Edição 45
Dezembro/2013

Grandes Entrevistas: Jorge Lorenzo

“Não vou pilotar por muitos anos, não tantos como Capirossi, Edwards, Biaggi ou talvez Valentino. Mas isso não significa que vou ficar em casa no ano que vem”

JULIANA TESSER, de São Paulo
Na MotoGP desde 2008, Lorenzo soma 31 vitórias e dois títulos mundiais. (Foto: Mirco Lazzari gp/Getty Images)
orge Lorenzo teve o primeiro contato com o mundo do motociclismo aos três anos de idade, quando ganhou do pai, Chicho, uma moto feita por ele próprio. Cinco anos mais tarde, o garoto de Palma de Mallorca faturou o primeiro título em um campeonato de motocross nas Ilhas Baleares.

Três anos depois, Lorenzo venceu a Copa Aprilia e conheceu Dani Amatriain – que mais tarde seria seu agente, inclusive negociando o contrato que garantiu a estreia pela Yamaha em 2008 – e Juan Llansa Hernández, até hoje mecânico do espanhol.

Aos 13 anos, Jorge chegou ao CEV (Campeonato Espanhol de Velocidade), contando com uma permissão especial da federação espanhola, já que não tinha idade o bastante para competir nas 125cc. No ano seguinte, se tornou o piloto mais jovem a vencer uma prova no Campeonato Europeu.

A precocidade não parou por aí. Ela também esteve presente na estreia no Mundial de Motovelocidade, já que Lorenzo teve de esperar até ter 15 anos e um dia para competir pela Derbi na classe inicial, em 2002. O primeiro triunfo veio no ano seguinte, no Rio de Janeiro, e depois de mais uma temporada na divisão menor, tinha chegado a hora de dar o passo seguinte.

De férias da MotoGP, após a longa e tumultuada temporada 2013, Jorge conversou com a REVISTA WARM UP, lembrou o início da carreira e o primeiro triunfo, conquistado em solo brasileiro, no agora extinto circuito de Jacarepaguá.
Na temporada 2013, o espanhol foi quem mais venceu, subindo ao degrau mais alto do pódio em oito ocasiões. (Foto: Mirco Lazzari gp/Getty Images)
Naquele ano de 2003, vindo de um sexto lugar no GP de Portugal, no Estoril, Lorenzo desembarcou no Rio de Janeiro confiante de que poderia brigar pela vitória e garantiu o primeiro triunfo – e primeiro pódio – após bater Casey Stoner e Dani Pedrosa na última curva.

“Tenho memórias incríveis. Talvez seja uma das minhas melhores memórias. Eu nunca tinha pensado que poderia vencer. Mas no fim de semana anterior eu já estava rápido e ganhei confiança para o Rio. Eu me lembro da última volta, quando estava lutando com Stoner e Pedrosa. Eu ultrapassei os dois na mesma curva e por fora, por isso o meu logo ‘x-fuera’ (que significa ultrapassar por fora). Aí eu esperei o meu momento na última curva, ali atrás.”

Depois da passagem pelas 125cc, o espanhol foi consagrado na categoria intermediária, conquistando o título. Com esse bom desempenho nas categorias menores, Lorenzo atraiu o interesse da gigante de Iwata. Em meados de 2007, a Yamaha temia perder Valentino Rossi para a F1 e colocar em risco todo o trabalho feito para devolver a marca ao topo da tabela.

Assim, o time nipônico decidiu apostar em um jovem piloto para o ano seguinte, dando a Lorenzo o primeiro contrato na divisão principal. Nem nos melhores sonhos, entretanto, a montadora japonesa imaginava que o espanhol teria uma estreia tão fenomenal. Na primeira corrida, disputada no Catar, Jorge faturou a pole com 0s255 de margem para James Toseland. Nas duas corridas seguintes, o espanhol repetiu a dose, garantindo a primeira vitória na terceira prova, no Estoril, mais de 1s à frente de Pedrosa.

