Edição 48
Março/2014

Lado a Lado: A formação da turma de 2014

A construção do grid da F1 para a temporada 2014 foi um verdadeiro quebra-cabeças, que começou ainda em 2012. Para este ano, nove das 11 equipes trocaram de pilotos

EVELYN GUIMARÃES, de Curitiba
Foto da turma de 2013 revela mudanças radicais em 2014. Apenas metade dos pilotos ficaram onde estavam. (Foto: Paul Gilham/Getty Images)
Tudo começou, na verdade, em 2012. A parte final daquela temporada serviu apenas como um aperitivo para o estranho cenário da dança das cadeiras que a F1 viveria no ano seguinte. Sim, praticamente todas aquelas trocas de equipe influíram no que aconteceu nos últimos meses. Naquele fim de campeonato, Lewis Hamilton surpreendeu o mundo ao deixar o ninho, a McLaren, e assinar com a Mercedes em busca de independência. Lewis havia acertado em cheio ao concordar formar dupla com Nico Rosberg.

A troca feita pelo impetuoso inglês provocou a segunda aposentadoria de Michael Schumacher e uma promoção de ouro para Sergio Pérez, que tentava construir um bom nome no paddock depois de alguns bons desempenhos na mediana Sauber. Às pressas, o mexicano foi o escolhido para o lugar do campeão de 2008, especialmente porque a orgulhosa equipe de Woking também desejava dar logo o troco. A contratação, entretanto, não foi das mais felizes, e o casamento durou menos de um ano.

A saída de Pérez ainda abriu caminho para a ascensão do compatriota Esteban Gutiérrez no time suíço, que chamaria Nico Hülkenberg para o lugar do mitológico Kamui Kobayashi logo em seguida. Outra decisão que se mostrou errada uma temporada mais tarde.

Já o bravo japonês bem que tentou arrecadar uma grana entre seus torcedores para tentar uma vaguinha, mas acabou mesmo fora do grid. E foi competir de Ferrari no WEC. A iniciativa foi boa. O vínculo ferrarista manteve o nipônico ainda em contato com o paddock e o colocou na lista para 2014.

Caterham e Marussia foram as duas outras que também alteraram por completo suas duplas para 2013. Na primeira, Charles Pic e Giedo van Garde substituíram Heikki Kovalainen e Pedro de la Rosa. Na segunda, Jules Bianchi ficou com a vaga que por um brevíssimo momento pertenceu a Luiz Razia, mas que antes fora mesmo de Timo Glock. Max Chilton ocupou o lugar de Pic. Boa saca dos anglo-russos. Pelos lados malaios, a coisa não daria lá muito certo.

De resto, foram poucas as demais mudanças: Valtteri Bottas fez o que dele se esperava e assumiu o posto de Bruno Senna na Williams, enquanto Adrian Sutil pôde voltar à Force India com a saída de Hülkenberg. No fim das contas, quatro das 11 escuderias mantiveram suas duplas, incluindo a campeã Red Bull e a grande rival, Ferrari, que, mais uma vez, optou por contar com os serviços de Felipe Massa, apesar do clamor contrário da imprensa italiana.

Daí que todas essas mudanças acabaram se refletindo na formação das equipes para o campeonato deste ano. Pode-se dizer, sem medo, que a temporada de negociações de 2013 foi a mais agitada dos últimos tempos em termos de mercado de pilotos. Isso porque teve de tudo: boatos de todos os tipos, troca-troca, perdão e até uma vendetta bem ao estilo de uma máfia.

Foi em 27 de junho de 2013, às vésperas, do GP da Inglaterra, que a formação do grid para 2014 teve início propriamente dito. Naquele dia, Mark Webber anunciou que não correria mais na F1 na temporada seguinte. A decisão do australiano desencadeou meses de rumores e uma movimentação bastante interessante e controversa no tabuleiro das equipes.

Vamos aos fatos, então. A REVISTA WARMUP traçou o caminho dos pilotos até a formação completa do grid 2014.






Com a aposentadoria de Mark Webber, os dados foram lançados na Red Bull. Afinal, era o primeiro cockpit que se abria oficialmente e não era qualquer cockpit. Alguns nomes fortes do paddock foram especulados logo de cara. E o primeiro deles foi o de Kimi Räikkönen.

