Edição 47
Fevereiro/2014

Stop & Go: Laia Sanz

“O objetivo nunca é fazer o melhor resultado de uma mulher. É um orgulho, mas não me apego a isso, e, sim, em fazer o melhor possível”

JULIANA TESSER, de São Paulo
Laia Sanz é parte da história do Dakar – e uma história bonita: 16ª colocada no geral entre as motos fazendo muito marmanjo comer poeira. (Foto: Nicki Martinez/Divulgação)
ão é à toa que Laia Sanz ganhou o título de ‘Rainha do Dakar’. Depois de estrear em uma das provas mais difíceis do mundo em 2011, a pilota espanhola fechou a edição 2014 com um 16º lugar na classificação geral entre as motos, tendo tomado para si o registro de melhor resultado de uma mulher em uma etapa do certame – com um sétimo lugar no nono estágio, disputado entre Calama e Iquique, no Chile.

Embora tenha chamado a atenção do mundo no rali, Laia tem uma carreira brilhante fora do Dakar. Em setembro do ano passado, Sanz somou seu 15º título mundial – 13 de Trial e dois de Enduro – e igualou a marca de Giacomo Agostini que, até então, era o esportista com mais títulos no esporte a motor em toda a história.

Apesar dos números, Laia mantém os pés no chão e segue trabalhando para melhorar ainda mais suas marcas. Aproveitando um merecido descanso após o Dakar 2014, ela conversou com a REVISTA WARM UP, falou da carreira, dos desafios do maior rali do mundo e também dos planos para o futuro.

Revista Warm Up: Como surgiu a sua paixão pelos esportes a motor?

Laia Sanz: Meu pai é muito apaixonado e é o que eu via em casa quando criança. Meu irmão mais velho também andava de moto e, bom, eu também era uma menina agitada, gostava de experimentar coisas novas e o mundo do motor me encanta..

WUp: Quando você começou no Trial, a modalidade não era muito popular entre as mulheres. Por que você escolheu o Trial?

LS: Bom, não é que eu escolhi o Trial, é que é o que eu via em casa. Meu pai fazia Trial, foi o que eu experimentei quando comecei e eu gostei muito. Mas, provavelmente, se meu pai, ao invés do Trial, tivesse feito motocross ou velocidade, é o que eu teria feito. É um pouco porque é o que havia em casa, o que eu experimentei, e eu gostei muito.

WUp: A Espanha é hoje uma potência nos esportes a motor, especialmente entre as motos. O que a Espanha tem de tão especial para ser esta potência?

LS: Eu acho que tem muitos fãs, pilotos muito bons, e é mais fácil que tenham mais, porque têm boas referências. E também o clima. Temos boas montanhas, bons lugares para andar de moto e acho que é isso que faz com que tenhamos muitos pilotos. Isso é um ciclo: quando tem mais pilotos, é mais fácil que tenham muitos fãs, a cultura do motor. Temos muitas fábricas aqui, de motos, de carros. No fim, tudo junto faz com que tenha muitos fãs.

WUp: Depois de vários triunfos no Trial, você decidiu competir também no Enduro. Por quê?

LS: O passo ao Enduro foi basicamente porque eu queria correr o Dakar e não tinha experiência neste tipo de moto. O Enduro é uma moto um pouco mais parecida com a que eu usaria para o Dakar, e foi um pouco para ganhar experiência em corridas deste tipo, para lutar contra o cronômetro, e também porque era um novo desafio. Já tinha muitos anos no Trial.

WUp: Você competiu em Trial, Enduro e no Dakar. Qual é a mais difícil?

LS: Eu creio que o Trial. Dediquei 20 anos da minha vida ao Trial e é a o que eu dediquei mais horas, treinei muito duro, pois o Trial é o esporte a motor que necessita de mais horas de treino sobre a moto. Passava quatro ou cinco horas a cada dia. O Dakar é duro, mas são 15 dias. O Trial, ao contrário, é duro, porque tem que treinar muitíssimo e as corridas também são muito duras.
A moto #50 não teve momentos fáceis no Dakar, segundo Laia: “Sempre tem medo de que aconteça alguma coisa”. (Foto: Mark Kariya/Divulgação)
WUp: Você ganhou tudo no Trial, já ganhou no Enduro e também o Dakar entre as mulheres. Qual é o próximo sonho?

LS: ntar sempre melhorar. Não sei. Tentar fazer melhor no Dakar e também no Enduro, em que estou há poucos anos, pois tenho muitíssimas coisas para melhorar e tentar.

WUp: O Dakar é reconhecido por ser uma competição muito dura. O que é o melhor do Dakar? E o pior?

