Edição 48
Março/2014

Prata é a cor mais quente

A pré-temporada 2014 da F1 expôs toda a força e a confiabilidade alemã. Os motores produzidos pela Mercedes despacharam a concorrência, colocando a equipe de fábrica e a Williams como favoritas para o GP da Austrália

EVELYN GUIMARÃES, de Curitiba
Pelo que se viu na pré-temporada, Lewis Hamilton e a Mercedes são os favoritos para a abertura da temporada 2014 da F1. (Fotos: Shaun Botterill/Getty Images)
A pré-temporada 2014 da F1, como virou costume, começou no sul da Espanha, buscando temperaturas menos geladas e um pouco de sol, entre 28 e 31 de janeiro. Jerez de la Frontera, mais uma vez, foi o palco da abertura dos testes e do primeiro contato efetivo de pilotos e equipes com o complexo regulamento técnico do Mundial para o campeonato que inicia no dia 16 de março, em Melbourne, na Austrália.

Assim, a F1 desembarcou na pista da Andaluzia exibindo seus excêntricos bicos, que vieram como 'Gonzos' e 'bagres', passando por 'rodos' e 'bocas de aspirador de pó'. O som mais grave e menos agressivo aos ouvidos do recém-adotado motor turbo V6 também serviu para mostrar a cara ainda um bocado desfigurada da principal da categoria do automobilismo.

Com exceção da Lotus, todo o resto do grid bateu ponto em Jerez. Alguns demoraram mais, é verdade, mas dez times tiveram a chance de iniciar os trabalhos na primeira das três baterias de treinos. E foi a Mercedes quem saiu sorridente da península ibérica – não só como equipe, mas como fornecedora de motores.

As unidades de força alemãs quase não apresentaram falhas nos quatro dias de atividades e permitiram às suas clientes um começo menos tumultuado em Jerez. O motor produzido pela montadora da estrela de três pontas cumpriu com louvor a meta da confiabilidade, ponto mais crítico deste início de campeonato.

Mas o primeiro dia no traçado andaluz foi um tanto enganoso, diga-se. Muito porque todos ainda estavam em ritmo de ajustes e lançamento de carros. Assim, Kimi Räikkönen, agora de volta à Ferrari, liderou a sessão tendo percorrido apenas 31 voltas. A equipe italiana enfrentou alguns contratempos que também limitaram o trabalho do finlandês.

Lewis Hamilton, com a Mercedes, assinalou o segundo tempo, mas, repetindo 2013, não pôde tomar gosto do W05 como desejava. O inglês sofreu um com dano na asa dianteira, escapou da pista, foi parar na barreira de pneus e viu ali seu primeiro contato com o novo carro prateado acabar mais cedo, depois de somente 18 giros.
A Red Bull ainda precisou encerrar mais cedo os trabalhos no último dia em Jerez e voltou às pressas para a fábrica
Valtteri Bottas colocou a Williams em quarto lugar, seguido por Sergio Pérez, da Force India. Importante destacar: mais dois carros também impulsionados pelos motores de Stuttgart e que mais tarde mostrariam ainda mais potencial. E foi isso o que houve na pista.

Na verdade, este teste inicial viveu alguns dramas internos, entre as paredes dos boxes. Sussurros preocupantes que marcariam todo o restante da pré-temporada.

O RB10 veio a público, mas pouco andou. Começava ali o calvário da Red Bull e das outras escuderias equipadas com motores da Renault. Problemas de refrigeração assolaram os times, que sequer tiveram condições de registrar tempo em Jerez no dia 1. Sebastian Vettel completou apenas três voltas. Era só o início da desolação.

Os atuais tetracampeões ainda descobririam outros danos, como os problemas de instalação das unidades francesas no carro, o superaquecimento e demais contratempos eletrônicos. Ao todo, a esquadra austríaca conseguiu apenas 21 voltas em quatro dias de treinos, foi a pior performance entre os times na Espanha, perdendo, inclusive, para a Marussia, que só iniciou suas atividades na tarde do terceiro dia, após solucionar questões relacionadas ao chassi.

Como se não bastasse, a Red Bull ainda precisou encerrar mais cedo os trabalhos no quarto e último dia e voltou às pressas para a fábrica em Milton Keynes para entender o baque. A Renault embarcou junto porque se viu em meio a um furacão de falhas.

A Toro Rosso também sofreu durante todas as sessões, acumulando somente 239 km em testes e ínfimas 54 voltas. E surpreendentemente a melhor equipe entre as clientes da fabricante francesa foi a Caterham. Mesmo diante de problemas técnicos e atraso no primeiro dia de atividades, os malaios somaram 336 km, e Kamui Kobayashi ainda firmou o 11º tempo no combinado geral dos treinos coletivos.

Uma catástrofe, em resumo.

No fim, apesar do início ferrarista, o resto dos dias acompanhou um desenvolvimento impressionante e sólido das equipes atendidas pela Mercedes e da própria esquadra de fábrica, que acumulou 1.368 km e mais de 300 voltas com Hamilton e Nico Rosberg. A escuderia também foi a primeira a fazer simulações reais de corrida. Sem dúvida, um passo enorme à frente.