Durante semanas, o campeão de 2007 ocupou os noticiários como grande favorito para assumir a vaga do veterano. O finlandês vinha em ótima forma desde 2012, quando retornou à F1 pelas mãos de Eric Boullier e da Lotus, e colecionava elogios. Corriam por fora os garotos da Toro Rosso, Daniel Ricciardo e Jean-Éric Vergne

Foi então que um tal de Fernando Alonso surgiu no meio do caminho e de forma completamente inesperada. O boato sobre uma eventual transferência do espanhol para a principal rival da Ferrari foi um pratão para os mexeriqueiros de plantão e começou no domingo do GP da Hungria.

Lá em Hungaroring, o empresário do bicampeão, Luis García Abad, pôs ainda mais fogo na divertida 'silly season', ao bater um papo despretensioso com o chefão da Red Bull, Christian Horner. A conversa não pegou bem em Maranello, principalmente com Alonso dizendo, dias antes, que queria o carro da Red Bull como presente de aniversário.

A manobra do danado asturiano, embora nunca confirmada, foi apenas um sinal para os ferraristas. Alonso, entretanto, tomaria o troco em breve com algo que foi muito além de um puxão de orelhas público.

Mas voltemos ao primeiro candidato ao posto de Webber.

Apesar das intensas negociações e da preferência pública de Horner por um piloto consagrado, a poderosa escuderia dos energéticos acabou optando por uma solução caseira e longe de qualquer polêmica. Os rubrotaurinos descartaram as duas estrelas do grid e promoveram Ricciardo ao cargo de companheiro de equipe do tetracampeão Sebastian Vettel. O anúncio aconteceu em 17 de agosto, dias antes do início da segunda fase da temporada.

A confirmação precoce, no entanto, não esfriou a boataria. Pelo contrário: o noticiário se tornou mais quente a cada dia. Afinal, ainda havia muitas vagas indefinidas e muitas peças soltas.






A opção da Red Bull por Daniel Ricciardo consequentemente abriu uma oportunidade na Toro Rosso. Na verdade, por alguns meses, houve sérias dúvidas na equipe caçula, que estudava mudar completamente seu line-up.

No fim, Helmut Marko decidiu dar mais uma chance a Jean-Éric Vergne. O segundo nome do time foi a primeira grande surpresa para 2014. O excêntrico consultor dos energéticos optou pelo russo Daniil Kvyat, o jovem campeão da GP3. A definição veio em 21 de outubro.






A Ferrari também decidiu deixar cedo os holofotes na maluca silly season e tratou de promover a volta Kimi Räikkönen em 11 de setembro, para formar uma dupla explosiva com Fernando Alonso. Pronto, a vingança pelas traquinagens do espanhol estava na mesa, fria, como toda boa vendetta é.

Os italianos aproveitaram o passe livre do finlandês, que já não escondia mais a insatisfação com os pagamentos atrasados na Lotus, e agora vão para 2014 com uma dupla campeã e talvez a mais poderosa de todo o grid. E como todo grande poder tem um preço, a futura convivência entre os dois astros ainda é uma grande incógnita e fonte de muita discussão.

Felipe Massa, por sua vez, acabou sobrando depois de oito anos com os ferraristas. Mas logo a vida do brasileiro também tomaria um rumo.






Sem grandes dificuldades e depois de algumas poucas conversas com Lotus e McLaren, Felipe Massa encontrou na Williams uma nova casa, repetindo a saga de outros compatriotas. A equipe inglesa já estava há tempos vivendo grande desgaste no relacionamento com Pastor Maldonado e a gigante estatal PDVSA. A falta de desempenho dos últimos anos foi a grande responsável, claro, por este fim de vínculo.

Mostrando independência, a esquadra de Grove se desfez da parceira com a petrolífera venezuelana e com Pastor Maldonado, que queria mesmo sair a todo custo, e anunciou Massa no dia 11 de novembro. Bottas teve o acordo renovado no mesmo instante, apesar de ter perdido o padrinho Toto Wolff, que foi cuidar das coisas na Mercedes.






A McLaren revelou seus planos para 2014 nos EUA, já em novembro, na semana da corrida em Austin, em uma sequência de fatos das mais interessantes. Durante um evento de um patrocinador da equipe inglesa, Sergio Pérez soltou toda sua ira contra os britânicos. As críticas não surpreenderam, dada a convivência difícil dentro do time e os frequentes embates entre o mexicano e Jenson Button na primeira parte da temporada.

