Edição 47
Fevereiro/2014

Americo Teixeira Jr
Equívoco no caminho de Pedro Piquet

Numa sucessão de erros, a Confederação Brasileira de Automobilismo permitiu que Pedro Piquet disputasse a Toyota Racing Series na Nova Zelândia e obrigou-lhe a abandonar o campeonato pela metade

AMERICO TEIXEIRA JR, de Vinhedo
atado de 5 de fevereiro, o formal pedido de desculpas da Confederação Brasileira de Automobilismo ao piloto brasileiro Pedro Piquet, aparentemente colocou um ponto final num episódio cujo principal pecado foi ter submetido um garoto de 15 anos ao constrangimento de ser impedido de continuar numa competição no outro lado do mundo, estando ele em plena atividade de pista.

Assinado pelo presidente da CBA, Cleyton Pinteiro, e Giovanni Guerra, presidente da Federação de Automobilismo do Estado do Maranhão (FAEM), entidade na qual o jovem piloto está filiado, o documento foi originado por uma série de equívocos. A confusão toda começou em dezembro, quando Pinteiro emitiu a carteira internacional de Pedro Piquet, que completará 16 anos no dia 3 de julho de 2014.

De fato, a FIA havia autorizado a emissão de carteira para piloto de 15 anos, contanto que completasse 16 anos ao longo do ano de credenciamento. Isso foi decidido para evitar as costumeiras correrias por aqueles que somente contavam os dias para, após o 16º aniversário, estrear nos monopostos. A decisão teve apenas esse caráter burocrático, tendo sido mantida a premissa básica de que o piloto só poderia disputar provas com 16 anos completos.

"Mas houve um equívoco, inclusive de minha parte e é por isso que pedi desculpas", disse Pinteiro, que emitiu a carteira pensando que o garoto estivesse liberado para correr. Munido do documento, Nelson desembarcou na Nova Zelândia no final do ano com o filho Pedro para a Toyota Racing Series. Contratos, planejamento e despesas – muitas despesas – tinham sido baseados num erro de interpretação.

A segurança de Piquet também residia no fato de os dirigentes neozelandeses aceitarem pilotos no grid antes dos 16 anos completos, ainda que sem carteira internacional, mas autorizados por carta pelos presidentes de suas respectivas confederações. Documento similar, assinado por Pinteiro, ele também estava de posse. Só que aí residiu outro equívoco.

Há, sim, casos de pilotos com 15 anos correndo no campeonato apenas com essas cartas, mas o documento só é aceito se proveniente de entidades desportivas não filiadas à FIA. Em se tratando de uma filiada, como a CBA, as regras precisam ser as ditadas pela entidade internacional, que continua proibindo que menores de 16 anos corram de monopostos.

Pesadelo em Cromwell

Gestor da carreira do filho, Nelson Piquet escolheu a categoria pelo seu formato escola. Utilizando chassi Tattus F3 de fibra de carbono e motor Toyota 1.8 L de 215 HP, Pedro participou das duas rodadas triplas de um total de cinco. Era chance única de fazer 15 corridas num espaço de pouco mais de um mês.

A estreia foi no Teretonga Park, circuito localizado na cidade de Invercargill, extremo sul da Nova Zelândia. No final de semana seguinte disputou mais três provas, dessa vez no Timaru International Raceway, na cidade de mesmo nome e a cerca de 400 km a nordeste de Invercargill. Com seis corridas de experiência, Pedro seguiu viagem pela ilha para disputar o Denny Hulme Memorial Trophy no Highlands Motorsports Park, em Cromwell. Lá, como nas duas primeiras rodadas, o garoto de 15 anos foi para a pista com o carro da equipe M2 Competition e disputou os dois treinos da quinta, 23 de janeiro.

Foi aí que o informe sobre o cancelamento da carteira chegou à entidade esportiva local, e o filho de Nelson Piquet, participante ativo até aquele momento, não teve permissão para continuar. Tudo isso que ocorreu em Cromwell foi resultado de outra situação evitável, dessa vez acontecida na secretaria da CBA. Não bastaram as considerações apresentadas e, ato contínuo, a FIA determinou e a entidade brasileira cancelou da licença. As autoridades da Nova Zelândia passaram também a solicitar uma posição vinda do Brasil. Por e-mail e telefone, foram vários os contatos. A insistência era compreensível porque, embora questionada pela FIA sobre a inscrição do piloto brasileiro, a autoridade desportiva neozelandesa dependia de uma comunicação oficial. Foi aí que as armas foram dadas ao "inimigo".

Embora a CBA não se subordine à sua correspondente na Nova Zelândia, mas somente à FIA, a entidade brasileira enviou e-mail informando o cancelamento da carteira diretamente para a Oceania, mesmo com o presidente estando em viagem internacional. Se a informação chegasse ao destinatário pelos meios oficiais, provavelmente Pedro teria participado de mais provas. Mas com o e-mail em mãos, o brasileiro foi retirado do grid.

A reação de Nelson Piquet foi imediata, e três fontes confirmaram a este colunista que uma ação na justiça foi considerada por ele, embora o próprio tenha preferido não se manifestar. Só o tempo dirá se Nelson Piquet realmente está convencido de que o episódio está encerrado. Fato é que sua paciência esteve por um fio nessa situação e sua história mostra que, quando ele entra numa briga, é para valer.


O pedido de desculpas da CBA

A Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), na pessoa do seu presidente Cleyton Pinteiro, e a Federação de Automobilismo do Estado do Maranhão (FAEM), na pessoa do seu presidente Giovanni Guerra, consternados com o episódio ocorrido durante o Campeonato Toyota Racing Series na Nova Zelândia, em consequência de um ato equivocado, vimos a público – e à luz da verdade – pedir sinceras desculpas ao piloto Pedro Piquet. Certo de sua compreensão, permanecemos a disposição com o objetivo de sempre colaborar e apoiar nossos pilotos e nosso Automobilismo.


Foto: Divulgação
 

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