Edição 46
Janeiro/2014

Grandes Entrevistas: Luiz Razia

“Era um sonho, eu tinha conquistado um sonho. Tinha conseguido aquilo que eu sempre sonhei. Para alguns, pode ser uma merda, mas para mim era tudo. Era o que eu tinha na época”

HUGO BECKER, de Guarulhos
A F1 passou, e Luiz Razia soube superar os momentos de depressão fazendo o que mais sabe da vida: correndo (atrás). (Arte: Rodrigo Berton)
ovembro já ia pela metade quando Luiz Razia se preparava para o segundo de três dias de testes coletivos do GT Open em Barcelona. Piloto da Bhaitech Racing, foi nesta categoria que o piloto de 24 anos, nascido a 4 de abril de 1989 na cidade de Barreiras, na Bahia, começou a se reerguer depois do grande pesadelo que se transformou a F1 em sua trajetória e que fez de 2013 um dos anos mais difíceis – senão o mais difícil – de sua vida profissional no automobilismo.

Dono de sucesso e bons desempenhos por todas as categorias pelas quais passou na base, Razia foi vice-campeão da GP2 em 2012, perdendo o título para o italiano Davide Valsecchi, futuramente confirmado como piloto reserva da Lotus. A boa performance valeu ao brasileiro a vaga de titular na Marussia, time no qual foi confirmado logo no início do último ano e pelo qual participou, ao lado do então companheiro de equipe Max Chilton, de quase toda a fase de preparação para o Mundial. O objetivo maior da carreira estava prestes a se concretizar. No entanto, seus patrocinadores não pagaram o combinado à escuderia anglo-russa e não restou outra saída: o recém-assinado contrato foi rompido, e Jules Bianchi, protegido da Ferrari e então test-driver da Force India, ficou com a vaga.

Foi um golpe difícil de assimilar. "Comecei a ficar bastante depressivo. Para alguns, pode ser uma merda, mas para mim era tudo. Era o que eu tinha na época", diz à REVISTA WARM UP. A carreira e a vida, contudo, seguiram adiante, e a visão sobre seu papel no automobilismo mudou. "Minha mentalidade agora é diferente, sabendo que não existe só a F1 como um jeito de ser um piloto profissional. Você pode ter uma vida decente e ser muito reconhecido fora da F1. Consegui ver meu problema e o que eu passei dessa forma", afirma.
mentalidade mudou, e o piloto baiano procura outras categorias, como o GT Open e a Indy para seguir carreira. (Foto: Divulgação)
O processo que deixou Razia às portas da F1 e em evidência no cenário europeu teve início há 11 anos, em sua terra natal, de um jeito bastante peculiar.

“Meu primeiro contato com um carro de corrida foi com Autocross [atual Velocidade na Terra]. Comecei na Bahia, tinha o campeonato baiano na época. Eu corria em Salvador, corria em Barreiras... E em 2002 e 2003 fui vice-campeão da categoria. Só em 2004 é que eu comecei no kart. Depois fui para Brasília, fiz muito kart lá. Comecei a fazer os campeonatos brasileiros, a Copa Brasil... Praticamente fiz um ano só de kart. Comecei atrasado, tinha 14 anos, então em seguida eu já pulei para fórmulas.”

A primeira experiência do baiano com monopostos foi na F3 Sul-americana. O aprendizado foi quase imediato. Sexto colocado na temporada de estreia, levou o título de forma arrasadora no ano seguinte, com sete vitórias, seis poles e 11 pódios em 16 corridas. O passo seguinte, naturalmente, foi migrar para a Europa, onde encontrou, em suas palavras, um "ambiente mais profissional".

“Aqui a coisa, digamos assim, é muito mais difícil do que as pessoas podem imaginar, porque eu tinha 17 anos, a cultura é muito diferente, as pessoas pensam de uma forma diferente, você não tem seus amigos, sua família... Então, o impacto é muito grande. Acho que tive sorte, porque estava em uma época em que já existia internet. Em 2007, todo mundo já utilizava as redes sociais, então a gente tinha uma comunicação maior do que o pessoal que veio aqui no passado. Mas realmente, para um menino de 17 anos, ir para a Europa e ficar sozinho é uma situação muito complicada. No meu campeonato de 2007, na F3000 Europeia, terminei em terceiro. Foi um ano difícil, mas os resultados foram bons.”

