Edição 47
Fevereiro/2014

Grandes Entrevistas: Guilherme Spinelli

“Não dá para comparar o Dakar com rali nenhum. Eu sempre digo: rali é rali e Dakar é Dakar”

HUGO BECKER, de Guarulhos
Guiga Spinelli se firma como maior nome do rali brasileiro entre os pilotos de carros. (Foto: Victor Eleutério/Fotoarena)
impossível falar sobre a história e a evolução do rali no Brasil sem mencionar o maior de seus representantes: um carioca comedido e ponderado fora das pistas – de terra, cascalho ou areia –, mas velocíssimo e arrojado dentro delas. Guilherme Spinelli é o maior piloto brasileiro em atividade na modalidade, e seu talento lhe permite gozar do respeito de seus pares em qualquer competição do planeta, de Abu Dhabi aos desertos sul-americanos, que, nos últimos anos, deram cara ao Rali Dakar, prova por ele disputada em seis oportunidades. Uma disputa tão difícil e emblemática em sua visão que merece até uma descrição especial: "Eu sempre digo que rali é rali, e Dakar é Dakar."

A frase de 'Guiga', como é carinhosamente chamado por amigos pessoais e também dentro do universo off-road, se justifica quando sua performance na disputa continental é colocada lado a lado com seu desempenho no Rali dos Sertões, uma das principais e mais difíceis competições do calendário mundial: enquanto na prova brasileira Spinelli conta com quatro vitórias e quatro segundos lugares em 13 participações, no evento disputado majoritariamente entre a Argentina e o Chile, o máximo que o piloto conseguiu foi um nono lugar, em 2011. "Não dá para comparar o Dakar com rali nenhum", explica.

A proximidade de Guilherme com o rali começou muito cedo – uma paixão herdada pela família. "Meu tio e padrinho José Augusto foi navegador de equipes oficiais, e minha mãe me levava nas largadas que tinham perto da minha casa no Rio", conta. "Naquela época, etapas do Brasileiro e do Carioca largavam das praias do Leblon e de Ipanema, também da Lagoa, e por aí vai... Bons tempos", recorda, nostálgico.

“Sempre gostei de esporte, de competição e velocidade. Comecei com bicicross, depois andei muito de moto, cheguei a treinar bastante para motocross e, assim que fiz 18 anos, estreei no rali. Embora tenha frequentado muito o saudoso autódromo de Jacarepaguá, minha paixão mesmo era qualquer pilotagem em piso de terra... Seja de bicicleta, moto ou carro, eu preferia pouca aderência e pilotagem com derrapagem controlada.”

Como parece ser regra entre pilotos, o primeiro contato com automóveis veio também na fase da adolescência. Curiosamente, no entanto, seu futuro poderia ter sido outro: dentro de um escritório, debruçado sobre pranchetas, como desenhista industrial graduado.

“Comecei a dirigir carros muito novo. Com uns 12 anos, eu já saia sozinho com o carro na fazenda da família em Nova Friburgo. Logo fui aprendendo a andar mais rápido, controlar derrapagens, fazer cavalos de pau e dar uns saltos. Foram vários amortecedores quebrados e alguns paralamas amassados pelos barrancos das estradas.

No fim, eu brinco com o meu pai que ele me pagou duas faculdades... Uma na PUC do Rio, de Desenho Industrial, que acabei não usando por muito tempo, e outra consertando os carros que quebrei, o que acabou virando minha profissão... No fim, ele concorda, embora na época essa 'segunda faculdade' tenha me custado muitas broncas e castigos. Mas valeu a pena.”
O piloto do carro #302 teve apoio da Mitsubishi e da Petrobras para disputar novamente o Dakar. (Foto: Victor Eleutério/Fotoarena)
Curiosamente, o início da trajetória de 'Guiga' no automobilismo não passa pelo kart. Ao contrário da imensa maioria dos jovens pilotos do Brasil, o carioca não se interessou em nenhum momento em ser um piloto de fórmula. "Fui andar de kart depois de já ser piloto de rali. Adoro o kart e acho um super treino até hoje, mas nunca consegui trocar a terra pelo asfalto", explica. Sua paixão genuína, de fato, sempre foi competir na terra. "Quando o assunto era autódromo, eu tinha mais interesse pelos carros de turismo do que pelos fórmulas", relembra.

“Nas décadas de 1980 e 1990, os carros de turismo ainda andavam escorregando, mesmo no autódromo. Nos fórmulas, a guiada sempre foi mais redonda. Por isso, eu nunca quis os fórmulas. Fui me interessar e ter vontade de experimentar mais tarde, no início eu só pensava em rali, mesmo.

