Edição 46
Janeiro/2014

Estepe: Um espaço, pelo amor de Deus

Em ano de Copa do Mundo, a Stock Car busca alternativas para aparecer na TV, gerar interesse da mídia e do público e, claro, dos patrocinadores. O aumento no número de corridas e a prova com 34 convidados de gabarito são as propostas para 2014

RENAN DO COUTO, de Interlagos
A Stock Car vai se espremer para buscar seu espaço num ano de Copa do Mundo chamando a atenção para uma corrida com 34 convidados especiais. (Foto: Rodrigo Berton/Warm Up)
uem trabalha com automobilismo no Brasil levou um susto quando, em uma tarde qualquer no fim de 2013, se deparou com o seguinte comunicado: “Stock Car terá 21 corridas em 2014”. Foi com essa nota que a principal categoria do país anunciou mudanças significativas para o próximo campeonato, cujo início está marcado para 23 de março, em Interlagos.

Uma leitura mais atenta do texto tornou tudo mais claro: o número de finais de semana de pista, 12, seria mantido, mas com nove rodadas duplas: uma primeira bateria mais longa, com 40 minutos, outra mais curta, com metade da duração e pontuação diferenciada.

Essa não era a única novidade. A categoria também anunciou a criação de um evento especial, para abrir a temporada, no qual os 34 pilotos titulares vão correr em duplas com 34 convidados que tenham experiência internacional.

As duas grandes inovações da Stock Car para o ano de 2014 têm dois objetivos principais: mudar o formato para tentar gerar mais interesse no público, criando mais atrações para quem acompanha as corridas tanto pela TV quanto nos autódromos, e procurar conseguir seus 15 minutos de fama no ano da Copa do Mundo no Brasil, com o futebol no centro das atenções.

O próprio calendário foi pensado em contornar os efeitos colaterais do maior evento esportivo do planeta. Só quatro das 12 etapas acontecerão antes da Copa. As outras oito datas foram marcadas de agosto em diante, quando a empolgação – ou a frustração – com o Mundial tiver diminuído.

As novidades, a priori, foram bem aceitas – ou melhor: são tratadas como válidas. Mas essas ideias não surgiram do nada: a Vicar, promotora da Stock Car, trabalhou em conjunto com a TV Globo – equipes e a CBA foram consultadas – até definir a realização das rodadas duplas e criar, de fato, a prova para pilotos-convidados.

A inspiração para essa corrida veio da V8 Supercars, que realizou a Gold Coast 600 por alguns anos no circuito de Surfers Paradise, juntando os pilotos australianos com nomes do automobilismo americano e europeu. No caso da Stock Car, a ideia derrotou, dentre outras, a sugestão de se promover uma ‘Corrida das Estrelas’, extra-campeonato, juntando os dez mais bem colocados na categoria e dez convidados de peso.
Com a inclusão das baterias complementares de 20 minutos, a categoria ganhou mais tempo de exposição de TV
Os carros não vão à pista no período da competição mais importante do futebol: “Seria ridículo”, admite Maurício Slaviero. (Foto: Rodrigo Berton/Warm Up)
Diretor-geral da Vicar, Maurício Slaviero, explica à REVISTA WARM UP que “essa corrida de duplas foi a ideia que faria mais sentido, porque todos estariam competindo, trazendo vários pilotos que nunca correram na categoria para dar, também, uma divulgação muito maior, uma repercussão muito maior”.

Marcada para a semana seguinte à abertura do Mundial de F1, quando cai a ficha do público em geral de que a temporada do automobilismo tem início, a prova será uma das três transmitidas em canal aberto pela Globo – as outras serão a Corrida do Milhão e a última, com pontuação dobrada, em Brasília. As demais etapas ficarão reservadas para o SporTV, bem como todos os treinos classificatórios.

Com a inclusão das baterias complementares de 20 minutos, a categoria ganhou mais tempo de exposição de TV. A programação exata segue indefinida, mas a tendência é que seja adotado um intervalo de até meia hora entre as duas disputas. Retomando a questão da concorrência desleal representada pela Copa do Mundo, essa é uma forma de se oferecer um atrativo a mais para as empresas em um ano em que as cotas de patrocínio de muitas companhias estão guardadas para o futebol. “Sempre o tempo de televisão influencia nas cotas, isso aí é o normal. Eles vão poder vender quase que 50%, 60% a mais de TV do que nós temos agora”, diz Slaviero.

Outro pensamento é gerar uma rotatividade maior de vencedores. Slaviero não teme que a realização de duas corridas, sendo a segunda com grid invertido, em um espaço de tempo tão pequeno possa gerar confusão e acabar dando menos espaço na mídia aos primeiros colocados. “Parte do nosso objetivo é exatamente dividir essa mídia. É ter pilotos novos ganhando, mais pilotos aparecendo e tendo retorno”, justifica.

Finalmente, a Vicar deseja encher mais os autódromos por onde passa e fornecer mais atrações para o público que está nas arquibancadas. Em julho, Slaviero viajou à Alemanha para conhecer o DTM em Norisring e se impressionou com a quantidade de atividades que são montadas nos circuitos – além, claro, da programação cheia. “A concorrência vai ser grande em função da Copa do Mundo. Em hipótese alguma a gente vai querer concorrer com o futebol e a Copa do Mundo, seria ridículo, mas a gente quer tentar ter alguma coisa diferente acontecendo”, admite o dirigente. Até por isso, o calendário conta com uma pausa de dois meses entre a etapa de Ribeirão Preto, em 1º de junho, e a Corrida do Milhão, em 3 de agosto. Aqui, há mais um motivo: “A gente também queria ter um calendário mais compacto, começando no fim de março e terminando em meados de novembro, ao contrário de 2013, que começou no início de março e terminou em dezembro. Com mais corridas em menos tempo, o público acompanha mais de perto, é mais fácil gerar mídia.”

