminou o ano na quarta posição na classificação geral. O desempenho recolocou o sobrinho de Emerson Fittipaldi de volta aos holofotes no país que tão bem acolheu o tio décadas atrás.

Em entrevista exclusiva à REVISTA WARM UP, Christian contou como foi o ano de ressurgimento no automobilismo dos Estados Unidos, as últimas temporadas no Brasil e falou sobre as perspectivas para 2014 na United SportsCar, campeonato que nasceu da fusão entre as duas principais categorias de endurance dos EUA: a Grand-Am e a American Le Mans Series (ALMS).
Com o #5 da Corvette, Fittipaldi venceu duas corridas em 2013. (Foto: John Dagys)

Um novo começo

A nova fase da carreira de Christian começou com a disputa das 24 Horas de Daytona, uma das provas mais tradicionais do esporte a motor norte-americano. O piloto fez parte de um plantel recheado de brasileiros, que também contava com Nelsinho Piquet e Felipe Nasr, e do então companheiro de equipe, o americano Brian Frisselle. O resultado na Flórida foi a oitava posição. A partir da quarta etapa de 2013, em Atlanta, Fittipaldi ganhou a companhia do português João Barbosa. É que de olho em melhorar os resultados, a equipe Action Express resolveu alterar as duplas colocando os irmãos Brian e Burt Frisselle juntos, além de parear o brasileiro com o luso.

A estratégia deu certo, e os resultados começaram a melhorar. Foram duas vitórias seguidas – em Mid-Ohio e em Watkins Glen – e uma sequência de corridas terminando entre os primeiros colocados, chegando às duas últimas provas da temporada a dois pontos dos líderes do campeonato, Max Angelelli e Jordan Taylor. Mas um acidente dentro do pit-lane em Laguna Seca e o abandono em Lime Rock acabaram com as chances de título – o campeonato foi parar nas mãos do duo Angelelli/Taylor.

Apesar do desfecho frustrante, o brasileiro se diz contente com o desempenho que teve. “Para dizer a verdade, eu fiquei bem satisfeito. Infelizmente, as coisas não foram boas para o nosso lado nas últimas duas corridas, mas, tirando isso, fizemos uma temporada muito forte. Principalmente porque eu e o João só começamos a correr juntos a partir da quarta corrida e marcamos sempre ‘pontos de gente grande’, terminando entre os cinco primeiros. Mas aí já tinha se passado, 35%, 40% do campeonato”, conta.

“Mesmo assim, chegamos à última corrida com chances de título. A equipe trabalhou bastante, mas infelizmente as coisas não deram certo. Apesar disso, não temos motivos para ficar chateados. Sinceramente, a gente adoraria que as 24 Horas de Daytona já fossem na semana que vem”, revela com bom humor.

Barbosa, que também falou com a REVISTA WARM UP, concorda com a avaliação positiva. “Tivemos uma boa temporada, num dos anos em que o campeonato foi extremamente disputado. Conseguimos duas vitórias e estivemos sempre lutando pelas primeiras posições”, afirma o português.

Christian considera que a etapa de Laguna Seca, a penúltima da temporada, foi decisiva em relação ao campeonato. “Eu entrei em Laguna dois pontos atrás do líder. O ideal seria chegar a Lime Rock com alguma vantagem – ou, no mínimo, manter a diferença. Mas fomos para a última corrida 13 pontos atrás. Então, teríamos que vencer a prova, e os nossos adversários não poderiam chegar entre os nove primeiros. Nem chegamos a fazer contas se fossemos segundo, só pensávamos em vencer”, relembra.

Sobre o relacionamento dentro da equipe Action Express, Fittipaldi responde sem pestanejar. “Foi ótimo.” O brasileiro também explica o porquê da troca de parceiro no Corvette DP de número cinco. “O que a equipe tentou fazer no começo do ano foi colocar eu e o João em carros diferentes, para tentar obter a melhor performance possível nos dois equipamentos. Mas a categoria chegou a um nível em que você, definitivamente, precisa dos dois melhores no mesmo carro, você não pode ficar dividindo forças”, diz.

“A partir do momento em que começamos a correr juntos, o desempenho da equipe como um todo melhorou demais. Mesmo o dos irmãos Frisselle. Eles levaram um pouco de tempo até engrenar, mas depois da terceira ou quarta corrida juntos até a performance deles progrediu. Então acredito que tenha sido vantajoso para todo mundo”, pondera.