O início brilhante teve o primeiro revés em Xangai, na China, quando ele lesionou os dois tornozelos após ser arremessado da moto em um tombo. A sequência de acidentes continuou com o pior deles sendo registrado na segunda sessão de treinos livres para o GP da Catalunha, onde o piloto chegou a perder a consciência após a queda. Questionado sobre o momento em que percebeu que fazia algo errado, Jorge foi claro.

“Quando eu caí, quando me machuquei! Depois de cinco ou seis quedas, fiquei com medo e não era mais rápido. Tive que rodar muitos quilômetros para recuperar a confiança. Eu me lembro do pior momento: Barcelona 2008.”
“Nós estamos sempre correndo riscos, mas às vezes também existe o azar”
Os primeiros anos de Lorenzo na Yamaha, além dos acidentes, também foram marcados por um clima nada amistoso com Rossi. O multicampeão italiano se sentiu desrespeitado com a chegada do novato, e a convivência não foi nada fácil. Em conflito com o astro do Mundial, Jorge acabou atraindo um grande número de desafetos entre o público, mas o espanhol entendeu que isso é normal por conta da popularidade do adversário.

“Nós sabemos que Valentino tem milhões de fãs e, claro, quando você é o principal rival dele, você também tem ‘inimigos’ no circuito. Mas o esporte é assim. Também aconteceu com Casey. Não é um grande problema. Também tenho o meu fã clube e as pessoas que me seguem.”

Enquanto ainda pegava a mão da MotoGP, Lorenzo também vivia momentos tensos fora da pista, com o fim da relação de trabalho com Amatriain. O homem que investiu tempo e dinheiro na formação do espanhol havia atravessado uma fase difícil e sucumbiu ao vício em cocaína.

Depois de alguns anos afastado do motociclismo para se tratar, Amatriain decidiu voltar ao esporte e encontrou no antigo pupilo um braço amigo. Com o apoio de Jorge, Dani se aliou ao projeto do ‘Team 99’, uma escuderia de base para desenvolver jovens talentos.

“Ele me procurou e eu fiquei feliz em ajudá-lo com o projeto. Eu dei a ele capacetes, bonés, camisetas... Ele também me perguntou se poderiam usar o 99 e o meu logo, x-fuera, e para mim foi simplesmente um prazer.”

Em 2009, o piloto recuperou as forças e apareceu disposto a brigar pelo título. Mas, apesar de ter exibido um bom desempenho, quem ficou com a taça foi Rossi, por 45 pontos de vantagem. No ano seguinte, não teve jeito, e Jorge alcançou o sonho de ser campeão mundial.

Em 2011, Lorenzo chegou disposto a defender o número 1, tendo Casey Stoner, agora na Honda, como principal adversário. Mas o fim daquela temporada foi marcado por dois sérios acidentes. Em Phillip Island, na Austrália, o piloto da Yamaha caiu no warm-up e perdeu um pedaço do dedo anelar esquerdo, que ficou preso embaixo da M1 enquanto a moto escorregava no asfalto. Em recuperação, assistiu do sofá de casa ao acidente fatal de Marco Simoncelli.

“Para mim o pior momento foi em 2008. Em 2011 foi um choque perder parte do meu dedo, mas foi uma situação diferente. Eu lembro que estava em casa, porque não podia correr na Malásia. Estava com a minha mãe e não podia acreditar no que estava acontecendo com Marco. Nós estamos sempre correndo riscos, mas, às vezes, também existe o azar.

Fiquei triste durante todo o inverno. Foi um momento difícil para todos nós, não apenas para mim. Marco era um cara legal e nós sentimos falta dele.”

Pouco após os dois acidentes, surgiram rumores de que Lorenzo estava considerando deixar o esporte. Questionado pela WARM UP, o piloto negou, mas afirmou que não pretende seguir competindo por tanto tempo como fez Loris Capirossi, Colin Edwards, Max Biaggi e Rossi.

“Não, nunca pensei nisso. Eu disse que não vou pilotar por muitos anos, não tantos como Capirossi, Edwards, Biaggi ou talvez Valentino. Mas isso não significa que vou ficar em casa em 2014.”
“Minha meta agora é continuar crescendo, seguir aprendendo. Sempre tem algo para aprender e se eu conseguir fazer isso, espero ter a oportunidade de vencer outra vez”
Apesar do bom desempenho, Lorenzo não conseguiu manter seu título e viu Márquez ser campeão por quatro pontos de vantagem. (Foto: Quinn Rooney/Getty Images)
Há 12 anos no Mundial, Jorge alega não ter arrependimentos, mas diz que tiraria os machucados do esporte se tivesse chance.

