Edição 46
Janeiro/2014

Superfinal: Fórmula de japonês

Apesar de não ser tão conhecida no ocidente, a Super Fórmula, principal categoria de monopostos do Japão, não deve nada à Indy e à GP2. Os planos, no entanto, são mais ambiciosos: deixar de ser uma ‘fórmula de japonês’ para incomodar a F1

RENAN DO COUTO, de São Paulo
Cada uma com a devida importância, a F1, a Indy e a Super Fórmula são os três maiores campeonatos profissionais de monopostos do planeta. (Foto: Divulgação/Super Fórmula)
uem acompanha o esporte, não importa qual a modalidade, consegue perceber que ele reflete algumas características da sociedade. Olimpíadas e Copas do Mundo são grandes exemplos disso. O trabalho realizado por cada delegação, a postura dos atletas e a vibração da torcida são alguns dos indícios. No automobilismo, não é diferente. Falamos bastante da rígida organização do esporte a motor europeu, ou então do show criado em torno das corridas nos Estados Unidos. E, do outro lado do mundo, o automobilismo japonês é, assim como o próprio Japão, bastante peculiar.

É verdade que não acompanhamos muito o que acontece nas pistas da terra do sol nascente. Mas não é algum tipo de preconceito contra pilotos nipônicos. É que, bem como muitos outros temas relacionados ao Oriente, o automobilismo de lá também é algo bem distante para o povo ocidental. E, apesar de ficar bastante restrito à pequena extensão territorial do arquipélago oriental, o esporte a motor do Japão é forte, tem vida própria e apoio de montadoras em dois grandes campeonatos. O principal é o Super GT, de carros de turismo, mas é a Super Fórmula – antiga F-Nippon – que representa um fenômeno mais curioso.

Cada uma com a devida importância, a F1, a Indy e a Super Fórmula são os três maiores campeonatos profissionais de monopostos do planeta. No mundo todo, ao contrário do que acontece com os certames de turismo, a maioria das categorias de fórmula é destinada à formação de pilotos. Assim, é notável como os japoneses conseguiram desenvolver e estabelecer um torneio profissional da modalidade. Ainda que a repercussão seja praticamente limitada ao Japão – o que a organização procura mudar nos próximos anos –, a categoria tem bom nível técnico e conta com pilotos reconhecidos. A disputa pelo título de 2013, por exemplo, envolveu André Lotterer e Loïc Duval, que também duelaram pela taça do Mundial de Endurance (WEC). Enquanto o francês levou a melhor nas corridas de longa duração, o campeão da Super Fórmula acabou sendo Naoki Yamamoto, uma vez que os dois pilotos da Audi ficaram de fora da etapa decisiva, em Suzuka, pois estavam disputando as 6 Horas de Xangai.

Quem conhece bem todas essas peculiaridades do campeonato é o piloto brasileiro João Paulo de Oliveira. “É supercompetitivo”, define à REVISTA WARM UP o campeão da temporada 2010. Outro brasileiro que atua por lá é o engenheiro Ricardo Divila. Ele trabalhou por sete temporadas, entre 2002 e 2008, na então chamada F-Nippon e não tem dúvidas: “É uma fórmula bem japonesa.”

“O Japão em si tem categorias de base fortes”, explica João Paulo, “como a F3 e a F-Challenge. Dessas categorias, os melhores se promovem à F-Nippon, então ela tem uma concentração boa de pilotos. E além dos melhores pilotos do Japão, ainda tem muitos estrangeiros bons, como André Lotterer, Loïc Duval, fica um campeonato competitivo”.
João Paulo de Oliveira, estabelecido no Japão, é um dos protagonistas da ‘mini-F1’ japonesa. (Foto: Divulgação/Super Fórmula)
Com a atuação das grandes fabricantes de automóveis do país, a Super Fórmula anda lado a lado com o Super GT. As corridas acontecem em finais de semana diferentes, e boa parte das equipes e dos pilotos atua nos dois campeonatos. É uma forma de as escuderias se manterem ativas por mais tempo ao longo do ano – e foi nesse esquema que Divila participou da SF. “Entre o GT e a F-Nippon, o piloto vive bem”, diz o engenheiro à WUp. “A maior parte corre na mesma equipe do Super GT. Geralmente tem o patrocínio semelhante e os pilotos são profissionais”, comenta.

