Edição 45
Dezembro/2013

Superfinal: Batalha anunciada - Després x Coma

Estilos diferentes, equipes diferentes e uma mesma missão: vencer o mais temido rali do mundo. O espanhol Marc Coma volta à América do Sul em sua KTM para enfrentar o maior rival e atual campeão, o francês Cyril Després, agora em cima de uma Yamaha

EVELYN GUIMARÃES, de Goiânia
Cyril Després, à esquerda, já é considerado uma lenda do Rali Dakar. Marc Coma, à direita, é um dos maiores nomes do motociclismo espanhol. (Fotos: Victor Eleuterio e David Santos Jr/FotoArena)
Rali dos Sertões 2013, disputado entre fim de julho e início de agosto em um percurso entre os estados de Goiás e Tocantins, foi só um aperitivo. A competição brasileira servia como prenúncio do que pode acontecer no próximo Dakar, quando os dois principais nomes do motociclismo off-road do mundo voltarem a se encontrar. No entanto, nem foi possível ver um embate de verdade entre eles. Marc Coma e Cyril Després se enfrentaram no centro-oeste brasileiro, mas as condições não estavam perfeitas para uma disputa real. O espanhol vinha de uma lesão, que inclusive o tirou da edição deste ano do Dakar, enquanto o francês fazia apenas a segunda prova com a Yamaha, equipe que assumiu depois de 12 anos de KTM.

Portanto, a competição tupiniquim serviu para o gaulês apenas como uma maneira de acelerar a adaptação ao novo time e conhecer melhor a YZF450. Já para Coma foi mais uma forma de aperfeiçoar a recuperação física. Tanto é que, apesar das boas disputas, ambos foram batidos pelo português Paulo Gonçalves, que triunfou em Goiânia.

Depois da competição no Brasil, Coma ainda esteve na etapa do Marrocos do Mundial, a última da temporada 2013, onde viu o mesmo Gonçalves ficar com o título. Vice, o espanhol participou do campeonato todo com a meta de se preparar para o retorno ao Dakar. Després, por sua vez, ainda competiu no Desafio Inca, no Peru, no mês de outubro, e com o mesmo objetivo de chegar forte no maior rali do mundo.

Quer dizer, ambos se dedicaram como nunca para o grande duelo entre eles, marcado para janeiro de 2014, entre os dias 5 e 18, quando o mais difícil rali do planeta vai visitar cidades da Argentina, do Chile e, pela primeira vez, da Bolívia. A reedição da batalha entre Després e Coma já é tratada como a grande atração da prova. E não há como não acreditar nisso, especialmente diante dos números de ambos e das novidades que a organização da corrida francesa reservou. É que, desta vez, motos e quadriciclos vão percorrer rotas diferentes de carros e caminhões.

E, como se não bastasse, desde 2005, apenas os dois saíram vencedores do Dakar. Foram cinco títulos a favor do gaulês (2005, 2007, 2010, 2012 e 2013) e três do catalão (2006, 2009 e 2011). Sendo que todas essas taças vieram em cima das motos da KTM. Agora, defendendo marcas diferentes, a guerra ganha um novo tempero.
Després tem nada mesmo que cinco títulos do Dakar entre as motos (Foto: Yamaha/Divulgação)
O Rali dos Sertões foi encarado pelos dois pilotos como um dos mais importantes de preparação para o Dakar. "Todos sabemos que este é o rali mais difícil do ano, por isso é importante competir no Brasil", diz Coma à REVISTA WARM UP. "A preparação é ao longo do ano todo, pois temos de estar totalmente prontos para o Dakar, que é o evento maior, o grande objetivo no fim das contas. Tudo gira em torno do Dakar", completa.

