Edição 46
Janeiro/2014

Stop & Go: Cristiano da Matta

“Não acredite na sua cabeça. Tem conserto, mas é demorado”

GABRIEL CURTY, de São Paulo
Cristiano da Matta ficou 50 dias internado depois de um acidente inusitado: atropelar um veado durante um treino com um carro da Cart. (Arte: Rodrigo Berton)
ristiano da Matta sofreu um acidente bizarro em 2006 durante um treino com um carro da então Cart em Elhkart Lake. O brasileiro acertou um veado que atravessou a pista e entrou em coma com o choque frontal do animal em sua cabeça. Em coma por uma semana e internado por 50 dias, o mineiro teve um processo longo de recuperação, chegou a voltar a correr, mas hoje se dedica às bicicletas – tanto por hobby quanto por profissão, trabalhando com os irmãos em uma empresa que fornece material completo para o ciclismo.

Revista Warm Up: Você passou por uma situação similar à de Michael Schumacher ao ter ficado em coma naquele acidente em um treino em Elkhart Lake em 2006...

Cristiano da Matta: Lógico que eu não sei qual foi o nível da lesão que ele teve comparada com a minha, então não sei se o que eu falo pode ser relacionado, se é certo ou não. Mas do meu lado, da lesão que eu tive, é um processo longo. Mas eu estou torcendo muito pra que a lesão dele não seja igual a minha, pra que seja alguma coisa melhor, porque demora. Demora muito. Aí depois que você já tem um ano tratando, você pensa: “ah, agora eu estou zero”, mas aí passam seis meses, e você pensa assim: “nossa, seis meses atrás, eu achava que estava zero, só que agora é que eu estou zero”. Aí passam mais seis meses, e você pensa igual, e isso ocorre inúmeras vezes. Tem conserto, no final das contas, pra mim deu tudo certo e legal, mas é demorado.

WUp: Isso que falou dos seis meses, ainda acontece ou você sente que agora está bem?

CdM: Não, agora já passou isso. Mas agora nós estamos falando de um acidente que aconteceu em 2006, então foram sete anos, né? Eu vou te falar que até, talvez, o quarto, quinto ano ainda pensava isso. Não sei te falar a data precisa em que eu parei de sentir isso, mas demorou.

WUp: E você se lembra qual foi a sua primeira reação ao acordar?

CdM: Não. Era uma coisa que... eram algumas pequenas acordadas, né? Acordava, ficava acordado um pouquinho, dormia de novo... Então, eu me lembro mais ou menos pelo que me contam, “não, você não ficava acordado, você abria o olho assim, dava uma notícia de uma ou duas coisas, falava de uma ou duas coisas e pronto”, quando falava. Porque na maioria das vezes não falava nada.

WUp: Quando você acordou definitivamente e falou com o médico, qual foi a primeira coisa que perguntou para ele?

CdM: Não lembro também. Não faço ideia de quando acordei definitivamente. Acho que isso de acordar definitivamente, num processo de lesão no cérebro, não existe. Você vai acordando, acordando e, cada vez mais frequentemente, o tempo fica maior. É um negócio que não tem uma vez. Não tem resposta pra isso, porque eu não faço ideia, eu não sei nem qual foi a vez que eu considerei aquela em que eu acordei mesmo.

WUp: Pelo menos você se lembra se perguntou aos médicos sobre a possibilidade de voltar a correr ou se teve essa conversa?

CdM: Eu sei que perguntei isso pro meu pai, falei que estava querendo correr logo. Meu pai logicamente sabia que ia demorar um pouco. Mas o cérebro é uma área que é tão complexa, tão pouco conhecida ainda, que o pessoal não sabia falar se ia demorar uma semana, um mês, um ano, não sabiam falar isso. “Vamos tratando e vamos vendo, vamos tratando e vendo, o tempo todo”, diziam. Não tem uma data certa. Lógico que, pra certos tipos de lesões, até tem, mas pelo o que tenho de experiência, não tem data certa.
Da Matta foi campeão da Cart em 2002 e retornou à categoria em 2005. (Foto: Darrell Ingham/Getty Images)
WUp: E você falou que no seu tratamento você teve uma melhora progressiva. Como você encarou isso e como foi sua recuperação?

