Edição 48
Março/2014

Na ponta, três pontas

Por tudo que mostrou na pré-temporada, é totalmente fora da realidade não colocar a Mercedes como principal favorita ao título de 2014. Os prateados saem na frente e têm a companhia da Williams, da Force India e da McLaren

EVELYN GUIMARÃES, de Curitiba, e GABRIEL CURTY, de São Paulo
Com o melhor motor turbo do início desta nova era, a Mercedes tem uma chance de ouro de repetir um título mundial como equipe depois de 59 anos.
(Foto: Divulgação/Mercedes GP)
Diante de um regulamento totalmente novo e bastante complexo, a temporada 2014 se mostra mais equilibrada do que em anos anteriores. Porém, desta vez, a fonte dessa maior igualdade de condições tem o desenho de uma estrela de três pontas. A Mercedes parece ter acertado a mão em seu motor V6 turbo e desde já coloca, além da própria equipe de fábrica, suas clientes em um degrau acima das rivais.

A conclusão veio em forma de muitas voltas depois das três baterias de testes que a F1 vivenciou neste início de ano. Tanto em Jerez de la Frontera, na primeira semana de treinos, quanto nas duas oportunidades em Sakhir ficou clara a enorme confiabilidade das unidades de força da Mercedes, bem como o bom desempenho do W05.

A esquadra, que conta com os serviços de Lewis Hamilton e Nico Rosberg, completou o cronograma proposto nas atividades preparatórias com louvor e concluiu muito mais voltas que suas adversárias. O W05 parece ter nascido melhor que os irmãos de temporadas anteriores e dá pinta de que será, de fato, o carro a ser batido em 2014.

Com a maior quilometragem dos testes e o menor número de falhas — quase 4800 km percorridos, duas falhas de câmbio e uma troca de motor —, a Mercedes, embora relute, vai desembarcar em Melbourne para brigar pela vitória. E dentro desse cenário é Lewis Hamilton quem surge para liderar a equipe e, por consequência, também aparece no topo da lista de candidatos ao título. A experiência, o arrojo e o talento por si só já credenciam o inglês ao bi na F1, caso também as condições de relativa superioridade do time alemão se mantenham ao longo do ano.
Amadurecido, Nico Rosberg tem chances de desbancar seu companheiro Lewis Hamilton, franco favorito neste início de temporada.
(Foto: Divulgação/Mercedes GP)
Companheiro de Hamilton, Rosberg também aparece bem nas casas de apostas. Bom piloto, bastante regular e com um grande carro nas mãos, o amadurecido filho de Keke pode ter a chance de finalmente brilhar em 2014. E aí a briga, diferentemente do que se viu nos últimos anos na F1, pode acabar limitada a uma única garagem.

Só que o motor Mercedes parece bom demais para reduzir a disputa. As sessões de testes na Espanha e, especialmente no Bahrein, serviram para dar sinais do renascimento de uma gigante também. Impulsionada pelos fortes motores alemães, a Williams surpreendeu durante as três baterias desta pré-temporada. Tanto que Felipe Massa fechou a semana final de treinos com o melhor tempo dos oito dias de atividades em Sakhir.

A equipe de Grove, que não vence um campeonato desde 1997, surgiu reestruturada. Chamou Pat Symonds, que ficou mais conhecido pelo episódio do acidente proposital da Renault em Cingapura, mas que possui credibilidade no paddock e grande senso organizacional, para ser o diretor-técnico, novos engenheiros, entre eles Rob Smedley, companheiro de longa data de Massa. E, além disso, firmou novos parceiros comerciais, depois do fim do acordo com a PDVSA de Pastor Maldonado.

O time também aposta na experiência de Massa e na juventude de Valtteri Bottas, que impressionou bastante desde que estreou na F1 no início de 2013, mostrando sempre um ritmo consistente e poucos erros. É claro que o retrospecto da esquadra não conta a favor, mas, pelo que apresentou durante os 12 dias de treinos, a Williams parece estar de volta ao pelotão da frente do grid.
A McLaren não pode ser subestimada ou descartada da disputa
A nova Williams é resultado de uma reestruturação técnica da equipe. Parece que funcionou. (Foto: Clive Rose/Getty Images)
Outra equipe que surpreendeu muito neste início do ano foi a Force India, também empurrada pelas unidades da Mercedes em um carro bem afinado. Nico Hülkenberg, provavelmente o maior talento da nova geração da F1, parece finalmente ter um carro para brigar por vitória. O alemão é veloz e muito talentoso, pode aproveitar o início da temporada para conquistar seu primeiro pódio na categoria e colocar a bem acertada equipe indiana de vez na tão sonhada salinha dos vencedores do Mundial.

