Edição 48
Março/2014

Do limbo ao luxo

Williams aproveita nova era da F1 para deixar o poço e se reinventar, principalmente com a chegada de patrocinadores fortes e um carro bem nascido empurrado pela Mercedes

RENAN DO COUTO, de São Paulo
No lançamento oficial da equipe e do novo patrocinador, a Williams promoveu um regabofe à imprensa e convidados que fez lembrar o tempo de vacas gordas.(Fotos: Clive Rose/Getty Images)
A inconstância, as dificuldades financeiras, os desempenhos fracos e as saídas de funcionários importantes pareciam levar a Williams cada vez mais para o fundo do poço – e num caminho sem volta. Fruto do sonho de um homem, a equipe já foi a maior do mundo e dominou uma década na F1. Mas o tempo passa, e já se vão 17 anos desde o último título. Quem dera o longo e amargo jejum fosse o pior. A história da F1 mostra que, a partir do momento em que um time passa a capengar, o futuro é nebuloso e a recuperação é tão incerta quanto a de uma grave doença. Só que o sonho nunca foi abandonado – a companhia precisava, somente, de uma reorganização. Na contramão do que normalmente acontece com quem começa a cair na F1, porém, uma luz no fim do túnel começa a se acender.

Em 12 meses, o cenário mudou bastante. Desde que Claire Williams assumiu a função de chefe-adjunta da esquadra para auxiliar o pai no comando dos negócios, novos ventos chegaram. O mais impressionante é que o time foi capaz de atrair patrocinadores, escolher os pilotos que queria e reforçar seu departamento técnico enquanto tentava se recuperar de uma das piores temporadas de sua história.

Foram somados apenas cinco pontos no ano passado. Pastor Maldonado acabou com a seca ao terminar o GP da Hungria em décimo. Meses depois, no GP dos EUA, Valtteri Bottas foi oitavo e colocou quatro pontos no bolso – em outros tempos de sistemas de pontuação, a Williams sairia zerada. Tal desempenho acentuou ainda mais o péssimo momento da escuderia sete vezes campeã do Mundial de Pilotos e nove do Mundial de Construtores. Poucos campeonatos foram tão ruins assim.

Em três anos, Maldonado se tornou figura importante na história da Williams, muito por conta do momento que, até hoje, é o ponto alto de sua carreira. O venezuelano venceu o GP da Espanha de 2012, na semana do 70º aniversário de Frank Williams, e colocou ponto final em um jejum de oito anos sem vitórias. Isso em um ano promissor: o carro era bom e poderia ter rendido muito mais pontos – e, quem sabe, pódios – não fosse a inconstância de Pastor e as fracas classificações de Bruno Senna.

Só que o mundo virou de cabeça para baixo em pouco tempo. Veio 2013, e o lado reclamão de Maldonado ficou bem evidente. O péssimo desempenho do FW35 o deixou extremamente insatisfeito. Com um ego mais do que inflado de que acha ter potencial para ser campeão do mundo, Maldonado nunca se conformou ter em mãos um carro tão ruim tão pouco após vencer um GP. Em Silverstone, no fim de junho, chegou a disparar: “O carro não é um carro, é um problema, e Bottas se adaptou melhor ao problema.” Ao mesmo tempo, o piloto não se cansava de dizer que a estrutura era ótima em Grove, porém, muito mal aproveitada.

Pouco a pouco, as constantes e pesadas críticas de Maldonado corroeram o ambiente nos boxes, e ambas as partes estavam mais do que dispostas a seguir caminhos opostos. Tanto é que o contrato da PDVSA com a Williams, que era de cinco anos, foi rompido depois de três, e lá foi o sul-americano depositar seus petrodólares na Lotus.
“Nós não teríamos feito o que fizemos com a PDVSA se não estivéssemos felizes com o nosso orçamento”
– Claire Williams
Foi com Jacques Villeneuve, em 1997, que a Williams dominou a F1 pela última vez. O canadense, em entrevista à REVISTA WARM UP de julho do ano passado, deixou clara sua posição quanto ao estado de saúde do time. “No momento em que uma equipe passa a ter pilotos pagantes, está acabado. É difícil receber patrocínios quando se tem pilotos pagantes. Eles não têm uma imagem, como Fernando Alonso. Para ter patrocínios, você precisa de pilotos como Alonso.”

Tomem como exemplo a McLaren, que também viveu uma crise em 2013. Os ingleses de Woking terminaram 2012 em alta e conseguiram construir um carro horroroso para o ano seguinte apesar de o regulamento técnico não apresentar grandes mudanças. Pela primeira vez desde 1980, não conquistaram nenhum pódio. Para piorar, internamente, o clima era ruim com Jenson Button e Sergio Pérez em rota de colisão no primeiro semestre. O caldeirão de Woking estava fervendo quando a Vodafone revelou que encerraria o patrocínio no final do campeonato. Apesar disso tudo, os diretores foram capazes de costurar uma parceria com a Honda e garantir financeiramente o futuro por mais alguns anos. Não foi nem preciso manter Pérez para ganhar uma grana a mais de seus apoiadores mexicanos.

