Edição 45
Dezembro/2013

Stop & Go: Ricardo Maurício

“Todo título é muito difícil. Mas foi um título que parecia estar um pouco mais longe. Cheguei líder no primeiro título e fui campeão. Aqui, eu fui campeão nas duas últimas voltas”

RENAN DO COUTO, de Interlagos
Ricardo Maurício foi bicampeão da Stock Car em Interlagos. (Foto: Rodrigo Berton/Warm Up)
inco anos depois de ser campeão da Stock Car pela primeira vez, Ricardo Maurício conquistou o segundo título da categoria mais importante do país. Novamente, a festa foi celebrada em Interlagos, mas com uma equipe diferente: a RC, de Rosinei Campos. De volta aos boxes após a prova, o agora bicampeão conversou com a REVISTA WARM UP sobre a emocionante corrida decisiva e destacou a importância de usar a cabeça da mesma forma que usa o pé direito para controlar o carro ao longo da temporada.

Revista Warm Up: Como é voltar para os boxes campeão?

Ricardo Maurício: É indescritível. A gente vem fazendo o trabalho de um ano inteiro para chegar a esse feito. É lógico que tem anos que dão certo e tem anos que não dão certo. Sempre vai ter um vitorioso, um segundo lugar, um terceiro lugar e um campeão. E, graças a Deus, depois de cinco anos junto com o Meinha, nesse ano emplacou.

WUp: Você começou o fim de semana dizendo que ia encarar essa como uma corrida normal. Pelo desenrolar da prova e pela estratégia, deu para ver que você realmente tratou mais uma etapa apenas.

RM: Eu encarei como uma corrida normal porque as dificuldades para o meu lado eram muito maiores do que para o lado deles. Eu não tinha que colocar pressão em cima de mim. Se eu colocasse, com certeza ia transmitir isso para toda a equipe, para o Meinha, para os mecânicos, e talvez o pit-stop não seria excelente como foi. Tinha de ter tranquilidade. A gente tinha um bom carro, sabia que os nossos concorrentes estavam super fortes, e foi isso. O campeonato é um trabalho do ano inteiro. A gente foi trabalhando corrida a corrida, e é isso que faz um campeão. Não é vencer muitas provas. É um campeonato com muita pontuação e sem descarte. Foram excelentes resultados em um dos anos mais difíceis da categoria, quando a gente teve uma média de pontuação muito alta.

WUp: Na sexta-feira, você parecia bem tranquilo. No sábado, depois de se classificar em sexto, você não parecia mais tão confiante...

RM: Não é que eu não estava confiante. Eu estava chateado pelo resultado da classificação. Eu sabia que tudo dependia do meu resultado. A gente tinha feito um Q1 excelente, recorde da pista, e, no Q2, não teve o mesmo desempenho. Na verdade, estava chateado pelo meu resultado. Não estava desanimado, não dá para desanimar. Mas eu sou pé no chão. Sei das dificuldades. Sabia que as minhas chances eram as piores naquele momento, vendo o Thiago e o Daniel Serra na minha frente. Consegui uma boa largada, passei o Serrinha e conservei um pouco o equipamento para atacar mais no final.
Após vencer o Brasileiro de Marcas, Maurício unificou os títulos de turismo no Brasil em 2013. (Foto: Rodrigo Berton/Warm Up)
WUp: Antes da corrida, você disse que seu comportamento ia depender do momento, do que estivesse acontecendo a cada instante. Qual foi o momento em que você sentiu que era a hora de atacar?

RM: O momento foi com esse pneu dianteiro direito que, em todo o final de semana, todo mundo tinha problema de freada, travando roda. Até o Cacá estava falando que estava com dificuldade de acertar o carro por causa disso. Se eu trocasse só os traseiros, como o Thiago trocou, eu ia estar com uma deficiência na frente. Falei para o Meinha: ‘Não adianta eu conseguir tracionar se não frear bem.’ Por isso que a gente trocou os laterais. Era obrigado a trocar um pneu, e trocamos também o traseiro direito para ter aproximações de curva melhores. Todo mundo passa no push na maioria das vezes, e esse pneu me ajudou a ter as duas ultrapassagens, em cima do Khodair e do Thiago.

WUp: Isso também fez você sair dos boxes mais perto do Thiago Camilo?