LS: O melhor é a chegada (risos). Quando vai tudo bem, a sensação de chegar, o último quilômetro é incrível. Também tem muitas coisas boas. As dunas são muito divertidas e tem muitas etapas bonitas, onde você passa por lugares incríveis. Mas o pior é o sono, porque dormimos pouco e descansamos pouco. E o fato de não desconectar nunca, pois quando chega, depois de dez horas lendo o road-book, você tem que preparar o road-book do dia seguinte e tem a sensação, durante 15 dias, de que você vai contra o relógio, para acabar tudo rápido, tentar dormir, e é todo dia assim. E é muito duro psicologicamente.

WUp:Você venceu o Dakar quatro vezes entre as mulheres. Qual é a sua próxima meta? Acha que é possível o top-10 na classificação geral?

LS: Vamos ver. Acho que todos os pilotos que estão na frente se dedicam só ao rali. Neste ano correu tudo muito bem, mas repetir este ano já vai ser muito difícil. Está claro que eu tenho muita margem de melhora, pois fiz poucos ralis – apenas o Dakar – e posso melhorar muitíssimo. Mas, para isso, eu também necessito um pouco das mesmas ferramentas que os rivais têm.

WUp: Você teve um desempenho muito bom no Dakar deste ano. Esperava ir tão bem?

LS: Não. O objetivo era... No ano passado fui muito bem e em algumas etapas isso me surpreendeu, me serviu para saber que eu poderia estar mais adiante. Eu sabia que podia melhorar, mas melhorei muitíssimo. Creio que a moto também ajudou muito. Tinha mais diferença do que eu pensava e também por ter feito menos Trial no ano passado e um pouco mais de Enduro, de motocross para treinar. Acho que tenho melhor técnica e também sou mais rápida.

WUp: Você registrou o melhor resultado de uma mulher nas motos em uma etapa do Dakar deste ano. Como você vê isso?

LS: A verdade é que fazer esta etapa tão bem me surpreendeu. Mas o objetivo nunca é fazer o melhor resultado de uma mulher. Para mim, fazer uma etapa do Dakar tão bem é algo incrível. Para mim é um orgulho, um dado muito bom, mas eu não me apego a isso, e, sim, em fazer o melhor possível.

WUp: 2013 foi um ano muito duro, com competições de Trial, Enduro, Dakar e também nos X-Games. Você considera a possibilidade de eleger uma única modalidade?

LS: O que está claro é que 2013 foi um ano muito bom em termos de resultados, mas muito duro. Creio que demasiado. No final, o corpo se ressente. Acabei o ano esgotada fisicamente, porque é muito diferente o treinamento físico para os X-Games, para o Trial, para o Enduro ou para os ralis. Acho que fiz coisas demais. Vamos ver este ano. Também depende do que eu tenho, de qual equipe eu esteja, como esteja organizado. Mas claro que eu gostaria de me organizar um pouco melhor, centrar mais em algo e treinar mais em algo mais parecido, porque no final o corpo e a mente também necessitam de um pouco de descanso.
“Está claro que eu tenho muita margem de melhora, pois fiz poucos ralis – apenas o Dakar – e posso melhorar muitíssimo”
WUp: Este ano você disputou o Dakar pela primeira vez com uma moto da Honda. Foi seu melhor equipamento?

LS: Foi muito boa. Até esse ano, eu tinha motos de Enduro preparadas para rali e a verdade é que eu notei muita diferença. Esta moto é claramente feita para ralis, só, e isso eu notei desde o primeiro momento em que subi na moto. Foi incrível. Creio que o conjunto é muito bom. O peso está muito bem distribuído. É uma moto muito pequena para ser de rali, é muito maleável, potente, tem um bom chassi, uma suspensão que te permite muito mais erros do que nos outros anos, em que passava com mais medo. Esta moto me dá muita confiança, podia correr muito mais, cansando menos e tudo junto, é o conjunto que é muito bom.

Wup:O Dakar 2014 foi mais difícil que os dos anos anteriores. Qual foi a pior parte da corrida?

LS: Não sei. Tenho certeza que há outros pilotos que já tiveram participações mais difíceis no Dakar. Mas, para mim, sem dúvida, dos quatro anos que eu corri, foi o mais duro. Foi mais duro no ano passado, porque tive que chegar depois de 27 horas com uma corda e tal, mas, no final... Por exemplo, se tivesse acontecido este ano, não teria terminado a corrida, porque com o cansaço acumulado que tinha no ano passado, não poderia fazer as etapas tão duras deste ano. Este ano tive sorte de que tudo correu bem, mas foi duríssimo. As etapas, principalmente da primeira semana, na Argentina, com calor, a altitude... Além disso, quando uma etapa era dura, no dia seguinte suavizava um pouco. Este ano, ao contrário, foi crescendo na primeira semana, segundo, terceiro, quarto e quinto dia e foi muito, muito duro. Chegou também na Bolívia, que acabou de massacrar o corpo, mas, por sorte, os últimos dias no Chile foram um pouquinho mais tranquilos.