Divila, que já trabalhou no Mundial de F1, enxerga a categoria em um ótimo nível técnico. Para ele, a SF não deve muito à F1. Ou melhor, “é uma mini-F1”.

“A única coisa que você tem é a limitação do pneu: três compostos diferentes para todo mundo, de uma fornecedora única, a Bridgestone. Não tem guerra de pneu. Os motores também são limitados. Há o desenvolvimento e, depois do começo do ano, é congelado, não pode mais desenvolver. E os carros são bem parecidos, não pode fazer muita mudança. Trabalha só com setup, amortecedor, asa. Mas as equipes são nível de F1. Não tem 50 pessoas na pista, mas tem 15, 20 para colocar o carro na competição”, explica.

Se a Super Fórmula chega perto da F1 em termos técnicos, ela está acima da GP2, na opinião de Divila. “Como eu digo, a performance e a aerodinâmica é o que tem de mais perto do F1. Mais do que a GP2. Potência, aderência. O piloto que faz corrida lá, pode passar para a F1. É que já teve essa época”, afirma.

Os dois primeiros campeões da F-Nippon, em 1996 e 1997, são os principais exemplos: Ralf Schumacher e Pedro de la Rosa fizeram carreira duradoura na F1. O alemão teve mais destaque, claro, tendo vencido seis GPs. O espanhol continua lá, atuando nos bastidores como presidente da GPDA (Associação dos Pilotos, na sigla em inglês) e reserva da Ferrari. Outro que foi até Japão antes de retornar à Europa para a F1 foi Ralph Firman, campeão em 2002. Há, ainda, aqueles que estão ganhando a vida em outras categorias, como Tom Coronel (WTCC) e Benoît Tréluyer (WEC); os que se dividem, como André Lotterer, Loïc Duval e Kazuki Nakajima, disputando também provas no WEC. Esse último, aliás, teve chance na F1, entre 2007 e 2009, com a Williams. E há ainda casos como o de JP de Oliveira.
Para Ricardo Divila, o que existe hoje no Japão é bem semelhante ao que existia na Europa dos anos 1970
Kazuki Nakajima, ex-Williams, quem diria, vencendo corridas e levando no #1... (Foto: Divulgação/Super Fórmula)
Lotterer não tem dúvidas de que a SF pode ser uma ótima preparação para a F1. “A categoria é muito boa, pois os carros são de um nível muito alto. Se você pegar os nossos carros de ponta, eles são mais rápidos que os mais lentos da F1, e o nosso melhor tempo de classificação talvez seja similar ao top-3, top-5 deles, em ritmo de corrida. Não é muita gente que conhece, mas qualquer um dos quatro ou cinco melhores está pronto para fazer F1 a qualquer momento”, diz à RWUp.

Oliveira pensa de forma um pouco diferente, mas por uma questão de projeto de carreira. “É difícil. O Japão já é um ambiente profissional. Se você faz um bom ano, você vai ter uma boa oferta no Japão. Aí, para você sair, pode já não ter uma oferta boa. Cresce dentro do Japão, mas, fora, fica menos exposto”, comenta.

E o brasileiro ressalta que não é nada fácil fazer vingar a carreira no arquipélago. “O Japão é um lugar que requer uma adaptação forte. Não é qualquer piloto que se adapta lá porque o estilo de trabalho dos japoneses e a forma de você se relacionar com eles é muito diferente do europeu, por exemplo. São muito mais metódicos e lentos de pensamento com relação a fazer mudanças. Não são tão radicais.”

“Morar lá é um negócio que é muito pessoal. Eu estou há dez anos e muito bem adaptado. Se você está fora de Tóquio, são lugares em que você não tem alternativa, então é muito diferente. Em Tóquio, você pode ter uma vida bem tranquila, não precisa sair tanto do que você está acostumado, porque tem tudo”, afirma. O fator idioma é mais um complicador. “Falo mais ou menos. Faço um bem bolado”, conta.

Apesar dos compromissos com a equipe da Audi no Mundial de Endurance, Lotterer passa a maior parte do tempo no Japão. Morando em Tóquio há mais de uma década, o campeão de 2012 da Super Fórmula é embaixador da Audi no país e se adaptou ao modo de vida que encontrou. “Faço as minhas corridas lá, testes e também gosto do meu estilo de vida em Tóquio. Estou morando lá há alguns anos, tenho bons amigos, gosto dos restaurantes, ando de bicicleta, sou embaixador da Audi, então me deram um R8 Spyder – é muito legal andar pela cidade com ele. Também tento tornar o esporte mais popular no Japão”, diz o alemão.

