Edição 45
Dezembro/2013

O Automobilismo não é Tudo:
Futebol na UTI

Em menos de 72 horas, duas bombas atômicas caíram sobre as cabeças dos boleiros de Sucupira. A mais grave delas foi a horrenda briga de torcidas durante o jogo Atlético-PR x Vasco

FELIPE CORAZZA, de São Paulo
retendia encerrar o ano escrevendo uma coluna com temas mais leves e agradáveis do que os normais daqui, mas a maldita mania de gostar de futebol me impediu. Quem se importa com o assunto e ainda mantém algum apego à sanidade mental passou por momentos difíceis logo no começo de dezembro.

Em menos de 72 horas, duas bombas atômicas caíram sobre as cabeças dos boleiros de Sucupira. A primeira foi a mais grave delas: uma briga horrenda entre duas torcidas organizadas durante o jogo Atlético-PR x Vasco, que aconteceu em Joinville.

Por obra e desgraça dos organizadores da partida e do poder público, não havia nenhum policial - repetindo, nenhum policial - para separar as duas torcidas. Resultado quase óbvio: uma guerra de arquibancada que reproduziu os piores momentos dos anos 80 e 90, quando as pancadarias eram muito mais comuns.

Na guerra de versões e no jogo de empurra que se seguiram, as tentativas de atribuir mais ou menos culpa a uns ou outros foram patéticas. Uma das organizadas, a do Atlético, chegou ao cúmulo de afirmar que espancou quase até a morte os adversários para “proteger as famílias”. Em outra ponta, vários se esforçavam para dizer que tratou-se de um “incidente isolado” e que “não prejudica a Copa do Mundo”. Haja cinismo.

A mesma torcida usa como símbolo uma caveira muito parecida com a que aparecia no emblema das SS, tropas de assalto do regime nazista na Alemanha da Segunda Guerra. Por que não me espanto? Os vascaínos não adotam a caveira, mas agem tal e qual. O resultado foi uma batalha grotesca, com gente sendo espancada, chutada e atacada com barra de ferro quando já estava caída no chão. Helicóptero em campo para resgatar feridos e, cereja do bolo, jogo reiniciado uma hora e dez minutos depois, como se nada houvesse acontecido.

Tenho um bom amigo atleticano, frequentador de estádio e que viaja para ver o clube, sem integrar organizada, que resumiu uma parte o sentimento: os brigões sequestraram o direito de comemorar uma goleada e uma classificação para a Libertadores. Foi isso. Transformaram qualquer possível manifestação de alegria sobre a partida em uma deselegância. Trágico.

Mas seria injusto deixar tudo na conta dos atleticanos e vascaínos. As organizadas, todas elas, operam numa lógica mista de máfia com cúpula de empresa. Os clubes, na imensa maioria, são simpáticos a esses trogloditas, garantem ingressos, bancam viagens e, como consequência óbvia, passam a aceitar seus integrantes como membros das diretorias. Alguém esquece o Juvenal Juvêncio batendo boca com a turma da organizada durante um churrasco? Alguém esquece que quem chamou os caras para o churrasco foi a própria diretoria? Pois é.

Se essa promiscuidade dos clubes com as organizadas não acaba por inciativa dos próprios clubes, ela tem que virar caso de polícia. Investigação pesada e criminalização de TODO o ciclo da violência, desde o início. Formação de quadrilha, associação para o tráfico, posse ilegal de armas. Tudo o que for constatado precisa ser punido e os clubes precisam ser tratados como mandantes.

A segunda bomba, essa menos horripilante, mas não menos vergonhosa, foi o início do processo de “virada de mesa” no Campeonato Brasileiro. Não é discutível que a regra determine a perda de pontos da Portuguesa. Errou, paciência. O que é discutível, e muito, é o fato de que o clube se fazia representar por um advogado terceirizado no STJD, e que esse terceirizado era pago pela CBF. Consequência: recebeu informação errada sobre suspensão de jogador, escalou e dançou.

São esses os dirigentes que são recebidos com festa e reverência, tratados como senhores muito importantes e de grande valia para nosso belo quadro social. Todos uns escroques. Haja estômago para continuar nutrindo o mínimo de paixão por esse esporte.



Ainda no tema, o sorteio das chaves da Copa do Mundo mostrou muito bem o que pretendemos ser no quesito futebol: tínhamos no palco ninguém menos que Alcides Edgardo Ghiggia. Ghiggia, a lenda da Copa de 1950, o homem que condenou Barbosa “à morte”, segundo as palavras do próprio goleiro da seleção brasileira. Ghiggia, o ÚNICO sobrevivente da final de 50 e autor do gol que nos derrotou em um dos episódios mais importantes de toda a nossa história futebolística. Ghiggia, que passou por maus bocados de saúde recentemente, quase morreu, recuperou-se um tanto e fez um baita esforço para estar ali, amparado por uma bengala, mas ali. Capa de todos os jornais, sites e assemelhados no dia seguinte: o decote da loirona que apresentou o sorteio ao lado do crápula Jérôme Valcke. Somos uns imbecis.



Na política, o assunto do mês é o helicóptero com meia tonelada de pasta base de cocaína apreendido. O dono do helicóptero é senador, mas a cocaína era do piloto. Entenderam?



O Gigante continua sua turnê pelas redes sociais dessa terra abençoada e agora tem a função de se indignar com aplicativos. Qualquer porcaria lançada por qualquer um vira “polêmica” e gatilho para debates intermináveis. Ficar brigando por causa de aplicativo é como discutir com o Maluf: seja lá qual for seu lado, você já entrou perdendo.
Foto: AFP
 

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