E, antes mesmo de uma resposta de Woking, Pérez se adiantou e anunciou o fim de seu contrato com a tradicional esquadra. Um dia depois, em 13 de novembro, a McLaren confirmou seu line-up.

Sai Pérez, entra Kevin Magnussen, o segundo novato para 2014. A decisão dos britânicos não deixou de surpreender, apesar do ótimo histórico do jovem piloto, campeão da World Series em 2013 e membro do programa de pilotos da tradicional esquadra. O dinamarquês, seguindo os passos do pai, foi promovido para alinhar ao lado do experiente Jenson Button, que parece ter um contrato vitalício com Woking.






Mesmo com grande parte do quebra-cabeça quase pronto perto do fim da temporadas, a Lotus ainda era o objeto de desejo de muitos, e Nico Hülkenberg continuava como o queridinho de todos em Enstone. Mas a grana falou mais alto. Pastor Maldonado, que nunca disfarçou o interesse pelo cockpit preto e dourado acabou levando a melhor, apoiado especialmente em seus petrodólares venezuelanos. Romain Grosjean, como era esperado, se garantiu também no outro carro. O anúncio aconteceu no dia 29 de novembro.






Nico Hülkenberg tem uma sorte estranha. Piloto rápido e consistente, o alemão chegou até mesmo a assinar um pré-acordo com a Ferrari e era o favorito de Éric Boullier. Nada deu certo, entretanto, e o jovem precisou esperar até 3 de dezembro para firmar vínculo com a Force India, a mesma que havia desprezado um ano antes ao fechar com a Sauber.

Pérez insistiu no mesmo caminho e convenceu Vijay Mallya, tomando o lugar de Paul di Resta, que acabou de fora do Mundial. O mexicano foi anunciado em 12 de dezembro.






Tentando encontrar caminhos para sair de uma grave crise financeira, a Sauber só definiu sua dupla de pilotos em dezembro – e com muito custo. O experiente Adrian Sutil foi uma escolha óbvia dentro do cenário do mercado de pilotos e sábia no que diz respeito às expectativas de uma temporada cheia de mudanças técnicas. Portanto, o acordo foi firmado em 13 de dezembro. O time ainda levou mais uma semana para finalmente renovar com Esteban Gutiérrez e garantir o apoio da gigante Telmex.






Junto com a Mercedes, a Marussia foi a outra equipe que não mudou sua dupla de pilotos para 2014. A esquadra anglo-russa até deu uma assuntada no mercado, mas acabou mesmo sendo convencida a ficar com seus dois pilotos. O promissor Jules Bianchi foi confirmado ainda em 3 de outubro. A permanência do francês tem, claro, o dedo da Ferrari, que vai fornecer os motores para o time nesta temporada de estreia dos V6 turbo.

Já Max Chilton teve que negociar um pouco mais. Foi apenas em 11 de janeiro, um sábado e quase às vésperas da pré-temporada, que a escuderia enfim ratificou a presença de Chilton por mais um ano.






As últimas duas pecinhas do complexo quebra-cabeça foram encaixadas pela Caterham, dez dias após a nota da Marussia. A equipe foi a responsável pelo retorno de Kamui Kobayashi à F1. O sueco Marcus Ericsson, que já era cotado para um lugar no time sediado em Leafield depois de acompanhar despretensiosamente nos boxes da equipe malaia o GP do Brasil de 2013, foi confirmado no mesmo dia.






A Mercedes ficou afastada de toda a boataria do mercado de pilotos entre 2013 e 2014. Isso porque seus dois pilotos estavam assegurados por contratos longos e sempre se mostraram satisfeitos com o equipamento alemão. Mesmo apesar de algum pequeno favorecimento por Hamilton, demonstrado pelo então chefe Ross Brawn em algumas ocasiões na temporada passada, a convivência entre os dois competidores é claramente muito boa. Não há atritos, até porque ambos se conhecem muito bem, desde os tempos do kart. E têm tudo para lutar por mais vitórias a partir do GP da Austrália.
 

Comentários

Matéria anterior

10+: Motivos para ficar de olho na F1
O próximo campeonato já é um dos mais aguardados de sempre. Motivos não faltam.
por Hugo Becker
Próxima matéria

A chance que Nico Rosberg jamais teve
Só uma relação de submissão com o companheiro Lewis Hamilton pode tirá-lo da disputa
por Americo Teixeira Jr