Edição 48
Março/2014

Americo Teixeira Jr
A chance que Nico Rosberg jamais teve

Nico Rosberg tem em 2014 sua grande chance para ser campeão mundial. A mudança no regulamento colocou a Mercedes como favorita para o novo campeonato, e só uma relação de submissão com o companheiro Lewis Hamilton pode tirá-lo da disputa

AMERICO TEIXEIRA JR, de Vinhedo
Uma matéria de grande envergadura da suprema Evelyn Guimarães, publicada na edição anterior da REVISTA WARM UP, é a base dessa minha coluna pré-abertura do Mundial de F1 de 2014. Explico: Suprema me convidou a opinar para a matéria ‘O Enigma do Novo Príncipe’ e eu, feliz, aceitei o convite – quem recusa um convite da Suprema?. Só que me enrolei demais atrás dos furos de reportagem e perdi o prazo. Então, depois de me desculpar – de joelhos sobre grãos de milho, olhando para a parede e rezando para a santa dos prazos perdidos – resolvi desenvolver o tema que já era para ter sido do conhecimento de vocês na edição passada. Claro, que não perderam nada, mas lá vai.

Nesta temporada, a chance de surgir um novo campeão mundial é remota, mas não impossível como ocorreu em temporadas passadas. Digo remota porque se resume a um nome: Nico Rosberg. Embora seu companheiro de equipe seja o campeão mundial de 2008, Felip... Ops, digo... Lewis Hamilton, o filho de Keke Rosberg faz parte da engrenagem Mercedes.

Anterior e intensa, a presença do piloto alemão já rendeu seus frutos com as vitórias em 2012 e 2013 e, agora, com os carros e motores da Mercedes largando na frente, sua chance de se firmar é muito grande, pois sua equipe é aquela que disponibiliza para um campeão mundial o menor raio de ação, se comparada com as outras. Desse modo, sem haver uma condição de submissão ao companheiro “estrelado”, Nico Rosberg tem a melhor chance de sua carreira de representar esse novo na F1.

Nas demais equipes, nem em sonho. A começar pela Red Bull, cuja supremacia de Sebastian Vettel é inquestionável em qualquer condição. Se a equipe já se apoiava nele para vencer corridas e campeonatos, num momento de fragilidade, como o apresentado na pré-temporada, a concentração será maior ainda. Para Daniel Ricciardo a situação é de extrema desvantagem e, claro, ele sabe disso, pois não é um retardado. A única possibilidade de o australiano não ser um escudeiro é o tetracampeão jogar tudo para o alto e querer sair se a baixa performance dos testes se repetir durante as primeiras provas. A possibilidade de isso acontecer, contudo, não está dentre as mais prováveis, visto ser absolutamente improvável que a equipe e a Renault não revertam o quadro ruim até aqui evidenciado.

Ron Dennis e seu estilo 'Bom dia? Bom dia por quê?’

Na McLaren, o clima está fervendo e o responsável desse fogaréu é Ron Dennis, aquele que foi sem nunca ter realmente ido, mas que está de volta com uma vontade tão grande como se nunca tivesse estado. Não importam o tamanho do grupo McLaren e nem dos sócios bilionários para os quais tem de prestar conta. Para Ron Dennis – essa deve ser a motivação que o faz, mesmo riquíssimo, levantar todo dia e ir para o trabalho – a equipe de F1 é sua: ninguém manda mais do que ele e tem de vencer. Ponto final.

Sua bronca está também no fato de os acordos de patrocínio estarem se arrastando, com contrapropostas baixas e exigência de cláusulas de desempenho. É por isso que a equipe está começando sem um patrocinador principal – embora o anúncio do acordo com a Sony seja iminente. É uma forma de Ron Dennis mostrar força. Nesse cenário de desafio, as credenciais de Jenson Button são infinitamente maiores do que as do estreante Kevin Magnussen. Obviamente é de se supor que andará bem, se o MP4-29 assim permitir, mas daí a imaginar que possa ser um candidato ao título vai uma longa distância.

Alonso e Räikkönen vão se matar

Como Red Bull e McLaren já têm seus sérios problemas, pelo menos não deverão perder o sono por causa da Ferrari. Com dois campeões mundiais no FIAT, ou melhor, F14T, Fernando Alonso e Kimi Raikkonen se matarão. A escuderia italiana pode até ter uma pontuação de destaque no Mundial de Construtores, mas os pontos serão pulverizados entre o espanhol e o finlandês, de modo que eu não aposto um centavo na possibilidade de o campeão mundial de 2014 ser um dos pilotos da Ferrari.