Ao menos, a vida dos dois rivais, sim. "Vim ao Brasil para o Rali dos Sertões porque gosto muito do tipo de piso e dos diferentes estágios. É muito difícil, os brasileiros conhecem bem, mas para nós, além da preparação para o Dakar, foi uma forma de adaptação à Yamaha. Às vezes, você pode imaginar, e isso é até curioso, que basicamente as motos são todas iguais, mas na verdade têm pequenas particularidades. E é isso que acaba fazendo a diferença no fim", fala Després.

Donos de personalidades muito diferentes, Marc e Cyril dividem opiniões, mas são unanimidades no que diz respeito ao desempenho nos desertos mundo afora. O pentacampeão é conhecido pelo extremo profissionalismo, garra e uma boa dose de polêmicas. Sempre muito franco e objetivo, Després nunca quis competir de outra coisa a não ser em cima de uma moto, e a paixão pela velocidade não veio, ao contrário da maioria dos pilotos, de casa. A família do gaulês é do ramo de restaurantes. Experiência, aliás, que ele usou para juntar dinheiro para a primeira aventura no Dakar.

Cyril cruzou a França vendendo vinho, cujo rótulo mostrava o mapa do Rali Dakar de 2000. O piloto não só conseguiu reunir os recursos necessários, como também completou a prova de estreia em uma sólida 16ª posição, no emblemático trajeto Paris–Dakar–Cairo.

"Eu comecei muito cedo, mas, desde que comprei minha primeira moto em Paris, eu sabia que queria correr em ralis. Eu realmente me divirto em cima da moto", diz. "Nunca me passou pela cabeça correr em circuitos ou em carros. A minha vida inteira sempre quis o off-road. É onde me sinto totalmente confortável", acrescenta à WUp.
“Marc é um grande competidor. Difícil de superar e experiente. Acredito que em 2014 teremos um duelo forte novamente”
Coma também já ganhou três vezes o Mundial de Rali Cross-country. (Foto: Victor Eleuterio/FotoArena)
"Eu comecei vendo um amigo do motocross, foi aí que me encantei pelo esporte, e é isso que tenho feito desde então. Cada Dakar é especial, mas acho que o primeiro é sempre o mais emocionante de todos. Não é fácil chegar até aqui, mas me orgulho da minha carreira. Eu amo este esporte. Todos os anos na KTM foram incrivelmente ótimos, proveitosos e de muita experiência, não só pelo lado profissional como também pessoal. Eu devo muito a eles. Mas era hora de mudar", completa ao falar da saída da equipe austríaca.

Junto com a KTM, o piloto de 39 anos se tornou uma lenda do rali em todo mundo. E agora pretende seguir os passos do compatriota Stéphane Peterhansel na Yamaha. "Acredito que a mudança seja um dos passos mais importantes da minha carreira. A marca tem muita história, venceu com nomes como Peterhansel, e claro que o nosso objetivo maior é ganhar o Dakar em 2014. Tudo ainda é muito novo para mim, mas vi na equipe o mesmo entusiasmo que eu mesmo tenho pelas motos", explica.

Depois do Rali dos Sertões, Després falou sobre as impressões da moto azul e disse que, apesar dos pequenos problemas ao longo do trajeto difícil do centro-oeste do Brasil, existe potencial na máquina japonesa. "Tendo em conta que foi o nosso primeiro grande desafio com essa moto, acho que não foi tão ruim. A moto tem potencial, mas ainda temos muito que fazer até janeiro. Existem alguns ajustes que precisam ser feitos, mas acredito também que, não fosse pequenos problemas em algumas etapas, poderíamos ter vencido", avalia o piloto, que fechou a competição com o segundo lugar na classificação geral.

E é a vitória o que mais importa ao francês. Ao ser questionado sobre os rivais e as polêmicas pelas quais já passou na carreira, Cyril disse apenas que é "bastante competitivo" e que o rali também se trata de superação, de "conseguir vencer mesmo na adversidade".