Em 2013, o cronograma contou com quatro pausas de mais de um mês. Agora, em 2014, haverá uma sequência de seis provas em 12 semanas entre 3 de agosto e 12 de outubro. A última etapa, marcada para Brasília, será disputada em 16 de novembro.
 

A palavra de quem disputa as corridas

O pentacampeão Cacá Bueno não gosta tanto da curta duração da segunda bateria, mas mostra compreender o posicionamento dos promotores. Chamado por muitos de ‘reclamão’, o carioca aprova as novidades. “Não dá para fazer duas corridas de 40 minutos, não cabe na televisão. Nisso, a gente tem de entender a parte do promotor. Mas, financeiramente, era difícil aumentar o número de finais de semana, então aumentaram o número de corridas. Em 21 provas, a sorte define menos, porque você tem mais etapas e mais chances de mostrar seu valor”, comenta à REVISTA WARM UP. Cacá também é favorável à etapa com os pilotos-convidados como uma forma de promover o evento.

Seu companheiro de equipe na Red Bull é outro que está otimista. “Gostei bastante de todas as mudanças. Gostei de ter etapa com duas corridas. Gosto de correr, de ir para a pista, de disputar”, fala Daniel Serra à RWUp. “Eu gostaria, no meu mundo perfeito, de uma corrida de 1h30, com dois pit-stops, mas a gente sabe que não dá para fazer. Então, acho legal assim. Acho que vai ficar bem interessante.”

Campeão em 2010, Max Wilson segue a mesma linha de Cacá. “Às vezes é fácil se enganar, achar que vai ser bom ou não e, quando acontece de fato, você vai ter que ter a leitura correta. Mas acho que são mudanças positivas. Mais provas é mais emoção para os pilotos, as equipes, o público. Acho que a gente tem condições de fazer um bom espetáculo”, comenta à WUp.

Para o chefe de equipe Rosinei Campos, “tudo é uma questão de melhorar a visibilidade da categoria”. “É bacana. E a rodada dupla também vai ser mais tempo de exposição na televisão. Isso ajuda os patrocinadores a terem o retorno que eles querem”, diz à WUp.

Um que é mais cético com relação às mudanças é o paulista Átila Abreu. O piloto tem um pé atrás com relação à corrida com convidados – ele é contra essa prova valer pontos para o campeonato. Também pede que o regulamento bloqueie, nas rodadas duplas, estratégias que possam acabar manchando a imagem da categoria, como deixar que um piloto vença a primeira bateria fazendo um reabastecimento mais curto e abandone a segunda sem combustível.

“Achei essa ideia do piloto-convidado uma ideia promocional legal, mas o jeito que ela foi colocada é meio estranho. Não gostei muito. Se tiver que fazer uma corrida promocional, que traga grandes nomes e tudo, não tem que ter o compromisso. Patrocinadores que eu tenho querem trazer pilotos que têm expressão mundial e eu não posso trazer porque não sei exatamente se o cara vai chegar aqui e ser competitivo”, avalia à WUp. Átila acredita que o fato de essa corrida valer somente metade dos pontos não compensa “porque pontos são pontos e fazem a diferença” na hora de uma eventual briga por título.

Das rodadas duplas, Átila gosta mais. Ainda que pense que o grid invertido possa privilegiar aqueles que não necessariamente fizeram o melhor trabalho, o sorocabano crê que, no final, quem vai brigar pelo título realmente serão os melhores do ano. Somente alerta: “Uma coisa que acho que se não tomarem cuidado vira zona, deixa de ser corrida, vira bagunça e é melhor tirar na bolinha para ver quem ganha é a questão do reabastecimento. Pelo o que falaram, a gente não pode mexer no carro entre uma corrida e outra, só calibrar. Tendo duas corridas, esse tanque não aguenta. Sendo dessa maneira, se você não puder abastecer no intervalo entre uma e outra, vai acontecer de um piloto colocar os cinco litros que precisa para vencer a primeira corrida e na segunda vai abandonar.”
Crítico sempre, Cacá vê as mudanças de 2014 como positivas e boas para o espetáculo. (Foto: Rodrigo Berton/Warm Up)
Principal nome da Stock Car na atualidade, Cacá se diz contente por ver que a categoria vive, em sua opinião, um bom momento. “Parece que a categoria voltou a ter uma curva de crescimento adequada, com qualidade de patrocinadores, de pilotos, regras mais claras... Parece que está de novo crescendo para o lado do bem”, discorre.

Wilson, por sua vez, destaca que o certame conseguiu se firmar como um caminho bastante profissional para os pilotos brasileiros. “Pessoas da minha geração, como o Rubinho [Barrichello], e até da geração do Ricardo [Maurício] tiveram contato com essa categoria depois de ter corrido em outros lugares do mundo. Mas tem pilotos que hoje nunca saíram do Brasil e só correram na Stock Car. Hoje, esses pilotos têm uma categoria profissional dentro do país para tentar fazer uma carreira. Na época em que eu era mais jovem, a Stock Car já existia, mas não era nem de perto o que vem sendo nos últimos anos”, analisa. Max só veio competir no campeonato após passar alguns anos na V8 Supercars, na Austrália.
 

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