Ainda tinha uma outra coisa que me fascinava no rali que era o improviso. No autódromo, mal ou bem, a guiada em geral é como uma receita de bolo... A marcha que usa, onde freia, o traçado e etc. No rali, se usa muito mais o improviso. E, diferente do que muitos pilotos de pista acham, muitas vezes fazemos curvas beirando os 200 km/h na terra.

"Ou seja, dependendo da estrada, as médias horárias podem ser mais rápidas do que em vários autódromos, principalmente os de conceito mais moderno. Além de que as provas são muito mais longas, guia-se muito mais tempo.”

E em matéria de prova longa, nada supera o Rali Dakar. Verdadeiro teste de velocidade e resistência, a competição também testa os pilotos nos mais diferentes tipos de solo – predominantemente, contudo, nos desertos. Como tem mais experiência no cross-country, que conta com predominância de terra e cascalho, 'Guiga' admite que ainda está aprendendo e evoluindo no formato de disputa sob solo arenoso.

“Cada vez mais me sinto mais competitivo e mais rápido no deserto, mas ainda falta para querer andar no ritmo de pilotos como [Stéphane] Peterhansel, Nani Roma e Nasser [Al-Attiyah], que tem mais de 20 participações no Dakar e incontáveis quilômetros de treinos no deserto. Ou seja, chegar entre os dez primeiros no Dakar, hoje em dia, é uma vitória.”

Sincero e ciente das próprias capacidades, Spinelli teve como melhor resultado em seis participações na lendária competição um nono lugar em 2011. "Contei no mínimo umas 15 equipes que tinham obrigação de andar todos os dias na nossa frente", explica o piloto que, na edição de 2014, andou a maior parte do tempo dentro do top-10 e era o 11º colocado quando abandonou a quatro dias do encerramento após uma lesão do navegador Youssef Haddad.

"Neste ano, as coisas foram um pouco frustrantes", admite. "A nossa expectativa era andar mais para frente, ser mais competitivo, mas, infelizmente, por vários fatores, não conseguimos. Nós nos recuperamos aos poucos, e as chances de terminarmos no décimo lugar eram grandes, mas uma infelicidade com o Youssef acabou nos tirando da prova", lamenta Spinelli. "Foi realmente decepcionante, pois faltava muito pouco para terminar, mas não tivemos alternativa."

“Realmente, o rali desse ano foi duríssimo! Dias extremamente longos, com largada sempre em torno das 6h da manhã e quase sempre 800 km por dia. As próprias especiais eram muito mais longas e com pisos muito exigentes... Todo tipo de terreno. Principalmente na primeira semana, era algo em torno de 12h por dia dentro do carro com cerca de 5h a 6h de trechos cronometrados. Mas esse é o conceito do Dakar, que é uma prova incomparável com qualquer outra. Quanto pior, melhor!”

Apesar de não ter concluído a prova, contudo, o representante da Mitsubishi, que competiu pelo segundo ano consecutivo com o modelo ASX, está satisfeito com o desempenho do equipamento. "Durante a temporada de 2013, fizemos ainda o Rali de Abu Dhabi, onde estávamos em terceiro e capotamos nas dunas faltando 100 km depois de seis dias de prova. Depois, ficamos em segundo no Rali dos Sertões, perdendo apenas para o Peterhansel, e ganhamos o Desafio Inca, um rali de deserto do Dakar Series, disputado no Peru", destaca. "Essas provas ajudaram no desenvolvimento do carro, mas, mesmo assim, ainda temos que trabalhar bastante até ele ficar realmente pronto para vencer o Dakar. O carro está cada vez mais competitivo. Mas, para um carro vencer o Dakar, precisa realmente de vários quilômetros rodados antes. É normal para qualquer equipe", ressalta.
“O Dakar é uma prova incomparável com qualquer outra.
Quanto pior, melhor!”
Ainda na edição de 2014 do Dakar, Reinaldo Varela e Gustavo Gugelmin completaram a equipe Mitsubishi Petrobras, e mostraram desempenho sólido, regularmente entre os 15 mais rápidos antes de também abandonarem a disputa. Guilherme vê com bons olhos o trabalho dos novos companheiros de equipe.