Sobre os adversários, o piloto é só elogios e mostrou respeito pelo maior rival. "Marc é um grande competidor. Difícil de superar e extremamente experiente. Mas eu penso mesmo na vitória. E foco no meu trabalho. Acredito que em 2014 teremos um duelo forte novamente. Certamente, não será nada fácil."

Embora siga jurando amor às motos, Després não espera apenas seguir os passos de Peterhansel em cima da Yamaha de número 1. O gaulês também projeta a transferência para os carros no futuro. "Ainda tenho muito que fazer nas motos. Com a Yamaha, eu tenho um contrato de dois anos, mas eu penso, sim, em correr de carro um dia. Deve acontecer", encerra.
 

Em lados opostos? Nem tanto

Diferentemente do ex-companheiro de KTM, Marc Coma iniciou no motociclismo vendo o pai e o tio em competições de motocross pela Espanha. O catalão de Avià, onde ainda mora nas montanhas, tem uma personalidade mais dócil. É de sorriso fácil, mas se engana quem pensa que essas características se aplicam na pista. Apesar do extremo cuidado com os adversários, Coma é um lutador que não descansa. Mesmo horas depois do fim de uma especial, ainda é fácil vê-lo perambulando ao redor da moto, procurando por todos os detalhes. "Este esporte veio de forma natural para mim", explica à REVISTA WARM UP.

"E, sim, sou bastante tranquilo e calmo, mas também muito perfeccionista", admite. "Eu moro em um lugar distante, uma cidade pequenininha de quase 2 mil habitantes, perto de Barcelona, mas é onde me sinto bem, onde gosto de estar quando estou longe das competições. Acho que tenho sorte. Muita sorte. Afinal, transformei um hobby em profissão. Acredito que nem todos podem fazer isso nessa vida", diz.

Coma começou com 19 anos no off-road, competindo em ralis cross-country em seu país. Sete anos e um título mundial depois, o espanhol decidiu encarar o primeiro Dakar, que foi o Arras–Madrid–Dakar. E terminou aquela edição em 11°. "Eu acho que me lembro de tudo. Foi emocionante, depois de todos aqueles anos e campeonatos. Foi incrível e, ao mesmo tempo, assustador", admite.

E aí é que se mostram também as semelhanças com o arquirrival, a quem o catalão respeita e enxerga como "um dos mais completos". Da mesma maneira que Cyril, Coma vê o Dakar como o próprio mundo. Para ele, é como o Mundial de F1 ou de MotoGP. "O Rali Dakar é o ápice de tudo para quem está nessa vida do off-road. A gente se prepara o ano inteiro, compete em vários lugares, apenas pensando no mês de janeiro. É emocionante", afirma.

Marc ainda deixa escapar a razão da prova ter tamanha importância na vida. "O Dakar, para mim, é algo muito, muito especial. Tudo o que sou hoje dentro do esporte a motor eu devo ao Dakar. O Rali me deu tudo isso, e só posso agradecer. No fim das contas, a minha vida gira em torno dele. Sempre foi assim, e espero que seja por muitos anos ainda", reconhece.

"É claro que existem outras coisas importantes, como a família e os amigos. E sou grato por tudo isso. Eles entendem também a necessidade que temos de treinamento e o que isso representa na nossa vida."

Ao pedir para lembrar um momento especial, Coma fala "em muitos". "Todo ano é algo diferente. Mas claro que a primeira vitória é sempre a lembrança que você mais guarda. O primeiro título também. É algo muito difícil de conseguir, você passa por muita coisa, então aquele momento fica para sempre", completa.

Por fim, Marc revela outra similaridade com Després. O asfalto nunca esteve nos planos, apesar de já ter feito um teste na MotoGP. "Uma vez eu testei com a Honda de Dani Pedrosa em Cheste. Foi uma experiência incrível. Realmente sensacional. Mas não trocaria. Para mim, a vida que levo é única. Se você visse a vida que tenho, perto da natureza... É uma boa vida. Não trocaria."

Ainda bem.
 

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