O motor alemão ainda provou seu valor ao aguentar 3.874 km contra 1.966 da Ferrari. Os gauleses conseguiram pouco, 668 km. O mais rápido da semana foi Kevin Magnussen, seguido por Felipe Massa, Hamilton e Jenson Button. Nada mal.
Virou rotina: a cena mais comum da pré-temporada foram os pilotos da Red Bull voltando a pé. (Foto: Mark Thompson/Getty Images)
 

E vamos ao Bahrein

Em busca de sol e temperaturas mais altas, a F1 juntou suas tralhas e voou para Sakhir para duas novas baterias de treinos coletivos. Aqui, a exigência com os novos pneus da Pirelli também foi maior. É possível dizer que os oito dias no deserto, contrariamente ao que conhecimento popular, revelaram de forma mais nítida as performances, as forças e fraquezas das equipes. E a certeza de que a Mercedes acertou a mão ficou ainda mais clara.

A primeira fase teve início em 19 de fevereiro e fim no dia 22 do mesmo mês. Nico Rosberg fechou a semana com o melhor tempo dos quatro dias, impondo o grande domínio de sua prateada equipe. A marca foi expressiva: 1min33s283. Mas o que impressionou mais foi a forma como a Mercedes conseguiu: foram problemas modestos e uma enorme quilometragem. Os alemães aproveitaram como ninguém o tempo de pista.

No acumulado, Rosberg e Lewis Hamilton formaram a dobradinha. Ao todo, foram 1.704 km em 315 voltas para ambos. O registro, de fato, perdeu para a Williams, que conseguiu 44 km a mais. Nada preocupante, mas que serve para mostrar também a evolução da esquadra de Grove, embora nesta segunda bateria o desempenho não tenha se convertido em tempo de volta. Felipe Massa foi apenas o oitavo no combinado.

Neste quesito, a McLaren se mostrou mais consistente. O novato e veloz Kevin Magnussen ficou com o terceiro tempo na tabela combinada, mas longe de Rosberg, 1s6. Jenson Button foi o quarto. A McLaren, aliás, exibiu clara evolução: foi capaz de simular um GP, trabalhar no acerto de seu MP4-29 e deixar os rivais com aquela pontinha de dúvida.

Outro time que também não desperdiçou tempo e aproveitou tudo que as unidades de força da Mercedes poderiam oferecer foi a Force India. Nico Hülkenberg liderou o primeiro dia, com boa vantagem para a Ferrari de Fernando Alonso. Depois, ainda se sustentou em segundo, mas não pôde conter Magnussen no dia 2. Aí deu Rosberg nos dias finais. Sergio Pérez, que assumiu o carro, enfrentou problemas de confiabilidade.
Apesar de discreta, a Ferrari promete ser melhor do que aparenta
Atrasada, a Lotus chegou cheia de problemas ao Bahrein e pouco conseguiu andar.
(Foto: Shaun Botterill/Getty Images)
Se nas garagens prateadas a coisa correu bem, pelos lados ferraristas os testes foram mais complicados – embora a F14T tenha se apresentado como um carro que não quebra fácil. Räikkönen e Alonso enfrentaram pequenos problemas, como informou a equipe algumas vezes no Twitter, e falhas de telemetria. Ainda assim, apesar de discreta, a Ferrari promete ser melhor do que aparenta.

Já os franceses continuaram penando. A Lotus finalmente se juntou ao grupo no Bahrein, e treinou pouco, assim como as irmãs Red Bull e Toro Rosso.

A equipe de Enstone, que optou pela apresentação do carro apenas em Sahkir, enfrentou diversos problemas técnicos, eletrônicos e de superaquecimento. Sofreu com as falhas da Renault, com as próprias falhas e pôde acumular apenas 600 km com seus dois pilotos, em pouco mais de 100 voltas.

A Red Bull também permaneceu em luta contra o sistema de arrefecimento. Foram 627 km com o problemático RB10, que nas mãos do tetracampeão Sebastian Vettel percorreu apenas 73 voltas. A equipe sequer conseguiu imprimir um ritmo de corrida ou classificação durante as atividades, foram apenas giros de verificação e checagem de sistemas. E inúmeras paradas na pista.

Daniel Ricciardo conseguiu ser mais rápido que o companheiro de equipe no combinado da semana, mas a marca ficou acima dos 107% na comparação com o tempo alcançado por Rosberg. Aquela luz amarela de Jerez ficou intermitente depois as ações árabes.

A Toro Rosso teve de lidar novamente com os contratempos constantes da Renault e também pouco tirou de seu STR9 durante os treinos. Ainda assim, acumulou mais quilômetros que a irmã mais velha: 752. De novo, a Caterham salvou a honra e foi a melhor entre os times de Renault. A equipe de Tony Fernandes foi a quinta em quilometragem, com 1.369 km e mais de 250 voltas.

