Edição 48
Março/2014

Rei vivo, rei com gosto

Envolvido em um caso de suborno que pode colocá-lo na cadeia e o afastar do comando de seu grande produto, Bernie Ecclestone toca os negócios e segue absoluto em sua monarquia fazendo o que mais aprecia: ser a F1

VICTOR MARTINS, de São Paulo
Ecclestone no Brasil, em novembro passado: mesmo em fase turbulenta, segue dando as cartas na F1. (Foto: Mark Thompson/Getty Images)
O apreço que Bernie Ecclestone tem pelo poder da F1 pode levar a perdê-lo, junto com sua liberdade. Líder de presença marcante na categoria desde 1978, quando se aliou a Max Mosley para criar a Foca e negociar os direitos de transmissão — e deles se beneficiar, como chefe de equipe e pessoa física —, o inglês de 83 anos tem se visto recentemente diante dos tribunais para ter de explicar sua versão da história de suborno a um banqueiro alemão que era responsável pela negociação de parte das ações da F1.

Não foi a primeira vez que Ecclestone se viu prensado e ameaçado. Neste espaço de pouco mais de 35 anos, Bernie transformou a F1 num negócio plural e global que gira bilhões anualmente, mesmo com as fases cíclicas de cortes de custos regulamentares. Natural que surgissem várias partes descontentes com os atos e as suas consequências, mas o fato é que Bernie sempre foi esperto demais, por assim dizer.

A administração da F1 se deu inicialmente por sua versão PJ, a SLEC Holdings, e Bernie ampliou seus tentáculos para outros campeonatos automobilísticos, como o WRC. Só uma cirurgia no coração acalmou o dirigente no fim do século passado, e aliado ao interesse do mercado na categoria, promoveu uma divisão acionária em que três bancos apareceram como detentores de 75% dos papéis – BayerischeLB, JPMorgan Chase e Lehman Brothers, formadores da Speed Investiments.

Ainda com 25%, Ecclestone deu um jeito de ser maior que os demais, mantendo gentes de seu círculo de confiança como diretores do conselho de administração da SLEC e das empresas componentes da Formula One, a FOM, a FOA e a FOH — Management, Administration e Holdings, respectivamente —, reunindo todas estas companhias sob o chapéu de sua empresa familiar, a Bambino Holdings. Os bancos chiaram com a manobra e foram à Justiça, pedindo uma indenização de, à época em 2004, € 3 milhões. Meses depois, Bernie costurou um acordo amigável e sigiloso e, como resultado, manteve o controle de tudo. Supondo que tivesse acertado esta mesma quantia com as instituições financeiras, representava dinheiro de pinga – ou chá das 5.

Na sequência, apareceu no radar da F1 a CVC Capital Partners. Os olhos de Bernie cresceram. Com a possibilidade de mais um acordo absurdamente rentável, Ecclestone conquistou pelo bolso o diretor de riscos Gerhard Gribkowsky e lhe deu US$ 44 milhões para que vendesse suas ações ao fundo de investimentos, 47,2%. Assim aconteceu.
Bernie testemunhou no julgamento de Gerhard Gribkowsky. (Foto: Alexandra Beier/Getty Images)
A história só veio à tona em 2012, por denúncia do próprio Gribkowsky, que acabou preso. Ecclestone tem dito que o ex-banqueiro o ameaçou dizer ao Fisco britânico que era dirigente da F1 quem controlava a Bambino Holdings e que, por tal, deveria pagar os impostos referentes a uma fortuna avaliada em R$ 9,5 milhões. O silêncio de Gribkowsky, segundo Bernie, é que lhe custou os tais € 44 milhões. A Justiça de Munique aceitou a denúncia e marcou o julgamento para abril, e Ecclestone pode pegar uma pena de até dez anos de prisão.

Em paralelo, na Inglaterra, a empresa de mídia alemã Constantin Medien processou o chefão do Mundial e outros réus em US$ 144 milhões (R$ 344 mi), alegando que foi prejudicada no momento da venda das ações ao CVC. A Constantin tinha um acordo com o BayerischeLB que lhe daria 10% do valor da venda se ultrapassasse uma quantia X – que nunca foi alcançada.
Ecclestone pode pegar uma pena de até dez anos de prisão
 
A Alta Corte de Londres concluiu no começo deste ano que foi Gribkowsky o autor de uma chantagem que tirou dinheiro do manda-chuva, embora tivesse visto corrupção no acordo.

A CVC tentou cortar as asas de Bernie e tirou seu cargo diretivo na companhia. Mas foi só, e virou a página. “Não temos nenhuma mudança planejada até o momento”, declarou um funcionário do fundo de investimentos. Até porque a CVC tem de lucrar com a F1, e não há ninguém capaz de comandar com mão-de-ferro e maestria as relações comerciais como Bernie. Ecclestone tem falado e até se preocupado com seu sucessor, só que nunca se dedicou em preparar alguém, tampouco vê em qualquer um de seus pares a capacidade para lidar com contratos de somas vultosas.

Bernie não tem nenhuma ingerência sobre as mudanças que vieram às pencas neste ano. Sempre foi contra a mudança dos motores V8 para os V6 turbo e, diante da ideia de pontuação dobrada para o GP de Abu Dhabi, apenas propôs que fosse ampliada também para a penúltima e antepenúltima corridas da temporada, Brasil e EUA – algo descartado pela FIA. Enquanto isso, foi à Rússia aparecer ao lado do presidente Vladimir Putin para ver o andamento do autódromo de Sochi, fronteiriço ao Parque Olímpico, de onde declarou seu apoio à controversa lei antigay. “90% das pessoas pensam como ele”, alegou, referindo-se ao comandante da maior nação do mundo. Foi mais uma de suas opiniões polêmicas, que se juntam ao preconceito de dizer que Danica Patrick deveria cuidar dos afazeres domésticos ou de apoiar a ditadura e o nazismo de Adolf Hitler.

Na linha que vai da genialidade à insanidade, o brilhantismo e a caduquice, Ecclestone vai preparando as malas para viajar para a Austrália e cuidar dos negócios com a mesma sanha e a mesma pegada, com o absolutismo de um monarca que enfrenta e encara a todos sem temer o que tem por vir no mês que vem e a possibilidade de uma deposição. Bernie só vive em função daquilo e com gosto. Se Luis XIV se achava o Estado, sua biografia se resume a uma frase semelhante: “A F1 sou eu”. E se o destino tratar de afastá-lo dela, podem dar o rei como morto.
 

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