"O Reinaldo e o Gustavo fizeram um ótimo rali. Foram rápidos e consistentes", elogia. "Acabaram abandonando por algum problema eletrônico relacionado ao motor e que ainda não sabemos qual foi. Os carros estão ainda no navio voltando para a Europa, e só depois que chegarem é que verificaremos tudo no detalhe. Mas foi muito bom dividir com eles alternativas de estratégias, de acerto do carro e de jogo de equipe. Fizeram um ótimo trabalho e agregaram muito à nossa equipe."

E quando o assunto é o Dakar, o sonho de trazer a competição também para o Brasil surge à tona. Desejo antigo de Spinelli, a viabilização do projeto pode sair do papel já em 2015. Há um estudo em andamento sobre a possibilidade de realizar a largada da prova na região Sul do Brasil, com início no Paraná e passagens por Santa Catarina e Rio Grande do Sul, até a entrada no norte da Argentina para o prosseguimento do trajeto.

“Perguntei durante este Dakar ao Étienne Lavigne [diretor da ASO, empresa que organiza a competição] sobre o andamento desta negociação. Segundo ele, está tudo caminhando bem, ainda tentam para 2015, mas ainda não tem nada assinado.

Em algumas reuniões com eles, fui consultado sobre regiões com roteiros possíveis, sobre lugares onde temos mais cultura de rali e sobre as possibilidades de isso estimular mais pilotos brasileiros. De forma direta, não tenho muito como ajudar. Como Mitsubishi, já somos os patrocinadores com os carros da organização e temos nossa equipe Mitsubishi Petrobras, portanto já estamos com uma presença grande no Dakar, mesmo ainda sem passar por aqui. Mas torço que isso aconteça o quanto antes.

Depois, torço mais ainda para que, se o rali vier para cá, sejamos capazes de prover tudo o que for necessário para que a parte do Brasil seja bem feita.”

Se a glória máxima ainda não veio no Dakar, uma competição extrema e que ainda é passível de aprendizado mesmo para um piloto tão experiente, 'Guiga' é rei em outra competição que hoje é respeitada mundialmente e atrai nomes como Peterhansel, Al-Attiyah e Carlos Sainz: o Rali dos Sertões.

Spinelli fez parte do crescimento de uma competição que nasceu amadora e hoje é vista como uma espécie de 'ensaio' para o Dakar. Com quatro vitórias e quatro segundos lugares em 13 participações, o carioca tem conhecimento de sobra a respeito da prova.

"O primeiro Rali dos Sertões que corri foi em 1999. Era ainda um rali muito amador, o conceito do cross-country em si era muito amador", recorda. "Minha escola foi o rali de velocidade, de carro. Quando cheguei no cross-country, fiquei chocado como ainda estava tudo no inicio. Basta ver que o primeiro Campeonato Brasileiro foi em 2000."

“De lá para cá, mudou tudo. Hoje, o Sertões é um dos melhores e mais bem organizados ralis do mundo. Tem um conceito definido, é difícil, seguro, longo e muito prazeroso. Sem dúvida, isso se deve ao trabalho da Dunas, chefiada desde sempre pelo Marcos Moraes. Ele construiu o Sertões profissional de hoje. Esse profissionalismo atual, junto com um roteiro sempre difícil e variado e a exigência da prova, tornou o Sertões um rali cobiçado pelos estrangeiros.”

Mesmo com a evolução, contudo, ainda é impossível, na visão de Guilherme, comparar o Sertões com o Dakar. "Não dá para comparar o Dakar com rali nenhum", diz.

“Eu sempre digo que rali é rali, e Dakar é Dakar. O Sertões é um rali de estrada de terra, não temos desertos como Atacama e Saara no Brasil. Eu tenho uma carreira de rali de estrada de terra de mais de 20 anos; de deserto, apenas há seis anos. Corri por vários anos o Brasileiro de Cross Country e de Velocidade e a Mitsubishi Cup, ou seja, em muitos anos fiz mais de 15 ralis de estrada de terra por temporada. De deserto, eu ainda conto nos dedos os ralis que fiz. O ano em que fiz mais, foram três.”
“O Sertões é um rali de estrada de terra, não temos desertos como Atacama e Saara no Brasil”
Spinelli teve como navegador o velho parceiro Youssef Haddad. (Foto: Gustavo Epifanio/Fotoarena))
"A principal característica técnica que é completamente diferente é que o Dakar é um rali de deserto, mas que tem todos os variados tipos de terreno", acrescenta Spinelli, traçando um paralelo com o Sertões. E pondera, em seguida: "Logicamente, levando em conta que no Dakar vão todas as equipes e pilotos top do mundo, o Sertões tem até recebido pilotos de primeiro nível, mas sempre em muito menor quantidade."