WUp: O Dakar 2014 teve algum momento fácil?

LS: Não. Nunca é fácil (risos). Por exemplo, no último dia, a etapa era mais tranquila, mas sempre no último dia você tem medo que aconteça alguma coisa e vai ficando paranóico, vai devagar, tranquila. Mas, fácil, não. Até mesmo no dia mais fácil você pode ter muitos problemas, ou seja, não é nada fácil.

WUp: Você recebeu muitos elogios pela sua atuação no Dakar. Qual foi o que mais te chamou a atenção?

LS: Principalmente dos pilotos ponteiros. Todos foram um pouco surpreendidos e é de se agradecer que pilotos que você admira falem bem de você, que digam que pode fazer melhor e que melhorou muito. É muito bom. Por exemplo, Carlos Sainz no Twitter, ou [Marc] Coma, [Jordi] Viladoms, todos os pilotos. [Joan] Barreda, Cyril [Despres], todos os pilotos da frente falaram bem, é uma honra. Por exemplo, [Stéphane] Peterhansel, disse que fiz uma etapa muito boa. É ótimo.

WUp: Muitos pilotos que participam do Dakar também já disputaram o Rali dos Sertões no Brasil. Você gostaria de participar algum dia?

LS: Claro. É sempre bom disputar corridas, ganhar experiência. Além do mais, é um rali que eu não conheço e que seria bom como uma experiência, claro. Mas depende de muitas coisas.
Laia não descarta correr de carros no futuro. (Foto: Mark Kariya/Divulgação)
WUp: Você tem uma bela carreira no Trial, no Enduro e agora também um grande futuro no cross-country. Quem você tem como referência?

LS: Eu sempre fico com os pilotos que estão à frente, porque são os que fazem melhor as coisas e, principalmente, têm mais experiência. Por exemplo, Coma é um piloto muito, muito completo. Além de ser rápido, acho que ele controla muito bem a corrida psicologicamente. Barreda também, pois o tenho mais próximo e tenho boa relação, e tento absorver coisas de todos os pilotos que estão na frente, pois é com quem tenho que aprender.

WUp: No cross-country, Marc Coma é o espanhol mais famoso. Você tem algum contato com ele? Ele participou da sua carreira de alguma forma?

LS: Não. Sempre que o vejo, conversamos, mas não tenho muita relação, nem nunca treinei com ele. Mas você sempre tenta ver como os bons fazem as coisas.

WUp: Você tem mais de 20 títulos na carreira. É possível escolher o mais importante e o que foi mais difícil de conseguir?

LS: (Risos). Difícil, porque é difícil escolher um Mundial. Por exemplo, o Mundial de Enduro, foi muito especial, contra Lulu [Ludivine Puy]. Os Mundiais de Trial para mim foram todos difíceis e também os resultados com os homens, alguns pódios no Mundial Júnior de Trial foram muito especiais, ou este Dakar, por exemplo. O primeiro também. É muito difícil escolher, porque tiveram muitas corridas especiais. Muitos títulos.

WUp: Além de toda sua experiência nas categorias off-road, você também já testou a MotoGP do Dani Pedrosa anos atrás. Como foi essa experiência?

LS: Brutal. Mas só nos deixaram dar duas voltas e a moto do Pedrosa ficou um pouco pequena (risos). Foi uma experiência muito curiosa. Eu teria gostado de provar bem a moto, testar por um tempo, mas foram duas voltas e, apesar disso, fiquei encantada. Foi incrível, pois, uma experiência assim, tenho certeza que não terei outra vez na minha vida.

WUp: Você já declarou a sua paixão pelos carros e já disputou uma corrida em Montmeló. Os carros são uma opção para o futuro?

LS: Por que não? Tomara. Tomara que tenha a opção no futuro. É difícil, não é como antes, quando os pilotos de moto tinham mais facilidade para passar para os carros. Agora é tudo mais complicado, mas por que não? Eu sonhava de pequena em correr o Dakar, nunca tinha imaginado, mas aqui estou. Então por que não nos carros algum dia? Tomara!

WUp: No ano passado, você estreou nos X-Games. Como é competição? É muito diferente do que você está acostumada?

LS: Sim, e é também um mundo novo. É um pouco como uma outra dimensão. O importante é que é nos Estados Unidos: a repercussão que tem, pois é uma corrida muito importante e, além disso, é divertido. São corridas de no máximo seis, sete minutos, e muito explosivas, com muita rivalidade e bonitas de se ver.
 

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