Em 2008, Luiz fez mais uma temporada na F3000 Europeia, ficando em quarto lugar na classificação final, e realizou testes por quatro equipes da GP2, além da estreia na versão asiática da categoria. O caminho para 2009 estava traçado: o brasileiro estreou na principal série de acesso à F1 e lá ficou até 2012. Foram cinco vitórias, uma pole e 15 pódios em 80 largadas. A experiência e a performance competitiva, porém, não pesaram tanto no momento de buscar equipes para estrear na F1: o dinheiro – que não veio – foi a chave para abrir as portas da Marussia em 2013.

“Na verdade, a F1 é uma coisa muito dinâmica, é uma coisa que está em constante mudança, e na época em que eu fui vice-campeão da GP2 – o que realmente abriu os olhos de muitas equipes –, existia um mercado muito fechado, como o mercado desse ano. A única vaga que realmente havia para ser negociada e que era muito boa era a do Adrian Sutil [na Force India]. Naquela vaga, até o último momento, eu tive condições de entrar. Mas eles preferiram fazer o contrato com o Sutil e, provavelmente, fizeram um bom negócio, porque ele realmente fez um bom trabalho – uma coisa que eu não tinha como assegurar à equipe que eu iria fazer, já que eu seria um novato. ”

Outro fator determinante para a dificuldade em conseguir uma vaga na principal categoria do automobilismo mundial, para o baiano, foi a falta de "um fator político forte", nas palavras do próprio piloto.

“Nunca tive um patrocínio grande, de empresas grandes, como o [Sergio] Pérez com a Telmex, ou o próprio [Felipe] Nasr com o Banco do Brasil... As equipes se interessam primeiro porque o piloto dá resultados e, segundo, porque ele tem um patrocinador. Isso dá estabilidade à equipe. Eu, como piloto, sempre tive acordo com a família e com algumas pessoas que ajudavam, mas nunca tive um fator político na minha carreira. Então eles viam um piloto que era bom, que dava resultados, mas não sabiam se eu levaria estabilidade. Apesar disso tudo, consegui fechar com uma equipe onde eu poderia chegar e fazer um bom trabalho. Isso foi, para mim, uma coisa fantástica. O fator principal foi falta de dinheiro.”
“As equipes querem pegar a estrela que vai lá e que, no primeiro ano, vai abafar. Se não mudarem os pneus,
vai ser difícil de acontecer”
Razia também vê uma questão pouco notada como fator de desequilíbrio e empecilho para a chegada de novatos sem dinheiro à categoria: o "preconceito" das equipes com quem faz carreira mais longa na GP2 e só depois de três ou quatro anos obtém algum sucesso – caso do próprio brasileiro. “Eles estão errados ao analisar desta forma", vê. Para ele, o problema central na demora da adaptação dos jovens que chegam à principal categoria-escola rumo à F1 foi a troca dos resistentes pneus Bridgestone pelos frágeis Pirelli.

“Quando tínhamos os Bridgestone, você podia trabalhar bastante neles. Isso dava a oportunidade para o piloto já no primeiro ano fazer um bom resultado, no máximo no segundo ano. Já os pneus Pirelli dificultam muito o trabalho dos pilotos. É muito difícil um piloto novato chegar e ter que aprender tudo em uma volta, entende? O pneu dura uma volta...

Então, os pilotos precisam fazer dois ou três anos para entender toda a dinâmica de um final de semana, que tem só meia hora de treino livre e muitas vezes tem bandeira vermelha. Não dá para chegar e virar o Ayrton Senna do dia para a noite. Isso não existe. E acho que as equipes não observam isso, ou elas não querem saber disso. Querem pegar a estrela que vai lá e que no primeiro ano, vai abafar. Isso, se eles não mudarem os pneus, vai ser difícil de acontecer. ”

A maior frustração da carreira de Luiz, então, veio inevitavelmente à tona. No dia 1º de março de 2013, uma sexta-feira, boatos de um possível rompimento do recém-assinado contrato com a Marussia já eram recorrentes, mas a confirmação, de certa forma, parecia pouco provável. Restavam apenas 16 dias para o GP da Austrália, etapa que abria o campeonato, e o brasileiro havia ficado de fora de apenas uma bateria de testes pré-temporada. A notícia caiu como uma bomba para Razia que, de uma hora para outra, se viu afastado de realizar o grande sonho de sua carreira.