De suas quatro vitórias no Sertões, 'Guiga' venceu duas com o navegador Marcelo Vívolo e outras duas com Haddad, seu atual parceiro. Leal ao trabalho de ambos, o piloto apontou grandes qualidades nos dois. "Ambos são navegadores de altíssimo nível. Comecei com o Marcelo quando ele tinha 18 anos e já era um craque... Ele tinha uma precisão inacreditável de navegação com a planilha", detalha. "Fizemos vários anos juntos, e ele foi evoluindo sem parar. Mas chegou um momento em que ele teve que largar a navegação para poder se dedicar a assumir o negócio do pai. Como ele sempre foi perfeccionista, foi impossível continuar fazendo tudo com a qualidade que ele esperava, por isso ele largou a navegação."

"Já o Youssef começou a trabalhar comigo como engenheiro. Trabalhamos muito em parceria desenvolvendo carros de rali onde, muitas vezes, ele andava comigo durante os treinos. Depois de alguns anos com essa relação, ele passou a ser o meu navegador. Também é um craque no tema", exalta.

“A principal diferença entre ambos é que o Youssef tem um conhecimento pleno da mecânica do carro, e isso ajuda bastante nos ralis longos, principalmente Sertões e Dakar. A minha relação com os dois é excelente, somos amigos dentro e fora do carro. E, curiosamente, sou padrinho de casamento dos dois!”

Apesar de ser vitorioso e especialista em sua área, contudo, Spinelli reconhece as dificuldades em popularizar a categoria no Brasil, um país acostumado a lidar com o automobilismo focado apenas nos monopostos, com a F1 e a Indy como duas grandes receptoras dos talentos aqui criados, além de carros de turismo. "Ainda não dá para comparar o Brasil com países como Argentina, Finlândia, França, etc. Basta ver que o cross-country começou na Argentina há no máximo seis anos, e eles já estão muito na nossa frente", considera.

“O rali no Brasil ainda é um automobilismo pouco conhecido se comparado com a F1 e Stock Car, principalmente. Fora o trabalho que nós da Mitsubishi e a Dunas com o Rali dos Sertões fazemos pelo rali, o restante é tudo muito pouco para o que o esporte precisa para se destacar. Como a Mitsubishi e a Dunas focam o trabalho no cross-country, as chances de termos um piloto no WRC são muito pequenas – ou nenhuma.

Somente um rali de velocidade hoje tem expressão no Brasil, o Rali de Erechim. Esse é bem organizado, tradicional e tem um público local incrível... Mesmo assim, é muito pouco. Para o Dakar, o caminho é menos difícil, pois sempre temos pilotos novos surgindo na Mitsubishi Cup e alguns no Sertões. Vamos sempre tentar incentivar a ajudar no possível. Enfim, nós da Mitsubishi sempre estamos abrindo portas para esse futuro.”

Dirigente da montadora japonesa, 'Guiga' criou e administra a mencionada Mitsubishi Cup, uma competição cujo formato é voltado para facilitar e baratear o acesso e alimentar o gosto pela modalidade. O objetivo maior é ajudar a propagar a cultura do rali em solo brasileiro, de olho no futuro do país neste formato de disputa.

“A Mitsubishi Cup está muito bem. Sempre estamos trabalhando para melhorar, mas estamos muito felizes com o grid de 2013, que teve em torno de 60 a 70 carros por etapa. Lá, dispomos de várias categorias, para todos tipos de pilotos, dos experientes aos iniciantes. Não focamos em crescimento e, sim, numa melhora constante de tudo que gira em torno do evento.

Sempre estamos buscando um automobilismo de baixo custo, de grande equilíbrio técnico e com muito prazer envolvido. Temos, hoje, 30 carros no pacote seat-and-drive, de aluguel. Com isso, buscamos pessoas que querem se divertir com o rali sem dispor de tempo para organizar sua equipe. Fazemos tudo para eles, basta chegarem com seus equipamentos pessoais, acelerarem e navegarem. E ainda garantimos total equilíbrio técnico, ou seja, ganha o mais rápido, sem levar em conta a conta bancária ou capacidade de regulagem do carro.”

"Acho a Mitsubishi Cup um formato perfeito. Vamos fazer umas etapas mais longas e exigentes neste ano. O campeonato vai estar ainda mais apimentado", encerra Spinelli, ativo dentro e fora das pistas em prol do prazer pessoal e compartilhado pelo rali.
 

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