Edição 47
Fevereiro/2014

Superfinal: Pelas caóticas ruas de Baku...

...pilotos brasileiros do Mundial de GT encontraram um país repleto de contrastes, em construção e com trânsito maluco

RENAN DO COUTO, de São Paulo
Os interesses financeiros levaram o Mundial de GT a uma capital ainda em construção, Baku. (Foto: Divulgação/FIA GT Series)
s recentes investidas dos principais campeonatos de automobilismo do planeta no mercado asiático ganharam um novo destino: o Azerbaijão. O país da Ásia Ocidental recebeu a etapa decisiva do Mundial de GT em novembro de 2013, num mal montado circuito de rua na capital Baku, e apresentou à comunidade do esporte a motor uma nova nação, repleta de contrastes, riquezas e peculiaridades.

A FIA provocou alguma surpresa quando escolheu um país sem tradição alguma no esporte em geral – menos ainda no automobilismo – para fechar o Mundial. Desde o início, a data da última etapa do campeonato estava reservada para alguma nação do Oriente Médio. Logo, esperava-se que ocorresse em países que vem abrigando eventos, como a Turquia, o Bahrein, o Catar ou os Emirados Árabes Unidos. Contudo, a opção foi pelo novo.

Inicialmente, a rodada foi marcada para 19 e 20 de outubro, mas problemas na construção do circuito obrigaram a organização a remarcá-la para 24 de novembro – mesmo dia do GP do Brasil de F1. Ainda assim, diversos contratempos foram registrados, exigindo paciência dos competidores, que perderam treinos e viram a programação mudar mais de uma vez.

Dentro da pista, o francês Stéphane Ortelli e o belga Laurens Vanthoor conduziram seu Audi R8 LMS à vitória na corrida decisiva e asseguraram o título Mundial. Mas, para todos os envolvidos, o fim de semana marcou o contato com uma nova cultura e experiências que dificilmente serão esquecidas – sejam as memórias boas ou ruins.

Localizado na região do Cáucaso, o Azerbaijão mistura três culturas. O idioma azeri é bastante próximo do turco, a crença predominante é a islâmica – mas o país não possui religião oficial – e o passado está intrinsecamente ligado aos russos. Tal mescla resulta em uma nação que reúne muitos costumes árabes, cujos habitantes se assemelham aos iranianos, mas que tem modo de vida e uma liberalidade mais parecida com a dos russos.
Ex-república soviética, o Azerbaijão ainda recorda os traços do império com seus homens armados e fiscalização rígida. (Foto: Divulgação/FIA GT Series)
A primeira independência do Azerbaijão foi conquistada em 1918, após a queda do Império Russo na Primeira Guerra Mundial – junto da Geórgia e da Armênia. Entretanto, a liberdade não durou muito: dois anos depois, o exército vermelho invadiu Baku e incorporou o Azerbaijão àquela que se tornaria, pouco depois, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. A situação política permaneceu assim até a glasnost, em 1991, quando os azeris voltaram a ser independentes. Nesse período, o país enfrentou – e perdeu – uma guerra contra a Armênia pela posse da região de Kabarakh, correspondente a cerca de 15% do território durante o período soviético.

Essa mistura foi notada pelos brasileiros do BMW Team Brasil que foram até Baku para competir na derradeira corrida de 2013, e as primeiras impressões incluíram alguns preconceitos, como admite o pentacampeão da Stock Car Cacá Bueno em entrevista à WARM UP.

“É uma mistura meio de russo com árabe, uma mistura que quem não está acostumado... Às vezes é até um preconceito, mas quem não está acostumado, às vezes fica desconfiado. ‘Não vai estourar uma bomba aqui a qualquer momento”, ri.

O pensamento é motivado – e reforçado – pelos traumas que as nações da região carregam. Guerras e atentados recentes fazem com que o esquema de segurança em locais públicos e, especialmente em aeroportos, seja bem reforçado – e até truculento.

Apesar disso, Cacá relata ter sido bem recebido. “Não há do que reclamar. A gente foi super bem tratado. Pareceu ser um país organizado, mas com certos traumas. Para entrar no aeroporto, as malas precisavam passar no check-in, você tinha policiais fortemente armados em alguns lugares, uma mistura de áreas com prédios novíssimos, estilo Dubai, e outras casas meio... Um contraste meio brasileiro, de favelas com centros melhores”, descreve.

“Parece um país estilo russo, muito fechado, mas uma bagunça meio Oriente Médio. Uma mistura dos dois, mas, volto a falar: não vi nenhuma confusão na rua, não vi sujeira, muito organizado e tudo sempre muito receptivo. Foi uma viagem longa, complicada, mas foi prazerosa”, garante.

Sérgio Jimenez também compara Baku a outros centros emergentes asiáticos. “O país parece que está em construção, como o Bahrein e Dubai. Existe uma parte nova na cidade e uma parte velha, com construções antigas, aquelas casinhas, e a parte nova é a que tem tudo construindo”, conta à RWUp.

Ricardo Zonta fala à RWUp que a diferença entre as partes velha e nova da cidade era “bem grande”, mas diz que, na área nova, que foi onde aconteceu a corrida, “tudo o que você via era bastante impressionante”.
“Não vi nenhuma confusão na rua, não vi sujeira, muito organizado e tudo sempre muito receptivo”
– Cacá Bueno
Um fator, porém, foi o que mais chamou a atenção de todos: o trânsito. No melhor estilo Istambul, uma palavra define bem o quão organizado ele é: zero.

