Edição 48
Março/2014

Stop & Go: Felipe Massa

“Eu tive uma boa impressão, uma boa sensação no carro. Se é bem-nascido ou malnascido, é muito cedo para dizer”

RENAN DO COUTO, de São Paulo
Felipe Massa falou com exclusividade à REVISTA WARM UP. (Foto: Clive Rose/Getty Images)
As muitas mudanças do regulamento técnico da F1 para a temporada 2014 influem principalmente na vida dos pilotos. As novas unidades de força da categoria exigem certa adaptação, já que possuem mais torque, bem como a limitação do tamanho do tanque de combustível fará com que técnicas de economia sejam desenvolvidas. Os carros também passam a contar com um sistema mais elaborado e complexo de recuperação de energia, um freio eletrônico e um câmbio de oito marchas. E é Felipe Massa quem explica à REVISTA WARM UP as novidades do ponto de vista do piloto.

ADAPTANDO A PILOTAGEM

É um carro diferente de guiar, com muitas coisas novas e diferentes. O jeito de sentir o motor é diferente. Muita gente acha que agora que tem o V6 em vez do V8, perdeu potência. Potência, na verdade, não perdeu muito. Com o turbo, você sente antes o torque do motor. Toda a aerodinâmica mudou bastante: os carros perderam muita pressão aerodinâmica. Com menos aderência e o motor mais forte, o carro destraciona mais, a traseira é mais solta do que era antigamente. Não é nada que ‘ah, não consigo fazer’, nada é dessa maneira. Nada é de outro planeta ou um bicho de sete cabeças. Mas são pequenos detalhes, são muitas coisas que você tem que entender porque, se não estiver fazendo uma delas direito, acaba perdendo tempo.

MAIS TORQUE

Ter mais torque não quer dizer que eu tenho que acelerar mais tarde na saída da curva, mas, talvez, acelerar e não continuar acelerando. Você precisa sair da curva. Se destracionar, perde tempo, gasta pneu... Tem que entender como fazer o carro usar a tração perfeita, combinando o torque com a carga aerodinâmica, a marcha e tudo o mais.

CÂMBIO DE OITO MARCHAS

Além de ter um carro que talvez destracione mais na saída da curva, você tem mais marchas, está toda hora trocando de marcha. Às vezes, sai de uma curva e tem que antecipar porque a marcha está muito curta. Tem que entender o jeito certo, mudar no jeito certo, mas nada difícil.

Como a relação de marchas é fixa para o ano inteiro, vai ter pista em que você vai ter um câmbio curto. Por exemplo: Monza. Mesmo com oito marchas, você vai estar no limite. Mas vai ter pista como Mônaco em que você não vai nem usar a oitava. Para definir isso, é preciso fazer um estudo do maior número de pistas que você vai aproveitar no ano inteiro. Lógico que, nesse primeiro ano, pode acontecer de ter as equipes mais tranquilas, escolhendo um câmbio mais longo do que mais curto, para não sofrer com isso. Mas, também, você tem um turbo: o torque entra antes. Mesmo tendo um câmbio mais longo, às vezes você perde muito pouco.
“Consumo de combustível é um problema que a gente vai ter bastante neste ano”
FREIOS

A gente tem um freio bem diferente, eletrônico, o brake-by-wire, e tem que passar o freio da frente para trás durante a freada às vezes, então tem que acostumar. Não é a cada momento que se muda a distribuição, como com a alavanquinha que a gente usava. Hoje em dia, faz isso automático. Vai ter que mexer porque está travando demais o freio? Um pouquinho para trás, você muda do cockpit. E não muda o jeito de pisar no freio. Talvez a força seja um pouco diferente.

O freio estar ligado à parte eletrônica não afeta a segurança. Se der algum problema, você continua freando, não é ‘quebrou o sistema, você vai bater’. O pedal e a pastilha ainda funcionam. Você vai perder a distribuição de freio com uma pane eletrônica, mas vai parar o carro mesmo assim.

ERS

O piloto não faz nada: é automático. Programa-se como você quer: mais potência saindo dessa curva; usando todo o Kers saindo dessa curva; no final da reta um pouco menos. Isso vai ser programado dentro do carro. E tem que recarregar para durar até 33 segundos por volta, se não, você vai ter menos potência.

TÉCNICAS DE CONSUMO DE COMBUSTÍVEL

Vai ter corrida em que vamos ter que gastar o menos possível. É arrancar o pé antes e frear mais tarde – porque você vai chegar mais lento. Muitas coisas, teremos que aprender a como fazer direito. É bom ficar preocupado, porque consumo de combustível é um problema que a gente vai ter bastante neste ano.

BICO DOS CARROS

Isso é a F1, né? Não tinha, no ano passado, aquele ‘flapzinho’ que era feio pra caramba? Os bicos estão tão estranhos porque é uma regra de segurança, que é sempre bem-vinda. O bico é baixinho, então, se você bater atrás em um carro, não vai levantar. Algumas equipes tiveram suas ideias de fazer um bico diferente, e durante o ano a gente acaba acostumando um pouco. Esses bicos influem, é lógico, na aerodinâmica. É um trabalho importante onde o ar começa a passar pelo carro. Por exemplo: se fizer um bico todo estranho, o jeito que o ar passa é um pouco diferente. A passagem do ar faz uma diferença, sem dúvida, mas cada equipe foi para um lado que achou melhor pelo o que viu no túnel de vento e como construiu o carro. Qual é melhor, é difícil dizer. De feio, sem dúvida, teve equipe que surpreendeu, tipo a Caterham, porque é bem feio. A Williams tem um carro bonito!

O FW36

Eu tive uma boa impressão, uma boa sensação no carro. Isso foi, sem dúvida, importante. Bem-nascido ou malnascido, é muito cedo para dizer. Sentir-se bem no carro lógico que é positivo, mas é muito cedo, né? Com uma mudança tão grande no regulamento como essa, muitas coisas podem mudar de um treino para o outro. Vamos esperar chegar até a primeira corrida para a gente ter mais certeza.
Felipe Massa e a Williams FW36 foram a sensação da pré-temporada. (Foto: Shaun Botterill/Getty Images)
 

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