Edição 48
Março/2014

Em busca da audiência perdida

As mudanças técnicas e esportivas que a F1 traz para este ano servem de base para que as TVs em todo mundo se renovem e promovam uma inversão no gráfico que só vê o número de telespectadores cair

JULIANA TESSER, de São Paulo
Não, transformar pilotos em camera men não vai salvar a audiência global da F1. (Foto: Andrew Hone/Getty Images)
A F1 abre a temporada 2014 com uma importante missão pela frente fora das pistas: recuperar sua audiência. Ao longo dos últimos anos, os índices do Mundial caíram vertiginosamente, registrando a impressionante redução de 50 milhões de espectadores em todo o mundo só no ano passado.

No início do ano, a FOM, empresa que administra a categoria, divulgou seu relatório anual de audiência global, expondo a queda nos índices do Mundial. De acordo com Bernie Ecclestone, a redução dos números é reflexo da “natureza menos competitiva das rodadas finais” da temporada.

Em 2013, Sebastian Vettel garantiu seu quarto título consecutivo com três provas de antecedência. O alemão nem começou o ano muito à frente dos rivais, mas desembestou a vencer nas últimas nove etapas do ano. Igualou, inclusive, o recorde de vitórias seguidas que foi estabelecido por Michael Schumacher em 2004.

O domínio rubro-taurino, entretanto, não foi suficiente nem mesmo para garantir a audiência na Alemanha de Vettel – e também de Nico Rosberg, que ganhou dois GPs. Aqui, foi quebrado outro recorde: o hino alemão tocou 15 vezes para seus pilotos em 2013. Segundo o relatório da FOM, o número de telespectadores no país caiu 8,7% na temporada passada.

No Brasil, que segue encabeçando a lista de maiores audiências da F1, o Mundial também perdeu fôlego, caindo de 85,6 milhões de espectadores para 77,2 milhões – agregado dos números das 19 corridas.

Vettel pode até ter sido responsabilizado pelos novos marcadores de audiência, mas o tetracampeão não é o único culpado pelo desinteresse no Mundial. Em muitos países, mudanças no formato de transmissão da categoria provocaram a queda nos índices.
Ranking global de audiência da F1 em 2013, em telespectadores acumulados ao longo das 19 etapas. (Arte: Rodrigo Berton)
Na China, por exemplo, 29,8 milhões de espectadores foram perdidos. A queda é reflexo direto da mudança na transmissora do campeonato, que deixou de ser responsabilidade da estatal CCTV e passou para uma emissora privada. O argumento de Ecclestone é de que a mudança foi necessária para “assegurar que a F1 tenha cobertura ao vivo de todas as sessões classificatórias e GPs”.

A situação se repetiu na França, onde a troca do canal aberto TF1 pelo pago Canal+ resultou na perda de 5,8 milhões de telespectadores.

Reino Unido e Itália, por outro lado, viram um aumento de audiência na F1 em relação ao ano anterior. Em uma iniciativa inovadora, o Mundial passou a contar com uma transmissão em ‘pool’ entre emissoras abertas e canais de pay-per-view. Entre os britânicos, o aumento foi 1,7%, enquanto para os italianos, chegou a 2,9%.

O mesmo aconteceu nos Estados Unidos, que ganhou 1,7 milhão de novos telespectadores. Com a transmissão feita pela NBC Sports (por assinatura) e NBC (aberta), a audiência total alcança 11,4 milhões.

Em uma tentativa de conter a queda na audiência, a F1 parte em busca de formatos inovadores de transmissão. Na Espanha, por exemplo, os fãs ganharam uma opção além das atuais Antena 3 e TV3. A gigante Telefônica chegou a um acordo com a FOM e vai transmitir o campeonato nos próximos anos por meio da Movistar TV.

Os assinantes contarão com um canal exclusivo, o MovistarF1, onde as 19 etapas serão transmitidas em HD e sem intervalos comerciais. O canal também vai passar treinos livres e a sessão classificatória. A nova emissora vai oferecer, ainda, reportagens, documentários e a transmissão de GPs históricos.