O lusitano também foi só elogios à parceria com o brasileiro. “O meu entendimento com o Christian foi muito bom desde o início. Acredito que, juntos, conseguimos tornar a equipe mais forte. A experiência dele ajudou o time a ser mais competitivo. Como gostamos praticamente do mesmo acerto de carro, não é preciso mudanças drásticas, o que se traduziu em resultados”, conta.
“Os carros no WEC são mais avançados, não há dúvida. Mas sou dez vezes mais uma corrida de Grand-Am”
A Action Express vai continuar sendo a casa de Fittipaldi, que se torna uma das atrações da United SportsCar. (Foto: Brian Cleary)

WEC ou United SportsCar?

Para 2014, o brasileiro não tem contrato assinado com a Action Express, embora diga que tudo aponta para a permanência do mesmo conjunto que brigou pela taça neste ano. “Ainda não está tudo oficialmente certo, mas acredito que as coisas estejam bem encaminhadas. Todas as partes estão trabalhando para isso. Sabemos que dependemos uns dos outros – eu, o João e a equipe. Funciona assim para todos nós, ganhamos juntos e perdemos juntos”, afirma.

A próxima temporada vai trazer novidades nas corridas de longa duração nos Estados Unidos, com a estreia da United SportsCar. E o veterano enxerga a novidade com bons olhos e já prevê uma interessante divisão de forças no esporte a motor dos EUA. “Acredito que, inicialmente, veremos uma fase de transição. Agora, se você perguntar para mim o que vai acontecer daqui a três anos, eu diria que o automobilismo norte-americano será focado em três categorias: Nascar e suas variações, Indy e a United SportsCar”, relata.

“A junção das categorias é algo ótimo. Coloca fim no grande problema que existia em relação às provas de longa duração nos Estados Unidos. A briga que existia entre as duas, ALMS e Grand-Am, era igual ao que acontecia com a Indy e a Cart. Graças a Deus a novela acabou, o que será bom para todos”, diz.

Já João Barbosa entende que o novo certame terá um nível ainda maior e mais competitivo. “O campeonato de 2014 será muito diferente, ainda mais disputado. Para a Action Express, será um ano importante. Ter eu e o Christian já adaptados um ao outro será fundamental para desenvolvermos o Corvette DP, no novo regulamento, mais depressa – o que será uma vantagem. O objetivo será, como sempre, conseguir mais vitórias e lutar pelo campeonato”, garante.

Ainda sobre o futuro do novo torneio, Fittipaldi não o vê como um possível rival do Mundial de Endurance (WEC) no mundo das corridas de longa duração. “Acho que são campeonatos diferentes. É que, infelizmente, as pessoas não acompanham muito as corridas da Grand-Am, nas quais as coisas se resolvem mesmo na última volta e você vê cinco, seis carros andando colados uns nos outros o tempo todo”, analisa à REVISTA WARM UP.

“Outra diferença é que na Grand-Am, apesar de ser uma corrida de longa duração, a gente corre acelerando o tempo todo – o que é mais interessante tanto para quem guia como para os fãs. Nas 6 Horas de São Paulo, por exemplo, depois de três voltas a diferença entre os carros já era enorme”, compara.

“De novo, para deixar claro, os carros no WEC são mais avançados, não há dúvida. Mas sou dez vezes mais uma corrida de Grand-Am”, acrescenta o brasileiro, ainda que não descarte uma participação no WEC mais à frente. “Interesse eu teria. Já estive nas 24 Horas de Le Mans em três oportunidades. Está no topo da minha lista? Não. A minha primeira opção é continuar nos Estados Unidos, na nova categoria. Acredito que teremos chance de ser competitivos novamente na próxima temporada. Eu não vou trocar o certo pelo incerto”, diz sem hesitar.

Questionado sobre a possibilidade de o bom desempenho em 2013 chamar a atenção de outros pilotos para a United SportsCar e gerar maior audiência no Brasil, Christian acredita que não somente o lado do esporte crescerá, mas também a parte comercial deve melhorar.

“Durante o ano, várias pessoas vieram falar comigo. Vira e mexe você vê um piloto brasileiro aparecer em uma corrida ou outra. Em Daytona, por ser uma época meio morta em relação às corridas, muita gente aparece para acompanhar, tanto da parte comercial quanto da parte esportiva, com pilotos indo para lá para olhar e que, no fim das contas, também acabam correndo”, relata.
 