CdM: É uma coisa que é legal, ser uma melhora progressiva. Porque, na verdade, pra ter uma melhora progressiva, você tem que estar ali, ralando. Sei que estar ralando, fazer fisioterapia, fonoaudiologia, todo santo dia, como qualquer pessoa normal, é uma coisa que, de uma hora pra outra, vai deixando de saco cheio. Mas você ver o resultado vindo faz você pensar que “não, eu estou vindo aqui e estou ficando mais legal”. E desde então, desde a hora que você começa a lembrar de alguma coisa, você já tem aquela sensação de que “eu estou zero”. Só que aí no começo, você pensa: “nossa, ontem eu achei que estava zero, mas é hoje que eu estou”. E isso depois vira de seis em seis meses, de ano em ano, e vai espaçando progressivamente como todo o processo.

WUp: E qual foi o momento mais difícil durante a recuperação?

CdM: É difícil de falar. Foram tantos momentos difíceis. Mas a recuperação, de um jeito ou de outro, é uma parte, fora a ralação de fisioterapia e fonoaudiologia e tudo que você tem que fazer e reaprender, que é difícil. Tudo que você tem de ralar pra conseguir de novo, não cai do céu, mas é um negócio que te dá gosto, porque você tá sempre vendo uma melhora clara em tudo que você tá fazendo, então é muito positivo, nesse ponto. A ralação é ralação, mas isso eu tenho certeza de que, para um cara como o Schumacher, um cara sete vezes campeão mundial, ralação pra ele não vai fazer nem coceguinha. Imagina, um cara que está acostumado a ser campeão mundial, ralação pra ele é outro nível que poucos seres humanos – se é que já existiu algum – conhecem. Então, acho que vai ser um negócio positivo e demorado. Lógico que, de vez em quando, aparecem umas coisas que você sente falta, que você não pode fazer. Eu lembro que, no comecinho, eu ainda não podia andar de bicicleta. E lógico que eu ainda estava numa idade que eu podia correr, mas eu não podia correr ainda. Os médicos me diziam: “Ó, você está praticamente zero, você mentalmente está pronto pra dirigir um carro, mas você ainda não está pronto pra outra e, no automobilismo, você tem de estar pronto pra outra, então se você tomar qualquer outra pancadinha mais ou menos, você já vai ficar num estado muito sério, já vai virar uma coisa muito complexa. Pensando em tudo que você passou, é melhor ficar longe do automobilismo, por enquanto”. Então isso, pra mim, foi ruim. Logicamente que, com família, amigos, tudo progressivamente voltando, acho que essa parte de algumas coisas que demoram um pouco mais pra voltar é o que às vezes te incomoda um pouco. Tem de ter muita paciência.

WUp: Ainda tem alguma coisa que você não pode fazer? Alguma coisa ficou limitada pela lesão?

CdM: Hoje em dia, não. Na verdade, meu acidente foi em agosto de 2006; em novembro de 2007, o médico me liberou pra andar de carro de corrida. Foi a última coisa que me seguraram. Assim, depois que eu fui liberado pra andar de carro de corrida, disseram: “cara, você pode fazer o que você quiser, o que bem entender”, então essa foi a última das coisas. Hoje em dia, até andar de carro de corrida eu posso.
“O que aconteceu com o Schumacher deve ter sido uma fatalidade, igual aconteceu comigo”
WUp: Quanto à preparação para voltar a correr, como foi?

CdM: É um negócio que, na verdade, eu nunca tive do jeito que eu gostaria de ter. Porque eu nunca voltei a correr de verdade depois que eu parei. Eu parei quando tinha 32 anos, então ainda tinha muita carreira pela frente e eu queria voltar, lógico. Fui liberado no final de 2007, aí consegui alguma coisinha pra correr nos EUA, naquela categoria de endurance deles [Grand-Am], mas acabou que, no início – maio, mais ou menos, não lembro exatamente – de 2008, veio aquela crise econômica e todos os patrocinadores de todos os esportes meio que saíram. Então eu não tive a chance de voltar 100% – até porque, de uma hora pra outra, um patrocinador não quer perder um cara que já tá ali, firme e eu, no final das contas, tava vindo de um espaço de um ano, um ano e meio, praticamente parado. Então, é difícil pegar um cara que tá voltando à ativa e tudo mais, depois de acidente, de lesão cerebral. Eu não tive a chance.