Divila também destaca essa questão do modo de vida. Para quem lida com o automobilismo, o que existe hoje no Japão é, na visão dele, bem mais semelhante ao que existia na Europa dos anos 1970. Atualmente, nas corridas no velho continente, cada um faz a sua parte na pista e vai embora para o próprio canto – ocorre uma dispersão. “No Japão, os estrangeiros estão perdidos no meio dos japoneses. Então todo mundo se encontra, janta junto, sai junto, passa as férias junto”, fala.
 
Dentro desse ambiente, os laços de amizade criados também tornam as rivalidades mais saudáveis. Lotterer, Duval e Tréluyer, por exemplo, se conheceram no Japão antes de se juntarem para defender a Audi no WEC e se tornarem vencedores das 24 Horas de Le Mans. E, no caso da briga pelo título de 2013, Duval não hesita ao dizer à RWUp que, antes de ser adversário de Lotterer, é um “grande amigo”.

“Moramos juntos por muitos anos, somos bem próximos, então a relação é bem fácil. Claro que brigamos na pista, mas se conseguimos nos tornar pilotos da Audi hoje é porque pudemos disputar entre nós. E é claro que você melhora quando concorre com pilotos tão competitivos. No fim, é um jogo e é diversão”, relata.

No que diz respeito à competição, Duval, campeão de 2009, mostra gostar bastante. Seguir disputando a SF paralelamente ao WEC é um complemento para ele. “Para nós, que estamos no endurance, dividindo o protótipo com os companheiros, ter a oportunidade de correr na Super Fórmula é velocidade pura. É como a F1, tudo é velocidade, pois as corridas são curtas. A aderência dos pneus, a potência que você tem, o carro em si, o quanto ele é leve, você tem essa sensação de velocidade que não tem tanto no endurance”, compara.

Para continuar a atrair pilotos como Lotterer e Duval e aumentar o nível da competição, a organização está tentando mudar o caráter regional da SF. O primeiro passo foi justamente a mudança do nome: a JRP (Japan Race Promotion) anunciou, em agosto do ano passado, que a F-Nippon se chamaria, a partir de 2013, Campeonato Japonês de Super Fórmula – ou simplesmente Super Fórmula. No comunicado que anunciou a alteração, a meta estava tão clara quanto a neve que cobre o Monte Fuji: “Colocar o campeonato no mesmo patamar da F1 e da Indy com o slogan ‘avançar com a tradição, dar um passo gigante rumo ao futuro.’”

Oliveira pensa que a falta de exposição internacional é o grande pecado da Super Fórmula. “A Indy é muito mais bem vista no mundo inteiro do que nós. Acredito que a Indy deveria ter mais visibilidade do que tem. Nós temos uma visibilidade baixíssima, por estarmos no Japão. É um mundo que eu quero tentar promover um pouco mais. Colocar um live-timing, site com transmissão ao vivo... Isso a gente vem discutindo há muitos anos”, analisa.

O processo de internacionalização da categoria compreende a necessidade de voltar a crescer dentro do mercado japonês e inclui a estreia de um novo carro, construído pela Dallara, em 2014.

Sobre a questão da popularidade, a SF não chega a viver dias difíceis, mas foi um tanto afetada pela crise econômica mundial que estourou em 2008. Embora não tenha sido o único país atingido, o Japão sofreu bastante. Foi nessa época que Honda e Toyota deixaram a F1. Além disso, a atenção dada à categoria pelo público não chega perto da que o Super GT ou a F1 têm. “A Super Fórmula é menos promovida, então tem um pouco menos de público, mas eles são fãs muito ‘hardcore’”, descreve Lotterer.
O novo bólido, fabricado pela Dallara, deve ser mais veloz que o DW12, da Indy, e o GP2/11
No paddock, existe uma preocupação em permitir uma boa proximidade entre público e pilotos, ainda maior do que no Mundial de Endurance, segundo Duval. O francês, aliás, concorda com o companheiro de Audi e destaca a fidelidade dos torcedores. “Falando por mim, sei que os japoneses estão realmente orgulhosos pelo que André e eu estamos fazendo na Audi, vencendo em Le Mans e no Mundial, e, por isso, ganhamos mais fãs, que ficam felizes por a gente continuar correndo no Japão”, avalia.