RM: Nosso trabalho foi um pouco melhor e, como ele trocou os dois traseiros, o carro dele estava um pouco mais dianteiro. Então eu chegava nele, mas ele tracionava mais e assim fomos brigando com o Allam e com o Zonta também. No final, deu tudo certo. Só fiquei preocupado porque estava com um vazamento de óleo de câmbio, o alarme estava apitando, e era torcer para não estourar o câmbio ali, na última volta.

WUp: Para quem estava de fora, as disputas foram bem ríspidas, mas emocionantes. Como foram para você que estava dentro do carro?

RM: Foram disputas de gente grande. Souberam dar o espaço. O próprio Allam, lógico que a gente deu uma ralada na carenagem, mas coisa normal. Com o Thiago, a mesma coisa. Mas eu demonstrei que eu ia dar o bote e enfiei. Eles tentaram puxar para se defender. Se for ver no regulamento, você não pode puxar tão em cima, mas final de corrida, valendo o título, Corrida do Milhão, é coisa de corrida e a tornou mais emocionante. E essas duas ultrapassagens foram essenciais para o campeonato.
“Demorei cinco anos para conseguir o bicampeonato.
Às vezes, não depende só da gente, não depende só da equipe. Tudo tem que encaixar”
WUp: Em algum momento, pensou que poderia haver um toque e ir tudo por água abaixo?

RM: Eu tinha que arriscar um pouco também nessas horas. Só ficar em cima do push... Eu sabia quantos push-to-pass o Thiago tinha por causa da transmissão ao vivo, mas não sabia o Khodair, o Zonta. Eu tinha que fazer uma estratégia de tentar também avançar um pouco. Esse pneu traseiro direito me proporcionou que eu conseguisse frear um pouco mais dentro que eles. Eles tinham uma tração melhor, e o carro era muito dianteiro. A gente tinha que aproveitar a estratégia que fez.

WUp: Quando o Cacá foi para cima de você, você sabia o tempo todo que se perdesse a posição, perderia o título? Ele até falou que achou um pouco dura a defesa, mas depois ficou sabendo o que ela valia.

RM: Ele não sabia! Achou que, com o terceiro lugar, eu seria campeão. Falei ‘não, eu precisava do segundo’. ‘Ah, então beleza.’ Ele achou que eu tinha sido um pouco duro e poderia talvez ter até perdido o título naquela disputa com ele. Mas ele veio me cumprimentar e a gente se respeita muito. Sei do talento dele e ele sabe do meu. Para mim, ele é o mais completo da categoria, o cara que mais venceu, sabe chegar, aproveitar os momentos de vitória, também corre com a cabeça, com a inteligência. Não pensa só naquele momento, pensa na corrida inteira.

WUp: Foi a corrida mais emocionante da sua vida?

RM: Com certeza. A gente não pode tirar o mérito de outras grandes corridas, mas esse finalzinho foi um dos mais emocionantes. Foi demais.

WUp: Esse título foi mais difícil que o primeiro?

RM: Os dois foram difíceis. Todo título é muito difícil. Mas foi um título que parecia estar um pouco mais longe. Cheguei líder no primeiro título e fui campeão. Aqui, eu fui campeão nas duas últimas voltas. Ali que me deu o título. A gente viu que a temperatura estava altíssima e que todo mundo estava tendo muito problema na freada no miolo. A gente optou pelos dois laterais. Eu precisava ter uma boa tração, mas precisava ter uma boa freada também. Acho que esse pneu que a gente escolheu junto com o Marcel, com o Meinha, foi ideal. Foi esse pneu do lado direito que fez com que a gente conseguisse atacar no miolo, que foi onde eu passei o Khodair e o Thiago. Não os passei no push.

WUp: Agora você tem um título com o Meinha e outro com o Andreas Mattheis. O que é diferente no trabalho com os dois e o que foi diferente em cada campeonato?

RM: Cada um tem a sua particularidade, e a gente deixa para o interno.

WUp: Mais quantos títulos você ainda conquistará?

RM: Não sei... Demorei cinco anos para conseguir o bicampeonato. Lógico que a gente sempre entra no carro pensando em vitórias e títulos, mas isso é decorrência de um trabalho que deu tudo certo no ano. Às vezes, não depende só da gente, não depende só da equipe. Tudo tem que encaixar.
Maurício se envolveu em uma briga acirrada com Cacá para ficar com o título. (Foto: Rodrigo Berton/Warm Up)
 

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