Depois disso ainda tentei fazer F-Truck aqui no Brasil, mas que é um negócio que, considerando aquilo que eu já tinha competido anteriormente, não foi algo que eu achei legal pra fazer porque eu estava tão acostumado com um nível tão elevado no automobilismo. E depois, ainda tentei fazer a ALMS, que também não foi legal, porque, ainda por consequência da crise, a equipe que eu corri chegou em junho, e eles não tinham me pagado nem o de janeiro ainda. E o cara ficava enrolando, enrolando, enrolando, que eu falei: “se não tiver na minha conta até tal dia, pode arrumar outro cara”, e aí apareceu um outro cara lá que corria de graça. Então, na verdade, eu nunca voltei. Mas é um negócio que, como em qualquer outro esporte, eu tenho certeza de que é uma coisa que leva um tempinho. Porém, eu tenho certeza de que, pro Schumacher, não vai ser nenhum problema.

WUp: Então nem é possível julgar se o seu desempenho nas pistas foi afetado.

CdM: Não, não dá pra julgar. Por alto, se você me perguntar, eu acho que não mudou nada não. Mas, achar é uma coisa, fazer é bem diferente. Eu acho que, logicamente se tivesse passado por treinamentos, por tudo que eu precisei passar pra chegar onde eu consegui chegar, eu acho que conseguiria voltar sem problemas.

WUp: O acidente causou algum trauma?

CdM: Não, não. Nada. É que é chato, eu queria ter continuado a minha carreira, continuar sempre correndo, e como eu parei de correr, com 32 anos de idade, é novo demais, né?

WUp: Nem do tipo, aparecendo um veado na sua frente, ter vontade de bater ou espantar o animal.

CdM: Não, não [risos]. Isso não tem problema. O problema maior é, talvez, com o pessoal da pista, que sabe que é uma região dos Estados Unidos que tem tantos, que tem até temporada de caça... pessoal deveria ter cercado o lugar um pouco melhor. Acho que se eu encontrasse com o cara que cerca a pista num bar, aí acho que talvez saísse pancada.

Wup: Em relação ao caso de Schumacher. Você esquia?

CdM: Não, não. Nunca tentei esquiar e sempre é um esporte que todos me dizem pra tentar, que é legal demais, inclusive tenho vários amigos que vivem tentando ultimamente, que andam de bicicleta comigo, fazem mountain bike o ano inteiro, e falam: “você tem de esquiar”, mas eu nunca fui. Quando eu estava morando lá, na época de esquiar eram férias, porque está nevando, então não tem onde treinar. E era a única época que eu tinha pra ficar aqui no Brasil com a família, então nunca esquiei.

WUp: Depois desse acidente com Schumacher, ainda tem vontade?

CdM: Ah, eu continuo tendo vontade, porque eu acho que o negócio que aconteceu com o Schumacher deve ter sido uma fatalidade, igual aconteceu comigo. Um veado atravessou a pista na minha frente, eu tenho medo de andar de carro de corrida de novo? Não, não é todo dia que um veado atravessa a pista na frente de um carro de corrida. O do Schumacher eu acredito que tenha acontecido algo parecido, alguma coisa dessas que acontece uma vez em mil. Esses casos que aconteceram comigo e com o Schumacher é que nem “ah, está chovendo e eu não vou à padaria porque pode cair um raio na minha cabeça enquanto eu estiver atravessando a rua, então não vou sair de casa”.

WUp: Se o Schumacher te pedisse um conselho, o que diria a ele?

CdM: É uma boa pergunta. Acho que são tantas coisas pra falar que estou demorando pra filtrar. Mas naquela sensação do “agora eu estou zero”, “hoje eu estou zero”, aí no dia seguinte “antes eu achava que estava zero, mas agora que estou zero”, aí na semana seguinte, aquela história toda que eu falei anteriormente, eu falaria assim: “espera, porque vai demorar muito, essa história ainda vai muito longe”. Mas eu torço mais que tudo, que o negócio dele não tenha sido do nível do meu. Acho que nem os médicos conseguem dizer ainda 100%, mas eu torço que o dele não chegue no ponto que o meu chegou. Tomara que não chegue, tomara que ele não tenha que passar por esse processo todo. Mas vamos dizer que, supostamente chegasse no nível que eu cheguei um dia, eu ia falar pra ele assim: “Não acredita na sua cabeça, que você vai ver que, no dia seguinte, na semana seguinte, no mês seguinte, no ano seguinte e assim por diante, você vai ver que demora. Mas paciência que chega”.
Depois de ser campeão na Cart, Da Matta tentou a vida na F1, sem sucesso. (Foto: Clive Mason/Getty Images)
 

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