Divila, por sua vez, está curioso para ver como se desenhará a Super Fórmula em 2014 com esse processo de internacionalização. Comandante do campeonato, Hiroshi Shirai manifestou o desejo de contar com carros tão rápidos quanto a Force India. Com o passar do tempo, ele percebeu que essa meta seria complicada de ser atingida, principalmente pelo alto custo que implicaria. Contudo, nada que fosse um grande problema. A JRP se acertou com a Dallara para fazer o monoposto que será usado no ano que vem, substituindo os modelos Swift, na pista desde 2009. O novo chassi se chamará SF14.

A encomenda feita aos italianos, que também fabricam os carros da Indy e da GP2, foi por um carro leve – o chassi pesará 650 kg – e rápido. O design é semelhante ao da GP2, mas não privilegiou tanto a pressão aerodinâmica, levando em conta que os autódromos japoneses ficam no meio-termo entre pistas travadas e de altíssima velocidade. E, se não será possível andar tão rápido quanto uma Force India, o bólido deve ser mais veloz, ao menos, que o DW12, da Indy, e o GP2/11.

Esse foi o primeiro projeto da Dallara concebido, inicialmente, em um simulador. Antes de manufaturar as peças do primeiro chassi, a construtora realizou diversos testes em um computador. Neste processo, várias mudanças foram feitas até que uma base fosse preparada para a concretização do projeto.

Além da nova cara, os carros terão um conceito novo de motores, V4 turbo. Aqui, a lógica é a mesma da F1 2014: trabalhar a eficiência dos propulsores de olho no mercado de carros de rua e no futuro da indústria automobilística. Honda e Toyota embarcaram na empreitada, enquanto a Nissan optou por ficar de fora em um primeiro momento.

“Vai ser um ano de muitas mudanças. Fiz um teste com o carro novo e parece ser bem bacana. É bem diferente do que a gente está acostumado. É outra história, vai mudar tudo. O carro que a gente estava utilizando já vinha de quatro anos, as equipes já estavam com um carro bem-feito. Vai ser o ano em que algumas equipes podem sobressair”, crê Oliveira.

“Hoje os grids estão pequenos, com 18 carros. Vamos ver no próximo ano se vai melhorar. Já teve grid de 25 carros e era bem competitivo. Tenho a impressão de que o novo campeonato vai ser bem interessante. Os carros estão com uma cara leve, com um motor eficiente, boa aerodinâmica, é um campeonatinho interessante”, analisa Divila. “Tem a Toyota e a Honda. Agora, vão ter motores V4, mais próximos do carro de produção, especialmente trabalhando com a eficiência de gasolina, possivelmente é a nova ala para formar novos pilotos japoneses. Não sei para que lado vai porque estamos em uma época difícil no mundo inteiro no automobilismo. Enquanto não arrumar a economia, vai ficar nesse marasmo que tá. É meio difícil”, continua.

Divila, no entanto, acredita que a economia nipônica já se recuperou e, nos dois últimos anos, esteve bem em relação ao resto do mundo. Aí, a confiança de que o esporte também vai voltar a crescer reside no envolvimento das montadoras. “Tem fábrica no meio, né? E fábrica que investe”, acrescenta.

Talvez a expansão da Super Fórmula não consiga superar a barreira do fuso horário e do idioma, e o campeonato continue sendo visto como uma ‘fórmula de japonês’ aqui no Ocidente. Ainda assim, para quem gosta de automobilismo, a categoria é bastante interessante, com a peculiaridade típica dos orientais. Duval garante: se você for ao Japão, vai gostar. “Os brasileiros que forem passar férias no Japão deveriam assistir a uma corrida. Se são fãs de automobilismo, poderão ver o quão competitivas e divertidas são as corridas de lá”, convida.

Divila, por fim, faz um alerta. “Uma coisa é importante falar, que o pessoal esquece vendo o japonês andar fora do Japão e acha que ele não é rápido. Em casa é bem diferente, viu? Estão em casa, no grupo deles, é osso duro de roer”, enfatiza Divila. Isso porque nove dos 18 campeonatos disputados até hoje foram vencidos por pilotos locais.
A Super Fórmula tem a concorrência sadia de Honda e Toyota. (Foto: Divulgação/Super Fórmula)
 

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