Nos últimos anos, a transmissão na Espanha foi duramente criticada por conta do excesso de propagandas durante a programação. A ofensiva da Movistar inclui ainda o Mundial de Motovelocidade, mas a opção não agradou aos fãs. Maior celeiro de talentos para o motociclismo da atualidade, a Espanha terá apenas nove corridas transmitidas ao vivo em TV aberta, com o campeonato inteiro transmitido apenas pela marca do grupo Telefônica.
Nos três anos de GP da Coreia do Sul, as perdas chegaram a impressionantes US$ 160 milhões
Hoje não, hoje não... Hoje sim! Depois de 10 temporadas ausente, o GP da Áustria está de volta ao calendário. (Foto: Tom Shaw/Getty Images)
Além de apostar em novos formatos televisivos, a F1 também vai investir em novas praças. Para 2014, saem as etapas da Coreia do Sul e da Índia e entram os GPs da Áustria e da Rússia.

A saída de Yeongam da programação não foi nenhuma surpresa. A principal divisão do automobilismo mundial visitou o país quatro vezes, mas nunca conseguiu reunir um bom público. Os organizadores da prova acumularam prejuízos ao longo da passagem da F1 pelo país, especialmente por conta da falta de infraestrutura no local da prova e da distância de mais de 400 km para a capital Seul.

Nos três primeiros anos do GP da Coreia, as perdas chegaram a impressionantes US$ 160 milhões (aproximadamente de R$ 350 milhões). A Coreia do Sul, entretanto, não desistiu de sediar o Mundial, e o governador da província de South Jeolla, Park Joon-Yung, garantiu que vai se esforçar para recuperar a etapa.

“A F1 é o futuro da nossa província”, avalia Joon-Yung. “Vamos fazer todos os esforços possíveis para alcançar nosso objetivo, mesmo que a corrida não seja realizada no ano que vem.”

O caso da Índia é um pouco diferente, mas também não surpreende. Uma das principais razões para a ausência da prova de Buddh no programa de 2014 são os problemas enfrentados pelas equipes para entrar no país com seus carros e equipamentos.

Tratados como mercadorias normais, os bólidos estavam sujeitos a altissimas tarifas aduaneiras, além da obrigatoriedade de ficarem retidos na alfândega.

Após o país perder corrida, contudo, o Departamento de Comércio Exterior anunciou que o governo alterou a regra, decidindo não tratar mais os equipamentos esportivos como carga normal – desde que eles deixem o país em um prazo de até 30 dias.
 
A política aduaneira da Índia também manteve longe do país outras modalidades. No ano passado, o Mundial de Superbike faria uma parada em Buddh, mas a prova precisou ser cancelada, já que a organização do campeonato não conseguiria atender às políticas locais sem comprometer o restante do calendário.

Apesar da mudança realizada pelo governo, não há indícios de nenhum campeonato mundial que pretenda se aventurar em terras indianas. Só a F1, que planeja retornar à terra de Gandhi no primeiro semestre de 2015.

Enquanto Coreia do Sul e Índia lamentam a perda da etapa, Áustria e Rússia finalizam os preparativos para receber o Mundial. O retorno da F1 à Europa Central é um desejo de Dietrich Mateschitz, dono da Red Bull, que comprou e reformou o antigo A1-Ring, agora com o nome de seu império energético.

O milionário austríaco nunca escondeu sua intenção de levar a F1 de volta ao país, e depois de ver o fracasso de um acordo firmado em 2013, conseguiu a aprovação formal da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) para realizar a prova nesta temporada, num contrato de um ano.

A última visita da categoria à Áustria aconteceu em 2003, mas a falta de uma estrutura apropriada nas proximidades do autódromo acabou afastando a F1. A reforma feita pela Red Bull e a ampliação da rede hoteleira de Spielberg forneceram os ingredientes perfeitos para o retorno do Mundial a um traçado veloz e adorado pelos pilotos.

A companhia está arcando com todos os custos para a realização do GP da Áustria, mas espera recuperar parte do investimento com as entradas. “Com os ingressos, vou cobrir os custos organizacionais, mas não a taxa de licença”, explica Mateschitz.

A prova em Sochi, por sua vez, também é resultado de um desejo pessoal. No caso russo, a vontade não partiu de um empresário milionário, mas do presidente Vladimir Putin, que quer desenvolver o turismo na região, oferecendo atrativos que possam seduzir turistas no inverno e no verão.