Apesar do entusiasmo, o piloto descarta ser visto como a pessoa que vai abrir o caminho na United SportsCar para os compatriotas, assim como o tio Emerson Fittipaldi fez na F1 e na Indy. “Pode até acontecer, mas eu estou focado em fazer a minha parte, a minha carreira, a minha vida da melhor maneira possível”, confessa.

Ainda sobre o relacionamento com compatriotas, o piloto revela que houve conversas para uma reunião entre ele, Nelsinho Piquet e Bruno Senna para disputar as 24 Horas de Daytona no mesmo carro. Para que a conversa venha a se tornar realidade, no entanto, ainda há muito que fazer.

“Já conversamos e deixamos meio que no ar. Seria uma combinação interessante, sem dúvida, pois você teria um Piquet, um Fittipaldi e um Senna no mesmo carro – que seria comercialmente muito atraente, diga-se. Agora é questão de fazer acontecer. Entre conversar e colocar em prática há um caminho. O Nelsinho já tem uma Daytona, só faltaria o Bruno”, completa.
 

Ressurgimento?

A primeira passagem do piloto pelo automobilismo dos Estados Unidos foi na Indy – quando ainda se chamava Cart –, em 1995, logo após três anos de F1. Christian entrou na categoria norte-americana pela equipe Walker, tendo como melhor resultado naquele ano o segundo lugar nas 500 Milhas de Indianápolis e tendo recebido o prêmio de ‘Novato da Prova’. De 1996 até 2002, Fittipaldi correu por uma das esquadras mais tradicionais da categoria, a Newman/Haas.

Foi no time de Paul Newman e Carl Hass que o brasileiro teve os melhores resultados – com vitórias em Road America, em 1999, e em Fontana, em 2000, além de terminar as temporadas de 1996 e 2002 na quinta posição. Nesse tempo, ele também construiu uma ótima relação com o ator hollywoodiano, que acabou o incentivando, a correr na Nascar, onde participou de 19 corridas. Mas também foi na Newman/Hass que o piloto sofreu o pior acidente da carreira. No GP de Surfer’s Paradise, na Austrália, em 1997, Fittipaldi bateu de frente no muro do final da reta dos boxes, fraturando as duas pernas e perdendo seis etapas naquele ano.

Mesmo a Grand-Am não é algo novo na carreira do paulistano. Ele estreou na categoria em 2003, fazendo participações esporádicas, mas o primeiro contrato de maior duração veio em 2006, pela equipe de Eddie Cheever, onde ficou até 2008. Nestes seis anos, foram duas vitórias – nas 24 Horas de Daytona, em 2004, e em Phoenix, em 2005 –, mas poucos resultados expressivos.

O retorno ao certame começou a ser construído em 2011, quando houve o primeiro contato com a Action Express, para a disputa da tradicional prova em Daytona, o que se repetiu no ano seguinte. No final de 2012, veio o anúncio de que Christian disputaria a temporada completa de 2013 pelo time norte-americano, tendo o desempenho que viria a colocá-lo novamente em destaque nos Estados Unidos.

Assim, o filho de Wilsinho Fittipaldi afirma que 2013 pode ser considerado um ressurgimento, mas considerando apenas a exposição internacional.

“Acho que você pode usar essa palavra [ressurgimento] em relação ao automobilismo norte-americano. Tanto que chegaram a me perguntar ‘mas você está correndo ainda?’. Algumas pessoas pensavam que eu tinha parado. Mas eu nunca deixei de correr. Fiz as três temporadas do Trofeo Linea, andei um pouco na Stock Car. Meu último ano no Linea foi muito bom. Nós lideramos 60%, 70% da temporada. Tudo bem, aquele ano não terminou como gostaríamos, mas foi uma temporada ótima, principalmente se considerarmos que lutávamos contra equipes que tinham uma estrutura muito maior”, relembra.

Com a animação de quem viu a carreira voltar à boa fase, os planos de aposentadoria ficaram cada vez mais distantes. “O dia em que eu me aposentar será, ou quando eu não tiver mais vontade de guiar, ou quando eu não for mais competitivo. Aí você pode ter certeza de que eu vou parar”, encerra Christian.
 

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