Ao enfim quebrar o silêncio, o piloto muda o tom de voz e, deixando transparecer a enorme tristeza ao revisitar o episódio mais difícil de sua vida profissional, conta como foram as horas, os dias e os meses seguintes.

“Vou ser bem sincero: no primeiro instante, achei que tinha sido ruim, mas eu não tinha tomado parte, ainda. No momento seguinte, consegui várias reuniões com outras equipes – Force India, Williams, a própria Lotus –, e a gente tinha negociado para que eu fosse piloto reserva durante as sextas-feiras. Só que os patrocinadores não resolveram o problema deles no momento certo, foi cerca de um mês depois.

Até aquele momento, eu ainda estava forte, digamos assim. Eu estava muito motivado para conseguir voltar ainda antes de começar o campeonato. Depois que começou, eu percebi que a coisa realmente tinha ido embora. Aí comecei a ficar bastante depressivo. Porque era um sonho, eu tinha conquistado um sonho. Eu lembro que toda vez que eu acordava, eu ia para a fábrica trabalhar... Eu tinha conseguido aquilo que eu sempre sonhei. Para alguns, pode ser uma merda, mas para mim era tudo. Era o que eu tinha na época.

Foi muito ruim, fiquei muito para baixo. E para mim, aquilo... [Razia suspira, retomando a fala após breve intervalo]. Foi um mês difícil. O final de fevereiro, março... Foi muito difícil. Na primeira corrida, você vai, vê a organização que é, vê como as coisas são, o nível profissional, onde eu estava 15 dias antes e depois onde fui parar... Ali, acho que me deu mais depressão ainda. Depois foi baixando, fiquei esperando, fui me recuperando. Acho que tive muita força de vontade para continuar procurando várias alternativas. Em um certo momento, eu percebi, olhando em volta – as pessoas que me deram suporte, meus amigos – que tinha uma vida muito legal fora da F1. ”

Veio, então, a mudança na visão do baiano – nada que tenha atenuado a enorme decepção, mas que ao menos lhe dava uma nova perspectiva para a carreira.

“O que fui analisar de toda esta trama à qual eu sobrevivi é que os pilotos brasileiros são muito sonhadores, sabe? A F1 não é a única coisa que existe. Muitos aqui na Europa minimizam, criticam ou até discriminam os pilotos da Stock Car porque “é a Stock”, é “para pilotos aposentados”, mas não, é uma forma de se profissionalizar sem ser tão sonhador. Consegui ver meu problema e o que eu passei dessa forma. Mas foi muito difícil.”

Mesmo com o trauma, contudo, abandonar o automobilismo nunca passou por sua cabeça. "Isso eu não cogitei nunca", enfatiza. Por conta do desfecho com a Marussia, Razia acredita que outras equipes podem ter receio no momento de uma nova negociação – algo que pode ter comprometido possíveis novas oportunidades na F1.

“Cada equipe que for negociar comigo vai ficar com o pé atrás. Então, sabendo já do que aconteceu uma vez, isso causa dificuldade. Mas para falar a verdade, neste ano estive falando com várias equipes, inclusive cheguei a receber algumas propostas de algumas delas, e até então não senti nenhuma resistência. Óbvio, eles querem saber de onde vem [o dinheiro] e querem se certificar do fator patrocínio. Não vi nenhuma restrição, ou nenhum pé atrás, mas eles querem se certificar de que há um patrocínio atrás.”
“Eu nunca olhei para nada. Sempre foquei na F1.
Meu único objetivo era F1”
Razia ficou contratado 23 dias como piloto da Marussia. (Foto: Mark Thompson/Getty Images)
A dificuldade maior, entretanto, vem da propalada falta de apoio das empresas brasileiras a pilotos do país – algo que é criticado de forma recorrente por Luiz. “Não mudou nada. Continuei procurando patrocinadores, mas talvez por não estar lá dentro, isso piora muito", lamenta. "Estando lá dentro, fazendo GP2, disputando o campeonato, as coisas já são difíceis, estando fora são ainda mais."