“Eu odeio as lesões, mas elas acontecem e você não pode mudar isso. Eu gostaria de deletá-las do nosso mundo, mas nós corremos muitos riscos.”

Perguntado se acredita que a classe rainha está ficando mais perigosa com o passar dos anos, o bicampeão avaliou: “Claro que a MotoGP é perigosa e as nossas motos estão mais rápidas a cada ano”.

Dono de quatro títulos mundiais, o piloto da Yamaha vê na oportunidade de continuar se aprimorando a motivação para seguir em frente.

“Minha meta agora é continuar crescendo, seguir aprendendo. Sempre tem algo para aprender e, se eu conseguir fazer isso, espero ter a oportunidade de vencer outra vez.”

No caminho para a perfeição, Jorge tem o valioso apoio de Ramon Forcada, o chefe dos mecânicos. Questionado pela WUp sobre o quanto o engenheiro espanhol contribuiu para o sucesso, o piloto respondeu: “Muito!”.

“Ele é um técnico muito bom, tem muita experiência e sabe o que e por que as coisas acontecem. Ele sempre ajuda e nós tentamos encontrar o acerto correto para a corrida. Ele é muito importante e eu tenho sorte.”

Com a saída de fábricas como Kawasaki e Suzuki, a Dorna, promotora do Mundial, investiu em algumas novidades no regulamento, como a mudança na capacidade – de 800cc para 1000cc – e a introdução da subcategoria das CRT, por exemplo. Mesmo vendo os esforços da empresa espanhola com bons olhos, o bicampeão da classe rainha ressaltou que os pilotos de ponta vão continuar sempre lutando pelas primeiras posições.

“A Dorna está trabalhando duro para mudar e melhorar a cada ano. Eu confio neles e, em alguns anos, será diferente. Mas digo uma coisa, você pode mudar a potência, as motos, os pneus, muitas coisas, mas, no fim, os pilotos top são sempre os mesmos.”

E neste ambiente tão competitivo, a relação entre os pilotos tem alguns desafios. Recentemente, Casey Stoner afirmou que os competidores da MotoGP se odeiam, mas Jorge não concordou tanto assim com o antigo rival.

“Casey é meu amigo, e eu entendo o que ele diz. Este é um esporte individual e você tenta bater os rivais, outros 23 pilotos. Talvez você tenha uma relação mais próxima com alguns, mas não é fácil. Você está lutando contra ele, tentando derrotá-lo, ultrapassá-lo... Tem muita adrenalina, muito estresse e muitos interesses por trás, então não é fácil ter um amigo. Mas eu posso dizer que tenho e tenho mais a cada dia. Estou crescendo e vendo o paddock de uma forma diferente.”
 

Vivendo no auge

Tendo acabado de completar o sexto ano na principal divisão da motovelocidade mundial, Lorenzo vive o auge da carreira, mas nem mesmo a excelente fase o permitiu renovar o título na MotoGP. Por uma diferença de apenas quatro pontos, Marc Márquez ficou com a taça na temporada de estreia.

O ponto de virada foi o GP da Holanda. No primeiro dia de treinos em Assen, o piloto da Yamaha sofreu uma violenta queda e fraturou a clavícula esquerda. Focado na defesa do caneco, o espanhol embarcou para Barcelona, operou e voltou à pista, cerca de 30 horas depois da cirurgia.

Largando em 12º, Lorenzo resistiu às dores e garantiu o quinto lugar. Após a corrida, o piloto foi chamado de herói por colegas, jornalistas e torcedores, mas tratou de rejeitar o rótulo. Brigando pelo título até a última prova da temporada, o espanhol disse que é difícil avaliar a importância de ter corrido em Assen nas chances de título.