A Williams não era capaz de fazer isso. Ou, ao menos, não dava sinais de ser.

Não foi com Alonso, o grande piloto sugerido por Villeneuve, que a Williams assinou para 2014, mas com o ex-colega do espanhol na Ferrari: Felipe Massa. Alguém que vinha dizendo, com todas as letras, que não se tornaria um piloto pagante. De fato, não se tornou. Mas sua presença em Grove proporcionou benefícios comerciais que ajudaram a reverter o cenário.

Claire Williams, em janeiro de 2014, falou com todas as letras à revista inglesa ‘Autosport’ que só permitiu a saída da PDVSA porque sabia que conseguiria viver sem a petrolífera estatal da Venezuela. “Nós não teríamos feito o que fizemos com a PDVSA se não estivéssemos felizes com o nosso orçamento”, asseverou.

Os meses trataram de comprovar essa afirmação. A Martini entra como patrocinadora-máster, a Petrobras volta a ser parceira no fornecimento de combustíveis e como patrocinadora, e o Banco do Brasil, com Felipe Nasr, o novo reserva, é outro que entra no negócio. Há, ainda, a seguradora norte-americana Genworth, além de mais possíveis acordos sendo negociados nos bastidores.

Seguindo a tese tecida por Villeneuve, saiu o pagante, retornaram os patrocinadores.
O novo carro, ao que tudo indica, fará a Williams dar um grande salto à frente em 2014. (Foto: Andrew Hone/Getty Images)
 
Mas não é somente a estabilidade financeira que vai levar a Williams para a frente – Ferrari e McLaren, sem títulos desde 2008, são prova de que dinheiro não garante taças. E, para tentar retomar dias mais gloriosos, a nova direção investiu pesado em contratações de engenheiros.

Assim como Maldonado, Massa ficou impressionado com a fábrica de Grove ao visitá-la pela primeira vez – e olha que trabalhou por oito anos na Ferrari.

As oscilações dos últimos anos corroboram com a opinião de Maldonado: o potencial estava lá, mas não se sabia usá-lo. Os poucos bons resultados dos tempos recentes vieram passando a impressão de que não passavam de golpes de sorte. Anos razoáveis foram intercalados com temporadas bem fracas.

O primeiro passo para a reformulação técnica foi a contratação de Pat Symonds, ex-diretor de Benetton e Renault. É bem verdade que seu currículo ficou manchado pelo escândalo de Cingapura em 2008, que o suspendeu da F1 por cinco anos, pena que depois foi reduzida e o permitiu voltar a trabalhar na categoria como consultor. Quem lhe abriu as portas foi a Marussia, e, em meados de 2013, a Williams e ele se acertaram.

Symonds não é um projetista como Adrian Newey, mas um organizador, um homem para coordenar o trabalho de desenvolvimento de um carro e as operações de pista. Com o passar do tempo, mais aquisições foram anunciadas: Jakob Andreasen – ex-Force India –, Rob Nelson – ex-Lotus –, Richard Lockwood – ex-Marussia – e Craig Wilson – ex-Mercedes. Além, é claro, de Rob Smedley, parceiro de longa data de Massa na Ferrari e que vai ocupar o cargo de chefe de performance e terá o dever de facilitar a comunicação entre os trabalhos de pista e de fábrica.

Massa não esconde a felicidade por ver que se trata de um projeto sério e que deve render bons frutos em médio prazo. “Se a gente olhar para as equipes que eu tinha livres para correr, que eram a Lotus, a Force India, a Williams... A Williams é a equipe que está contratando, não perdendo. As outras, principalmente a Lotus, estão só perdendo. Acho que todo mundo que fez o carro da Lotus de 2013 não está mais lá. Isso mostra que eu fui para uma equipe que está contratando e querendo fazer o negócio acontecer”, diz à REVISTA WARM UP. Ele mesmo sabe que, com sua experiência de vice-campeão mundial e nove anos trabalhando na maior equipe do grid, faz parte desse processo de reconstrução.

Soma-se a tudo isso a nova parceria com a Mercedes. Tudo bem que o passado recente da Williams mostra que trocas de motor não resolvem os problemas. Na era dos motores V8, o time trabalhou com Cosworth duas vezes, Toyota e Renault para vencer somente uma vez. Dessa vez, contudo, a história é diferente, já que as unidades de força alemãs se mostraram muito melhores durante a pré-temporada. E o carro pode não ter se mostrado extraordinário até aqui, mas, ao menos é confiável, e o simples fato de se chegar ao final das corridas deve render excelentes dividendos nas primeiras etapas da F1 com os motores V6 turbo 1.6 L.

Os resultados é que vão mostrar até onde essa reformulada Williams pode ir, mas se vitórias não vierem em 2014, ao menos uma coisa o time já provou neste novo ano: sua capacidade de recuperação. De uma ex-grande em decadência, a escuderia volta a ser um time com potencial e no qual as pessoas podem acreditar. Só isso já é uma grande vitória.
 

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