Os Jogos Olímpicos de Inverno, que aconteceram em Sochi no mês passado, são um exemplo dessa tentativa de fomentar o turismo. O investimento na estrutura, porém, foi muito além do previsto. O orçamento não oficial daquela que está sendo chamada de “Olimpíada mais cara da história” é de US$ 50 bilhões (mais de R$ 115 bi), o que seria suficiente para arcar com os custos de todas as obras para a Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016.

Com um investimento tão grande, a preocupação de que a estrutura preparada para os jogos seja sucateada é uma constante, mas o governo russo defende que os eventos que vão acontecer no local – inclusive a F1 – ajudarão a assegurar um número alto de visitantes. “Não haverá elefantes brancos”, garante Dmitry Chernyshenko, presidente do Comitê Organizador dos Jogos de Sochi. “Lembrem-se que em curto prazo nós vamos receber a reunião do G8 [junho], a F1 [outubro], jogos da Copa do Mundo de 2018 e muitos eventos da Copa do Mundo de Inverno.”

Apesar do gasto desenfreado com a estrutura olímpica, os russos não fecharam o bolso na hora de construir o novo autódromo de Sochi, cujo valor gasto é quase o dobro do previsto inicialmente. A imprensa local noticiou que a despesa total atingiu a casa dos € 260 milhões (cerca de R$ 780 milhões), enquanto o valor previsto girava em torno de R$ 430 milhões.

Guennadi Saienko, representante da Omega Center, empresa que promove o GP da Rússia, confirma os números, mas justifica que a soma inicial era apenas um valor aproximado “sem levar em conta muitas das solicitações do designer e da Tilke GmbH, que supervisionou a obra”.
A F1 não visita o México desde 1992. Mas em 2015 isso tende a mudar. (Foto: Pascal Rondeau/Allsport)

Não foi desta vez (de novo)

Índia, Coreia do Sul, Áustria e Rússia já tiveram seus futuros na F1 definidos, mas o mesmo não se pode dizer de Nova Jersey. Depois de idas e vindas no calendário do Mundial, a etapa norte-americana ficou fora do programa final de 2014 – e ninguém realmente sabe se essa prova um dia sairá do papel.

Bernie Ecclestone parece ser o único a acreditar na realização da etapa às margens do Rio Hudson, mas os responsáveis pela prova não têm a verba necessária para organizar a disputa.

Leo Hindery, ex-piloto e promotor da prova, recusou-se a receber um centavo sequer do governador Chris Christie, só que também não conseguiu obter o financiamento necessário para a prova junto a empresas do setor privado.

Além de Nova Jersey, também ficou de fora do calendário o GP do México. A ausência da prova na terra de Chaves e Chapolin Colorado, entretanto, é fruto de um problema bem mais fácil de ser resolvido.

Com Carlos Slim, o homem mais rico do mundo, apoiando a prova, dinheiro não vai faltar para resolver um impasse entre Hermann Tilke e a organização local, que não deu a autorização necessária para que o famoso projetista possa criar uma nova área de boxes no circuito Hermanos Rodríguez, bem como outras pequenas alterações no traçado.

Paradoxos

Com a introdução de novos motores, novas regras e novas praças, a F1 tem em 2014 uma grande oportunidade para se reinventar, tornar o esporte mais atrativo ao público e, como resultado, aumentar a audiência e, claro, o faturamento.

Esse processo não passa somente pelas anteriormente mencionadas mudanças no formato das transmissões, mas também por alterações nas regras do jogo.

A FIA aprovou que o GP de Abu Dhabi, o último de 2014, conte com pontuação dobrada. A lei vai de encontro à tese defendida por Ecclestone: Vettel acabar com o campeonato muito cedo tirou a graça e o público das provas finais.

A chegada dos V6 turbo 1.6 L é, também, uma esperança de ver as disputas na pista ficarem mais intensas novamente – diga-se de passagem, 2013 foi um ano de corridas chatas.

O que joga contra é que essas duas medidas foram extremamente impopulares e renderam muitas críticas por parte dos fãs. É um paradoxo: a F1 quer reconquistar a audiência, mas não dá muitos ouvidos ao que os entusiastas do esporte pensam.

Por vezes, essa postura deu certo. Em outras ocasiões, nem tanto. Mas todos sabem que essa insatisfação pode ser passageira: desde que as corridas sejam boas, o povo fica contente e deixa de criticar tanto.
 

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