“É uma loucura total o trânsito. A buzina é assim: o cara põe a primeira marcha e buzina, a segunda e buzina, a terceira e buzina... Ficam buzinando e xingando uns aos outros o tempo inteiro. Guiam que nem loucos, sobem na calçada, desviam, viram na contramão, uma loucura. Não tem lei”, narra Jimenez.

Cacá continua: “Era um tal de táxi pegando contramão na rua, um buzinaço sem parar, carro vindo da esquerda e da direita... Não sei como eles não batiam em todas as esquinas o tempo inteiro. Era um negócio meio louco, mas, dentro da confusão deles, eles se entendiam!”

Ninguém quis saber de arriscar pegar o volante em meio a essa confusão. “Só táxi. Sorte”, diz Jimenez. Ainda assim... “Os taxistas são loucaços. O tiozinho que a gente pegou, acho que era de 1950 o carrinho. Aí, quando a gente pegava o busão que levava a gente, também, tudo louco. O cara vinha dando o sapato. Apesar de o Brasil ser uma loucura, uma zona, o pessoal se respeita. Lá, ninguém respeita nada.”

Zonta é que consegue ver um ponto positivo: “É muito louco, perigoso, mas eles respeitam os sinaleiros.”

A comida local também não agradou muito ao paladar do curitibano. “Tem vários restaurantes bons, italianos...”, começa. Mas comida de lá, não rolou? “A gente arriscou num buffet, mas não teve como comer”, brinca.

Nem mesmo as ruas do circuito deixavam os pilotos mais tranqüilos. Não que o tráfego na pista fosse tão bagunçado quanto. O problema mesmo foi o atraso na preparação do traçado. “Eles não fecharam o trânsito para fazer a pista. Fecharam só no sábado. Aí a pista não estava pronta, por isso que atrasou um monte”, lembra Jimenez. “E, quando eles fizeram a pista, vários pilotos deram a opinião de que tinha um monte de coisa errada e a gente pediu para mudar – zebras, pneus –, aí atrasou mais ainda.”

As trapalhadas persistiram no dia da corrida: “Do sábado para o domingo, lavaram a pista. Só que estava 3ºC. Congelou. Congelou o asfalto, e não tinha sol. Tiveram que esperar até 12h, 13h, aí saímos para um warm-up de 30 minutos, com pneu de chuva, para secar a pista. As cagadas não acontecem só aqui, acontecem também no Mundial de GT.” Para completar, uma falha nos geradores deixou o circuito sem energia elétrica.

No esporte, o Azerbaijão nunca foi uma potência, tanto é que a modalidade mais popular, o futebol, jamais conseguiu feitos expressivos. Filiada à Uefa, a seleção local, nos pouco mais de 20 anos desde a separação da União Soviética, não foi capaz de formar um time que se classificasse para a Copa do Mundo ou a Eurocopa. No futsal, os resultados têm sido um pouco melhores: um quarto lugar no Campeonato Europeu.
Sergio Jimenez, piloto do BMW Team Brasil. (Foto: Divulgação/FIA GT Series)
A modalidade em que os competidores do país são sempre colocados como favoritos é o xadrez, e o gamão é outro jogo popular entre os azeris. O judô também se destaca.

O automobilismo, porém, é praticamente inexistente. A ausência de nomes nos principais campeonatos e as muitas dificuldades na preparação do circuito evidenciaram a falta de experiência dos azeris com os motores – o trânsito é outro indício da relação do povo local com os carros. Existe uma federação local associada à FIA, porém, a instituição sequer possui uma página na internet. Um ano antes da FIA levar o Mundial para lá, havia acontecido o ‘Baku City Challenge’, uma demonstração que reuniu carros clássicos de F1 e alguns modelos de GT3.

No fim de semana do Mundial de GT, os pilotos se depararam com um público considerado bom, porém, que mal sabia o que estava acontecendo. “Pessoal bastante curioso. Ninguém entendia nada, o pessoal está entendendo o automobilismo. Se continuar fazendo daqui a cinco anos, vai ser legal que vai formar um negócio bacana. Tem tudo para ser um ponto novo”, avalia Jimenez.

Cacá corrobora: “Público, até tinha bastante. O evento é bem-organizado, a pista é um pouco esquisitinha, mas o automobilismo lá pareceu não existir. Pareceu um evento mais estilo o que fazem em Dubai, Abu Dhabi, Cingapura. Um lugar que fez uma bela infraestrutura para a gente, que nos recebeu bem, que está estimulando competições internacionais.”

“Parece que é um país que está apostando em eventos culturais e esportivos mesmo sem ter atletas desses esportes, para talvez divulgar melhor o país”, completa. Em 2014, o Mundial de GT passa a se chamar Blancpain Sprint Series, fruto de uma parceria da SRO com a Blancpain. E a rodada de Baku está mais uma vez no calendário, fechando o campeonato nos dias 1 e 2 de novembro. A equipe de Antonio Hermann voltará a disputar o campeonato, mas ainda não definiu o time de pilotos.
 

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