“Você nunca sabe. Cada corrida têm suas circunstâncias, posso falar de Le Mans, Jerez, Sachsenring... Eu não me lembro de uma corrida, eu me lembro da temporada, e foi incrível. Nós podemos nos orgulhar.

O pior momento talvez tenha sido Sachsenring. Depois de um esforço enorme, eu caí outra vez e não pude correr. O melhor pode ser Silverstone. A vitória na Inglaterra, na última curva, me deu mais uma oportunidade. Mas tive muitos grandes momentos. Venci oito corridas!”

Além da fase de Lorenzo, outro grande destaque da temporada 2013 foi a performance avassaladora de Márquez, que chegou destruindo recordes e faturando o Mundial na primeira tentativa. Questionado pela REVISTA WARM UP sobre o papel do jovem da Honda no aumento no nível da MotoGP, Jorge respondeu: “Claro que quando chega um piloto forte, você tem de ser mais forte para vencê-lo. Márquez ajudou a melhorar ainda mais na última temporada”, reconheceu.

O representante de Iwata, porém, não sabe dizer se a taça ficou em boas mãos. “Não sei. Quem vence o título merece a coroa, e, na teoria, está em boas mãos”, acrescentou.

Além da estreia de Márquez, o retorno de Valentino Rossi à Yamaha também foi um dos principais assuntos da temporada. Na primeira vez em que dividiram os boxes, a dupla teve uma relação para lá de difícil, mas as coisas hoje estão melhores.

“Agora tudo é diferente. Nós temos uma relação melhor e nós frequentemente conversamos na garagem. Acho que estamos mais maduros e percebemos que nada fica melhor se sua relação com seu companheiro de equipe é ruim.”

No próximo ano, a dupla segue unida, mas a MotoGP passará por algumas mudanças, como a introdução de uma centralina padrão, a redução na capacidade dos tanques de combustível e o congelamento dos motores. Essas alterações, porém, não preocupam Jorge.

“Estou focado no meu caminho. Vou tentar melhorar e estar pronto para a batalha. Meu time está trabalhando duro para entender as novas regras e eu vou ajudá-los na pista.”
“Quem vence o título merece a coroa e, na teoria, está em boas mãos. Mas isso não significa que será fácil”

O novo Lorenzo

Com 12 anos de experiência no Mundial de Motovelocidade – seis deles na MotoGP –, Lorenzo destaca que muita coisa mudou ao longo deste tempo, inclusive o próprio número. Hoje reconhecido pelo 99, o espanhol estreou usando o 48.

“Mudou muita coisa. Mudei meu estilo, a maneira de ver a minha vida, mudei meu time, até mesmo o meu número... muitas, muitas coisas. Como eu disse antes, você cresce e percebe muitas coisas ao seu redor.”

Embora ainda tenha uma longa carreira pela frente, Lorenzo já sabe o que quer fazer quando decidir pendurar o capacete. “Gostaria de fazer algo com jovens pilotos, mas tenho tempo para pensar. Vamos ver”.

Antes de se dedicar ao treinamento de jovens, Lorenzo ainda tem alguns desejos a realizar, entre eles guiar um carro de F1. No início do ano passado, o piloto da Yamaha testou na GP2, pela equipe Addax, mas ainda sonha em subir um degrau no mundo do automobilismo.

Perguntado pela RWUp se já havia sido convidado para um teste, o espanhol negou, mas avaliou que talvez possa pegar o carro de Lewis Hamilton emprestado, já que, assim como a Yamaha, a Mercedes também é patrocinada pela Monster Energy.

“Ainda não tive um convite, mas estou ansioso para guiar um carro de F1. Talvez Hamilton possa ser uma boa opção. Ele é meu amigo e se me emprestar o carro, vou pilotar.”

Apaixonado por futebol e torcedor do Barcelona, Lorenzo também falou sobre a chegada de Neymar ao clube azul-grená. O catalão desejou sorte ao atacante brasileiro e avaliou que ele forma um time perfeito com Lionel Messi.

“Eu gosto muito de jogadores como o Neymar. Espero e desejo que ele tenha sorte no novo clube. Eu vi muitos jogos e ele é incrível, um time perfeito com Messi.”
 

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