Edição 49
Abril/2014

20 nos 20: Christian Fittipaldi

Piloto, disputava seu terceiro campeonato na F1 em 1994

CHRISTIAN FITTIPALDI, em depoimento a GABRIEL CURTY
 
Antes do acontecimento, não havia absolutamente nada de diferente. Depois, acho que eu senti a mesma coisa que todo mundo sentiu. Inicialmente, um vazio bem grande, ainda mais porque acho que todo mundo sempre teve uma imagem de Senna do mesmo jeito que eu tinha: de uma pessoa imortal, de alguém que ia correr até o dia que estivesse com vontade, que estivesse competitivo. E quando não estivesse mais querendo, simplesmente iria parar de correr, e seria muito elogiado por todo mundo. Imaginava uma despedida maravilhosa no mundo inteiro. Nunca algo trágico como o que aconteceu.

Falei com Ayrton naquele fim de semana, mas foi um contato breve. “Tudo bem?”, “Tudo certo, tudo ótimo?”. Não lembro se foi na quinta-feira antes do GP que a gente quase chegou a combinar de sair para jantar, sinceramente não lembro disso, mas depois, sim. De tudo que aconteceu. Inclusive lembro que quem me deu a notícia foi JJ Lehto.

Meu carro quebrou faltando duas voltas e eu acabei pegando uma carona no carro de Heinz-Harald Frentzen. Ele me deixou nos boxes, eu subi no motorhome, fui me trocar e lá dentro queria saber o que tinha acontecido. Fui perguntar, ninguém sabia me dizer, e isso foi uns 25, 30 minutos depois que tinha acabado tudo. A hora em que eu desci do motorhome, bati no Lehto. Ele me falou: “Já está sabendo?”, e perguntei o que tinha acontecido. Foi aí que ele me disse: “Ele não conseguiu sobreviver”. Inicialmente achei que ele estava se referindo a outra pessoa. A revelação me deu um vazio, um gelado, uma situação horrível, tudo de ruim.

Mas, sinceramente, não passou pela cabeça desistir da carreira. Neste caso, não – isto só ocorreu apenas no acidente de Alessandro Zanardi. A morte do Ayrton, claro, me fez repensar bastante, mesmo porque chocou muito mais que qualquer outra coisa. Como eu disse, nunca ninguém esperava, todo mundo tinha a imagem de uma pessoa imortal. No acidente do Zanardi, foi diferente. Eu sei que, em ambos, eu estava passando pelo local segundos antes. No caso de Senna, a situação foi alheia a mim porque foi uma falha mecânica no carro dele, mas no do Alex, de alguma maneira, parecia que a situação toda poderia ter acontecido comigo: ele rodou e outro carro bateu nele. Se eu saísse dos boxes daquela forma, um carro bateria em mim e estaria tudo acabado”.
 


A série ’20 nos 20’ traz 20 depoimentos de quem acompanhou bem intimamente esta morte exageradamente triste. A grande maioria estava em Ímola e acompanhou cada minuto do acidente fatal que mudou vidas para sempre.

 
 

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