Num cenário mais amplo, considerando o que poderá acontecer em 2015 e 2016, Nico Rosberg deixa de ser esse nome solitário na condição de ser potencial laureado virgem para ganhar parceiros. Para que a Ferrari seja a equipe a revelar um novo campeão, só mesmo com a saída dos atuais titulares. Veteranos, há de se imaginar que suas carreiras não deverão durar mais do que quatro anos. Seria a chance de haver uma mudança radical, que poderia incluir até a contratação de Sebastian Vettel.

Essa hipótese implicaria em vagar um lugar almejado nas esferas de ação de Helmut Marko, que não teria a menor condição de impor alguém de seu grupo de pilotos. Um campeão mundial, no mais das vezes, só pode ser substituído por um campeão mundial ou por alguém maduro para sê-lo. Daí ser possível imaginar a ascensão de Ricciardo ou a contratação de Jenson Button, que talvez tenha um pouco mais de estrada do que os ferraristas. Kevin Magnussen, portanto, seria esse outro nome.

Mas como tudo é novo em 2014, já é difícil imaginar o que pode acontecer neste ano, quiçá no seguinte ou no outro. E, confesso, não sou bom disso. Prefiro buscar a informação e cravar sem juízo de valor. Mas, repito como negar um supremo pedido da Suprema? Assim, imagino que o grande favorito ao título seja Nico Rosberg e a grande briga será contra seu próprio companheiro de equipe. Pode se repetir exatamente o cenário de 2009, quando a Brawn conseguiu se impor nas primeiras corridas sob um novo regulamento e mais à frente, mesmo perdendo a hegemonia inicial, conseguiu alimentar aqueles bons resultados com uma regularidade alta, a ponto de conquistar o título com Jenson Button e Rubens Barrichello chegar com chances ainda no GP do Brasil, em Interlagos.

Como diria Mestre Sivuca: “E a História se Repete”

Na prática, seria o repetir da história na mesma equipe porque a Brawn de ontem é a Mercedes de hoje. Tudo começou em 1970, com Ken Tyrrell, quando o inglês fundou sua própria equipe depois de ter sido campeão mundial no ano anterior com Jackie Stewart e os carros Matra. Coube a ele, um garagista autêntico, manter-se à frente do time que eternizou seu nome até final de 1998, quando o vendeu para o grupo liderado pela British American Tobacco e Craig Pollock, então empresário de Jacques Villeneuve. O ano de 1990 foi o de transição e a BAR surgiu em 1999, que nunca decolou até ser vendida para a Honda, em 2006. Na grande crise mundial de 2008, provocada pelo estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, a Honda capitulou e vendeu a equipe para Ross Brawn, que brilhou em 2009. No ano seguinte, a Mercedes já assumia tudo e é essa organização que é favorita para vencer o Mundial de 2014. Quem for eficiente agora, num momento de bate-cabeça para muita gente, terá dado um passo importante.

E, para terminar, e por falar em passo importante, a Williams se credencia como a grande expectativa do ano. São tantas as transformações e os resultados da pré-temporada foram tão bons que é possível imaginar um novo momento para a equipe de Frank Williams. Melhor do que o ano passado, certamente será – até porque dificilmente seria possível imaginar uma temporada pior do que aquela -, mas também não adianta colocar a “carroça na frente dos bois”. Há elementos de sobra para favorecer a retomada, mas não há milagres na F1.

Só um parêntese. Nos últimos tempos antecipei – e acertei – as idas de Felipe Massa, Felipe Nasr, Petrobras e Martini para a Williams. BEIJOS E AGRADECIMENTOS ETERNOS PARA MINHAS FONTES LINDAS, QUERIDAS E AMADAS!!!

Como vê, querida Suprema, não acrescentei nada à sua excelente matéria, mas o grande barato é que a F1, mesmo tão transformada e passados tantos anos, ainda é elemento de motivação, pelo menos para mim. E estou empolgado diante da nova temporada. Ah, se espirrar, saúde!
Foto: Ker Robsertson/Getty Images
 

Comentários

Matéria anterior

Lado a Lado: A formação da turma
A construção do grid da F1 para a temporada 2014 foi um verdadeiro quebra-cabeças, que começou ainda em 2012
por Evelyn Guimarães
Próxima matéria

Galeria de imagens
As melhores fotos dos treinos coletivos