A Sauber e a Marussia, ambas empurradas por motores da Ferrari, também não tiveram uma semana fácil, mas suportaram firmes as dificuldades. A primeira sofreu com uma falha no chassi do C33, que limitou especialmente o trabalho de Adrian Sutil. Esteban Gutiérrez teve mais e fechou a bateria de treinos com o quinto tempo mais rápido, 151 voltas e 817 km, quase o dobro do companheiro de time. Já a esquadra anglo-russa teve a pior performance das quatro sessões. Problemas de motor e no sistema de combustível frearam as ações da Marussia, que conseguiu completar apenas 29 voltas. Jules Bianchi nem tempo fez.
 

Uma segunda e última chance

Seis depois, entre 27 de fevereiro e 2 de março, a F1 voltou a Sakhir, para a bateria final de atividades da pré-temporada. A última chance de ajustes, estudos e avaliações de componentes. A Ferrari, por exemplo, aproveitou a semana para testar uma asa dianteira remodelada e uma nova cobertura de motor. Os ferraristas não ficaram na frente em nenhum dos dias, mas mostraram consistência e provaram que são uma via alternativa aos carros empurrados pelos motores Mercedes.

Falando nos prateados, os treinos finais comprovaram toda a eficiência, velocidade e, mais importante, confiabilidade das unidades de força alemãs. E revelaram que a equipe de fábrica já tem uma concorrente perigosa e que dorme ao lado: a Williams.

Modesta durante as primeiras duas sessões da pré-temporada, a equipe de Sir Frank mostrou as garras na fase final e foi a grande atração no Bahrein. Felipe Massa foi o mais rápido dos quatro dias, superando em 0s020 Lewis Hamilton, o segundo colocado no geral. O time inglês acumulou mais quilômetros do que qualquer outra equipe e terminou os treinos com apenas um problema de confiabilidade, quando o motor do carro de Valtteri Bottas apresentou problemas no fim do último dia.

Já a Mercedes sofreu um pouco mais desta vez. O W05 teve falhas, e a esquadra precisou trocar o câmbio do carro de Lewis Hamilton duas vezes, além de mudar o motor de Nico Rosberg por "precaução".

A Force India surgiu como a terceira força aí. Pérez liderou os dois primeiros dias, enquanto Hülkenberg trabalhou no acerto e na simulação de GP. Ao todo, os indianos somaram 2.175 km, 195 a menos que a Williams.

A Red Bull continuou com seus problemas de superaquecimento e falhas do motor Renault. O dia mais emblemático foi o terceiro, quando Sebastian Vettel terminou as atividades com apenas meia volta. Meia volta. A equipe austríaca levou quase quatro horas para colocar o RB10 na pista novamente. Quando o fez, o tetracampeão parou na curva 4. Na segunda tentativa, Seb se viu estacionado na saída do pit-lane. Tudo isso depois de Daniel Ricciardo ter dado 105 voltas nos dois dias anteriores.

O pontinho de esperança surgiu no dia seguinte. No domingo que encerrou a pré-temporada, Vettel finalmente viveu um teste decente, em que pôde percorrer 77 voltas. O tempo da melhor volta foi ruim, mais de 4s para a marca de Hamilton, o mais rápido nas atividades finais.

A Toro Rosso foi um pouco mesmo, terminou com números mais expressivos que a irmã, mas, ainda assim, aquém das rivais. A Lotus, sim, viveu uma semana desastrosa, marcada por problemas no motor e no sistema de exaustão. Foi a equipe com menos performance dos quatro dias árabes da F1: completou apenas 127 voltas com Pastor Maldonado e Romain Grosjean.

A Caterham, por fim, foi quem salvou o pouco nome da Renault, com um desempenho nada brilhante, mas consistente dentro de suas possibilidades. Sauber e Marussia permaneceram brigando por maior confiabilidade. O time suíço se saiu melhor ao se fixar no top-3 em quilômetros rodadas na segunda semana no Bahrein. Já o time anglo-russo escapou da última posição, ao ficar à frente da Lotus.

No fim das contas, a Mercedes, a fornecedora e a equipe, arranca para 2014 com certa vantagem, galgada em um desempenho sólido nos testes e de poucos percalços. Seus clientes estão bem equipados também, e a disputa no momento parece centrada mesmo em duas equipes: a que leva a marca da estrela de três pontas e a Williams.

O motor alemão percorreu 17.994 km, superando em 7.780 a quilometragem total da Ferrari. A equipe italiana é que parece correr por fora, mas ainda um degrau abaixo da Force India e da McLaren, ambas devidamente equipadas com as unidades germânicas. São as que devem lutar para ir ao Q3.

A Renault, com os seus 8.770 km acumulados nas três baterias, muito devido aos esforços da Caterham, vem na lanterna, sobretudo com a Red Bull, que ainda não encontrou uma forma de fazer de seu RB10 um carro minimamente confiável e, por conseguinte, competitivo.

O velho clichê diz: treino é treino e jogo e jogo. Não parece ser o caso agora.
 

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