A esperança de um novo futuro, de acordo com o baiano, pode estar no sucesso de Nasr em um futuro próximo. "Talvez com ele a coisa possa a começar a mudar", crê. E aponta outro esporte, o MMA, como exemplo de comportamento das empresas tupiniquins em relação à fama e à exposição de um compatriota no esporte. "Alguém começa a fazer sucesso, como o próprio Anderson Silva fez... Digamos e convenhamos, a Globo nunca iria colocar o UFC na TV, porque ele é considerado um esporte não-educativo, digamos assim, e no fim está aí na TV, tem um monte de brasileiro que consegue patrocínios grandes... Onde o Brasil está ganhando, o patrocínio vai", afirma, contundente.

Passada a frustração com o não ingresso de última hora na F1 e a discreta temporada no GT Open, o futuro continua em pauta na carreira de Razia. A saída pode estar do outro lado do Atlântico Norte: a Indy surge como opção para o piloto, que realizou testes na Indy Lights, pelo time de Sam Schmidt no começo de janeiro. O baiano, contudo, admite que não tinha tanto interesse na categoria norte-americana antes de perder a vaga na Marussia.

“Eu nunca, digamos assim... Vamos colocar as palavras certas: eu nunca olhei para nada. Sempre foquei F1. Meu único objetivo era F1. E para falar a verdade, eu tinha poucas notícias de qualquer outra coisa. Depois que aconteceu isso tudo, vendo o modo como o mercado da F1 está, eu vi que ali tem uma possibilidade, e não descartei. Tenho falado com algumas equipes, o mercado lá também não está tão fácil quanto as pessoas podem imaginar... Mas eu não iria descartar se alguém me oferecesse um lugar lá. Mas você pode ter certeza: para qualquer lugar que eu for no ano que vem, vai ser por puro trabalho, porque eu não tenho patrocínio.”

Um dos trabalhos paralelos que Razia exerceu ao longo de 2013 foi o de convidado do Auto Esporte, programa que vai ao ar na Globo nas manhãs de domingo e no qual o piloto apresenta detalhes técnicos dos carros e até mesmo informações sobre os bastidores das principais categorias europeias. A experiência caiu no gosto tanto dele quanto da TV7, produtora independente que prepara o programa.

“Isso foi um trabalho totalmente à parte. Eu costumava fazer vídeos para a Internet, que se chamavam 'Drive Riot'. Fiz alguns sobre F1, trazendo mais informação ao público sobre coisas técnicas, fiz várias coisas legais, falando sobre telemetria, aerodinâmica, muitas coisas que o pessoal gostou. E o Thiago Songa, produtor do Auto Esporte, gravou comigo uma matéria em 2010 – eu estava na GP2. E, pô, ele achou legal, a gente gostou de ter feito a matéria, ele gostou do jeito que eu falava, à beça, tranquilo... Aí a gente começou a fazer uma sequência de matérias, mas foi um processo muito natural. Acho que foi mais por ele ter gostado de como eu conduzi as matérias. Foi naturalmente. Foi acontecendo, eles foram gostando, a gente foi fazendo e foi virando um trabalho, hoje trabalho para o Auto Esporte. Acho que é super válido fazer isso. Muita gente me questiona, mas eu gosto bastante e é um trabalho.”

Razia se recriou em meio à própria dificuldade profissional e, na falta de um novo rumo, encontrou diversas alternativas ligadas ao automobilismo – além, evidentemente, de continuar a exercer sua função como piloto – para continuar na ativa. A superação e o consequente sucesso, relegados a pontos de vista, não impediram o baiano de encaminhar novas trajetórias para seu futuro e, em todas elas, encontrar satisfação, apesar da mágoa. O futuro não deixou de ser promissor para Luiz graças a uma grande lição aprendida em meio à decepção.

“Minha mentalidade agora é diferente, sabendo que não existe só a F1 como um jeito de ser um piloto profissional. Você pode ter uma vida decente e ser muito reconhecido fora dela.”
 

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