O companheiro de Hülkenberg é o controverso Sergio Pérez. Criticado por muitas vezes se afobar durante as corridas, saiu da McLaren sem deixar grandes lembranças. Contudo, “Checo” é muito rápido e pode aparecer em alguns pódios. O tinhoso mexicano, aliás, reforçou o time de Vijay Mallya no mapa dos favoritos ao liderar os dois primeiros dias da última semana de testes no Bahrein. Andando, inclusive, no ritmo da equipe de fábrica da Mercedes.

Após apresentar algumas falhas e problemas em diversos sistemas, a McLaren parece estar um pouco abaixo das demais equipes equipadas com motores Mercedes, e isso ficou mais evidente na bateria final de treinos, quando não andou nem perto da performance das rivais. Contudo, o time britânico é afinado, tem experiência e estrutura para retomar o caminho dos triunfos, ainda mais vindo de uma das piores temporadas de sua história.

Ainda assim, a McLaren não pode ser subestimada ou descartada da disputa. Jenson Button, agora o piloto mais experiente do grid, sabe como ninguém tirar todo o potencial de um carro e está sempre nas listas de candidatos ao título. Vai dar trabalho, certamente, mesmo que a escuderia leve ainda algumas corridas para se encontrar no campeonato.

Ao lado de Button está a jovem promessa dinamarquesa Kevin Magnussen, de apenas 21 anos. O danês já demonstrou que é rápido – resta descobrirmos como vai lidar com a pressão no mundo da F1. Magnussen impressionou durante os testes ao mostrar velocidade e consistência.

Quem começa o ano correndo por fora é a supercampeã Ferrari. Com a dupla mais badalada dos últimos tempos, composta pelo bicampeão Fernando Alonso e pelo vencedor do Mundial de Pilotos de 2007, Kimi Räikkönen, a escuderia de Maranello é a grande candidata a se intrometer na briga dos times empurrados pelos motores Mercedes.
 
A F14T fez uma pré-temporada discreta, porém não teve maiores problemas de confiabilidade. Sem dúvida, o foco dos italianos é entregar à sua dupla de campões um carro consistente, característica que é a grande arma de Alonso e Räikkönen. É bem verdade que o motor ferrarista não consegue acompanhar o desempenho da unidade produzida pela Mercedes, mas está bastante distante em termos de performance do problemático V6 da Renault. Mas há quem jure que a equipe de Maranello, apesar de algumas falhas de telemetria e na parte eletrônica, apenas escondeu o jogo durante os testes e que o melhor ainda está por vir.

O outro lado da moeda

Os motores Renault foram as grandes decepções da pré-temporada. Apesar de ter apresentado ligeira evolução no Bahrein, o desempenho geral foi catastrófico. Os carros da fornecedora francesa sofreram com a falta de confiabilidade e andaram em ritmo muito inferior ao dos demais. Ritmo preocupantemente inferior, melhor dizendo.

O inquietante nascimento do V6 turbo francês atingiu diretamente a atual tetracampeã da F1, a Red Bull. A equipe austríaca começa o ano em situação assustadora. Além do já citado problema das unidades de força, o RB10 já apresentou uma série de dificuldades e falhas mecânicas. Tanto o quatro vezes campeão Sebastian Vettel, quanto o ex-piloto da Toro Rosso Daniel Ricciardo, não conseguiram colocar o novo carro no nível das concorrentes. Em várias das sessões, a Red Bull sequer conseguiu registrar voltas rápidas. O que parecia altamente improvável até 2013 agora é uma realidade crua para os atuais campeões, que começam o Mundial, na Austrália, não pensando em vitórias ou pontos, mas em chegar ao fim da corrida.

No mesmo barco da equipe austríaca, está a sua irmã Toro Rosso. Tudo culpa também dos motores Renault, que impediram uma pré-temporada mais sólida. A esquadra de Faenza também vai no escuro para Melbourne. A Lotus pouco testou e é uma incógnita ainda maior para a abertura do campeonato. Aí resta a Caterham. A equipe malaia conseguiu surpreendentemente a maior quilometragem entre as escuderias de Renault do grid.
 

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